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Popular-cosmopolita: As configurações espaciais, musicais e movimentos do Bumba-meu-boi serviram de base para a criação de 'Bull Dancing - Urro do Omi Boi', em cartaz a partir de amanhã

FOTO: Sérgio Caddah/divulgação
Popular-cosmopolita: As configurações espaciais, musicais e movimentos do Bumba-meu-boi serviram de base para a criação de 'Bull Dancing - Urro do Omi Boi', em cartaz a partir de amanhã
Magazine

FID.Kaiowas Grupo de Dança, de Santa Catarina, e Marcelo Evelin/Demolition Inc., do Piauí, se apresentam no evento
Visibilidade à dança fora do eixo
Soraya Belusi

Vocação para dar visibilidade a grupos, artistas e criações de dança contemporânea que nascem fora do eixo cultural brasileiro - entende-se Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília - tem sido, ao longo de todas as edições, uma das características do Fórum Internacional de Dança (FID). Tal missão será cumprida na edição 2009 com a apresentação dos grupos Kaiowas, de Santa Catarina, e Marcelo Evelin/Demolition Inc., do Piauí.

Conterrâneo do Cena 11 (liderado por Alejandro Ahmed), o Kaiowas desembarca pela primeira vez na capital mineira, onde apresenta o espetáculo "Cumprimento Fiel", a partir de hoje. A diretora, Karina Barbi, adianta que o grupo pesquisa, nesse trabalho, a relação com elementos normalmente vistos como acessórios. "Dizemos que nesse espetáculo estamos em relação com o outro: a luz, o som e o espaço", adianta a coreógrafa.

Amanhã, Marcelo Evelin - que apresentou um solo na segunda edição do vento - e grupo mostram sua apropriação da linguagem corporal, musical e estética do Bumba-meu-boi em "bull Dancing - Urro de Omi Boi". "O Bumba nada mais é que a história do homem nordestino, brasileiro, entre o medo e dúvida, a brincadeira e o jogo, o desejo e a subversão, o trágico e a farsa. Mergulhei nessas coisas que permeiam o auto, a violência por exemplo, que está traduzida na própria morte do boi, mas, ao mesmo tempo, o mágico, que é ressuscitar esse boi, através de pajelanças e rituais. Essa metáfora foi muito importante, porque o brasileiro morre todo dia e nasce logo depois", adianta Marcelo, cujo espetáculo não reproduz a manifestação popular, mas, sim, se inspira para criar uma obra em sintonia com as questões da dança contemporânea.

Quando e onde ver
- "Cumprimento Fiel": Hoje e amanhã, às 20h, no Oi Futuro - Klauss Vianna (av. Bandeirantes, 4001, Mangabeiras).
- "Bull Dancing": Amanhã e sábado, às 21h, no Teatro Sesiminas (rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia)
* Ingressos: R$ 2 (inteira)
Confira a programação compelta em www.fid.com.br

PROGRAMAÇÃO DO DIA 
16 horas - FID Mostra de Filmes Paisagens Coreográficas Contemporâneas
Multiespaço Oi Futuro (Av. Afonso Pena, 4001, Térreo, bairro Mangabeiras, Belo Horizonte/MG)
Filmes:

  • Vagueação em quarto de hotel - 25’ (Direção: Philippe Barcinski e Dainara Toffoli)

  • La Madâ'a   - 26 (Direção: Benjamin Silvestre)

  • Uzès Quintet - 24  (Direção: Catherine Maximoff)

Classificação: Livre
ENTRADA GRATUITA. Limitada a capacidade do local.

19 horas - Oi Cabeça FID

Multiespaço Oi Futuro (Av. Afonso Pena, 4001, Térreo, bairro Mangabeiras, Belo Horizonte/MG)

Proposição: "Corpomídia".

Sinopse: A teoria corpomídia vem sendo desenvolvida pelas Profas Christine Greiner e Helena Katz. É o entendimento de corpo como corpo como mídia de si mesmo onde toda informação que chega entra em negociação com as que já estão e transmissão é processo de contaminação. Portanto, a teoria corpomídia rejeita a compreensão de corpo como veículo de transmissão, lugar que simplesmente abriga informações. O processo evolutivo de selecionar informações que vão constituindo o corpo é a mídia a qual o corpomídia se refere.

