O ano está chegando ao fim e, como já é tradição, a equipe de reportagem do Magazine elege os melhores de 2007 nas mais diversas áreas da cultura: artes cênicas, cinema, televisão, artes plásticas, música e literatura. Confira:
SORAYA BELUSI
2007 foi um ano menos marcado pelas estréias de espetáculos e deve ser celebrado por demonstrar a longevidade de grupos da cena mineira como a Cia. Acômica, com uma década de vida, o Grupo Galpão, que chega ao seu quarto de século dedicado ao teatro, e o Oficcina Multimédia, o balzaquiano, com seus 30 anos tendo como foco a experimentação e a junção de linguagens. Enquanto alguns grupos se firmam como referência, outros apostam em seus próprios caminhos. No mundo da dança, o Corpo é sempre motivo de destaque, assim como merecem destaque novos grupos e coletivos que se reuniram para tornar ainda mais profícua uma das melhores cenas da dança contemporânea do país, alimentada também por eventos como o FID. E, num ano em que perdemos Paulo Autran, a síntese mais completa do ofício de ator, os aplausos para 2007 ficam menos calorosos.
GALPÃO 25 ANOS
A celebração pelos 25 anos do Galpão começou com a campanha "Conte a sua História", na qual o grupo recebeu mais de 600 cartas de todo o país, escritas por pessoas comuns que narraram histórias marcadas pelo acaso. Assim nasceu "Pequenos Milagres", espetáculo dirigido por Paulo de Moraes. O projeto resultou ainda na publicação de toda a dramaturgia construída pela trupe e parceiros em montagens como "Um Molière Imaginário" e "Um Trem Chamado Desejo", além da publicação de 40 histórias que não entraram no espetáculo no livro "Pequenos Milagres e Outras Histórias". Mas o ano do Galpão não acabou por aí, teve ainda o lançamento do DVD "Romeu e Julieta em Londres", registro da trupe mineira no Globe Theatre, em Londres. O grupo fechou as comemorações com apresentação de peças de seu repertório em praças da cidade, chegando a reunir quase 5.000 pessoas por sessão, que contou com a volta de Teuda Bara.
UM LEGÍTIMO JOÃO DAS NEVES
Considerada uma das melhores montagens deste ano em território nacional, "Besouro Cordão-de-Ouro" foi apresentada na programação do Festival de Arte Negra (FAN) e mostrou ao público mais jovem um trabalho com assinatura de um legítimo João das Neves. O musical reúne algumas das principais facetas que marcam a trajetória do encenador carioca que há anos adotou Minas Gerais como lar: estão ali a presença da música, a contação de histórias, a referência aos elementos da cultura popular e a tentativa de construir uma narrativa com elementos tipicamente afro-brasileiros.
COM PERNAS PRÓPRIAS
Desde seu primeiro espetáculo, a Cia. Luna Lunera mostrou que seria especial no universo das artes cênicas do Estado. Mas, se em "Perdoa-me por me Traíres" o grupo tinha por trás a segurança da dramaturgia de Nelson Rodrigues e a direção marcada de Kalluh Araújo, no espetáculo deste ano, "Aqueles Dois", o grupo se responsabilizou tanto pela adaptação do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, quanto pela própria direção. O resultado consiste em um dos melhores espetáculos do ano, em que uma técnica trabalhada nos ensaios (o contato-improvisação) é referência durante a construção da dramaturgia. O grupo conseguiu realizar um de seus trabalhos mais maduros, com os quatro atores muito bem em cena, abordando a questão da homossexualidade de maneira contundente, mas sem deixar o bom humor e a delicadeza de lado.
DE VOLTA AOS TRILHOS
A Cia. Clara definitivamente se reencontrou com "Alguns Leões Falam". Com o espetáculo de estréia do grupo, "Todas as Belezas do Mundo", e sua continuação, "Coisas Invisíveis", o diretor e dramaturgo Anderson Aníbal inaugurou um caminho singular no teatro mineiro. Essa trilha havia sido desviada e só foi reencontrada agora com a montagem "Alguns Leões Falam", realizado por um grupo de três atores vindos do interior e que comprovaram mais uma vez que, para o tipo de teatro que Anderson nos propõe, é preciso que o ator esteja disponível para mergulhar nesses mesmos trilhos.
