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Economia

Controlados e gastadeiros se atraem
Conversa franca do casal pode evitar crise, mas consultora recomenda mulher a não emprestar dinheiro ao marido
HELENICE LAGUARDIA

O grande segredo é o jogo aberto, o equilíbrio, a conversa transparente do casal sobre dinheiro, sonhos e contabilidade. A matemática de sucesso para evitar dissabores é do consultor financeiro Gustavo Cerbasi, 33. As brigas sempre acontecem em função de alguma realização do companheiro que detona o orçamento baseado em um prazer individual. "Os opostos se atraem. Pessoas controladas vão sentir uma energia diferente quando convivem com pessoas mais gastadeiras", diz. A consultora financeira Cássia Figueiredo, 51, desaconselha mulheres a montarem negócio ou dar mesada para o marido. Para ela, existem outras formas de ajudar o homem desempregado, reduzindo despesas em casa e incentivando-o a voltar ao mercado de trabalho.

Cássia, solteira, namora há dez anos e pretende se casar um dia. E ensina: "Escolha um marido que pague as despesas básicas (aluguel, conta de luz, telefone etc)". Para ela, a mulher tem expectativa de que o homem banque as despesas básicas em qualquer nível econômico e cultural do casal. Ela tem o trabalho de convencer as clientes, em Belo Horizonte, a não fazer negócios para o marido. Já conseguiu tirar muitas da beira do precipício e do arrependimento, como uma advogada que queria emprestar R$ 25 mil para o parceiro montar uma oficina mecânica só porque ele era talentoso. "Eu disse que nem sempre quem é talentoso dá certo", lembrase. O casal acabou se separando depois das tentativas frustradas de ajuda financeira da mulher.

Nome não se empresta
Gustavo Cerbasi, autor do livro "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos", também defende a separação entre a vida pessoal e empresarial de uma família. "Quando a mulher assina como fiadora do marido, ela está fazendo um empréstimo para ele", explica. "Não se empresta o nome para parentes ou amigos de maneira alguma", diz, para não comprometer o relacionamento familiar. Ele avalia que o risco dessa transação emocional e financeira é muito grande e cita o próprio exemplo. "Eu e minha mulher estamos trabalhando juntos, mas não misturamos a vida pessoal com a vida da empresa", diz. Consultor financeiro de 200 famílias em São Paulo, Cerbasi diz que ser gastador não é erro e ser poupador é pensar numa vida rica no futuro. Mas os comportamentos extremistas são ruins para qualquer pessoa.

"A vida de abastado é prazerosa, mas tende a terminar em depressão", prevê. O primeiro passo para o equilíbrio das contas é tentar reconhecer quem é o mais gastador e quem é o mais poupador, para assumir as rédeas da organização financeira. O erro mais grave é a imposição de limites, a troca de farpas. "Se eles vão rachar contas, um vai conseguir fazer poupança e o outro, não", diz. Cerbasi admite que é melhor a mulher assumir a função financeira na casa porque, nas mãos do homem, "fica uma situação nebulosa". Ele ensina que o controle orçamentário de uma casa, com a receita, despesas, dívidas e investimentos, deve ser feito numa planilha simples. "Basta ter uma pasta na gaveta, guardar os comprovantes e somar tudo no final do mês."

Ele aconselha a concentração de depósitos do casal numa mesma instituição financeira para alcançar melhor relacionamento bancário, e cartão de crédito para acumular pontos, numa união de forças para antecipar resultados. "O que define o que é de cada um é o regime de casamento."




FOTO: EDITORIA DE ARTE
Dinheiro destrói um casamento

Eliana Bussinger, 50, três filhos, é autora do livro "As Leis do Dinheiro para Mulheres" (editora Elsevier). Inspirada nas "dívidas sexualmente transmissíveis", ela conta casos semelhantes ao vivido por ela própria. "Já sofri pressões de estar com prioridades em casa e elas virarem um jet-ski", diz, sobre a compra do ex-marido. A conta era conjunta e ele comprou sem dar a menor satisfação.

O TEMPO - Essas pequenas mordidas no orçamento familiar podem detonar o relacionamento tanto quanto outros abusos?
Eliana Bussinger -
Sim, você pode levar anos para recuperar o estilo de vida que tinha antes, mas as mulheres aprendem a ter uma vida mais restrita. Temos resiliência e agimos por razões biológicas. A questão do dinheiro tem o poder de destruir o casamento. Já vi mulheres assinando procurações sem ler nada. (...) É uma fé estranha, porque no fundo somos honestas e acreditamos que as pessoas também serão. (...) Ou talvez tenhamos o complexo de cinderela mesmo.

O que tem acontecido em nossas empresas?
Eu tinha um diretor que estava numa reunião e a mulher dele ligou. Ele saiu para atendê- la. Se fosse uma mulher na direção, a diretoria olharia com outros olhos. As mulheres entram no mercado em busca de dinheiro, começam a aprender a ganhar dinheiro, falta aprender o que fazer com o dinheiro.

