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Oposição. Manifestante participa de protesto pelas ruas de Lahore, no Paquistão, contra escalada de violência no país entre EUA e talebans

FOTO: K.M.Chaudary/associated press
Oposição. Manifestante participa de protesto pelas ruas de Lahore, no Paquistão, contra escalada de violência no país entre EUA e talebans
Mundo

Prioridade. Medidas de combate ao terrorismo podem agravar a violência no Paquistão e no Afeganistão
Ofensiva americana fortalece ação da Al Qaeda e do Taleban
Especialistas falam sobre expansão de extremistas como efeito colateral
Renata Medeiros
"A guerra fortalece nossos inimigos". Essa é a opinião da militante e ex-parlamentar afegã Malalai Joya. Ela faz a afirmativa frente recentes medidas anunciadas pelo presidente norte-americano, Barack Obama, em relação ao Afeganistão. O conflito no país, que se estende por oito anos, é uma das prioridades dos EUA e o envio de mais tropas ao local é uma das providências para derrotar o grupo terrorista Al Qaeda e combater os talebans radicais, que se dissipam pelo país vizinho, o Paquistão. É provável, porém, que o foco no combate aumente o poder dos extremistas e coloque mais munição nesse barril de pólvora prestes a explodir.

"Hoje, devido à guerra, vivemos em uma nação sem leis e em destroços", lamenta Malalai. Um dos receios da militante é que o envio de mais tropas ao seu país, assim como o investimento financeiro no conflito, agrave a situação. Para ela, a própria guerra ajudou o Taleban, derrubado em 2001 pela invasão norte-americana, a se fortalecer. Hoje, o grupo domina 72% do território afegão. "O regime Taleban trouxe retrocesso e oprimiu a população. Mas isso não impediu que jovens, revoltados com as atrocidades cometidas contra os civis, se juntassem a eles. A presença dos EUA complica a situação do país e fortalece quem está contra nosso povo", critica.

Laços. Uma das maiores preocupações norte-americana é a relação entre o Taleban e a rede terrorista Al Qaeda, que possuem laços ideológicos e históricos em comum. A origem de ambos está relacionada à orientação islamita sunita extremista, mas enquanto o primeiro possui interesses em uma região específica, Afeganistão e Paquistão, o segundo possui uma "agenda internacional". É principalmente no Paquistão, junto à fronteira afegã, que a proximidade entre eles é vista como ameaça. A Agência de Inteligência Norte-americana (CIA) acredita que Osama bin Laden esteja em território paquistanês. O Vale de Swat é um dos locais mais conflituosos da região.

"Membros da rede terrorista sabem que o Paquistão tomado pelos talebans é um ótimo lugar para ela se desenvolver", diz Lorenzo Vidino, autor do livro "Al Qaeda na Europa - o novo campo de batalha do Jihad". Assim como Malalai, especialistas acreditam que o foco no Afeganistão pode fortalecer não somente o Taleban, mas também a Al Qaeda. "É onde há conflito que a rede se fortalece e se desenvolve. Se um grande número de civis morre vítima da ofensiva dos EUA, é de se esperar que a população, indignada, se junte aos terroristas", explica o professor de relações internacionais Onofre dos Santos, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Vidino concorda com Santos e lembra que o início da Guerra do Iraque deu novo impulso à Al Qaeda. Em 2005, segundo a CIA, o Iraque se transformou em um campo de treinamento para uma nova geração de militantes muçulmanos. "A rede só perdeu força no país anos depois, quando os próprios iraquianos se mostraram contra as severas ‘leis’ impostas pelos terroristas", comenta.

Curiosidades

Al Qaeda. No fim dos anos 80, foi criado um campo de treinamento da juventude contra a ofensiva soviética. O local era chamado Al Qaeda, que significa "base sólida". É daí que vem o nome da rede

Taleban. O grupo sobrevive por meio do tráfico, sendo responsável por 90% da oferta mundial de ópio. O governo dos EUA pretende transformar o Taleban em partido político, o que divide opiniões

Paquistão é peça-chave para estabilidade

Por ser uma potência nuclear, a estabilidade do Paquistão é essencial para a segurança do território. "Há receio de que armas nucleares caiam nas mãos dos talebans extremistas. Se isso acontecer, a Índia, outra potência nuclear e inimiga do Paquistão, reagirá, desencadeando um conflito com consequências desastrosas", diz Lourival Santanna, autor do livro "Viagem ao Mundo dos Taleban".

Segundo o especialista em relações internacionais Danny Zahreddine, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, quanto mais espaço os talebans conquistam no território afegão, maior é a força do grupo no território paquistanês. "A instabilidade afegã afeta diretamente a estabilidade paquistanesa. Controlar o Afeganistão significa diminuir a probabilidade dos talebans de continuar atuando de maneira desfavorável à política da região", afirma. (RM)

Números

96%
dos afegãos reprovam a atuação do grupo político extremista Taleban.

21 mil
soldados dos EUA chegam ao Afeganistão este ano. Hoje, eles são 47 mil.



FOTO: REPRODUÇAO SITE eenheidiskracht
Minientrevista
Malalai Joya
Militante afegã, 31 anos. Ex-membro do Parlamento no Afeganistão

"No parlamento várias vezes escutei: 'estuprem ela'. O fato de você ser mulher já é considerado pecado"

Em 2007, você foi expulsa do Parlamento. Por que isso aconteceu?

O Parlamento não é democrático. Ali manda quem tem dinheiro e armas. Quando perceberam que não podiam me impedir de ter voz ali dentro, me ameaçaram e depois me expulsaram.

O fato de você ser mulher também contribuiu?

Sim. O fato de ser mulher já é considerado pecado. Há a ideia de que política é coisa para homem. Hoje, 70% das afegãs não vão à escola, poucas têm emprego e várias são vítimas de estupro, praticado impunemente.

Você ainda recebe ameaças?

No Parlamento, várias vezes escutei: "estuprem ela". Era chamada de prostituta. Recebo ameaças de morte. Preciso sair sempre de burca e nunca fico muito tempo em uma mesma casa.

Como é seu trabalho de militância?

Recebo visitas de vítimas e tento revelar ao mundo, por meio da mídia internacional, a realidade afegã. Tenho também uma clínica que presta assistência médica a mulheres e crianças. Recolho documentos que provam as atrocidades realizadas por quem está no poder e quero levar esse material a um tribunal internacional de Justiça.

Quais são os principais problemas enfrentados pelos afegãos?

Somente 2% da população tem luz elétrica e 8% acesso ao serviço sanitário. A expectativa de vida é de 44 anos. O afegão sofre devido à pobreza, ao tráfico de ópio e à inexistência de leis no país.

Quem traz esses problemas ao Afeganistão?

O afegão possui três inimigos: o Taleban, que o oprime; os senhores de guerra, e a ocupação norte-americana, que continua a matar civis.





Publicado em: 14/06/2009



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