O SEMPRE BOM
A forma de trabalhar foi a mesma: um compositor convidado (Lenine) criou a trilha que serviu de base ao coreógrafo (Rodrigo Pederneiras) para a criação do espetáculo. Mas o resultado, quanta diferença! O Grupo Corpo consegue conservar o que tem de melhor em "Breu", ao mesmo tempo em que não se prende à mesmice. A sensualidade típica dos corpos do Corpo dá lugar a um verdadeiro embate entre despencar ou se sustentar de pé. Os corpos dos bailarinos se chocam, se debatem e se entregam uns aos outros no espetáculo que marca um novo registro de movimento neste grupo sinônimo de excelência e não-acomodação. Cena do espetáculo "Pequenos Milagres", que marca a comemoração de 25 anos do Grupo Galpão
2007 foi um ano de poucas novidades na programação e algumas conquistas na área da tecnologia. Entretanto, a principal e mais importante notícia na área, a TV digital com todas as maravilhas de interação e qualidade anunciadas, ainda não foi vista na casa do telespectador. Pouquíssimos brasileiros têm o tal conversor necessário para tanto, vendido a preços proibitivos para uma grande parcela da população das classes D e E, que há menos de uma década conseguiu comprar seu primeiro televisor. De resto, consolidaram-se algumas tendências, como a Record na vice-liderança de audiência, ancorada pelos pesados investimentos em dramaturgia. Foi também o ano em que vimos o surgimento da Record News, primeiro canal de notícias em sinal aberto. E vimos, em 2007, o brasileiro respaldar mais uma novela global, "Paraíso Tropical" - com ótimo elenco de vilões, vá lá -, enquanto a experimentalíssima "A Pedra do Reino" amargou fracasso de audiência. Sinal dos tempos.
"Paraíso Tropical"
Novela da Globo marcou a memória do telespectador em 2007 e trouxe de volta o teledramaturgo Gilberto Braga aos holofotes, desta vez em co-autoria com Ricardo Linhares. A trama baseada na história da gêmea boa e a má começou insossa, mas ganhou fôlego graças ao vilão Olavo, interpretado soberbamente por Wagner Moura, que fez par romântico com a impagável prostituta Bebel, de Camila Pitanga. O casal, que originalmente teria um papel menor, caiu nas graças do público. Com 179 capítulos, "Paraíso Tropical" estreou com audiência no Ibope de 41 pontos e nos últimos meses foi o programa mais visto da TV brasileira, com pico de 62 pontos e média de 56 no último capítulo. "Vidas Opostas" e a vice-liderança da Record Em agosto de 2007, o Painel Nacional de Televisão (PNT), aferido pelo Ibope, colocou a Record como vice-líder isolada entre as emissoras brasileiras, com média geral de 7 pontos de audiência, um a mais que o SBT. Um dos motivos dessa consolidação da Record se deve aos pesados investimentos em teledramaturgia e contratação de milhares de profissionais. O melhor resultado na área foi colhido pela novela "Vidas Opostas", escrita por Marcílio Moraes e dirigida por Alexandre Avancini. Exibida às 22h entre novembro de 2006 e agosto de 2007, "Vidas Opostas" ousou ao ser ambientada numa favela e abordar temas polêmicos como tráfico e legalização de drogas, corrupção policial e violência contra a mulher. Apresentou ainda bandidos temíveis como o traficante Jacson (Heitor Martinez) e o delegado corrupto Nogueira (Marcelo Serrado), este um dos destaques por suas variações de humor e caráter.
