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 Cannibal, baixista do Devotos, e Clemente, guitarra e vocal d’Os Inocentes, no palco do Rec-Beat FOTO: COSTA NETO/DIVULGAÇÃO |
| Cannibal, baixista do Devotos, e Clemente, guitarra e vocal dOs Inocentes, no palco do Rec-Beat |
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MagazineOnde o punk vive
Rec-beat reúne, diante de um público frenético, Clemente, do grupo paulista Os Inocentes, e os Devotos, de Pernambuco
DUDA FONSECA /ESPECIAL PARA O TEMPO
RECIFE - Nesta que é a 13ª edição do Rec- Beat - festival alternativo de música que acontece em Recife na época do Carnaval -, o público teve a oportunidade rara de encontrar dois dos maiores expoentes punks do país unidos para comemorar os 20 anos de trajetória da banda pernambucana Devotos. Como convidado, Clemente, um precursor do underground paulistano que, ainda na década de 1970, fazia parte da banda Condutores de Cadáver. Já em 1981, três integrantes desta banda se rebelaram e fundaram Os Inocentes, grupo do qual Clemente ainda hoje é guitarrista e vocalista. Como anfitrião, está Cannibal, baixista e vocalista da banda Devotos que, na sua origem, foi batizada de Devotos do Ódio, título de um livro do escritor maranhense José Louzeiro.
De Devotos do Ódio para somente Devotos e de Condutores de Cadáver a Inocentes, o punk brasileiro, conforme observa os dois músicos, parece ter trilhado um rumo de igual diluição. Isso, de modo algum, quer dizer que o punk perdeu o seu vigor ou as suas principais características. Se "o ódio não tem mais a ver com a gente", como diz Cannibal, "o que sobrou dele foi o punk" que, por sua vez, parece ter crescido tanto que, hoje, se diluiu na sociedade como um todo".
Conforme observa Clemente: "O punk é no seu cerne a arte do confronto. No início, o punk era essa arte na música. Hoje, existem várias formas punk de expressão". O que Clemente aponta é que o punk pode ter alterada a sua música, pode ter alterada a sua moda, mas na essência é a contestação que fica. É por isso que quando questionado de onde vem o punk na música hoje no Brasil, ele cita sem vacilo: "Vem do rap da periferia".
Exceções
Logo após o aparecimento da onda punk brasileira, em São Paulo, começaram a surgir bandas do mesmo gênero nas periferias de outros grandes centros, de Belém a Porto Alegre. Essas bandas tinham um outro perfil, pois eram mais ligadas às comunidades onde moravam. Mal podiam sonhar em tocar em inferninhos locais. Ao contrário de uma banda paulistana, que tinha certo mercado, as bandas dos mais diversos guetos espalhados pelo país se formavam em pleno convívio com a comunidade e nela ficavam.
Assim, inspirados pela cena paulistana e pelas bandas de fora, mas com os pés bem encravados no chão, grupos como o Devotos pipocavam em todas as partes. E, dessa leva, o Devotos foi um dos que ganhou maior prestígio. Fã confesso de Clemente, Cannibal acredita que o punk - uma música a princípio vista como agressiva pelos moradores de Pernambuco - conseguiu exercer um papel forte na comunidade.
Fundada em 1988 no morro Alto José do Pinho, em Recife, a Devotos hoje é uma referência para bandas da periferia e possui também um trabalho social. Para Cannibal, porém, a maior contribuição da banda foi a de espelhar a comunidade. "A gente tinha uma atitude de inconformidade diante da situação em que vivíamos. A sociedade tende a não se ver, ela não gosta de espelhos. A atitude punk opta por mostrar tudo que vivemos sem meios-termos." Para ele, punk é ainda, acima de tudo, uma atitude. "Quando você está num lugar e você quer estar em outro lugar, ou quer mudar o lugar em que você está, você tem que agir."
