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 Tanques onde eram feitas as misturas; duas cooperativas são acusadas de crime contra a saúde pública FOTO: COMUNICAÇÃO SOCIAL SR /MG |
| Tanques onde eram feitas as misturas; duas cooperativas são acusadas de crime contra a saúde pública |
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CidadesSoda cáustica e água oxigenada no leite
PF prendeu 27 pessoas em Passos e Uberaba ligadas a cooperativas que adulteravam leite
SANDRA CARVALHO /LÍVIO BARBOSA
Vinte e sete pessoas foram presas na operação Ouro Branco, da Polícia Federal (PF), realizada na manhã de ontem em Uberaba, no Triângulo Mineiro, e em Passos, no Sul de Minas. O objetivo da ação foi combater a adulteração de leite que, segundo a PF, estaria ocorrendo em duas cooperativas. Durante a ação, foram detidos dirigentes e empregados das duas cooperativas envolvidas e um servidor do Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura, responsável pela fiscalização da produção de leite e seus derivados.
A Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Coopervale), em Uberaba, e a Cooperativa Agropecuária do Sudoeste Mineiro (Casmil), em Passos, são acusadas de adicionar uma mistura com várias substâncias químicas, entre elas, soda cáustica e água oxigenada, para aumentar o volume do leite e a longevidade do produto. Elas revendiam o leite, conforme a PF, para as empresas Parmalat, Calu e Centenário. Como precaução, segundo a Polícia Federal, embalagens contendo leite das três marcas já estão sendo retiradas das prateleiras de supermercados.
As cooperativas revendiam também o produto adulterado a outras empresas, o que dá uma dimensão nacional à fraude. Por causa disso, segundo o delegado Davidson José Chagas, as equipes de policiais federais estão recolhendo amostras de leite longa vida integral em todo o país. Elas serão analisadas pelo Instituto Nacional de Criminalística, da PF.
Tanque
Ainda segundo o delegado Davidson José Chagas, as cooperativas eram investigadas há quatro meses. A operação ocorreu simultaneamente nas duas cidades às 6h de ontem. Cerca de 200 policiais participaram da ação. Em uma das cooperativas, a Coopervale, em Uberaba, foi encontrado um tanque com aproximadamente 1.000 l da mistura de citrato de sódio, ácido cítrico, soda cáustica, água oxigenada, sal e açúcar, que, conforme Chagas, seriam adicionados em 10 mil litros de leite.
"Usavam 900 ml de leite puro e colocavam a mistura para os 900 ml terem volume de 1 l e para o leite durar mais", disse o delegado. Dirigentes e empregados das duas cooperativas foram presos, sendo 19 em Uberaba e oito em Passos. Segundo ele, um auditor do serviço de inspeção do Ministério da Agricultura, responsável pela fiscalização da produção de leite e derivados no Estado, está sendo investigado. Ainda de acordo com o delegado, as duas cooperativas, a princípio, não tinham ligação e ambas foram interditadas.
Denúncia
As investigados tiveram origem em Uberaba, depois que uma denúncia foi levada ao Ministério Público Estadual (MPE). Segundo o promotor de Direito do Consumidor e Saúde, João Vicente Davina, amostras de várias marcas na região do Triângulo Mineiro foram colhidas e encaminhadas para análise em um laboratório do Ministério da Agricultura. "O resultado do exame constatou que o leite tinha baixa acidez e alta alcalinidade, sendo impróprio para o consumo. Também apontou a presença de substâncias usadas na mistura", informou o promotor. Ainda de acordo com Davina, o crime constitui fraude econômica e os acusados, se condenados, podem pegar de quatro a oito anos de prisão.
Produção
Segundo o delegado Davidson José Chagas, as duas cooperativas estariam adulterando leite há pelo menos três anos. Juntas, Coopervale e Casmil produzem cerca de 400 mil litros de leite por dia. Em um ano, as duas cooperativas estariam colocando mais de 146 milhões de litros de leite contaminado no mercado. A subgerente do departamento comercial da Coopervale, Luciana Mara, disse que não tinha informações sobre as atitudes adotadas pela empresa e que havia recebido ordens para não passar os telefones dos responsáveis pelo assunto. Ela ressaltou ainda que todos os outros setores da empresa, entre eles o administrativo, foram fechados pela polícia. Na Casmil, a informação foi que não havia ninguém para comentar a ação da Polícia Federal.
Laboratório de Pedro Leopoldo fará análise
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento convocou quatro técnicos do Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro), de Pedro Leopoldo, na Grande Belo Horizonte, para coletar amostras e avaliar as condições de produção de leite em diversos estabelecimentos próximos a Uberaba, no Triângulo, e Passos, no Sul de Minas. Em nota enviada ontem à imprensa, o ministério afirmou que o laboratório também será responsável pela análise das amostras colhidas nas cooperativas durante a operação realizada pela Polícia Federal.
Segundo a nota, ainda não há previsão de quando os resultados dessas análises serão conhecidos. O ministério afirmou que os técnicos do Lanagro foram convocados na última quinta- feira para acompanhar a operação Ouro Branco. As adulterações no leite, ressalta a nota, foram identificadas através de análises dos laboratórios do próprio ministério. A fiscalização de produtos agropecuários é feita no local da produção por fiscais federais agropecuários do ministério.
A instituição informou que tomará as medidas cabíveis em relação ao funcionário do Serviço de Inspeção Federal (SIF), que foi preso. Ontem, o ministério não havia definido quais serão as medidas. Ainda de acordo com a nota, entre janeiro de 2003 e agosto deste ano foram analisadas 4.000 amostras de leite no Brasil. Nesse período, foram apreendidas mais de 5.000 t de produtos lácteos irregulares. (EB)
Parmalat e Calu negam ter comprado produto
ERNESTO BRAGA
A Parmalat Brasil S.A. e a Cooperativa Agropecuária Ltda de Uberlândia (Calu), que segundo a Polícia Federal compravam o leite adulterado no Triângulo e Sul de Minas, afirmaram que não têm nenhum vínculo comercial com as cooperativas alvos da operação Ouro Branco. Nenhum representante da Centenário, outra marca que de acordo com a PF revendia o produto, foi localizado ontem.
Em nota, a Parmalat afirmou que não adquire produtos processados, envasados ou embalados nas fábricas da Casmil e Coopervale. A empresa informou que compra e recebe diariamente um volume superior a 2 milhões de litros de leite cru de mais de 5.000 produtores e cooperativas de todo o país, de acordo com as especificações da Normativa 51 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
A Parmalat ressaltou que mantém em suas fábricas um rigoroso processo de avaliação da qualidade do leite cru, que vai além dos exigidos pela legislação em vigor, e rejeita em suas unidades qualquer carga de leite que contenha produtos nocivos à saúde do consumidor ou alheios à composição natural. Também por nota, a Calu ressalta que tem 45 anos de atuação no mercado e lamenta ter seu nome envolvido nesse episódio. A Calu reforçou que será feita uma avaliação detalhada do caso, apurando responsabilidades para tomar as providências necessárias.
Publicado em: 23/10/2007
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