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 FOTO: ARQUIVO/AGÊNCIAESTADO |
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MagazineMemória. Família e fãs preparam homenagens, entre exposições e lançamenos de livros, nos 20 anos da morte do artista
Para relembrar Henfil
RENATA MEDEIROS
Ele é Henrique de Souza Filho, mas foi pela junção da primeira sílaba do nome e sobrenome que o mineiro de Ribeirão das Neves ficou conhecido em todo o país. Em 2008, vinte anos depois da morte de Henfil, exposições, antologia de cartoons, livros e filme buscam relembrar as lutas, as conquistas e as dificuldades do cartunista, escritor, jornalista, cineasta, teatrólogo e também grande ativista político. Uma das homenagens fica por conta da irmã do Henfil, Wanda Figueiredo Souza, que tem previsto para este mês lançar o livro "Balaio Mineiro, Memória de uma Família Brasileira". Para maio está também programado o lançamento em DVD do documentário "Três Irmãos de Sangue", que conta a história do cartunista e de seus dois irmãos, o músico Francisco Mário e o sociólogo Hebert José de Souza, o Betinho. Outra novidade é a obra "Henfil - O Humor Subversivo", escrita pelo cartunista e sociólogo Márcio Malta, conhecido como Nico, que, aos 25 anos, representa a nova geração de fãs do artista.
Primeiros traços. Um dos primeiros traços de Henfil foi dado quando ele ainda era criança. No papel, ele desenhou tudo aquilo o que viu dentro de uma igreja. "É uma pena que não tenhamos mais esse que foi um dos primeiros desenhos do Henfil", lamenta Wanda. Para ela, a data para a publicação de sua obra, que resgata a história da família, é propícia, já que coincide com os 20 anos da morte do irmão. "Escrevi o livro exatamente porque sou conhecida como irmã do Betinho e do Henfil", comenta. O livro será uma produção independente e Wanda pretende por meio dele destacar também o lado feminino da família, composta por três irmãos e cinco irmãs.
O documentário "Três Irmãos de Sangue", estreou em 2006, mas em homenagem aos 20 anos de morte do cartunista, ele será lançado em DVD no dia 19 deste mês, de acordo com a diretora do filme, Ângela Patrícia Reiniger. Ela diz que, até o final do ano, uma versão reduzida do filme será distribuída em escolas e universidades. "Nosso projeto é continuar a divulgação de Três Irmãos de Sangue, de modo que, cada vez mais, pessoas possam conhecer a marcante trajetória desses três homens tão especiais e, ao mesmo tempo, tão parecidos com todos nós brasileiros", diz.
Foi a admiração e o interesse pela vida do Henfil que levaram Nico a escrever o livro "Henfil - O Humor Subversivo". Sua obra tem como enfoque a vida política do cartunista e fará parte da coleção Viva o Povo Brasileiro, da editora Expressão Popular, voltada a biografias de personalidades de nosso país. "Meu objetivo é mostrar às pessoas o legado deixado por esse grande artista", diz. O livro de bolso, previsto para ser lançado até o fim deste mês, custará R$ 3. "Queremos conquistar o maior número de pessoas possível". Ele pretende ainda promover palestras, debates e reflexões sobre a obra em todo o Brasil.
O filho único do cartunista, o produtor cultural Ivan Cosenza de Souza, diz que este é o ano do Henfil, mas afirma que as homenagens, além de ocorrerem durante 2008, se estendem até 2009, ano em que o pai completaria 65 anos. Souza cuida do acervo do artista desde 1992 e se preocupa em divulgar e manter viva a memória do Henfil. "Em cada divulgação, em cada evento que realizo vejo que há grande repercussão e que o carinho por ele ainda é muito grande", conta.
As homenagens ao cartunista tiveram início no começo deste ano, quando foi divulgado o livro "Urubu" (Ed. Desiterata, 2007, 143p), que reúne caricaturas e desenhos humorísticos do cartunista. Várias atividades estão previstas para 2008, mas muitas delas ainda sem data definida para acontecer. Uma das idéias do produtor cultural é realizar uma exposição intitulada "Henfil Brasileiro", que deve ser apresentada tanto nas capitais, quanto em algumas cidades do interior. O projeto é um desdobramento do "Henfil do Brasil", exposição apresentada durante 2005 e 2006 em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília que, segundo Ivan, foi um grande sucesso.