"A Pedra do Reino"
Num ano de muitas novidades tecnológicas e poucas ousadias estéticas, a Globo esteve à frente de seu tempo ao produzir e exibir a microssérie "A Pedra do Reino" entre os dias 12 e 16 de junho. A produção é uma homenagem aos 80 anos do escritor nordestino Ariano Suassuna, autor do livro-base "O Romance dA Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta". O diretor Luiz Fernando Carvalho teve carta branca para contar a história do palhaço Pedro Dinis Quaderna, o protagonista do romance, por sua vez enigmático, heróico e memorialístico. Já velho, é Quaderna quem puxa o fio da trama, toda filmada em Taperoá, na Paraíba. Talvez pela narrativa incomum, "A Pedra do Reino" foi um fracasso de audiência, atingindo 12 pontos na estréia - o que deixou a Globo em terceiro lugar, atrás de Record e SBT. Foi a menor audiência do canal nesse horário, desde que o Ibope começou a ser medido com os métodos atuais.
Record News
Às 20h do dia 27 de setembro entrou em operação a Record News, primeiro canal de telejornalismo em sinal aberto da TV brasileira. A sessão de inauguração contou com a presença do presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, e outras autoridades. Empresa comandada pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Rede Record, a Record News começou suas transmissões em meio a polêmicas, com troca de notas e editoriais acusadores entre a emissora e a Globo, além de ações junto ao Ministério das Comunicações, que acabou por intervir a favor da nova emissora. O investimento foi de R$ 7 milhões só em equipamentos e nos estúdios com sede em São Paulo. Atualmente, a emissora apresenta 19 horas diárias de programação própria inédita e outras cinco de reprises do dia.
TV digital
Dia 2 de Dezembro de 2007 foi iniciada a operação da TV Digital na cidade de São Paulo. Para a cidade do Rio de Janeiro a previsão é que as transmissões sejam iniciadas até o final do primeiro semestre de 2008. Para as demais cidades brasileiras está previsto que isto ocorra até 2011. Na teoria, a novidade é boa: som e imagem de melhor qualidade viabilizando a Televisão de Alta Definição (HDTV); mais canais (até quatro) na mesma faixa de frequências utilizada por um canal analógico; interatividade entre telespectador e emissora, como acesso ao menu de informações e possibilidade de fazer compras e até votar sobre determinado assunto; e uso da telefonia móvel como receptador do sinal digital da TV. Entretanto, na prática, o início das transmissões, com discurso do presidente e ministros, só foi visto por quem tem TV analógica, porque para receber o sinal digital, o telespectador deve adquirir um conversor próprio (set top box), que pouquíssimos brasileiros compraram. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, havia anunciado a venda financiada do set top box por menos de R$ 100, o que não aconteceu. O governo anunciou na cerimônia de estréia uma linha de crédito de R$ 1 bi para baratear os conversores.
E MAIS
Em dezembro a Rede Minas foi eleita, pelo segundo ano consecutivo, o Veículo do Ano - categoria Televisão - no Prêmio da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), normalmente dado a emissoras comerciais.
Após quase 30 anos, a série infantil "Vila Sésamo" volta às telas brasileiras. A TV Cultura passou a produzir e exibir, em outubro, nova temporada de 78 episódios das aventuras do pássaro Garibaldo e seus amigos.
Antunes Filho voltou à TV coordenando um grupo de jovens diretores que resultou no Ciclo de Teledramaturgia da TV Cultura. Foram exibidos no segundo semestre 16 episódios com uma hora de duração e que juntavam dois espetáculos de nomes como Samir Yazbek, Rodolfo García Vázquez e Beth Lopes.
MARCELO MIRANDA / CARLOS QUINTÃO - ESPECIAL PARA O TEMPO
No decorrer do ano a impressão era de que o cinema em geral não estava lá muito bem das pernas. Mas, no inventário das famigeradas listas de melhores, eis que me deparo com tantas pérolas, tantos trabalhos de impacto, tantas imagens inesquecíveis, que só restou o imenso sacrifício de fechar em dez títulos e algumas menções. Claro que toda relação é, por definição, menos inclusiva do que excludente. A graça está em instigar a discussão e compartilhar filmes dos quais não nos esqueceremos tão cedo.
O critério para esta seleção foi apenas o da permanência. Escolhi aqueles filmes que ficaram comigo, que me assombraram, que não leguei ao abandono ao final da sessão. Muitos dos filmes de qualidade, alguns realmente memoráveis, que vi ao longo do ano não tiveram o mesmo poder de permanência - ou então eu não tive o repertório adequado para completá-los, algo necessário em qualquer ato de contemplar uma manifestação artística. Talvez por isso a lista abaixo CINEMA diga mais sobre mim mesmo do que sobre o cinema de 2007.
