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Inéditas. Há cinco anos sem lançar disco, Nei Lopes retorna com álbum em que apresenta 16 músicas

FOTO: Márcia Moreira / divulgação
Inéditas. Há cinco anos sem lançar disco, Nei Lopes retorna com álbum em que apresenta 16 músicas
Magazine

Música. Em seu novo disco, "Chutando o Balde", Nei Lopes critica, com ironia, o vazio da cultura e prega a diversidade
Samba contra a mediocridade
Daniel Barbosa

Nei Lopes está, ao mesmo tempo, injuriado e instigado. O primeiro estado de espírito se reflete nas letras e no título de seu novo disco, o recém-lançado "Chutando o Balde" - expressão que denota sua indisposição para com a mediocridade reinante na cultura brasileira, em especial na música. Já o fato de estar instigado é claramente exposto na diversidade rítmica do repertório, que inclui metais de gafieira e comporta até um esboço de rap na faixa-título, o que pode causar estranheza vindo de um cantor e compositor que é tido como uma das principais trincheiras de resistência do chamado samba de raiz.

Com relação ao conteúdo temático das músicas que compõem o álbum, Nei admite o tom de desabafo. "Estou mesmo insatisfeito com esse clima de valorização das coisas que não são importantes. Você liga a televisão e só tem conteúdo que emburrece, que não leva a consequência nenhuma, só blockbusters. Aí tem uma hora que enche o saco a gente ficar perdendo espaço para esse tipo de coisa", diz, ressalvando que é apenas no nicho das gravadoras independentes - ele pertence ao cast do selo carioca Fina Flor - que a música brasileira de qualidade resiste.

Nei ressalta que, a despeito do teor crítico, "Chutando o Balde" não se opõe à leveza. "Buscamos um certo humor cortante, a ironia é sempre mais eficaz que o discurso sisudo e panfletário. É um disco irônico, crítico, mas leve", aponta. No que diz respeito aos amplos horizontes musicais que o álbum percorre, ele destaca que é uma forma de livrar o samba de se tornar peça de museu. "Existe uma garotada cultora do samba de raiz que, cheia de boas intenções, acaba prejudicando a visão do samba como algo em processo, capaz de assimilar outros gêneros e de ser assimilado pelo mercado e pelo grande público. Essa garotada faz um samba que insiste na coisa limitada do surdo, pandeiro, cavaquinho e violão. Temos que mostrar que o ritmo pode ser tocado de tudo quanto é forma", diz.

Ele reconhece que não pensava assim até há algum tempo. "Eu tinha mesmo restrições quanto à incorporação, pelo samba, de elementos alheios às suas origens, mas depois, estudando, vendo como as coisas eram no passado, percebi que sempre foi assim, o samba nunca foi algo engessado", ressalta, disparando até contra o tombamento, pelo Ministério da Cultura, ainda com Gilberto Gil à frente, do gênero como patrimônio cultural brasileiro.

"Quando, dentro de um contexto colonizado como é o da cultura brasileira, você pega uma determinada manifestação e diz que não se pode mexer nela, sou levado a pensar que existe uma estratégia por trás disso, no sentido de que essa manifestação não tenha força para concorrer com o que vem de fora", diz. Ele aponta que foi mesmo com a intenção de provocar que incluiu um trecho falado - no estilo dos rappers - na faixa-título. "Claro que o samba pode incorporar isso aí, desde que não seja de maneira subserviente", destaca Nei Lopes.

"Chutando o balde"

Repertório


"Chutando o Balde"
"Samba de Fundamento"
"Dicionário"
"Saracuruna-Seropédica"
"Pala pra Trás"
"Deusas e Devassas"
"Pombajira Halloween"
"Bugre do Milênio"
"Tira-Gosto"
"Águia de Haia"
"Oló"
"Ondina"
"Meia Cabeleira"
"Recordando Seu Libório"
"Confraria"
"Samba Emprestado"

Agenda

"Chutando o Balde",
de nei Lopes. Lançamento Fina Flor. R$ 27, em média.



