Quando Maria Clara Spinelli aceitou o papel da advogada Suzana em "Quanto Dura o Amor?" (segundo longa-metragem de Roberto Moreira), ela tinha plena consciência da exposição a qual iria se submeter. "Sei de todos os riscos e fiquei com muito medo, mas precisava enfrentar em algum momento", diz. O motivo do temor é que Maria Clara - assim como a personagem que interpreta no filme de Moreira - é transexual. E, consciente, a atriz sabe que sua presença vai concentrar muito das atenções dadas à produção, cuja estreia nos cinemas está agendada para 4 de agosto. "O que for relevante, não apenas para o filme, mas também socialmente, me faz aceitar sacrificar um pouco da minha privacidade."
Pois o sacrifício já começa a compensar. Na noite de quinta-feira, Maria Clara recebeu o troféu de melhor atriz no II Festival Paulínia de Cinema, onde o filme foi apresentado em competição no domingo. "Não apenas respeitem o diferente, mas também amem o diferente", discursou ela, emocionada no palco do Theatro Municipal da cidade.
Em "Quanto Dura o Amor?", Roberto Moreira apenas revela a condição da personagem de Spinelli na metade do filme, num momento de extrema delicadeza. "Só aceitei o papel porque o Roberto e a Georgia [Costa Araújo, produtora] me deram liberdade para trabalhar. Percebi que eles não usariam nenhum tipo de sensacionalismo na hora de promover o filme."
O fato de Suzana ter a transexualidade como elemento de semelhança com a própria atriz era outro fator ao qual ela teve medo, mas também algo a lhe dar forças. "Foi a melhor forma de uma atriz que nasceu transexual fazer um grande papel. Se eu estreasse em qualquer outro personagem, ia chamar atenção para mim de qualquer maneira, e eu não poderia omitir alguns detalhes a meu respeito. Não tenho vergonha de nada na minha vida, tenho é muito orgulho."
Maria Clara nasceu em Assis, município de 92 mil habitantes no interior paulista. Começou a carreira artística no teatro, fazendo especialmente leituras dramáticas, ainda muito jovem. "Sempre quis ser atriz, mas no interior é difícil. Decidi fazer vestibular para artes cênicas ou cinema e me mudei para Brasília. Tive dificuldades de me manter, além de ter saído de São Paulo buscando trabalho, quando é lá que estão as oportunidades", relembra. Ela acabou retornando a Assis, onde fez curso de processamento de dados no intuito de não parar de estudar.
Teatro. Entre uma aula e outra, Maria Clara se mantinha ativa em grupos ligados a teatro-dança, estudava rotineiramente autores como Stanislavski e encenava pequenos espetáculos. "Já fui até o Mogli numa peça infantil", comenta, aos risos. Estimulada por uma amiga, mudou-se para a capital paulista há oito anos e montou "O Ser Gritante", monólogo inspirado em textos de Luiz Cosenza e Clarice Lispector. Ganhou prêmio de atriz revelação num projeto itinerante do Estado chamado Mapa Cultural.
Foi mais ou menos nesse período (segundo o que foi possível apurar pelo Magazine na discrição com que Maria Clara Spinelli fala do assunto) que ela fez a cirurgia de mudança de sexo - ou, mais corretamente, de "readequação sexual". "Ninguém sabe direito o que é transexualidade. Por isso busco usar os termos corretos", afirma. "Mudança de sexo, por exemplo, é uma coisa que não existe, mas esses clichês continuam persistindo."
Sem querer revelar a idade ("pode colocar que é algo em torno dos 30 anos"), ela diz que a cirurgia é um momento importante da transição, mas não o início nem o fim do processo. "A readequação começa antes, com uma preparação física e psicológica, para só depois adequar o gênero." Maria Clara é bastante convicta no assunto: "Até então, as pessoas achavam que eu era um menino". Mas ela conta nunca ter sido travesti. "Eu era meio andrógina, o que fazia com que muita gente não me entendesse direito."
Postura
"Quero seguir a minha carreira, e vejo nisso uma função social e política. Ao menos publicamente, não existem médicos, advogados, juízes ou promotores transexuais"
Maria Clara Spinelli
Paulínia. Na comédia de erros que se tornou a cerimônia de encerramento do II Festival Paulínia de Cinema, na noite de quinta-feira, a produção carioca “Olhos Azuis”, de José Joffily, dividiu com o gaúcho “Antes que o Mundo Acabe”, de Ana Luiza Azevedo, os principais prêmios de ficção – cada um levou cinco troféus. O primeiro sagrou-se como melhor filme, roteiro, ator coadjuvante (Irandhir Santos), montagem e atriz (Cristina Lago, dividindo com Maria Clara Spinelli e Silvia Lourenço, por “Quanto Dura o Amor?”); o segundo levou direção, figurino, trilha sonora, direção de arte, fotografia e júri da crítica.
“O Contador de Histórias”, cujo enredo se inspira na vida do pedagogo mineiro Roberto Carlos Ramos, ganhou júri popular, prêmio especial do júri oficial e a categoria de melhor ator, que reconheceu conjuntamente o trabalho dos garotos Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, intérpretes do protagonista em várias fases de sua vida.
Apresentado pelo casal Murilo Benício e Guilhermina Guinle, o cerimonial de entrega de troféus se configurou numa série de equívocos – desde confusões com o monitor onde os atores liam os nomes dos vencedores à omissão de algumas categorias durante o apressado anúncio de quem deveria subir ao palco para agradecer a vitória. “Alguém quer vir aqui nos ajudar?”, disse Murilo Benício, sem parecer estar brincando.
