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FOTO: EDITORIA DE ARTE
Grupo de jovens joga RPG; muitas pessoas ligam brincadeira a atos violentos

FOTO: DAEMON EDITORA /DIVULGAÇÃO
Cidades

Editoras reagem a ligação de RPG a crime
Rapaz que alegou ter tentado matar a ex-namorada por causa de jogo pode ser processado
PATRICIA GIUDICE /ANDRÉA SILVA

Histórias envolventes e criativas em que é preciso ter cuidado para não extrapolar os limites entre o real e o imaginário. Assim especialistas encaram jogos como o Role Playing Game (RPG), que vem sendo vinculado a fatos violentos. O último caso aconteceu na última terça-feira, quando Ludson Alves Costa, 19, foi preso com uma arma e disse à polícia que tinha tentado matar a exnamorada, influenciado por partida de RPG. Os representantes das editoras de RPG no Brasil afirmaram ontem que pretendem mover uma ação judicial contra Costa, por danos morais, no valor de R$ 20 mil, caso ele insista na versão.

Marcelo Del Débbio, editor chefe da Daemom Editora RPG, de São Paulo, declarou que algumas distribuidoras de filmes e licenciadoras de jogos on line já foram contatadas, apoiaram a idéia e também estão preparando suas assessorias jurídicas para tornar a vida dos suspeitos de crimes mais complicada no futuro. "Não é nenhuma novidade que criminosos aproveitam brechas na lei para afirmar que seus atos foram influenciados por músicas, filmes, jogos eletrônicos ou tabuleiros de RPG", disse Del Débbio.

E aí está o problema, segundo o psicanalista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Guilherme Massara. "O lado da violência que o jogo põe em cena é para ser vivido em espaço lúdico. O processo de educação de um ser humano precisa ter a construção dessas fronteiras. Não são raros os atos cometidos a partir de um delírio que começou no jogo com elementos de realidade", analisou. Segundo ele, podem sim ter pessoas que associam o ato a um distúrbio que ele já tem para se proteger. Ou que tenham uma pré-disposição, elementos para algum distúrbio que extrapolam na ocasião do jogo. Mas, "os jogos não são inócuos", alertou o psicanalista.

Quem joga o RPG ou outro tipo de divertimento que trabalhe a fantasia precisa compreender que aquele momento é lúdico e serve como refúgio. "Em grande medida seja a principal função do jogo, é uma oferta de espaço para experimentar a fantasia. É preciso que o jogador compreenda que aquilo é um jogo", disse o especialista ainda alertando para um possível vício.

Para pais e mães, Massara deu um alerta: fique de olho se o filho estiver excessivamente entretido em um jogo. "É preciso ter uma mediação entre a criança, o adolescente e o jogo. É fundamental ter algum cuidado, discutir o lado lúdico de expressão da própria violência que o jogo oferece e que tem seus limites. Uma dica prática é que eles sejam objetos de conversas", afirmou.

Violência
O editor Marcelo Del Débbio relembrou alguns dos crimes relacionados com filmes ou jogos. Em 1999, o estudante de medicina Mateus de Costa Meira, 24, empunhando uma submetralhadora, assassinou três pessoas numa sala de cinema de um shopping, em São Paulo, e deixou outras cinco feridas. Na ocasião, o rapaz colocou a culpa de seus atos no filme Clube da Luta e no videogame Duke Nuken. Em 2001, a estudante Aline Silveira Soares foi morta na cidade de Ouro Preto. O corpo da jovem foi abandonado em um cemitério. As investigações da época levantaram hipóteses de que o crime estava ligado a jogos de videogame e RPG.

Em 2005, Mayderson de Vargas Mendes e Ronald Ribeiro Soares cometeram um crime de latrocínio em Guarapari (ES). Um dos acusados alegou agir influenciado pelo jogo de tabuleiro. Os corpos do aposentado da Companhia Vale do Rio Doce, Douglas Augusto Guedes, da mulher dele, a corretora Heloísa Helena Andrade Guedes, e do filho do casal, o estudante Thiago Guedes, foram encontrados na residência da família, na praia do Morro. O aposentado e o filho estavam em um quarto, deitados ao lado de uma cama com as mãos amarradas. Já Heloísa estava em outro cômodo da casa, também amarrada a uma cama. Os três foram mortos com tiros na cabeça. Na época, durante depoimento, Ronaldo Soares afirmou existir uma ligação do crime com o jogo de RPG.