Entre as ações, o Devotos conseguiu lançar o primeiro disco em 1996. Os músicos também fizeram um CD coletânea com as bandas da periferia de Recife e fundaram uma ONG. "O bairro do Alto (José do Pinho) era conhecido pelo tráfico, os jornalistas só subiam para fazer matérias por causa da violência. Hoje existe uma nova visão", comenta Cannibal. Para o ano de 2008, os Devotos irão gravar uma coletânea ao vivo na comunidade dos seus quatro álbuns lançados, um projeto financiado pela Petrobras.
Maneira de falar
Clemente também compartilha da importância de o punk estar articulado com algum tipo de questão social, mas frisa que não precisa ser punk para ter um discurso social. "Quando se resume o punk ao aspecto social, você resume o próprio punk. E punk é a maneira como você fala", diz ele.
O músico cita em seguida uma letra da banda punk Wire. Segundo Clemente, por mais non sense que ela seja, diz muito a respeito do sentimento das pessoas. Acompanhada de um ritmo intenso, a letra diz: "Vi minha mulher na loja beijando um cara/ Vou pegá-la na esquina/ Vou pegá-la na esquina!". "Isso é sensacional", comenta o vocalista dOs Inocentes, "expressa uma raiva momentânea. Tem gente que leva ao pé da letra, mas isso é outro problema, pois, na verdade, é apenas um discurso".
Para Clemente, linguagem direta, reta, discurso conciso e até publicidade, tudo isso faz parte ou é usado pelo gênero musical. Então, quando este se torna gíria, por exemplo, para denominar algo intenso, qualquer coisa exagerada pode vir a ser punk. "É por isso que o punk hoje está diluído por todos os lados", explica.
E uma atitude intensa também pode levar algumas pessoas a lugares inesperado. Foi o que aconteceu com Cannibal e a sua trupe dos Devotos. Contrariando as expectativas, eles conseguiram respirar outros ares fora da sua periferia. E as dificuldades eram muitas: "Aqui, o punk não sobreviveu como música, poucas bandas restam. Existem, sim, outras de vários estilos, mas na forma que era, praticamente acabou. Não tínhamos muito espaço na mídia e o pouco do espaço que havia nas rádios foi ocupado pelo rap", revela o músico pernambucano.
Clemente, por sua vez, inserido no ambiente paulistano, chegou a ser diretor artístico da gravadora Paradoxx e produziu o programa "Musikaos" na TV Cultura, além de ter produzido CDs de bandas como Skamoondongos e Pavilhão 9. Hoje, ele tem um programa no site showlivre.com e toca guitarra na "Plebe Rude". Desde que escutava Stooges e New York Dolls nos anos 1970 com seus amigos, o mundo de Clemente se abriu para outras vias. E o pensamento no tempo de moleque era grande: "Naquela época, a gente imaginava ter o mesmo espírito que o pessoal de Nova York", conta rindo.
Hiroshima
Voltemos então ao dia 6 de agosto de 1988, data da estréia da banda Devotos, então Devotos do Ódio, como parte do 3º Encontro Anti-Nuclear Brasileiro, em memória à explosão da bomba de Hiroshima. Sobre o show, Cannibal diz: "Eu nunca tinha tocado nada, nenhum instrumento. Estávamos também sem o vocalista que fugiu e falou que não ia passar vergonha. A gente ensaiou seis meses antes da apresentação e nem podíamos tocar cover, porque ninguém sabia tocar nenhum. Aí, foi tudo do nosso jeito mesmo. No final, erramos tudo, mas parece ter dado tudo certo".
E, provavelmente, na ótica de Clemente e Cannibal, essa história resume realmente o que é o punk. Se a platéia, que ficou em frenesi durante as 29 músicas do set list do show dos Devotos no Rec-Beat, em vez de pedir "toca Raul!", pediu "toca Ramones", é porque ela sabe muito bem de onde vem essa irresponsabilidade toda. Como resume Clemente: "O punk contesta tudo, vai contra qualquer tipo de expressão que esteja vigente e até contra a própria música".
O jornalista viajou a convite do Rec-Beat.
Publicado em: 05/02/2008