Foi o fecho de um festival cheio de tropeços e caminhos estranhos. “Olhos Azuis”, filme que trata com maniqueísmo juvenil a questão da imigração de latinos nos EUA, foi considerado o melhor filme menos por qualidades cinematográficas do que pelo tema proposto – e se esse tema é desenvolvido sem qualquer tipo de sutileza ou humanidade, pouco pareceu importar ao júri.
“Antes que o Mundo Acabe” conseguiu ficar com a pecha de “filme fofinho do festival”, até então dada a “O Contador de Histórias”. Realizado na Casa de Cinema de Porto Alegre (de onde saiu “O Homem que Copiava”, entre outros), aborda o universo juvenil de uma pequena cidade através de piadinhas e referências “cool, criança engraçada no elenco e romance adolescente de diálogos ‘espertos’”.
Nos documentários, também prevaleceu o desinteresse com cinema de verdade. “Só Dez por Cento É Mentira”, de Pedro Cézar, longa apenas razoável sobre o poeta Manoel de Barros, levou melhor filme. O caretíssimo “Herbert de Perto”, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, sobre o músico Herbert Vianna, ficou com troféu de direção. “Moscou”, filme-invenção do mestre Eduardo Coutinho, teve a façanha de ser ignorado pelo júri oficial. Levou apenas prêmios da crítica.
Confira a lista de premiados
Longa-metragen - Ficção:
Melhor Filme ficão: R$ 60 mil: Olhos Azuis, José Joffily.
Melhor Direção de Ficção: R$ 30 mil: Ana Luiza Azevedo, de Antes que o Mundo Acabe.
Prêmio Especial do Júri: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.
Melhor Roteiro: R$15 mil: Paulo Halm e Melanie Dimantas, de Olhos Azuis.
Melhor Ator: R$ 25 mil: Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, de O Contador de Histórias.
Melhor Atriz: R$ 25 mil: Cristina Lago, de Olhos Azuis / Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, de Quanto Dura o Amor?
Melhor Ator Coadjuvante: R$ 15 mil: Irandhir Santos, de Olhos Azuis.
Melhor Atriz Coadjuvante: R$ 15 mil: Nívea Magno, de No Meu Lugar.
Melhor Figurino: R$ 15 mil: Rosangela Cortinhas, de Antes que o Mundo Acabe.
Melhor Trilha Sonora: R$ 15 mil: Leo Henkin, de Antes que o Mundo Acabe.
Melhor Direão de Arte: R$ 15 mil: Fiapo Barth, de Antes que o Mundo Acabe.
Melhor Som: R$ 15 mil: François Wolf, de Olhos Azuis.
Melhor Montagem: R$ 15 mil: Pedro Bronz, de Olhos Azuis.
Melhor Fotografia: R$ 15 mil: Jacob Solitrenick, de Antes que o Mundo Acabe.
Longa-metragen - Documentário:
Melhor Documentário: R$ 45 mil: Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar
Melhor Direão de Documentário: R$ 30 mil: Roberto Berliner e Pedro Bronz, por Herbet de Perto.
Curta-metragem - Regional:
Melhor Filme: R$ 20 mil: Spectaculum, de Juliano Luccas
Melhor Direão: R$ 15 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será katlyn
Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Pedro Struchi, de Prós e Contras
Melhor Ator: R$ 8 mil: Alexandre Caetano, de Prós e Contras
Melhor Atriz: R$ 8 mil: Roseli Silva, de Morte Corporation
Melhor Montagem: R$ 8 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será Katlyn
Melhor Fotografia: R$ 8 mil: Marcelo Mazzariol, de Spetaculum
Curta-metragem - Nacional:
Melhor Filme: R$ 20 mil: Timing, de Amir Admoni
Melhor Direão: R$ 15 mil: Érico Rassi, de Milímetros
Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Erico Rassi de Milímetros
Melhor Ator: R$ 8 mil: Fábio Di Martino, de Milímetros
Melhor Atriz: R$ 8 mil: Débora Falabella, de Doce Amargo
Melhor Montagem: R$ 8 mil: Amir Admoni, de Timing
Melhor Fotografia: R$ 8 mil: André Modugno, de Relicário
Prêmio da Crítica:
Melhor Filme de Ficão: Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo
Melhor Filme de Documentário: Moscou, de Eduardo Coutinho.
Júri Popular:
Melhor Filme de Ficão: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.
Melhor Filme de Documentário: R$ 20 mil: Caro Francis, de Nelson Hoineff.
Melhor Curta-metragem Nacional: R$ 10 mil: Nesta Data Querida, de Julia Rezende.
Melhor Curta-metragem Regional: R$ 10 mil: Quem será katlyn, de Caue Fernandes Nunes.
Júri de Longas
Zuenir Ventura – jornalista e escritor
Adhemar Oliveira – exibidor (sócio diretor dos circuitos Espaço e Arteplex)
Elena Soarez – roteirista
João Jardim – diretor Maria
Ângela de Jesus – diretora de produção da HBO
Júri de Curtas
Ana Carolina Lima – atriz
Hubert Alquéres – diretor presidente da Imprensa Oficial
César Cabralk – Cineasta
Helvécio Marins – produtor e selecionador dos Festivais de Rotterdan e Locarno
Wilson Cunha – jornalista
Maria Clara Fernandes – diretora de finalização