|
 FOTO: tony cenicola/nyt |
|
|
|
Brasil » InteressaComportamento.Mundo virtual transforma relações pessoais e impõe o desafio de uma urgente adaptação às mudanças
Cultura digital: uma revolução do cotidiano
A tecnologia da informação está presente nas atividades mais corriqueiras e muita gente não consegue imaginar a vida sem ela
Andréa Castello Branco
Especial para o Tempo
Imaginar que a cultura digital é algo distante e descolado da vida cotidiana é quase tão antigo quanto enviar cartas pelo correio. A cibercultura é o que vivemos hoje e graças a ela é possível pagar contas, fazer inscrições para concurso ou vestibular, ler os principais veículos de comunicação, conversar com os amigos, programar uma viagem, votar, estudar, fazer a declaração do Imposto de Renda, tudo de forma digital.
Mais do que um artefato tecnológico inovador, a rede mundial de computadores estabeleceu uma nova forma de interação social e, conseqüentemente, de sociabilidade. Antônio Uxa Jacob, 37, é ortodontista e, a princípio, não imaginava que as novas tecnologias da comunicação fossem ter algum impacto em seu trabalho. Hoje ele tem a fotografia digital como mais uma ferramenta para o tratamento de seus pacientes.
"Isso foi um marco para a ortodontia e revolucionou meu dia-a-dia no consultório. Antes eu fotografava meus trabalhos em slides, uma coisa cara, demorada e com menos qualidade. Hoje faço tudo digital, vejo na hora minúcias que o olho humano não percebe", afirma.
Fora do consultório, Antônio também utiliza o meio digital para fazer pesquisas, reservar hotel, inscrever-se em congressos internacionais, conversar com amigos distantes, ler publicações especializadas e, algumas vezes, para pagar suas contas.
Sobrevivência. Já Bruno Magalhães tem a tecnologia como algo fundamental para seu trabalho como fotógrafo. É através dela que ele produz e encaminha as fotos que faz, mas Bruno faz questão de dizer que tenta ficar o maior tempo possível "desplugado".
Apesar de usar a internet para várias coisas - de pagar contas a ler jornais -, ele evita conversar pela rede. "Tenho voltado a telefonar para os amigos. Acho que a internet me desconcentra demais, quero ter mais tempo para outras coisas e perder menos tempo na rede", diz.
Sobre o impacto da tecnologia na sua profissão, Bruno acredita que a era digital tem prós e contras, o principal deles, a banalização da imagem. "Isso me incomoda muito, porque você começa a perder o valor de algumas imagens. Mas para o fotojornalismo a tecnologia trouxe muitos benefícios, como a agilidade". Perguntado sobre o que faria sem a comunicação digital, ele responde: "Não consigo me enxergar sem ela, mas sobreviveria perfeitamente", diz, rindo da própria contradição.
Sem rótulo. Essa nova forma de se relacionar com o mundo é mais uma etapa na história do homem, segundo Geane Alzamorra, professora de redes sociotécnicas do mestrado em comunicação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e coordenadora do projeto Incomunicação e Redes Hipermidiáticas.
"Cada época tem um marco tecnológico, um deles é a revolução industrial. Daqui a cem anos, a apropriação dos suportes de comunicação será outro marco importante na história. As tecnologias, em si, não são boas ou ruins. Platão era contra a escrita porque dizia que ela prejudicaria a memória. Vivemos uma situação muito semelhante. Hoje o nosso problema não é guardar, mas saber em qual pasta colocamos", compara.
Para Geane, uma das principais transformações se dá no modelo de transmissão de conhecimento. "Hoje temos um modelo colaborativo, de troca. O que muda numa sociedade tecnológica é a forma de interação, e isso realmente causa um impacto nas relações pessoais. Não que a relação face a face vá deixar de existir, continuamos encontrando com nossos amigos, o que muda é como essas relações se estabelecem", diz.