1) "MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS"
Aos 85 anos, o mítico diretor francês Alain Resnais realiza filme de rara leveza e humanismo, numa mistura de comédia de erros e drama sobre solidão, mesclada ao elenco inteiramente excepcional e à linguagem que, da simpleza de seu encadeamento, é grandiosa naquilo que transmite. Poucas vezes o cinema conseguiu transmitir a melancolia de forma tão pura e autêntica.
2) "A CONQUISTA DA HONRA" / "CARTAS DE IWO JIMA"
Difícil separar esses dois filmes de Clint Eastwood, o grande mestre ainda em atividade no cinema norte-americano. Díptico filmado simultaneamente e lançados com poucas semanas de diferença, não se restringem a apenas mostrar dois lados de um mesmo conflito. Eastwood, na sua imensa capacidade de gerar significados a partir de gestos e olhares, traveste a própria visão à daquele que ele aborda, sejam três combatentes dos EUA, seja um líder militar japonês, e tira daí a poesia e a dor de grandes homens angustiados.
3) "SERRAS DA DESORDEM"
A grande fissão estética do cinema brasileiro nos últimos anos somente em 2007 conseguiu ganhar as salas de exibição comercial, depois de rodar festivais de cinema por quase dois anos. Este segundo longa do diretor Andréa Tonacci (feito mais de três décadas após o seminal "Bang Bang") acompanha a trajetória de um índio em busca de sua verdadeira origem. Só que, em vez de apenas retratar o personagem em questão, o cineasta mergulha em imagens de arquivo e encenações fictícias para colocar em xeque a memória e a consciência como reconstituição do real.
4) "IMPÉRIO DOS SONHOS"
Chamar um filme de David Lynch de surreal ou alucinatório virou clichê. O que este seu novo trabalho se transforma diante do espectador é num emaranhado de imagens de transe e hipnose em que os caminhos de uma mulher vão sendo exibidos sem que precisemos necessariamente compreender o que a acomete. Da limitada definição proporcionada pela câmera digital (o que torna a experiência mais perturbadora) ao uso da trilha sonora, da montagem e de distorções na imagem como materialização de desejos e desesperos, Lynch realiza um tratado de pura perturbação mental.
5) "POSSUÍDOS"
Outro filme a mergulhar na mente dos protagonistas, desta vez mantendo a câmera dentro de um cenário claustrofóbico (quarto de motel à beira da estrada) e utilizando o som como linguagem. William Friedkin, artesão apuradíssimo e elegante, conduz a nossa percepção para o tal quarto, local que parece metaforizar a mente crescentemente enlouquecida de seus moradores - um ex-militar paranóico e uma garçonete cujo filho desapareceu. O que acontece ali não pode ser descrito em palavras. Para deleite do cinéfilo, Friedkin usa e abusa dos recursos que o cinema lhe proporciona.
6) "OS DONOS DA NOITE"
Joaquin Phoenix está prestes a transar com Eva Mendes ao som de uma típica música oitentista. O ato é interrompido por batidas na porta, e logo veremos que o casal está no escritório de uma boate abarrotada de gente - e o personagem chegando na sacada e vislumbrando a multidão dançante é uma das grandes cenas de 2007. Drama familiar, suspense policial, tragédia grega, manancial de decepções e desilusões... Quantos filmes podem ser definidos de tantas formas distintas? E quantos são tão intensos e coesos como este terceiro longa do norte-americano James Gray, espécie de herdeiro de Scorsese, Eastwood e Coppola?
7) "SANTIAGO"
Um mea-culpa em forma de poesia visual, num preto-ebranco cristalino que nos remete ao passado para tentar entender o presente. Num exercício de retorno ao passado seu e do mordomo de sua família, o documentarista João Moreira Salles adentra na alma de uma figura ímpar e, ao mesmo tempo, coloca a si próprio em xeque, num dos trabalhos de maior carga política e ousadia a aportar por aqui em 2007.
