Opinião » EditorialCrime organizado
Anos de omissão e descaso estão na origem do incidente que esta semana assustou os fiscais do Ibama e o próprio governo que pretendiam desencadear uma operação de repressão ao desmatamento na Amazônia. Encarregados de retirar das serrarias de Tailândia, no Pará, 15 mil m3 de madeira ilegal, os fiscais foram aprisionados por trabalhadores e a Polícia Militar teve de intervir, entrando em confronto com eles.
O governo viu o tamanho do problema que criou com essa súbita atitude de fazer o que nunca fez, a não ser eventualmente, que é implantar a lei num território onde ela tem sido sistematicamente descumprida. Por causa disso, teve de recuar e adiar, sine die, a megaoperação da Polícia Federal contra o desmatamento na região, a cujo lançamento estavam escalados para comparecer dois ministros, o do Meio Ambiente e o da Justiça.
Não será, no entanto, com operações espalhafatosas que o governo vai conseguir desmanchar a má impressão que está passando para o mundo desde quando foi desmentido por um de seus próprios órgãos de monitoramento sobre o recuo do desmatamento. Ao contrário, a operação expôs a dimensão do problema social que estava sendo ignorado quando os madeireiros, espertamente, demitiram parte dos 10 mil trabalhadores da atividade.
O Brasil tem experiência de ser confrontado com problemas sociais criados pela incúria de seus governantes. Antes, na região, os conflitos eram com indígenas, sem-terra e garimpeiros. Agora, entram em cena trabalhadores das madeireiras. O Estado está diante de outro tipo de crime organizado. Sabiamente, evitou o choque direto. Mas o governo não vai conseguir domar a situação a não ser com os recursos de inteligência. A madeira extraída ilegalmente vai para algum lugar, inclusive para o exterior.
Publicado em: 22/02/2008