CidadesChuva. . Avenida Tereza Cristina foi invadida pelas águas do ribeirão
Arrudas transborda, invade, arrasta, destrói e mata
Famílias que esperavam a chegada do novo ano perderam tudo durante o último temporal de 2008
Raphael Ramos e Helenice Laguardia
Três horas de temporal. O último do ano e também o que traria a primeira grande tragédia de 2009. Uma das principais avenidas de Belo Horizonte, a Tereza Cristina, transformou-se em um rio depois que o Arrudas transbordou na região Oeste. Em um cenário estarrecedor, três pessoas morreram. Entre elas, uma menina de apenas 3 anos. Outras duas vítimas ainda estariam desaparecidas até o fechamento desta edição.
Quem percorreu o local na manhã de ontem viu as marcas do desespero. Cerca de 50 carros e até mesmo um caminhão foram arrastados pela enxurrada. Vários deles estavam de cabeça para baixo como se tivessem capotado. "O ribeirão subiu cerca de 7 m acima do nível normal. Acima do nível da rua, chegou a atingir mais de 2 m em alguns bairros da região Oeste", informou o tenente Thiago Miranda, chefe da assessoria de comunicação do Corpo de Bombeiros.
O corpo da pequena Bianca Gabriela Antunes, 3, foi sepultado ontem no cemitério do Glória. Familiares e amigos da garota estavam desolados. Ela morreu dentro de casa no bairro Santa Margarida, após o imóvel ser invadido pelas águas.
VEJA GALERIA DE FOTOS DA ENCHENTE
Um casamento de 38 anos entre o comerciante Tarcísio Ribeiro, 63, e a dona de casa, Maria das Graças Santos Ribeiro, 61, foi desfeito pela invasão das águas do ribeirão. O Monza do casal passava pela Tereza Cristina, no Carlos Prates, nas últimas horas do dia 31. Pai, mãe e filha saíram pela janela e foram levados pela correnteza. Tarcísio contou que a mulher não resistiu e, depois de ser arrastada por 2 km, afundou. O corpo de Maria das Graças também foi sepultado ontem no cemitério Parque da Colina. O terceiro corpo, de Ronaldo Emílio Vieira, 51, foi encontrado em um córrego no bairro Camargos, em Contagem.
Vinte e cinco pessoas morreram em Minas em decorrência das chuvas que castigam o Estado desde setembro de 2008. Três das mortes - ocorridas em dezembro - não foram contabilizadas pela Coordenadoria de Defesa Civil, embora também estivessem relacionadas aos temporais.
Ontem, a força da enchente derrubou muros, postes de energia e arrancou enormes placas de asfalto. Em uma oficina mecânica, pelo menos cinco veículos foram destruídos. A lama invadiu dezenas de imóveis. Famílias que esperavam a chegada do novo ano perderam tudo e passaram a madrugada limpando as próprias casas
“Não tenho para onde ir. Perdi minha filha e tudo que eu tinha”
Tabata de Oliveira - 21 anos - Mãe de Bianca
O que aconteceu no momento do acidente?
Eu estava com a Bianca nos meus braços tentando subir as escadas da minha casa. A minha filha mais velha subiu correndo sozinha. O muro cedeu e caiu em cima de mim. Eu caí com ela na água e ela se soltou.
Você teve algum auxílio no momento da tragédia?
Os meus vizinhos começaram a procurar por ela. Chamamos os bombeiros várias vezes. Eles diziam que estavam a caminho, mas não chegavam nunca. Depois que a minha filha caiu, ainda demorou umas duas horas para eles aparecerem.
Quando a Bianca foi encontrada?
Quem encontrou o corpo da minha filha foram os bombeiros. Ela foi achada dentro de casa já sem vida. Foi arrastada pela água lá para dentro.
Você teve algum apoio das autoridades?
Não, ninguém me procurou. Quem está me ajudando é a liderança comunitária de Contagem. Alguns moradores fizeram doações para o enterro juntamente com a Pastoral da Criança.
A partir de agora, para onde você vai com suas filhas?
Não sei o que vou fazer. Eu morava naquela casa com minhas filhas e meu irmão. Tudo que eu tinha foi perdido.
Publicado em: 02/01/2009
Leia mais
»
O Tempo »
02/01/2009 - Asfalto cede e crateras tomam conta de avenida