8) "CÃO SEM DONO"
A solidão e o vazio contemporâneo vistos pelos olhos de um rapaz sem perspectivas que encontra numa modelo e no cachorro que insiste em acompanhá-lo alguma razão de continuar existindo. Em linguagem seca, direta, dolorida, Beto Brant e Renato Ciasca radiografam com extrema sensibilidade uma parcela da juventude que circula nas grandes metrópoles.
9) "Maria Antonieta", de Sofia Coppola
Imersão absoluta num universo paralelo, que parece ter existido ao mesmo tempo em que deixa claro estar surgindo apenas na mente da diretora. Sem preocupação com qualquer tipo de verdade histórica e desafiando convenções sobre filmes ambientados em séculos passados, a terceira investida de Coppola na direção é talvez o filme de maior frescor e agradabilidade no ano. Isso, a partir de uma personagem que morreu decapitada. Só mesmo na arte.
10) "Tropa de Elite", de José Padilha
A polêmica em torno das intenções do filme parece ter nublado suas imensas qualidades artísticas, especialmente na forma como ele se constrói. Apostando na visão assumidamente subjetiva do protagonista, o truculento capitão Nascimento, o drama vai do coletivo que é a cena inicial (uma multidão dançando funk) até o particular do desfecho (o olhar animalesco do ex-aspirante Matias), desenvolvendo no processo uma série de situações que, à primeira vista, podem confundir o espectador entre o que é do filme e o que é do criador, mas, olhadas com profundidade, revelam seu engenhoso processo de realização como cinema.
MENÇÕES HONROSAS
• "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-Ke • "O Ultimato Bourne", de Paul Greengrass • "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho • "O Hospedeiro", de Bong Joon-ho • "Zodíaco", de David Fincher • "Não por Acaso", de Philippe Barcinski
1) "O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD"
A paixão de Cristo reencenada no velho oeste de Andrew Dominik. A relação entre Jesse James e Robert Ford assume a grandiosidade bíblica que remete a "O Rei dos Reis", de Nicholas Ray, em que Cristo não só se deixa trair como busca a morte nas mãos de seu discípulo, para assim assumir a condição divina, deixando Judas lidar com as implicações morais de seu ato. Todos os símbolos estão lá, da última ceia à negação após a traição. A cruz de Jesse James pode ser metafórica, mas é igualmente debilitante: a paranóia, o medo da traição, a dicotomia entre o humano e o mito, a abnegação de sua relação com a família, esposa, filhos, irmão.
2) "CARTAS DE IWO JIMA"
Concebido como filme-acompanhamento de "A Conquista da Honra", mostrando a outra face do conflito no Pacífico, se coloca como um dos mais vigorosos discursos humanistas do cinema e dos melhores filmes realizados por Clint Eastwood. É de uma dignidade tão grandiosa que poderia muito bem estar em primeiro lugar nessa lista.
3) "PECADOS ÍNTIMOS"
O medo de crescer e a inconseqüência resultante marcam este cuidadoso estudo de um microcosmo, o subúrbio norte-americano. Em seu segundo longa, o diretor Todd Field usa o distanciamento de uma narração em off para dissecar as relações daquelas pequenas crianças, que se recusam a aceitar as responsabilidades da vida adulta, mesmo que isso leve à tragédia. Kate Winslet nos dá talvez a melhor interpretação feminina do ano.
4) "JOGO DE CENA"
Até onde somos nós mesmos ou apenas imagens recriadas a contento? Como funciona o processo da memória e da associação na construção das máscaras sociais? Um documentário é também uma ficção? E pode uma ficção ser igualmente verdadeira no retrato dos sentimentos? O grande filme brasileiro do ano, dirigido por Eduardo Coutinho.
5) "MARIA ANTONIETA"
Uma experiência de imersão em outra época, em outro mundo, onde os detalhes dizem tanto ou mais do que a dramaturgia. É o que propõe Sofia Coppola nesse que é seu filme mais apurado, mais maduro, mantendo todas as características pessoais que marcaram seus longas anteriores.