Para exemplificar essa mudança, ela conta uma experiência pessoal. Para sua disciplina no curso de graduação foi criado um blog onde os alunos publicam os trabalhos. "Isso gera uma visibilidade que antes não existia e estabelece uma relação completamente diferente com o próprio trabalho, com os colegas e com a professora. No blog, além da minha avaliação, eles contam com os comentários dos pares", conta Geane.
Fósseis. Ricardo Neves, autor do livro "O Novo Mundo Digital", é contundente em afirmar que aprender a usar as ferramentas tecnológicas - um aparato digital cada vez mais diversificado - é apenas parte do desafio. "Não se trata meramente de se dispor a fazer um curso de informática para acertar o passo com as mudanças. O mais complicado é a atitude de se adaptar às mudanças que vão ocorrer na forma como vivemos, aprendemos, trabalhamos, nos entretemos e nos socializamos. Viver na emergente sociedade digital global será um desafio tão maior quanto a resistência de cada um em aprender coisas novas e a mudar", afirma.
Para não virar um "fóssil da civilização", Ricardo Neves recomenda manter e cultivar a curiosidade e a vontade de aprender coisas novas. "O envelhecimento no ser humano não implica em envelhecimento da capacidade cognitiva. A primeira etapa para não se tornar um fóssil é se libertar desse modelo mental que transformou a velhice na equivocada paralisia produtiva e cognitiva", diz.
Para ele, a transição em direção a sociedade digital pode levar a duas direções opostas: a "sociedade do conhecimento" ou a "barbárie digital". "O primeiro seria um sucesso, onde estão aqueles que aprenderam a desenvolver estilos de vida capazes de usar plenamente tanto as ferramentas tecnológicas quanto a estrutura institucional dessa nova era. Quanto mais gente fracassar, pior para a humanidade. O risco de uma fratura social pode levar-nos todos à breca, para usar uma expressão das antigas", finaliza Ricardo Neves.
Geração virtual está crescida
Eles começaram a conviver com a tecnologia digital quando ainda estavam no útero materno, com a popularização do ultrasom. Hoje digerem rapidamente qualquer inovação tecnológica e substituem o contato físico com os amigos por relações virtuais.
Dentre os dez jovens entre 13 e 19 anos entrevistados, oito disseram que caso a internet não existisse, encontrariam mais com os amigos. Isabela Gersen, 13, passa o final de semana em frente à tela do computador conversando pelo MSN e Orkut.
“Se não existisse a Internet, eu acho que sairia mais com meus amigos e ficaria mais tempo com a minha família”, diz. Segundo ela, o isolamento é alvo de muitas críticas dos pais. “A minha mãe é quem reclama mais. Ela acha que eu fico tempo demais. Mas eu não acho”, conta Isabela.
Bernardo Otero Grossi, 19, está fazendo pré-vestibular e mesmo assim mantém uma média de quatro horas diárias na internet. A maior parte do tempo ele passa conversando com os amigos em sites de relacionamento e jogando. É outro que privilegiaria os amigos sem a Internet.
Aptidão. Estariam os jovens mais aptos ao mundo digital do que a gerações anteriores? Ricardo Neves acredita que em relação às ferramentas, sim, mas afirma que não basta destreza em usar as ferramentas high-tech para ser uma pessoa capaz de se dar bem na sociedade digital.
“A vida na frente do computador, horas e horas navegando games e outras paradas do gênero, tem um efeito narcotizante que chamo de heroinaware. O principal problema é incapacitar o jovem em se relacionar com situações e pessoas concretas: a vida e seus desafios, incluindo a emancipação que deveria começar na adolescência. Assim o jovem não tem um problema com a tecnologia. Nisso eles são bambas. O grande problema é que temos uma síndrome que os torna biologica e cognitivamente adultos, mas emocionalmente imaturos. E isso não é um privilégio do Brasil, é um fenômeno mundial”, afirma Ricardo Neves. (ACB)
Publicado em: 10/08/2008