Outro projeto do produtor cultural é uma antologia dedicada à obra do cartunista. Ele pretende unir vários trabalhos do Henfil e no momento faz a seleção, digitalização e tratamento das imagens. Ivan conta que possui mais de 15 mil trabalhos originais no acervo e destaca a dedicação e carinho do cartunista pelas charges. "Meu pai mandava cópias de seus desenhos aos jornais e ficava com os originais. Uma prova de que ele via seus quadrinhos como uma obra de arte", afirma. Ele conta também que o livro do cartunista, "Henfil na China", será relançado até o período das Olimpíadas. "O público pode esperar por uma grande movimentação este ano. Vamos lançar livros, fazer exposições e resgatar o trabalho dessa figura tão importante para o Brasil", afirma o filho Ivan.
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 Charge de Nico em homenagem a Henfil, seu ídolo FOTO: REPRODUÇÃO |
| Charge de Nico em homenagem a Henfil, seu ídolo |
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Legado
‘Henfil era apaixonado pelo ser humano’
RENATAMEDEIROS
Por meio de 27 personagens, o cartunista Henfil conquistou gerações e consciências. Figura simbólica no Brasil, Henfil deixou registrada sua colaboração tanto para a história dos quadrinhos, quanto para a história do país. Rebelde do traço. Era assim que um dos irmãos de Henfil, Herbert José de Sousa, o Betinho, se referia a Henfil. A referência foi título do livro do pesquisador e jornalista Dênis de Moraes que traduziu, em cerca de 500 páginas, a vida do cartunista (“O Rebelde do Traço: A Vida de Henfil”; Ed. J. Olympio, 1996, 579p). Moraes conta que foi a capacidade do cartunista de traduzir nos desenhos a miséria política, sem perder o olhar para a compreensão da condição humana, que o tornou um admirador do artista. “Henfil foi um apaixonado pelo ser humano.”
O autor lembra a frase do cartunista que dizia: “O humor verdadeiro é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”. Ele conta que o objetivo do artista, por meio das charges, era a conscientização. “Henfil não queria fazer rir, mas fazer pensar”.
A maneira “séria” de fazer humor foi uma das formas que Henfil encontrou de lutar contra a ditadura militar e ele sofreu com a censura. Porém, de acordo com Moraes, ele sempre conseguia passar sua mensagem. “Henfil sempre tentou driblar os censores. Protestava, desenhava quantas vezes fossem necessárias, pois não abria mão de chegar aos leitores.”
Além de ter batizado o movimento Diretas Já, nos anos 80, Henfil foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT).
Laerte é um dos principais quadrinistas do Brasil e é um admirador da obra do Henfil. Eles se conheceram em 1975, enquanto faziam um trabalho político de reação à morte do jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura em 1976. Depois daquele momento, estreitaram laços de amizade e trabalharam muitas vezes juntos. “Ele era uma pessoa incrível. Foi um ídolo para mim. Com ele aprendi de técnicas de desenho até questões como: ‘por que fazer’ e qual é o real significado desse tipo de trabalho.”
Assim como Laerte, outros artistas também foram influenciados pelos traços de Henfil que, até hoje, fascina, inclusive, o público jovem. Quando Henfil morreu, em 1988, o cartunista e sociólogo Márcio Malta, o Nico, tinha apenas seis anos, e hoje, aos 25, ele se diz admirador da obra do artista. O interesse pelo ídolo teve início quando o jovem cartunista, aos 17 anos, teve seus traços elogiados e comparados aos de Henfil por seu professor de desenho.
A questão técnica, agilidade e simplicidade dos traços de Henfil passaram então a chamar a atenção e a agradar Nico, mas sua admiração pelo cartunista também está relacionada ao caráter político e à maneira qual o ídolo utilizava o humor como forma de conscientização da sociedade.
Para ele, o sucesso de Henfil deve-se ainda à atualidade de suas tirinhas. “É incrível como os assuntos tratados por Henfil há vários anos ainda fazem parte da nossa realidade. Essa parece ser uma prova de como nosso país não avançou nos últimos tempos”, acredita.
Outro cartunista que foi amigo de Henfil é Ziraldo. Apesar de em um certo momento eles terem escolhido rumos diferentes na profissão, o criador do Menino Maluquinho ainda é um grande admirador do trabalho do amigo e classifica a Graúna como uma das maiores figuras femininas no imaginário brasileiro. “A influência do Henfil foi tão grande que ficou difícil aos cartunistas que vieram depois dele fazer piada que não tivesse um viés político. Henfil era um gênio”, diz Ziraldo.
Publicado em: 11/05/2008