6) "IMPÉRIO DOS SONHOS"
Outra experiência de imersão, que pede que você abandone a busca pela lógica cartesiana e embarque numa jornada sensorial pelo inconsciente e pelo total controle dos elementos cinematográficos exercido por David Lynch. É ao mesmo tempo um discurso a favor da liberação do cinema da prisão exercida pelas "tramas" e "conflitos dramáticos" e uma implacável sátira ao próprio mundo da indústria de entretenimento, plastificado e falso.
7) "O HOSPEDEIRO"
Vem da Coréia do Sul este que é o grande filme de monstro dos últimos anos. É também um resgate a um cinema spielberguiano que o próprio Spielberg não exerce mais - aquele do deslumbramento infantil frente ao desconhecido e ao fantástico, dos valores familiares e do senso de diversão e excitação que só o cinema é capaz de causar. Bong Joon-ho faz tudo que os "Jurassic Park" do próprio Spielberg tentou ser e não conseguiu, e mais.
8) "DIAS DE GLÓRIA"
Mais do que um libelo contra o preconceito e um filme-denúncia sobre a exploração das colônias pela metrópole, o filme do cineasta argelino Rachid Bouchareb é um poderoso trabalho sobre a guerra, clássico em sua confecção e envolvente em seus sentimentos.
9) "PONTE PARA TERABITHIA"
Uma volta à infância, à imaginação desenfreada, às brincadeiras, ao prazer da descoberta e da exploração. Ao contrário do que faz acreditar o título e o marketing do filme de Gabor Csupo, este não é uma fantasia na linha de "As Crônicas de Nárnia" e "A Bússola de Ouro", mas um drama que promove a imaginação e o poder da amizade como forma de enfrentarmos os dilemas da passagem para a vida adulta. A dupla de protagonistas mirins é impecável.
10) "VENTOS DA LIBERDADE"
O cinema do inglês Ken Loach é tão profundamente engajado que, mesmo quando não corresponde, continua válido enquanto ato de resistência. Quando acerta, como aqui, é de uma sinceridade e de uma emoção tão genuínos, que nos faz olhar de outra forma para o mundo e para nossos valores. Tal qual "Terra e Liberdade", outro grande filme do cineasta.
MENÇÕES HONROSAS:
• "RATATOUILLE", de Brad Bird • "ZODÍACO", de David Fincher • "O CROCODILO"", de Nanni Moretti • "AS LEIS DE FAMÍLIA", de Daniel Burman • "A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA", de Zhang Yimou • "APOCALYPTO", de Mel Gibson
É até meio decepcionante, ao fazer uma retrospectiva, descobrir que o ano não foi dos mais especiais. Pois, musicalmente falando, foi bem assim este 2007 que está prestes a acabar. Não houve, nos últimos 364 dias, nenhum acontecimento que representasse uma inovação no universo musical, algo revolucionário, nunca antes pensado na história da humanidade. Mas também não dá para dizer que 2007 foi um ano ruim para a música. Tivemos bons lançamentos, shows memoráveis, artistas voltando à baila, projetos e políticas que, iniciados em anos anteriores, ganharam, neste, mais força e visibilidade. Ou seja, bons momentos para se lembrar. Confira, abaixo, os principais, na nossa seleção.
