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Pedro Arthur e o pai, Rodrigo Diniz; a família do garoto defende a continuidade das pesquisas com células-tronco

FOTO: DANIEL CERQUEIRA - 14.08.2007
Pedro Arthur e o pai, Rodrigo Diniz; a família do garoto defende a continuidade das pesquisas com células-tronco

FOTO: EDITORIA DE ARTE
Brasil

Nova porta se abre para a cura
Cientistas são otimistas quanto às possibilidades de tratamentos após a obtenção de células-tronco a partir de pele humana
BIANCA MELO

A possibilidade de se desenvolver células- tronco embrionárias a partir da pele humana, divulgada anteontem por pesquisadores do Japão e dos Estados Unidos, traz ânimo a cientistas brasileiros. Em dez anos, calcula a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), os resultados das duas pesquisas deixarão de representar apenas uma promessa de uso e deverão chegar a ser aplicados em testes com humanos. O geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cita no mínimo cinco anos para o início das pesquisas clínicas em medicina regenerativa.

O desenvolvimento das células-tronco embrionárias pode trazer, no futuro, novos tratamentos e a cura para doenças crônicas degenerativas, como os males de Alzheimer e Parkinson, diabetes, lesões na medula e atrofias, entre outras 200 enfermidades. Especialistas apostam nos resultados das duas pesquisas. Na concepção de Lygia, elas são "uma nova luz no fim do túnel". "É um marco importante porque abre alternativa de uso dos embriões para conseguir células com a versatilidade e pluripotência das embrionárias." Mas ela pondera que é preciso aguardar um pouco para saber as dimensões, riscos e tipos das conseqüências disso.

Pena classifica como "extraordinária" a importância da nova pesquisa. "Esses trabalhos são uma importante prova de que a idéia de desdiferenciar células humanas funciona maravilhosamente bem", afirmou. Nos novos estudos, os cientistas norte-americanos e japoneses conseguiram reprogramar células adultas da pele para adquirirem características de células- tronco embrionárias (encontradas apenas no estágio inicial do embrião). No ano passado, o autor de um dos estudos, o japonês Shinya Yamanaka havia demonstrado o mesmo com camundongos com a injeção de quatro genes.

As primeiras pesquisas mostraram que as células-tronco oriundas de pele humana podem, em tese, transformar-se em qualquer outra célula do corpo. Iguais às originárias do embrião humano. A diferença é que as primeiras não enfrentam a resistência da igreja e de grupos em defesa da ética, que falam em violação da vida com a morte consciente do embrião. No Brasil, pesquisas com embriões congelados e originários de fertilização in vitro chegaram a ser autorizadas em 2005, mas atualmente estão proibidas devido à ação direta de inconstitucionalidade, que aguarda apreciação do Supremo Tribunal Federal (STF).

Células que podem originar tecidos e órgãos são promessa para casos como o do menino Pedro Arthur, 5, que contraiu meningite bacteriana há três anos e hoje está tetraplégico e dependente de um respirador artificial. O pai do garoto, Rodrigo Diniz, presidente do instituto que leva o nome do seu filho, aplaudiu a notícia. "É esperança para ele e milhares de outras crianças na mesma situação porque estamos vendo outros países trabalhar com células-tronco, até agora com resultados positivos."

Hoje a família de Pedro Arthur vive parte do tempo em função de acompanhar pesquisas e cobrar um esforço político para amenizar a situação dos doentes. "Para quem espera um avanço da ciência, qualquer sinal é positivo. Comemoramos quando o Pedro mexe um dedo." Diferente da maioria das pessoas acometidas por meningite, a parte cognitiva do garoto não foi afetada.



Vaticano comemora resultado das pesquisas

Um prelado do Vaticano comemorou ontem a nova alternativa de pesquisa para a criação de células-tronco, a partir da pele, anunciada por cientistas japoneses e americanos, que “não parece colocar problemas éticos”, ao contrário da pesquisa com embriões.

“A nova pesquisa que se apresenta não parece levantar problemas éticos”, declarou o monsenhor Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifical para a Vida, à agência de notícias religiosas I-Media. A Igreja Católica “não se preocupa com processos técnicos, ela destaca apenas se um procedimento lesa ou não a dignidade humana. De resto, a ciência tem a liberdade de pesquisar.”

As pesquisas com células-tronco embrionárias desenvolvidas a partir de células adultas da pele não vão enfrentar resistência da Igreja Católica. A garantia é do presidente da comissão Episcopal para a Vida e Família, dom Orlando Brandes. “Se ficar só esta proposta, estaremos longe da polêmica porque aqui temos o ideal – a ciência e a fé esclarecida andando juntas.”

A igreja católica é uma das mais fortes opositoras às pesquisas com embriões humanos – ainda não autorizadas no Brasil – porque considera como assassinato a destruição do embrião. Na visão do representante da CNBB, a controvérsia não é religiosa e, sim, ética.

