Moradores do bairro Santa Tereza cobram revitalização do espaço em vez da instalação da sede da Guarda Municipal.
Com as mãos dadas, moradores do Santa Tereza, região Leste da capital, promoveram ontem o primeiro ato de sensibilização contra a desativação do mercado distrital que leva o nome do bairro, localizado na região Leste de Belo Horizonte.
Dezenas de pessoas abraçaram o que restou de estandes no espaço, entoando gritos de guerra em favor de uma revitalização. Antes da ação simbólica, os manifestantes se reuniram na praça Duque de Caxias e desceram a pé até o mercado, acompanhados por um carro de som e um grupo de percussão.
A Polícia Militar estimou cerca de 50 participantes, mas a organização acredita que o número foi superior. Criado em 1974, o local deverá abrigar o quartel-general da Guarda Municipal Patrimonial e, com isso, enterrará uma história de mais de 30 anos construída à base do lazer, convivência e abastecimento.
"Não concordamos com a forma arbitrária com que o assunto foi conduzido: sem diálogo. A proposta de estimular a cultura e o lazer no espaço vai de encontro à tradição do Santa Tereza", afirmou o presidente da associação comunitária do bairro, Yé Borges.
Borges mostrou desagrado em relação à panfletagem de material da Prefeitura de Belo Horizonte durante a mobilização realizada ontem. Os informativos explanavam sobre os benefícios da instalação da corporação no local.
Público
Um grupo de amigas que frequentam o mercado desde a fundação também clamou pela readequação do mercado e sugeriram alternativas para atrair mais público como a instalação de agências bancárias, farmácia popular e sacolões que possam oferecer preços mais acessíveis.
"Sabemos que o local está abandonado e é até perigoso, pois muitos aproveitam para usar drogas nos arredores. Mas aqui é perfeito para o encontro de amigos, além de ser perto de nossas casas", disse a pensionista Maria Lúcia Soares, 56.
Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Belo Horizonte, o mercado não tem mais vitalidade e é pouquíssimo frequentado. Nos últimos dez anos, o município fez sete licitações para ocupação de 39 vagas, mas apenas 13 candidatos se apresentaram, dos quais apenas três chegaram a ser instalados.
Atualmente, segundo a administração municipal, o espaço tem apenas nove permissionários (comerciantes), sendo que há potencial para outros 51 trabalharem. Ainda conforme a assessoria, a população do bairro foi ouvida e não apresentou nenhuma resistência à implantação do quartel-general.
Ao contrário do que a prefeitura argumenta, os trabalhadores dizem que tiveram conhecimento da notícia pelos jornais.
"Não recebemos nada oficial e estamos revoltados com a decisão unilateral. Na próxima semana, haverá uma audiência na Câmara de Vereadores e, dependendo do resultado, poderemos entrar com mandado de segurança para impedir a nova destinação do lugar", explicou o presidente da Associação dos Comerciantes do Mercado Distrital do Santa Tereza, Giovanni Laureano Teixeira.
O deputado estadual André Quintão (PT), também morador do bairro, participou do ato e reiterou sua posição sobre o assunto. "O mercado precisa ser revitalizado por atividades que combinem com a vocação local: a gastronomia e cultura. A utilização mais adequada não é um quartel", afirmou Quintão.
Câmara vai discutir mudança da finalidade do projeto
BIANCA MELO
A mudança de finalidade dos mercados distritais de Santa Tereza e do Cruzeiro, em Belo Horizonte, será discutida em audiência pública na Câmara dos Vereadores, na próxima quarta-feira, às 15h.
A discussão, pedida pela bancada do PT na câmara, deve avaliar com a população interessada o projeto de lei nº 1.142, de autoria do Executivo. Segundo o projeto, os dois imóveis, hoje considerados bens públicos de uso especial, passarão a ser patrimônio "dominial" do município e, logo, poderão servir a outros fins.
O projeto já passou pela Comissão de Legislação e Justiça e está agora na de Administração Pública. O próximo passo é submeter à votação dos vereadores.
Prazo
Os 13 comerciantes instalados no Mercado Distrital Santa Tereza têm menos de três meses para deixar suas lojas e, se quiserem, transferir as atividades para a Central de Alimentação Municipal (CAM), no bairro São Paulo. Para o mercado do Cruzeiro, a proposta é revitalizá-lo e transferi-lo para exploração da iniciativa privada.
A justificativa é a perda da finalidade original dos mercados, concebidos para auxiliar as transações de compra e venda de produtos agrícolas no varejo. Lojistas do Mercado Distrital de Santa Tereza e um grupo de moradores querem pressionar os vereadores.
"Vamos levar faixas, cartazes e, possivelmente, até um carro de som", afirma o presidente da Associação de Permissionários e Amigos do mercado, Giovanni Lauriano Teixeira.