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 FOTO: NETUN LIMA/01.10.2004 |
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Magazine » Entrevista de domingoO caminho do meio
Entre a arquitetura e as artes plásticas, André Cortez escolheu a cenografia. Ele fala sobre sua trajetória, meandros do ofício e projetos para o futuro
DUDA FONSECA
Faz aproximadamente dez anos que André Cortez, 38, parceiro da Odeon Cia. Teatral, estreou nos palcos como cenógrafo. O debute foi na peça "Dois Perdidos numa Noite Suja", texto de Plínio Marcos com direção de Luiz Gomide. Antes, ele já tinha uma pequena noção do que esse universo, que põe a estrutura física a serviço da fantasia, podia lhe oferecer. Mas foi devido à repercussão de seu primeiro trabalho que ele percebeu que poderia se dar muito bem na carreira. Logo de início, Cortez, natural de Ubá e formado em arquitetura na UFMG, ganhou dois importantes prêmios no Estado, o Sated e o Sinparc. Pouco depois, já em São Paulo, conquistou o prêmio Shell, juntamente com a cenógrafa Daniela Thomas, pelo cenário da peça "Pai", dirigida por Paulo Autran. Aos poucos, ele foi descobrindo que sua formação como arquiteto poderia ser empregada não para criar edifícios ou redistribuir o espaço urbano, mas, sim, para ser transposta aos palcos com o intuito de dar suporte a atores e à própria cena. Nessa transição, descobriu uma arquitetura sintética e atenta a detalhes. "Vejo o cenário como uma síntese. Ele está lá para ajudar a contar uma história, passar uma idéia e transmitir um conceito", avalia Cortez. Nesta conversa com o Magazine, ele nos conta sobre sua trajetória e comenta a respeito da sua prática e dos desafios de sua carreira, como a criação do cenário da exposição em homenagem ao sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que está atualmente em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo
O TEMPO - No Brasil, não há tantos cursos de formação para cenógrafos. Você, por exemplo, veio da arquitetura. Outros vieram das artes plásticas ou até mesmo ingressaram na profissão devido à experiência adquirida nos palcos. Para você, como foi fazer essa transição entre arquitetura e cenografia?
André Cortez - Quando estudava arquitetura na UFMG, paralelamente, eu era um freqüentador assíduo da Escola de Belas Artes (EBA). Ali, eu comecei a perceber que a arquitetura, do jeito que era ensinada, era uma filha da engenharia, mas eu queria que ela fosse uma filha da Belas Artes. Passei a freqüentar, como ouvinte, os ateliês, as aulas de desenho e de pintura. Até namorava pessoas de lá.
Hoje, quando você avalia sua formação, o que a arquitetura lhe acrescentou?
Apesar de ter muito cálculo e estar ligada à engenharia, no geral a arquitetura é fundamental para cenografia. Hoje, com o novo currículo, acredito que a faculdade expandiu mais seus horizontes e a arquitetura se tornou um curso mais radial. Na minha profissão, eu aproveito muito do que aprendi. Mas quando ingressei na faculdade, estava cheio de idéias na cabeça, queria logo desenhar, colocar em prática tudo aquilo que imaginava, foi quando descobri que a faculdade de Belas Artes permitia trabalhar mais essas minhas idéias.
Na prática, como foi sua primeira experiência com cenografia?
O Rodrigo Campos estava montando uma peça na EBA e a Ana Gastelois ia ser protagonista. A peça se chamava "Lady Frankestein". A Ana me convidou para a equipe. Tive que fabricar vários bonecos. Era um cheiro de cola de sapateiro o dia inteiro. Mas foi ali que senti a junção da arquitetura com as artes plásticas. Eu tinha encontrado um caminho do meio.
Você chegou a participar como ator no Oficcina Multimédia. Como você observa essa sua experiência?
Logo depois que me formei, eu quis fazer uma oficina no Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH). Só que eu não podia me matricular, pois só quem era vinculado a grupos de teatro podia se inscrever. Aconteceu que, pouco antes, a Ione Medeiros (diretora do Oficcina Multimédia) tinha me convidado a participar como ator no grupo dela. Só que não me julgava capaz de substituir ninguém. Então fui claro com ela, dizendo que gostava mesmo era de cenografia. Teatro é muito físico e eu sempre fui sedentário. Mas aí, através do Multimédia, fiz uma oficina com o Zé Dias e isso foi muito marcante, mudou a minha vida.
De que maneira?
Primeiro, eu consegui assistir a todos os espetáculos e, pela primeira vez, fiz uma imersão no teatro. Foi como se eu tivesse mudado de planeta. Fiquei superatento a tudo. Praticamente morei no Teatro Francisco Nunes. Percebi que, para o que eu queria, era importante entender de dramaturgia. No ano seguinte voltei a participar do FIT-BH, mas, dessa vez, na produção do evento. E o que mais me impressionava no ambiente teatral era a paixão. Senti que as pessoas no teatro eram apaixonadas pelo que elas faziam. Por outro lado, conversava com meus amigos formados em arquitetura e eles sempre reclamavam. O mercado estava muito difícil. Aí, foi a deixa para eu entrar de sola no teatro. Fui então estudar dramaturgia e passei a ler vários textos.
Foi então que você foi fazer o curso de cenografia no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Antunes Filho?
