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Paulistano. Adoniran adotou São Paulo como personagem dos seus sambas

FOTO: OSWALDO JURNO/AE/15.02.1978
Paulistano. Adoniran adotou São Paulo como personagem dos seus sambas
Magazine

Memória. Compositor (e também ator) paulistano completaria em 2010 cem anos de uma vida dedica à boemia e à arte
Saudoso Adoniran Barbosa
Douglas Resende

Daqui uns meses vai fazer cem anos desde que nasceu João Rubinato. Ele veio ao mundo, mais exatamente, em 6 de agosto de 1910, em Valinhos, então distrito de Campinas e, naquela época, destino de muitos imigrantes italianos. Talvez ninguém saiba quem seja esse tal João Rubinato que merece ser lembrado no seu centenário. Mas, é certo, conhecerá o personagem que ele criou para sua vida - de chapéu, paletó e gravata borboleta, o ilustríssimo Adoniran Barbosa.

Conhecido e reconhecido, um tanto tardiamente, como um dos maiores e mais singulares compositores da história da música popular brasileira, autor de alguns dos clássicos mais cantados do samba, entre eles "Saudosa Maloca" e "Trem das Onze", Adoniran Barbosa foi também um ator. Entre inúmeros biscates aos quais teve de recorrer quase a vida inteira para sobreviver, o boêmio perdulário e malandro, paulistano por opção e corintiano de carteirinha, criava as letras e melodias dos seus sambas. Mas a atividade à qual Adoniran mais se dedicou foi de ator de rádio, ao longo dos anos 1940, chegando ao auge nos 1950, quando foi ao ar pela Rádio Record o programa "Histórias das Malocas", no qual interpretava Charutinho, personagem bastante popular para os ouvintes da época.

Segundo o perfil biográfico "Adoniran - Se o Senhor não Tá Lembrado" (Boitempo), de Flávio Moura e André Nigri, ex-repórter d’O Tempo, hoje na revista "Bravo", o grande sonho de Adoniran era ser ator. Celso de Campos Jr., autor da biografia mais completa do sambista e ator, "Adoniran - Uma Biografia", diz que "ele gostava mesmo era do aplauso". "Eu acho que ele queria mesmo era ser reconhecido como artista. Queria começar a carreira como cantor. Mas não deu certo, a voz dele não era boa e a concorrência era muito grande. Então o (jornalista e produtor) Oswaldo Molles descobre a veia cômica do Adoniran como ator", comenta o autor da biografia que a Editora Globo acaba de relançar, acrescentando cinco scripts de "Histórias das Malocas".

Poeta da cidade. Charutinho foi um entre as dúzias de personagens de João Rubinato. Ele chegou inclusive a fazer uma ponta no clássico do cinema nacional "O Cangaceiro" (1953), de Lima Barreto, e trabalhou em novelas da TV Tupi. Mas o principal personagem criado por João era mesmo Adoniran Barbosa, pseudônimo que adotou para substituir o nome italianado (ele era filho de italianos) e tornar sua identidade mais brasileira. Um Charlie Chaplin brasileiro, como muitos o chamaram.

Embora na maior parte da sua vida tenha sido mais conhecido como artista de rádio, aos poucos foi sendo descoberta sua obra musical. Interpretada pelos Demônios da Garoa, grupo que acompanhou Adoniran durante décadas, "Trem das Onze" foi a composição vencedora do concurso de sambas do Carnaval carioca de 1965. "Tocamos quase 100% do repertório dele", diz Canhotinho, cavaquinista dos Demônios desde 1962. "‘Malvina’ e ‘Joga a Chave’ foram músicas de Carnaval, depois vieram ‘Saudosa Maloca’, ‘Samba do Arnesto’, ‘Trem das Onze’...".

Mesmo já registrada, esta última só foi chamar atenção mesmo em 1973, quando foi gravada por Gal Costa, numa apresentação no Anhembi, em São Paulo. E, no ano seguinte, aos 64 anos de idade, Adoniran Barbosa finalmente gravava o seu primeiro LP, reunindo 12 peças de uma obra até então toda dispersa. A produção musical do disco, assim como os maiores esforços para que o LP viesse a lume, era de um amigo de Adoniran, João Carlos Botezelli, o Pelão. "Conheci o Adoniran como a gente deve conhecer os grandes amigos, em um bar", diz Pelão. "Ele criava melodias na hora, assim, no bar, assobiando. Começamos a conversar e aí fiquei amigo dele".

Segundo Pelão, foram feitos registros de várias canções com Adoniran, das quais apenas algumas foram escolhidas para compor os dois LPs lançados pela Odeon. Ele afirma que, portanto, a gravadora ainda possui material inédito significativo guardado no acervo da gravadora. "Eu sofri pra burro pra escolher as 12, 14 músicas do disco", diz Pelão. O resto, inédito e gravado, ficou lá, empoeirando em meio ao desinteresse da gravadora, hoje EMI.
Voltando ao passado, com o lançamento do primeiro LP, em 1974, aquele que antes era um cantor mixuruca, de voz rouca e garganta cheia de pigarros, resultado da quantidade de cigarros Yolanda, tornou-se então um intérprete com o "encanto insinuante de sua antivoz rouca", como escreveu o crítico Antonio Candido em texto impresso na contracapa do disco.

