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Brasil » Interessa

Curiosidade.Especialistas em neurociência explicam essa capacidade inerente a todos os seres humanos
Impressionantes e inusitadas façanhas do nosso cérebro
Os textos ao lado estão grafados errados, mas você consegue lê-los
Ana Elizabeth Diniz
Especial para O TEMPO

O cérebro, assim como o amor, tem razões e mecanismos que a própria lógica não consegue explicar. O que dizer desses textos aí ao lado escritos com letras e números, completamente errados ortograficamente, mas que você com certeza conseguiu ler?

"A lógica do cérebro é muito diversificada e nós tentamos entendê-lo de forma insuficiente. Como se fosse um computador, ele guarda um vocabulário memorizado. Quando lemos um texto escrito errado, automaticamente ele faz a correção ortográfica", explica Fernando Pimentel de Souza, neurofisiologista.

Para o professor, o indivíduo possui lógicas que dependem das redes neuroniais e das memórias que são estocadas no cérebro, mas ainda desvendamos muito pouco desse mecanismo. "Isso mostra que os circuitos cerebrais estão acima de uma lógica restrita que não é ao pé da letra e depende de uma regra mais geral. A capacidade de leitura depende da cultura, do aprendizado da pessoa e de suas vivências pessoais. Tudo isso está integrado em seu cérebro e denota a expansão do nosso universo de percepção".

Flexibilidade. Para Valéria FERNANDES de Souza, neuropsicóloga e mestre em psicobiologia, o cérebro tem muita flexibilidade para interpretar uma informação. "Nossa linguagem tem uma complexidade muito grande e com isso conseguimos criar arranjos impressionantes. A evolução nos tornou diferentes dos animais e possibilitou que criássemos variados arranjos de símbolos, mas isso só foi possível por causa da plasticidade do nosso cérebro".

A neuropsicóloga comenta que quando a pessoa passa por um processo de aprendizagem, primeiro tem que entender e memorizar cada letra e, mais tarde, percebe que juntas elas formam palavras. Esse saber fica consolidado e com o passar do tempo não é mais preciso que a palavra tenha todas as letras para que ela compreenda o seu sentido. É preciso apenas que a primeira e a última letras estejam corretas para que exista o significado.

Mas é preciso que os signos tenham alguma ordem para ganhar significado. "Uma criança que não passou pela alfabetização não vai entender uma palavra escrita de forma errada porque ainda não passou pelo processo de memorização das palavras. Se ela ler esses textos truncados, vai dar nó na sua cabeça", diz Valéria.

E como tudo no corpo humano parece obedecer a uma dinâmica perfeita, esse mecanismo economiza a nossa energia. "Imagine o desgaste que seria se toda vez que tivéssemos que ler um texto tivéssemos que iniciar todo o processo de identificação de cada signo. Quem faz tudo isso é nossa rede neural, que envolve várias áreas cerebrais".

O que se sabe é que podemos formar em nossas mentes mapas cognitivos através de informações externas. A representação da informação é a unidade básica do pensamento. Algumas idéias são melhor representadas através de símbolos gráficos, e outras através de imagens.

Embora tanto as formas semântica e analógica possam ser usadas para representar coisas e ideias, nenhuma forma de representação mantém realmente todas as características daquilo que está sendo representado. As teorias sobre a representação da informação se baseiam na hipótese da existência de códigos utilizados para armazenar na memória de longo prazo a informação, mas não explicam a origem desses códigos que deveriam pré-existir a qualquer interação do ser humano com o seu meio.

Provocação. Gisela de Almeida Batista, médica que atua na área de foniatria e fonoaudióloga, lembra que existem vários tipos de textos truncados que provocam nossa memória: são frases cortadas em sua metade superior ou inferior, com letras trocadas e números alternados com letras. "No final das contas, conseguimos ler corretamente o texto com certa facilidade. O que acontece é que o cérebro realiza uma busca lexical. No início ele estranha um pouco, mas logo consegue decodificar as palavras, como se fosse um computador".

A foniatra ressalta que quando começou a ler o texto publicado nesta página, ela não procurou estabelecer uma relação entre determinadas letras e números. "Isso aconteceu de forma inconsciente. A rede neuronal faz uma busca lexical sobre quais palavras podem caber ali para validar o sentido e, por exclusão, a pessoa passa a lê-lo de forma automática".

Publicado em: 26/07/2009



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