Jogadores acabam sendo discriminados

O "efeito colateral" da associação de um crime à prática do RPG acaba sendo a discriminação de quem é um jogador. Nesta semana, Cristiano Chaves Oliveira, 30, servidor público, jogador e autor de livros do gênero, precisou explicar para seus colegas de trabalho o que é o jogo afinal. "O jogo é usado como tentativa de atenuar o que aconteceu. As pessoas acabam aproveitando de uma entidade abstrata, que é um jogo, para justificar parte das suas ações. E quem sofre esse efeito colateral somos nós", reclamou.

Para ele, o mais importante é frisar para os leigos que no RPG não existe um ganhador ou perdedor, nem juras de morte que podem extrapolar a realidade. Cristiano Chaves começou a jogar quando tinha 14 anos. "É um jogo de interpretação de papéis em que cada um assume um personagem, interpreta, toma atitudes. É um jogo de cooperação e não existe competição. Os participantes têm que cooperar entre si para alcançar um objetivo maior, que é contar a história", disse.

O mais importante, segundo ele, é que não há vencedores ou perdedores. "Imagine uma história em que quatro cavaleiros têm que resgatar a princesa que foi pega por um dragão. Eles têm um mestre e jogam até salvar a princesa", disse, exemplificando com uma história simples. Os jogos são comprados em livrarias ou lojas especializadas. "O mais famoso e mais vendido é o ’Dungeons & Dragons’. Ele foi baseado nos livros do Senhor dos Anéis." (PG)



MP tenta proibir três títulos

Há seis anos, quando a morte da estudante Aline Silveira Soares foi associada a um jogo de RPG, o Ministério Público Federal em Minas Gerais entrou com ação para retirar do mercado três livros e pedir a classificação etária do jogo. A alegação era de que os três - "Vampiro, a Máscara", "Demônios - A Divina Comédia" e "Illuminati" - incitavam a violência de forma excessiva e disseminavam o prazer pelo satanismo. A ação ainda está tramitando na Justiça Federal e todas as editoras estão obrigadas a colocar a classificação etária impressa nos jogos por meio de liminar.

Conforme a assessoria de imprensa do MPF em Minas, a classificação é obrigatória em âmbito nacional através da liminar, mas o juiz ainda não deferiu a sentença final. Até que isso aconteça, cada livro deve ter impresso a faixa etária permitida, desde a infância. Os livros, entretanto, não foram retirados do mercado. Não há expectativa para o fim do processo.

Aline Silveira foi assassinada em Ouro Preto, região Central de Minas, durante a conhecida Festa do 12. As primeiras investigações levantaram a hipótese de o crime ter sido cometido em consequência de um jogo de RPG. Na época do crime, o corpo de Aline foi encontrado no cemitério da cidade. Os quatro acusados respondem processo em liberdade. (PG)



Novo jogo tem tema bíblico

FOTO: DAEMON EDITORA /DIVULGAÇÃO
Novo jogo tem tema bíblico
Jogo bíblico quer afastar ligação com satanismo

O escritor Marcelo Del Débbio, que edita alguns dos jogos de RPG, afirma que não há ligação entre o entretenimento e obras de satanismo. "Em todo o Brasil, são cerca de 500 mil jogadores de RPG. Os grupos são formados de cinco a dez pessoas. Elas se reúnem pelo menos uma vez por semana. Jogo RPG desde os 10 anos e nunca tive relato de reuniões em cemitérios", informou o editor.

Muitos professores, adeptos ao jogo de tabuleiro, utilizam livros em salas de aulas e estimula os alunos a participar ativamente da história. Para Del Débbio, com mais de 40 títulos publicados, o RPG é jogo de interatividade.

Segundo ele, para deixar de lado a idéia de que o jogo de RPG é obra demoníaca, a Daemom Editora RPG deverá lançar no primeiro semestre de 2008 o livro Aventuras Bíblicas, jogado com base na história do Velho Testamento, que foi escrito pelo evangelista Luiz Carlos de Abreu Matos, do Rio de Janeiro.

Para Matos, as acusações das mortes ligadas ao jogo de RPG normalmente são feitas por pessoas leigas no assunto, que não fazem nem questão de procurar saber de que realmente se trata. "O RPG é lúdico. A intenção do meu livro e ensinar a história da Bíblia, jogando". disse Matos.

Orkut
O site de relacionamento virtual Orkut foi usado por comunidades de RPG para discutir as declarações dadas por Ludson Alves Costa, que, depois de ser detido armado na última terça-feira, disse à polícia que iria matar a exnamorada como parte da tarefa determina em partida do jogo, que foi selada com pacto de sangue. (AS)

Publicado em: 30/11/2007


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