Gravado por Gal e, depois, por Elis Regina, com a chancela do crítico literário mais respeitado no país, o sentido da arte de Adoniran era afinal e definitivamente compreendido: tratava-se de um autêntico poeta popular, que cantava a cidade e o seu linguajar, mistura de italiano e português caipira; um cronista que contava, em seus versos romanescos e saudosistas, as transformações frenéticas da metrópole paulistana, como por exemplo a demolição de um certo "palacete assobradado" para construção de um "adifício arto".

"O Adoniran pode ser considerado um cronista na mesma linha de Mario de Andrade, Juó Bananère e Alcântara Machado. Retratava a cidade pelo que ouvia nas ruas. Transitava por todas as classes sociais, frequentava as malocas e ao mesmo tempo as festas do rádio", comenta Campos Jr. Por isso, segundo o biógrafo, Adoniran tinha a "consciência do mecanismo social", o que deu a sua obra o "forte caráter social".

"A enchente que levou o barracão de fulano, que não tinha pra onde ir. O cortiço do pessoal que é derrubado pra fazer um edifício. Eu considero isso uma crítica social. A obra dele é cheia de ironias, aquele toque que parece desprentensioso, mas não é. E é mais atual do que nunca. São Paulo hoje está debaixo d'água. E quem está fazendo samba sobre isso?"

Comemorações do centenário de Adoniran
Projetos em homenagem ao compositor que estão confirmados para 2010

Portal Adoniran. O site vai trazer dados biográficos e jogos e quadrinhos inspirados no universo de Adoniran, com o intuito de atrair o público mais jovem.
"Adoniran 100 anos". O CD, que chega às lojas depois do Carnaval, vai ter interpretações de clássicos do compositor nas vozes de Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, Beth Carvalho, Mart’nália, Wanderléa, entre outros.
"Por Toda Minha Vida". Nesse docudrama da Globo, com direção de Fabrício Mamberti e previsto para o segundo semestre, Adoniran será interpretado por Hugo Napole, na fase adulta, e Marcelo Airoldi, na juventude.



Artesão. "Ele via um arame na rua e guardava", conta Pelão, ao falar das miniaturas feitas por Adoniran (centro); objetos constam do acervo

FOTO: fotos Acervo Adoniran Barbosa/divulgação
Artesão. "Ele via um arame na rua e guardava", conta Pelão, ao falar das miniaturas feitas por Adoniran (centro); objetos constam do acervo
Entrevista
Filha e guardiã da memória

A vida pessoal era assunto que Adoniran Barbosa parecia não gostar de falar, pelo menos assim em público. Mas hoje, à luz do tempo, fica claro o quanto seus laços familiares ganham importância fundamental para a sua memória, e portanto para a memória da cultura brasileira.
Segundo o biógrafo Celso de Campos Jr., o acervo que hoje se tem de Adoniran foi guardado sobretudo pela sua segunda esposa, Mathilde. “Ela guardava tudo que se pode imaginar. Fazia clipagem, era quase uma assessora de imprensa”, diz.

Esse acervo era mantido pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, até o final do ano passado, quando Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, 72, filha única de Adoniran, fez um pedido para reaver todo o material, que inclui, entre inúmeras outros documentos e objetos, as pequenas peças de artesanato que o sambista gostava de fazer e as duas fotografias que se vê nesta página (veja mais na web). Imagens raras, talvez pela primeira vez impressas num veículo de comunicação.

Maria Helena nasceu do primeiro casamento de Adoniran, com Olga Krum. E com o fim precoce da relação dos pais, foi para a casa de tios, no Rio de Janeiro logo aos dois anos de idade. Gentil e bem disposta, Maria Helena concedeu ao Magazine esta entrevista por e-mail, em que fala da questão do acervo e de sua relação com o pai.

Por que a senhora pediu o acervo de volta? O acervo foi doado à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Objetivo maior: que fosse digitalizado, restaurado e pudesse estar apto a receber os pesquisadores e interessados em geral na vida e obra de meu pai e também na memória da cidade de São Paulo, da qual ele foi um excelente retratista. Ficou no mezanino do Teatro Sergio Cardoso por um tempo e depois foi levado para o MIS. Lá não foi feita a digitalização das partituras ou dos textos dos programas radiofônicos; não restauraram os discos antigos, 78rpm ou LPs; não recuperaram os brinquedinhos (que são o meu xodó). Numa pequena sala, poucos itens ficaram expostos algum tempo. O MIS entrou em obras e foi tudo encaixotado, muito bem embalado e bem cuidado, diga-se a bem da verdade. Mas ao ler uma declaração do secretário de Cultura de SP, João Sayad, sobre os novos planos para o MIS, na qual ele dava como exemplo “peças do acervo de Adoniran Barbosa que não deveriam estar no MIS”, fiquei preocupada, porque o acervo é um lote que não deve e não pode ser desmembrado. Pedi de volta e fui atendida. Agora está de novo conosco.