Propositora: Profa Dra Christine Greiner é professora do Departamento de Linguagens do Corpo da PUC-SP. Ensina nos cursos de Comunicação das Artes do Corpo e no Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica (projeto que desenvolve em colaboração com Helena Katz)onde coordena o Centro de Estudos Orientais. É autora dos livros ‘O Corpo, pistas para estudos indisciplinares’ (2005), ‘Butô, pensamento em evolução’ (1998) e ‘Teatro Nô e o Ocidente’ (2000), além de outros artigos e conferências publicadas no Brasil e no exterior.

Classificação: Livre
ENTRADA GRATUITA. Limitada a capacidade do local

20 horas - FID Conexão InterNacional

Teatro do Oi Futuro Klauss Vianna (Av. Afonso Pena, 4001, Térreo, Mangabeiras - Belo Horizonte/MG. Telefone 31.3229-3131)

Espetáculo: "Cumprimento Fiel"

Companhia: Kaiowas Grupo de Dança (Santa Catarina)

Classificação: Livre

Duração: 45'

Sinopse: É do contato do homem e seu entorno que emergem compromissos de diversas naturezas como éticos, culturais, ecológicos e sociais. O que é fiel nesse cumprimento é a tendência de nossas escolhas se generalizarem em hábitos descritos nas relações entre corpos e entorno.

Venda de ingressos: na bilheteria do Teatro do Oi Futuro Klauss Vianna

21 horas - FID Conexão InterNacional

Teatro Marília (Av. Alfredo Balena, 586, Centro - Belo Horizonte/MG. Telefone 31.3277-4697)

Espetáculo: "Fatigues"

Companhia: Rafael Alvarez (Portugal)

Classificação: Livre

Duração: 50'

Sinopse: Discute as relações de poder e das instituições que as promovem como a Militar, usada aqui como ilustração. Até onde e como a imposição de padrões e sua normatividade não se dá pela aceitação tácita destas ou pela flacidez de nossas vontades?

Venda de ingressos: na bilheteria do Teatro Marília



 





 Magazine entrevista Marcelo Evelin, que apresenta o espetáculo "bull Dancing - Urro de Omi Boi"

Você esteve em Belo Horizonte, participando do FID, ainda nas primeiras edições, há mais ou menos dez anos. Nesse sentido, o que mudou no seu trabalho desde então? Antes de qualquer coisa, preciso começar falando do Fórum. Para mim, o FID é um festival extremamente importante no Brasil, não só por se manter há tantos anos, mas por ser um fórum que de alguma maneira alavanca a ideia de dança no Brasil, mas dialogando com a Europa, com a América do Sul. Quando eu estive aqui em 1998, era para eu trazer o espetáculo "Antena", de seis pessoas, era uma peça de grupo, metade com bailarinos europeus e metade brasileiros. Mas ficou muito caro a estrutura e acabei vindo com um solo autobiográfico, "Ai, Ai Ai", e foi muito bacana. Mas entre nós, eu e a Banana (Adriana, curadora do evento) ficou sempre esse desejo em mostrar uma coisa mais de grupo, que tivesse a minha assinatura como coreógrafo, e esse ano a gente conseguiu fechar o "Bull Dancing", onde se vê um pouco o traço da minha assinatura de coreógrafo. Fico muito feliz em estar aqui e tentar colaborar com o meu trabalho para essa discussão que o FID levanta sobre a dança brasileira inserida em um contexto universal, com uma curadoria extremamente precisa, que não está preocupada em trazer o que já está no mainstream, grandes nomes, mas, sim, que ousa.