Composições
Nei se cerca de jovens parceiros
Das 16 músicas autorais que compõem o repertório de "Chutando o Balde", seis foram feitas em parceria com os jovens integrantes do grupo paulistano Quinteto em Branco e Preto. Nei Lopes diz que os conhece há cerca de 15 anos e admira o trabalho deles pelo fato de pertencerem a uma nova geração que, sem trair os fundamentos do samba, compartilha a visão de que o gênero pode e deve estar em constante renovação.

"Quando falo dessa parceria, as pessoas logo evocam a diferença de idade, considerando que o contato com eles esteja me rejuvenescendo. Não tem dessa, minha cabeça é jovem", diz. Ele aponta outros artistas que se alinham, com as propostas, ao Quinteto. "Tem o Dudu Nobre, que também é parceiro, tem o Pretinho da Serrinha, que toca com Seu Jorge, e mais uma molecada na faixa dos 30 fazendo coisas bem legais." (DB)


Escritor de prestígio, ele se diz mais interessado em literatura

FOTO: Márcia Moreira / divulgação
Escritor de prestígio, ele se diz mais interessado em literatura
Publicações
Nei Lopes aguarda o lançamento de três livros este ano
Da última vez que esteve em Belo Horizonte, em setembro do ano passado, Nei Lopes disse, com todas as letras, em entrevista ao Magazine, que estava desencantado com o mercado da música e, por outro lado, muito entusiasmado com sua produção literária.

Autor de obras de grande prestígio, como o “Novo Dicionário Banto do Brasil” e a referencial “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana”, ele reitera que tem se inclinado mais para as letras que para a música, o que se reflete no volume de sua produção.

“Estou com três livros no prelo, sendo que dois deles eu estou esperando com muita ansiedade, porque marcam minha estreia no romance”, diz. Um, que já era para ter saído, pela editora Língua Geral, mas atrasou por conta da reforma ortográfica, é “Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova”, em que o autor constrói uma ficção sobre o universo de Tia Ciata, a quem se atribui ter abrigado, em seu terreiro, as primeiras rodas de samba do Rio de Janeiro, no início do século passado.

O outro romance é “Oiobome O’Mezamu”. Nei explica que Oiobome é a junção dos nomes de duas cidades históricas africanas, Oio e Bome, e que a tradução de O’Mezamu é algo como “dos meus amores”. “Fantasio sobre um país criado no Norte do Brasil por um negro fugido da escravidão. Esse país, na atualidade, seria o detentor do maior índice de desenvolvimento humano da América, já teria descoberto a cura para a Aids e seria governado por duas mulheres que se amam loucamente. É um país maravilhoso em que tudo deu certo”, diz.

Ele aponta que o terceiro livro, que deve ser lançado pela editora Civilização Brasileira, segue a linha de obras pregressas de sua autoria que investigam a diáspora e a cultura africana. “É o ‘Dicionário da Antiguidade Africana’, em que focalizo aquele continente antes da chegada dos europeus. Acho que vai causar um grande impacto. Quem já viu e deu uns pitacos foi o Alberto da Costa e Silva, que é hoje o ‘papa’ dos africanistas no Brasil”, diz.

A profícua produção nessa seara é o que justifica e reflete o entusiasmo de Nei com o universo das letras. “Já tenho uma obra grande e reconhecida e aguardo o lançamento de mais três títulos. É por isso que me empolgo mais com a literatura, ela tem, para mim, consequências muito maiores. Acredito mesmo que, o dia em que eu me for desse plano terreno, meus livros vão sobreviver e minha música não vai”, considera.

Ele destaca que, além das obras de sua autoria, as livrarias do país devem receber, em breve, a biografia “Nei Lopes – Poeta Negro, Artista do Povo”, do jornalista paulistano Oswaldo Faustino, a ser lançada pela editora Selo Negro. Outro ponto que diz respeito à relação de Nei com o universo da escrita é um intercâmbio entre Brasil e Angola que deve ser desenvolvido até o final deste ano. “Recebi um e-mail do brasileiro que está assumindo a embaixada de Angola propondo de a gente conversar sobre um intercâmbio literário”, diz.
Publicado em: 27/05/2009



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