Exatamente. Depois de ter feito alguns trabalhos em Belo Horizonte, de já ter feito minha primeira cenografia ("Dois Perdidos Numa Noite Suja"), passei na seleção para fazer o CPT, do Antunes. Na época, havia um curso de cenografia lá, sob a coordenação dos atores, o que acabou sendo muito bom. Na verdade, isso foi uma sorte grande porque a relação com os atores e com o próprio Antunes era bem próxima. Fiquei um ano cursando o CPT. Como atividade, cada aluno teve que fazer um projeto de cenografia para a peça "As Troianas". O Antunes curtiu muito meu trabalho e o elegeu para o espetáculo, mas acabei saindo antes de a peça ser montada.
Por quê?
Estava inviável ficar lá porque não tinha dinheiro. Aí, tive que escolher: ou eu comia ou ficava por lá.
Mas, logo depois de você ter abandonado o CPT, você assinou, juntamente com a Daniela Thomas, a cenografia da peça "Pai", um monólogo dirigido por Paulo Autran. Inclusive, por esse trabalho, você ganhou o prêmio Shell em 1999. Como essa parceria com a Daniela Thomas aconteceu?
Pouco antes de eu sair do CPT, a Daniela Thomas foi dar uma palestra lá e conheceu o meu trabalho. Lembro que ela comentou comigo que havia curtido muito o meu projeto. Um dia ela voltou e mandou me chamar para nos conhecermos melhor. Logo depois estávamos trabalhando juntos.
Você possui também uma longa parceria com o grupo Odeon, do Carlos Gradim e da Yara de Novaes.
Essa parceria foi uma bênção e veio por meio da Daniela (Thomas). Eles queriam que ela fizesse o cenário da peça "Ricardo III", mas ela não podia pegar. Aí, sugeri para fazermos juntos e ela topou. Foi aí que comecei a trabalhar quase que sistematicamente com a Odeon. Depois disso, fiz várias outras peças, como "O Coordenador" e "A Falecida".
Você também fez "A Serpente", texto de Nelson Rodrigues, com direção da Yara de Novaes. Tomando essa peça como exemplo, você poderia explicar as etapas de seu trabalho?
Antes de tudo, cada diretor trabalha de uma maneira. Mas basicamente você precisa estar afinado com essa pessoa e ler atentamente o texto. No caso de "A Serpente", quando primeiro li o texto, logo imaginei como cenário um matagal. Essa opção pode ser lida de várias formas, pois o texto trata muito da condição humana e o Nelson sempre recorre a coisas mais instintivas. Então o matagal pode ter uma leitura que remete aos instintos, ao selvagem. Mas também o espectador pode ler esse cenário como uma brincadeira, aquela coisa do sexo na moita, pois o texto também permite essa interpretação. Mas a Yara não compartilhou da mesma idéia e quis que nós voltássemos ao texto em que o próprio Nelson indica e pontua que a trama acontece no décimo segundo andar de um edifício. Com essa determinação, a gente começou a dialogar sobre as cenas, sobre os espaços, sobre como o cenário poderia contribuir para a circulação dos atores. Outro papel decisivo nesse processo é a iluminação que, a meu ver, deve se fundir ao cenário e passar quase que imperceptível. Afinal, no espaço cênico, a luz é tudo, e tem que ser trabalhada com todo o cuidado.
No final do ano passado, você foi convidado para fazer o cenário da exposição "Gilberto Freyre - Intérprete do Brasil", no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Como se deu o convite e como foi essa experiência?
Fui indicado pela Daniela Thomas para fazer esse cenário. Foi um trabalho totalmente diferente do que eu já havia feito. É diferente de um cenário para teatro, por exemplo, em que você tem que dar apoio a um texto. Em uma exposição, ainda mais com a riqueza que tem o universo do Gilberto Freyre, eu tive que tentar sintetizar um conceito.
Mas como você conseguiu sintetizar uma obra tão extensa quanto a do Gilberto Freyre?
Eu li os principais livros dele, como "Casa Grande & Senzala" e "Nordeste". A partir daí, fui sendo tragado para aquele mundo fantástico. Comecei a ver que ele contava a história através dos pequenos detalhes, por meio de coisas que parecem óbvias a princípio e que, por trás, escondem um universo gigante. Também tive aulas com a curadora da exposição que me ajudou a compreender o pensamento dele.
E de que maneira você conseguiu sintetizar o pensamento dele?
A partir desses estudos, eu pensei em uma casa explodida. Resolvi então criar um ambiente onde pedaços de uma casa comum pudessem ser encontrados em diversos ambientes do museu.
De maneira geral, como você avalia a função de cenógrafo?
Como eu disse, o poder de síntese e de interação com o objeto exposto ou com texto deve ser muito grande. Eu sempre tive a fama de ser um cenógrafo das peças com teor fúnebre e pesado. Mas, depois que fiz algumas comédias, percebi que não há essa identificação de gênero. O importante mesmo é você ter um diálogo honesto com o diretor. É coisa de mesa de bar mesmo, você tem que saber que pode beber com a pessoa, ficar bêbado, sair pela rua e nada vai acontecer. Essa interação é o principal.
Para finalizar, quais são seus projetos para o futuro?
Vou fazer o cenário da ópera "Turandot", de Puccini, no Festival Amazonas de Ópera em Manaus, que estréia em maio. A ópera será encenada do lado de fora do Teatro Amazonas, o que será uma experiência bastante interessante. Também estou fazendo o cenário para duas outras peças. A primeira é da Yara de Novaes e se chama "A Caminho de Meca", que estréia em abril. A outra é uma adaptação de um texto Herman Melville, que se chama "Bartleby".
Publicado em: 03/02/2008