E quanto ao seu trabalho. Houve um aprofundamento nas questões que você já investigava em sua primeira vinda à cidade? O meu trabalho claro que evoluiu no sentido de aprofundar, de ampliar, de abrir novos status, em outras realidades. Nesse momento, uma das mudanças que percebo é que meu trabalho está muito mais conectado com valores sociais e políticos, claro que estou falando da política do corpo, do ser humano, e menos preocupado com uma estética ou uma linguagem artística forte. A outra coisa é que há três anos e meio passei a residir de volta no Brasil. Isso porque já estava fora do país há 22 anos, trabalhando em Amsterdã. Voltei porque me convidaram para dirigir um teatro no Piauí e montar um centro de criação artística no Bairro do Dirceu, uma das comunidades mais carentes de Teresina. Estou envolvido por esse projeto, com o fato de trabalhar num lugar descentralizado como já é o Piauí e ainda mais no Bairro do Dirceu. Tudo isso tem mudado muito a minha maneira de pensar a minha dança e meu posicionamento como cidadão. E isso está em sintonia com as escolhas que venho fazendo. O "Bull Dancing" é a segunda parte de uma trilogia, que deve acabar em 2010 e começou em 2003, com o espetáculo "Sertão", onde comecei a voltar meu olhar para esse território seco, árido, vegetação desértica. Depois criei o "Bull...", em 2006, já realizado no Brasil, todo com dinheiro brasileiro, o que é uma grande vitória.

Você citou que o Piauí é descentralizado em relação a outros Estados do país. Como é fazer dança fora do eixo da criação e dos financiamentos? O Piauí é realmente bastante descentralizado, não só porque está longe do eixo, mas porque é uma capital no interior do Estado. Fortaleza, que é ali do lado, já chega um pouco mais fácil aos outros, justamente porque atrai turistas e está perto do mar. Além disso, o Piauí é um Estado extremamente pobre, uma condição climática difícil, tem várias desvantagens que nos torna ainda mais isolados. Isso é muito sério, porque é isolamento de informação, de fluxo de pessoas, de fluxo de ideias, mas também um isolamento de autoestima. Eu já tinha saído do Piauí há quase 30 anos, porque fui morar em outras cidades antes de ir de vez para a Europa. E, quando voltei, encontrei um dado muito claro e presente que é o problema da autoestima. A cena contemporânea no Piauí ainda é muito pequena, existe uma cena de dança, grupos, bailarinos, uma escola do Estado, mas a informação realmente sobre dança contemporânea agora é que começa a aparecer no ar. E acho que isso vem acontecendo justamente por conta de termos instalado o Núcleo do Dirceu, um coletivo que trabalha com arte contemporânea. A gente promoveu nesses três anos apresentação de espetáculos, lançamento de livros, a criação de trabalhos, desenvolvemos o conceito de intérprete/criador. Por tudo isso, hoje em dia podemos dizer sim que há uma cena no Piauí.

Qual sua relação, de fato, com a cultura popular? O Bumba-meu-boi é a fonte de inspiração do espetáculo que você vem mostrar aqui. Quando eu comecei a voltar meu olhar para o Brasil, fui lá na fonte, naquilo que eu sempre me relacionei. O Bumba-meu-boi faz parte da nossa cultura piauiense, é um auto, uma história da colonização do Piauí. Nós éramos apenas um pasto, era o lugar onde os bois ficavam comendo e as pessoas observando. Isso determinou muitas coisas no nosso comportamento. Mas, culturalmente, o Bumba foi adotado pelo Maranhão, que cuida disso de uma maneira incrível. Eu busquei essa manifestação por uma questão muito pessoal, já que a primeira vez que eu pude dançar foi no Bumba, devido ao machismo do Nordeste. Quando eu tinha dez anos de idade, não existia escola de dança, era outro Brasil e outro mundo. Então eu tenho essa relação afetiva com o Boi, é uma possibilidade de comungar com o imaginário, de fazer parte de um ritual coletivo do meu lugar. E depois eu comecei a pesquisar isso, fui várias vezes à festa no Maranhão, e comecei a me interessar pelo lado histórico dessa manifestação. Eu tinha criado "Sertão" e, quando decidi fazer a segunda peça, foi quase intuitivo pegar o Bumba. Eu não peguei pensando justamente no popular, eu peguei uma coisa que era minha.