A partir do momento da fecundação, na concepção dos religiosos, já existe vida. Há, no entanto, várias correntes que tentam explicar o início da vida. Alguns defendem a existência quando o óvulo adere à parede do útero (sete dias após a fecundação). Outros falam que vida mesmo só após a formação do cérebro. (BM com Agência O Globo)



Principal obstáculo é o potencial cancerígeno

A notícia é positiva, mas não deixa de suscitar a discussão. A principal delas é o potencial cancerígeno das células-tronco originárias de pele humana adulta. Conforme explica a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Lygia da Veiga Pereira, a injeção dos genes na célula pode levar à formação de um tumor. “É preciso esperar mais tempo. A nova técnica resolve (a polêmica do) o embrião, mas aumenta o risco de formação de tumor e isso exige uma pesquisa separada”, argumenta.

Os estudos são iniciais e não permitem ainda avaliar esse risco. Só levantamentos detalhados poderão formatar um método mais “aceitável” para o uso humano, avalia o geneticista Sérgio Pena, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “A maneira como os genes são introduzidos nas células adultas torna-as ainda perigosas para uso clínico, pois elas teoricamente poderiam se transformar em tumores”, explica.

Embriões
A outra polêmica é a continuidade das pesquisas com embriões. Lygia defende a manutenção desses estudos. “É preciso continuar pesquisando embriões, mesmo que seja para ensinar a célula adulta a agir como embrião.” Ela lembra que só foi possível chegar à pesquisa com células da pele porque as pesquisas com embriões mostraram o caminho e acenaram para as potencialidades.

A presidente do Movimento em Prol da Vida (Movitae), Andréa Bezerra de Albuquerque, teme que o Supremo Tribunal Federal (STF) se posicione contrariamente às pesquisas com embriões. Na pauta do STF há uma ação direta de inconstitucionalidade questionando o uso dos embriões para as pesquisas. Há expectativa de apreciação da ação até o fim do ano. “É possível que muita gente pense que pode julgar favorável ao processo porque já tem outra fonte.”

Ela é também coordenadora de relacionamento com paciente do Instituto Virtual de Células Tronco que mantém, na Internet, um banco de dados com informações (ivct.org). “É prematuro abandonar as (pesquisas) com embriões porque, para mim, ele é um material como outro qualquer e uma nova pesquisa só soma, não inviabiliza (a outra).” (BM)

EDITORIA DE ARTE



ANÁLISE
Avanço equilibra debate político nos Estados Unidos
SHERYL GAY STOLBERG /THE NEW YORK TIMES

WASHINGTON, EUA – Já são mais seis anos desde quando o presidente norte-americano George Bush, em seu primeiro discurso importante na Casa Branca transmitido na televisão, estabeleceu uma linha moral rígida conta a destruição de embriões humanos na pesquisa médica. Desde então, ele sustentou que os cientistas apareceriam com um método alternativo de desenvolvimento de células tronco embrionárias, um que não envolvesse a morte de embriões.

Os críticos ficaram céticos. Mas agora que os cientistas do Estado de Wisconsin e do Japão aparentemente alcançaram o que Bush havia previsto, a Casa Branca está dizendo: “Eu já sabia!” Possíveis candidatos conservadores republicanos à Presidência estão respirando aliviados. E os opositores da pesquisa com células-tronco embrionárias estão felicitando a si próprios.

A descoberta de que células da pele podem ser reprogramadas para imitar as células tronco embrionárias provavelmente transformará o debate político sobre a ciência, um debate que tem oposto Bush a dois terços do público norte-americano, incluindo partidários dele, e que ajudou a decidir algumas eleições.

Os novos resultados colocaram as pessoas de ambos os lados da contenda sobre as células- tronco em uma situação política quase igual. Cada lado agora pode dizer que tem uma pesquisa frutuosa para buscar. Cada lado pode até utilizar os mesmos cientistas. O autor dos novos estudos com células da pele é James A. Thomson, pesquisador da Universidade de Wisconsin que extraiu células tronco de embriões humanos em primeiro lugar.

Alguns críticos da opinião de Bush destacam que o método de reprogramação tem alguns problemas a serem corrigidos e que a pesquisa nunca teria acontecido sem os experimentos iniciais com embriões. Eles dizem que, em vez de encorajar a pesquisa, o presidente criou-lhe empecilhos. Em 2001, em um compromisso com o objetivo de desencorajar a destruição de embriões, Bush disse aos pesquisadores federais que eles poderiam trabalhar apenas com as linhagens de células-tronco já existentes. Por duas vezes ele vetou projetos que diminuiriam essas restrições.

Traduzido por André Luiz Araújo

Publicado em: 22/11/2007



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