Como é essa questão das dívidas sexualmente transmissíveis?
Nós, mulheres, não sabemos o valor do dinheiro para o tempo futuro. Falta-nos visão do longo prazo e esperamos o príncipe encantado nos salvar quando nos acontece algum problema. É a dívida que não é sua e você acaba pegando do seu marido, namorado ou parceiro. É grande o contágio de dívida. Mulheres são as maiores vítimas porque passam a impressão de não confiar no parceiro ao negar pagar uma dívida dele.

Qual é a saída?
Preste atenção às coisas que o marido vai comprar que só beneficiam a ele e saiba dizer não, sempre. A mulher sempre se compadece dos assuntos dos homens. (HL)



Cândida e Mário estão casados há 25 anos e nunca brigaram por dinheiro

FOTO: DANIEL DE CERQUEIRA
Cândida e Mário estão casados há 25 anos e nunca brigaram por dinheiro
Do controle à falência, cada casal do seu jeito

Se você acredita em horóscopo e está procurando um marido com vida financeira organizada, aposte em sagitário. Ou tenha você mesma um perfil organizado, é mais fácil e não depende da combinação dos astros. O sagitariano Mário Robualdo de Oliveira, 55, e a libriana Cândida Maria Carneiro de Oliveira, 50, estão casados há 25 anos e nunca misturaram dinheiro com amor. "Sempre fomos organizados, só fazemos dívidas que vamos dar conta", ensina Oliveira. O casal se conheceu em Piranga, na região Central de Minas Gerais, e trouxe para a capital os valores da família tradicional com enfoque na educação das três filhas.

Ela é dentista, ele é engenheiro civil. Com uma renda familiar de R$ 12 mil, sobram cerca de R$ 1.500 distribuídos para poupança, viagens e gastos extras. A filha Renata nunca viu os pais brigarem por causa de dinheiro. "Quero ser como eles e encontrar um marido pé no chão, com prioridades claras como meu pai", diz orgulhosa. Nem todos vivem imunes às turbulências financeiras. Com o casal Maiony e Paulo César Villano, os problemas começaram em 1998. "Decidimos abrir uma locadora de veículos em Linhares, no Espírito Santo, com meu pai", conta Maiony. A aventura durou dois meses. "Coloquei todas as minhas economias nas mãos do meu marido e quebramos", diz, referindose aos R$ 20 mil emprestados para abrir o empreendimento. Nem assim o amor mudou.

Eles voltaram para Belo Horizonte e recomeçaram a vida do zero, só com o teto. "Um segurou a barra do outro, além de amantes fomos amigos", revela. Com a crise, ficaram mais unidos e agora ela quer viver com o marido até que a morte os separe. A união de 14 anos está baseada no perfil controlador dos dois em relação às finanças. Ela, às vezes, fica desesperada com as contas a pagar, devido à insegurança do rendimento diário do marido taxista. Mas espera poder dar escola aos filhos e viver com mais tranqüilidade no futuro. A tormenta passou. O casal já voltou a ter casa própria, carro com placa de táxi, viagem nas férias, previdência privada. "Eu administro o dinheiro que ele me dá", explica a mulher. O casal tem receita de R$ 4.000, despesas de R$ 4.000 e investimento zero. "Procuramos nunca ficar no vermelho com cheque especial nem cartão de crédito", diz. (HL)



Combinação de perfis pode trazer prosperidade ou miséria

Cada casal tem um estilo de lidar com o dinheiro e a combinação dos perfis pode trazer a prosperidade ou a miséria. No livro, "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" (Editora Gente), o consultor financeiro Gustavo Cerbasi faz um mosaico de 14 combinações como num xadrez de valores. Dentre eles, estão o poupador com o gastador, quando os números estarão sempre contra o relacionamento. O poupador e o descontrolado se baseiam no esforço do poupador permitir um futuro seguro que o descontrolado jamais conquistará. Para o poupador casado com o desligado, as discussões relacionadas a dinheiro não acontecerão.

Poupador com financista será a união do sucesso financeiro. Mas o relacionamento não vai durar muito para o gastador e o descontrolado. Se o gastador e o desligado se unirem terão a tranqüilidade reinante ao longo do relacionamento. Já a combinação gastador e financista é o casamento da razão com a emoção. No descontrolado com o desligado, o relacionamento será uma navegação rumo ao infinito, sem nunca saber onde aportar. O autor mostra ainda a relação entre o descontrolado e o financista: tempestades à vista. Desligado e financista juntos precisam conversar muito para a mútua colaboração. Poupador com poupador terão sucesso se se esforçarem no sentido de encontrar um sentido para o dinheiro.

Gastador com gastador requerem uma matemática delicada para evitar consumir 100% da renda. Descontrolado com descontrolado não esperarão a velhice para se atolarem em problemas e desligado com desligado podem ou não atingir suas metas. O controle que falta para a maioria dos casais, na união de financista com financista tem até demais. (HL)

Publicado em: 23/09/2007


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