E que tipo de diálogo você estabelece com essa matriz? Você se apropria dela e constrói uma outra coisa, sem ser uma mera reprodução? Essa trilogia eu comecei com a história do sertão, do aspecto geográfico, mítico, estético e musical desse espaço. Na pesquisa, li "Os Sertões", do Euclydes da Cunha, que me deu embasamento para o trabalho. Mantive na minha cabeça a estrutura do livro ("A Terra", "O Homem" e "A Luta"). Enfim, a primeira parte da minha trilogia era muito claramente a terra. Na segunda, teria que ser o homem, e ai ficou mais claro que seria o Bumba, porque nada mais é que a historia do homem nordestino, brasileiro, entre o medo e dúvida, a brincadeira e o jogo, o desejo e a subversão, o trágico e a farsa. Mergulhei nessas coisas que permeiam o auto, a violência por exemplo, com a própria morte do boi, mas, ao mesmo tempo, o mágico, já que na festa se ressuscita esse boi, através de pajelanças e rituais. Essa metáfora para mim foi muito importante, porque o brasileiro morre todo dia e nasce logo depois. E aí, durante todo esse processo, surgiram questões como a minoria, a diferença de classes, a questão da mulher, do gay, do índio e do negro. Fui alinhavando isso tudo com a estética do movimento, as configurações espaciais do boi, que são simples, mas incrivelmente sofisticadas. Parti dessas referências e dinâmicas ligadas ao corpo - o joelho, por exemplo, está sempre dobrado, o quadril está sempre em movimento -, mas eu faço uma transposição a partir daí para o que eu considero a minha visão coreográfica. A música é inteiramente baseada no original, nos instrumentos do Bumba. Eu me inspirei como matriz de movimento e música, mas conectado com uma construção do que isso nos diz agora. Na música, por exemplo, pegamos a raiz binária do Boi e transformamos isso em música eletrônica. O tempo inteiro eu busquei essa ideia de transposição. Eu realmente constatei que estava no meio da encruzilhada que se chama arte popular, eu não tento tomar nenhum partido, nem defendendo ou tampouco menosprezando. Eu só constatei que estava no meio da encruzilhada e gostei desse lugar.



Magazine entrevista Karina Barbi, do Kaiowas Grupo de Dança, que apresenta "Cumprimento Fiel"

Uma das missões do FID é dar visibilidade a cenas pouco conhecidas pelo público belo-horizontino, como é o caso de Santa Catarina, Estado do qual conhecemos bem apenas o Cena 11. Como você avalia essa descentralização, essa oportunidade de mostrar o trabalho em outras praças? O nosso grupo já é bem antigo, estamos trabalhando desde 1998. Já no ano seguinte, em 1999, começamos a circular mais, já fizemos vários eventos como CCBB, conseguimos fazer o Festival de Recife, de Fortaleza, Panorama da Dança no Rio de Janeiro, o Fora do Eixo em São Paulo. Mas é a primeira vez que mostramos nosso trabalho em Belo Horizonte e isso é muito bacana.

Como pesquisa do grupo, há algum elemento que seja recorrente na composição coreográfica ou nas questões que vocês vêm investigando? De um espetáculo para o outro existe uma mudança muito forte. Digo isso tanto nos quesitos cênicos quanto físicos. A cada espetáculo, tentamos buscar novas possibilidades para o corpo, e talvez essa seja a única questão realmente recorrente. Neste trabalho que vamos mostrar, o "Cumprimento Fiel", foi a primeira vez que nos organizamos espacialmente como um teatro de arena, não temos uma frente definida, nada é direcionado para a plateia, buscamos a liberdade de dançar cada um para o lado que quiser.

O que vocês investigaram em "Cumprimento Fiel"? O que norteou a criação do espetáculo? esse trabalho a gente quis fazer uma ligação muito forte com o som, várias vezes o som está dentro do palco e funciona como deixa para começar e fechar momentos. A luz também é muito importante, nós mesmos manipulamos algumas luminárias. Costumamos dizer que estamos lidando com o outro: a luz, o som e o espaço.

No material de divulgação, vocês dizem que "Cumprimento Fiel" é sobre os compromissos que fazemos ao longo da vida, sejam eles religiosos, amorosos, éticos. Isso me parece estar em sintonia com a proposta do FID de pensar o conceito de "etitude", da ação e da ética em consonância. Quando falamos desse compromisso, estamos nos referindo ao respeito por aquilo que estamos fazendo, sobre as convicções, o cuidado não só pela direção, mas cada um do elenco, o espaço que ele mesmo está desenvolvendo, uma liberdade muito forte de adquirir seu espaço ali entro. "Cumprimento Fiel" foi feito com a certeza, cuidado e respeito.

Publicado em: 22/10/2009



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