Infinita Marisa
A carioca Marisa Monte é, há tempos, considerada uma das grandes divas da música popular brasileira. Em 2006, ela lançou, simultaneamente, os belos "Infinito Particular" e "Universo Ao Meu Redor", que, claro, entraram na lista dos melhores daquele ano. Em 2007, foi a vez de Marisa mostrar que, ao vivo, as canções dos dois lançamentos eram ainda melhores. Logo no início do ano, em fevereiro, ela lotou o Palácio das Artes durante quatro dias (feito para poucos), com uma apresentação primorosa em tudo: repertório, cenário (um dos mais criativos já vistos nos últimos tempos), banda (formada por exímios instrumentistas), clima (é inegável o domínio e o fascínio que ela exerce sobre a platéia) e, claro, voz - a de Marisa é, definitivamente, uma das mais belas e das poucas que provocam ao vivo o mesmo efeito registrado nas gravações. O sucesso da turnê de Marisa em Belo Horizonte foi tanto que houve uma fila de espera enorme no Palácio das Artes e muita gente não conseguiu estar em nenhum dos quatro apresentações que a cantora realizou no espaço. Para atender aos fãs que ficaram chupando dedo, Marisa voltou com o mesmo show em setembro, dois dias no Chevrolet Hall. (LP)
Para qualquer bolso
Projetos como o "Música no Museu" e "Domingo no Museu", realizados no Museu de Arte da Pampulha, o "Música de Domingo", no Teatro Francisco Nunes, e o "Dois Tempos", no Museu Histórico Abílio Barreto - fora outros incontáveis que pululam em diversos espaços, principalmente nas praças - já existem há muitos anos. Mas, em 2007, eles ganharam ainda mais visibilidade e se destacaram como ótimas e variadas opções para quem quer assistir shows de qualidade - por esses projetos, se apresentaram gratuitamente Yamandú Costa, Cama de Gato, Quarteto Maogani, Itiberê Orquestra Família, Hamilton de Holanda, entre outros grandes nomes da música popular brasileira. Nessa seara, vale citar a Teia 2007 e o FAN, que também ofereceram bons shows e só pecaram por não cumprirem o horário marcado para o início de cada apresentação. (LP)
Sacada do ano
Sempre à frente da concorrência e, por que não dizer, do seu tempo, a banda inglesa Radiohead inovou mais uma vez, rompeu com a gravadora e lançou seu novo álbum "In Rainbows" totalmente virtual, disponível para download no site oficial da banda. O preço? Bom, isso coube a nós mesmos definir. Após a iniciativa, o álbum também será lançado em formato convencional e estará nas lojas a partir do primeiro dia de 2008 para aqueles que não dispensam ter o compacto nas mãos. (DF)
Paraíba na veia
Havia muitos anos que o paraibano Chico César não vinha a Belo Horizonte para um show. E 2007 estava quase passando sem nenhuma apresentação do cantor e compositor. Final de novembro, foi confirmada sua vinda à cidade, para apresentar aqui - mais exatamente no Palácio das Artes - a turnê do disco "De Uns Tempos pra Cá", gravado em parceria com os conterrâneos do Quinteto da Paraíba. A união de Chico com o grupo camerístico, ao vivo, resultou numa apresentação memorável, que, apesar de ter um certo tom intimista, exalou vigor. No palco, Chico César foi um verdadeiro mestre-de-cerimônias. Soube conduzir o público com dinâmica e simpatia ímpares, além de mostrar toda sua potência como instrumentista e intérprete. Alternando momentos tocantes (como a bela "Por que Você não Vem Morar Comigo?") com outros catárticos (como "Respeitem Meus Cabelos, Brancos" e um mix em homenagem a seu Estado natal, com "Paraíba Meu Amor" e "Paraíba", entre outras), Chico fez mais de duas horas de show parecerem pouco menos de cinco minutos, de tão divertido. (LP)
Uma das gratas surpresas do ano foi a biografia do cronista Rubem Braga, escrita pelo jornalista Marco Antonio de Carvalho FOTO: EDITORA GLOBO/DIVULGAÇÃO
Uma das gratas surpresas do ano foi a biografia do cronista Rubem Braga, escrita pelo jornalista Marco Antonio de Carvalho
Nem mesmo a proibição do livro do jornalista Paulo César Araújo, “Roberto Carlos em Detalhes”, fez diminuir o interesse pelo gênero no país; eventos em várias partes do Estados movimentaram o mundo das letras
JÚLIO ASSIS E JOÃO POMBO BARILE
Este parece ter sido, no mercado editorial brasileiro, mais um ano das biografias. É significativo o número de lançamentos do gênero acontecidos ao longo dos últimos meses. Nem mesmo a censura sofrida pelo jornalista e historiador Paulo César Araújo – que teve o seu livro “Roberto Carlos em Detalhes” proibido por uma ação judicial impetrada pelo próprio cantor –, conseguiu diminuir essa tendência do mercado editorial brasileiro.