Quais são os planos da senhora para o acervo? Li na imprensa algo sobre uma Casa Adoniran. Como é esse projeto? Esse é um projeto muito caro ao meu coração. Mas não há, infelizmente, data para sua realização, pois falta o principal: dinheiro. A mola mestra que move tudo.

A senhora poderia dar mais exemplos do que há no acervo? Claro: partituras, textos dos roteiros dos programas na Rádio Record, entrevistas, fotos, discos, objetos pessoais, troféus, documentos como cópias de contratos, brinquedos e outros objetos feitos por ele, as ferramentas que usava para fazer essas peças, e muito mais.

As biografias de Adoniran contam que a senhora não foi criada pelo pai biológico. Quando foi que descobriu que seu pai tratava-se de um grande compositor? (Pergunto até porque esse reconhecimento por parte da sociedade foi tardio). Eu sempre soube quem era meu pai. Não houve uma revelação. Eu sempre soube que não era filha dos tios que me criavam e que acabaram sendo “papai” e “mamãe” para mim. Moro no Rio desde os dois anos de idade, mas ir a São Paulo era coisa frequente, até porque a mamãe (Ainez, irmã mais velha do Adoniran) era uma paulista apaixonada e tinha família e muitos amigos em São Paulo. Assisti a programas dele no auditório da Record. Mas atinar que era filha de um grande compositor, o que hoje me é bastante claro, veio com a idade.

Alguns textos dizem que, talvez pelo trauma de um casamento que não deu certo, Adoniran costumava dizer que não tinha filhos. Vocês chegaram a se relacionar? Isso não é uma verdade completa. Ele não “costumava dizer isso”. Numa entrevista, das muitas que deu criando um personagem para si mesmo, ele disse que não tinha filhos. Mas ele nunca negou a paternidade e não abriu mão do pátrio poder. E eu, nos meus documentos, sou filha de João Rubinato, conforme certidão de nascimento registrada por ele e certidão de batismo. Ele também, já mais velho, falou no netinho. Como poderia ter um neto se não tivesse filhos? Nosso relacionamento não foi pai/filha, evidentemente. E se ele tivesse talento para esse “papel”, não me teria entregue à irmã. Digamos que foi um tio alegre e brincalhão, que eu, depois de adulta, via de vez em quando. Tinha a minha vida para viver.



Lembranças
"É muito fácil achar Adoniran"

Pouca gente sabe, mas Adoniran Barbosa era também um artesão. Fazia miniaturas de bicicletas, trens e outros objetos. “Ele via um arame na rua e guardava”, lembra João Carlos Botezelli, o Pelão. “Eu sou um dos que tem a bicicletinha dele”, orgulha-se o amigo e produtor musical.

Além de Pelão, outro ilustre privilegiado a ganhar uma das bicicletinhas de presente foi o crítico literário Antonio Candido. Depois que ele escreveu o texto para a capa do seu primeiro LP, Adoniran fez questão de conhecer o crítico. Em gratidão, o sambista lhe entregou a miniatura e um disco autografado na capa, com a dedicatória: “Ao Tonho, um abraço com muito afeto, Adoniran Barbosa”.

Já Pelão, responsável pela gravação desse primeiro LP de Adoniran, se orgulha de ser o herdeiro, além da miniatura, de um dos chapéus de Adoniran. Todos os anos, no dia 6 de agosto, ele bota o chapéu na cabeça e sai pelas ruas de São Paulo e passeia pelo Bixiga, bairro onde, embora o sambista não tenha morado, estavam os bares e cantinas que ele mais gostava de frequentar.

“Saio por São Paulo com o chapéu dele e começo a lembrar do que ele falava, como fazia. Eu me pego me traindo, falando como ele, enrolando o cara do bar: ‘Comi três, mas na verdade foram duas, então eu pago uma’. O cara do bar: ‘Hein?’ E saía com classe num táxi”, relembra Pelão, acrescentando, com a nostalgia típica de Adoniran, o quanto a cidade tem mudado. “A cidade está mudando e ele viu essa transformação em vida”.

Mas uma coisa não muda, lembra Pelão. “Até hoje, em qualquer escola pública que você vai e coloca uma música do Adoniran, a meninada toda sai cantando as músicas dele”, comenta. “Ele é um elemento vivo de São Paulo. É muito fácil achar o Adoniran – é só você sair pela cidade. Viva o Adoniran! Importante pra São Paulo como é para o Brasil!”, celebra o amigo. (DR)

 

 

Publicado em: 31/01/2010



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