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FOTO: Pedro Silveira
Brasil » Interessa

Entrevista
Norberto Kawakami: Interpretando as dobraduras
Doutorando em física pela Universidade Federal de Minas Gerais, foi iniciado na arte da dobradura aos 6 anos por sua mãe, Namie Kawakami. Há oito anos, trabalha com o origami e criou em 2006 o blog: http://origami.em.blog.br com o objetivo de congregar outros origamistas, compartilhar experiências e se mobilizar para um grande encontro nacional, ainda sem data definida. O grupo tem 12 pessoas.
O que levou um físico a se interessar por uma técnica tão lúdica?

Creio que a pergunta é inversa. Por que um origamista vai estudar física? Digo isso porque o interesse pela física veio depois do origami. De qualquer forma são atividades complementares do meu ponto de vista. A primeira requer uma atividade intelectual intensa, sem exigir muito de práticas motoras, enquanto que no origami, a exigência motora é muito mais intensa. Existe um tipo de dobradura modular que atua como o mantra das dobraduras. Através de movimentos e dobraduras repetitivas, podemos esvaziar a mente.

Como tem sido a sua experiência com o origami?

É um aprendizado constante. Antes de ter criado o grupo Origami Beagá - http://origamibeaga.org - , eu era apenas um autodidata e demorava para aprender as diversas técnicas e dobras existentes. Um caminho árduo, mas que tem suas recompensas, pois o aprendizado se torna mais sólido. No estágio atual, consigo ver os passos-chaves que me fizeram estar onde estou e são esses passos que apresento no curso que montei no blog. Além disso, vivo mostrando as novidades ou alguma técnica nova aprendida recentemente. Com o grupo, temos as reuniões mensais onde há uma troca intensa. A diversidade de técnicas que cada um traz para os encontros facilita e muito o aprendizado. Ver o outro fazendo as dobras ali na sua frente contribui muito para a memorização.

Para você, qual o significado de dobrar um papel e criar objetos?

A diversão. O contentamento de ter conseguido dobrar um modelo que antes lhe era desconhecido. Depois é a experimentação desse modelo com as diversas técnicas e papéis na tentativa de obter um resultado excelente. Se fosse para resumir o significado em três palavras, elas seriam: diversão, descoberta e aprimoramento.

Quem divulgou o origami para o Ocidente?

Quando os mouros invadiram a Espanha (por volta de 711), introduziram a ciência matemática e o papel com sua técnica de dobrar. Os mouros foram expulsos em 1492, mas as artes e ciências desse povo já haviam sido incorporadas à cultura local e os espanhóis desenvolveram uma técnica de dobradura de papel que ficou conhecida como "papiroflexia", uma arte popular até hoje na Espanha e na Argentina.

Existem diferentes técnicas de dobraduras?

Sim. As principais são: origami modular onde o modelo final é uma composição de diversos módulos, idênticos ou não, encaixados entre si; block folding onde só um tipo de módulo é utilizado em todos os origamis; wet folding ou dobradura úmida em que se utiliza o papel umedecido; tea bag folding, uma espécie de caleidoscópio originalmente feito a partir das capas dos saquinhos de chá. Oribana que é uma mistura de origami com ikebana, ou seja, arranjos florais japoneses feitos em origami. Tesselations que são mosaicos feitos a partir das diversas dobras combinadas em uma única folha de papel ecrumpling ou papel amassado, esculpido até se chegar a uma forma final.

Você considera o origami um instrumento terapêutico?

Certamente que sim. Podemos ver pelas diversas técnicas que o origami pode ser utilizado para aumentar a concentração, treinar a paciência e a tolerância principalmente no origami modular, com a repetição contínua do mesmo módulo. E, principalmente, pode-se trabalhar a socialização, a interação e a troca de experiências.

Existe um perfilpara o origamista?

O que vocês têm em comum? Depois de ter montado o grupo Origami Beagá, posso dizer que esse perfil não existe. Para cada um há uma motivação que o leva a dobrar papel, seja pelo desafio, pelo sucesso de ter dobrado um modelo complexo, pelo desejo de criação, pela vaidade. De todos, vejo que o aspecto comum entre nós é a paixão por dobrar papel. E com o grupo, um desejo de ver a prática do origami crescer no Brasil.

A identidade do origamista impregna a sua criação?

Certamente que sim. Mas aqui gosto de fazer uma divisão: quem cria um origami é um origamista-criador. Quem dobra origami a partir de um diagrama já existente, é um origamista-dobrador. Ambos são origamistas e cada um tem o seu valor. Gosto da analogia que diz que um origamista-criador é como se fosse um compositor e quem dobra um diagrama seria o músico. Cada um dá a sua interpretação às notas que o compositor colocou no papel, assim, quem dobra um diagrama pode dar a sua interpretação ao executar as dobras no origami. É a sua identidade que dará forma ao modelo final.
Publicado em: 25/07/2008



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