Na área musical as biografias atenderam a todos gostos e públicos: “Vale Tudo: Tim Maia”, de Nelson Motta (Editora Objetiva), “Clara Nunes: Guerreira da Utopia”, de Vagner Fernandes (Ediouro), e “Maysa – Só uma Multidão de Amores”, de Lira Neto (Editora Globo) são três bons exemplos de como a história da música brasileira ainda está no centro do interesse dos brasileiros. Isso sem falar nas memórias de Zuza Homem de Mello, reunidas em “Música nas Veias”, e publicada pela editora 34.
No cinema pelo menos três biografias mereceram destaque: o eruditíssimo trabalho do crítico Luiz Nazario “Todos os corpos de Pasolini”, da editora Perspectiva, “Grande Otelo – uma Biografia”, do mestre Sérgio Cabral, da editora 34 e “Oscarito: o Riso e o Siso”, de Flavio Marinho, editora Record.
A biografia do escritor Rubem Braga, escrita pelo jornalista Marco Antonio de Carvalho para a editora Globo, foi outra grata surpresa do ano. Em um catatau de mais de 500 páginas, a obra desvenda, com simplicidade e profundidade, a vida e obra do mais importante cronista brasileiro do século 20.
Já um dos homens mais poderosos (e misteriosos) dos últimos 50 anos no país também acabou ganhando versão impressa: “O Bispo”, do jornalista Douglas Tavolaro, (Editora Larousse) traz a versão oficial da trajetória de Bispo Macedo, o chefe supremo da Igreja Universal do Reino de Deus. Embora tenha sido publicada em 2006, só este ano as memórias de Gunter Grass ganharam versão brasileira: com “Nas Peles da Cebola”, o vencedor do Prêmio Nobel de 1999 revelou que fez parte da tropa de elite nazista, durante a II Guerra Mundial.
Ficção
No gênero ficção, um dos títulos mais incensados na literatura brasileira contemporânea foi “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza. Na poesia, vale ressaltar a reunião dos livros marginais de Chacal no volume de capa dura “Belvedere” (7 Letras/Cosac Naify).
Outra boa notícia para os amantes da literatura da América Latina foi o início da reedição das obras completas de Jorge Luis Borges pela Companhia das Letras. O autor argentino, antes publicado no Brasil pela Globo, na editora paulistana ganhará novas traduções. Serão mais de 35 títulos, em cerca de 23 volumes. “Ficções”, “Primeira Poesia”, “Outras Inquisições” e “O Livro dos Seres Imaginários” foram os primeiros quatro volumes publicados.
Entre os dois principais prêmios nacionais de literatura, o Jabuti e o Portugal/Telecom, este incluiu pela primeira vez autores de outros países de língua portuguesa. E o prêmio acabou indo para o romance “Jerusalém”, de Gonçalo M. Tavares, autor português nascido em Angola.
O badalado e jovem escritor, que hoje vive em Lisboa, em novembro publicou mais uma obra: “Aprender a Rezar na Era da Técnica” – último romance da série definida pelo autor como “livros pretos” (os outros três são “Depois de um Homem: Klaus Klump”, “A Máquina de Joseph Walser” e o premiado “Jerusalém”).
No Jabuti foi escolhido o romance “Desengano”, de Carlos Nascimento Silva (Agir Editora), e o mineiro Affonso Ávila ganhou na categoria poesia por “Cantigas do Falso Alfonso El Sabio” (Ateliê Editorial).
E por falar em concurso, uma boa notícia veio no final do ano, com o anúncio de criação do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, que vai distribuir R$ 212 mil entre escritores em várias categorias.
Por fim, outra boa notícia literária em Minas foram os festivais: a criação do Festival de Literatura de São João del Rei – Felit (que já na primeira edição, em novembro, homenageou Ferreira Gullar e recebeu Milton Hatoum); e o convênio entre o Salão de Minas Gerais e a Bienal do Livro do Rio de Janeiro para trazer, a partir de 2008, a bienal também para o nosso Estado. Estas iniciativas se somaram a outro encontro literário, o Fórum das Letras, já incorporado ao calendário de Ouro Preto.