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HOMENAGEM

Ao palhaço de cara limpa 

Em curta temporada em BH, musical que celebra os 90 anos de Ariano Suassuna é inspirado no universo do dramaturgo

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SUASSUNA
Premiada companhia Barca dos Corações Partidos se junta ao escritor Braulio Tavares, ao diretor Luiz Carlos Vasconcelos e ao músico Chico César
PUBLICADO EM 11/11/17 - 04h00

 

Um vídeo, com mais de 100 mil visualizações no YouTube, de uma das inúmeras palestras de Ariano Suassuna (1927 – 2014), dá a entender tanto por qual via o musical “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”, em cartaz em BH no próximo fim de semana (dias 18 e 19), homenageia o dramaturgo, quanto o que ele queria dizer quando se descrevia como um palhaço frustrado.
 
Em dois minutos, Suassuna, que era avesso ao rock’n’roll, conta a história de um jovem que tentou convertê-lo em admirador do gênero e canta a música que o fulano teria usado para tanto. Alternando um “refrão” em que repetia os sobrenomes dos físicos Ernest Rutherford (1871-1937) e Niels Bohr (1885-1962) a versos como “um cavalo morto é um animal sem vida” e “em redor do buraco tudo é beira”, levou a plateia às gargalhadas.
 
A despeito do desdém do paraibano pelo rock, a música acabou ganhando arranjo e entrando no espetáculo, que não se pretende biográfico, nem mesmo uma colagem de referências à obra do autor. “A gente fez uma brincadeira que é dele mesmo. Ele não gostava de rock, mas de uma maneira bem-humorada. Como eu, um dos diretores musicais e alguns atores gostamos, nós decidimos colocar essa música na trama”, explica Braulio Tavares, autor do texto.
 
O projeto é dirigido por Luiz Carlos Vasconcelos, criador do palhaço Xuxu, e traz no elenco a companhia Barca dos Corações Partidos. Chico César, em parceria com dois membros do grupo, Alfredo Del Penho e Beto Lemos, são compositores e diretores musicais. Todo esse arranjo foi engendrado pela produtora Andrea Alves, como uma forma de celebrar os 90 anos do nascimento de Suassuna, completados este ano.
 
A proposta começou a ser delineada enquanto o dramaturgo ainda estava vivo. Assim como é herdeira da homenagem feita a ele quando completou 80 anos, de certa forma, também foi demandada pelo próprio Suassuna. “Das comemorações que realizamos em 2007, nasceu uma relação muito próxima e uma vontade de repetir a dose. Nós seguimos nos encontrando e numa dessas ocasiões, em 2009, ele brincou comigo, que eu não me metesse a besta de comemorar os 85 porque ele não iria morrer, e disse para comemorar os 90”, lembra Andrea.
 
A morte dele em 2014 foi um impacto muito grande, mas em momento algum a produtora desistiu de prestar a homenagem. “Nenhum dos três convidados tem diretamente a ver com o Movimento Armorial (criado por Suassuna), mas têm muito essa influência, conhecem sua obra e o conheceram”. 
 
“Quando pensei em alguém para escrever, o primeiro nome que me veio foi o do Braulio, que é muito próximo da obra dele. Como a ideia era homenagear o palhaço Ariano, pensei no Luiz, que o descreve como um ‘palhaço de cara limpa’ e tem um palhaço que é referência. O terceiro foi o Chico, a quem Ariano dedicou um livro de poemas. Só depois do time formado, notamos que eram três paraibanos, como ele”, conta ela.
 
Obra original
 
Confiado à missão de escrever uma obra original inspirada no universo do dramaturgo, Braulio deu início ao processo. “Foi uma oportunidade muito boa que eu tive para desenvolver certas ideias que tinha como leitor do universo de Ariano, esse mundo do sertanejo, que também é muito próximo a mim. As coisas do sertão me fascinavam e ainda não tinha tido muito a chance de explorá-las criativamente. E isso é algo muito mais interessante do que simplesmente escrever a vida dele”, diz Braulio.
 
Em cena, a história de um grupo de artistas saltimbancos que ruma a Taperoá, cidade onde Suassuna passou a infância, e onde planejam encenar um espetáculo. O texto inclusive traz as mesmas métricas de Suassuna (sextilhas, septilhas, décimas). “Ele era 23 anos mais velho que eu, mas havia uma coincidência de leituras, de vivência musical, com repentistas sertanejos. Então foi uma coisa rápida, simples pra mim, porque se por um lado eu recorria ao universo dele, esse universo era meu também”, afirma. 
 
O trabalho, no entanto, foi feito em conjunto. “De outubro do ano passado até junho deste ano, trabalhei profundamente com diretor e atores. Muitas cenas foram escritas em poucas semanas e o Luiz Carlos foi fundamental na parte final, em que ia determinando a entrada das cenas. Dizia: ‘Braulio, agora preciso de cena tal aqui’, e eu escrevia. De certa forma, foi regendo. Tínhamos muitas opções de enredo e tudo foi muito discutido entre o grupo, houve convergência de objetivos”.
 
Durante o período, inclusive, a equipe excursionou pelo Nordeste, visitando a casa do dramaturgo, no Recife, a Pedra do Ingá, bloco com inscrições rupestres, na Paraíba, que marcou o autor, e a Fazenda Carnaúba, que pertencia a ele, acompanhados de seu filho, Dantas Suassuna. 
 
Mas para além de falar de Ariano, “Suassuna – O Auto do Reino do Sol” fala do Brasil. “O musical reflete uma coisa que é um dos aspectos principais da obra dele: a contradição entre o Brasil oficial e o real”, observa. “Dos grandes senhores de terra que na peça são simbolizados por duas famílias em guerra, que provoca uma crise e leva os retirantes a se refugiarem no Vale do Soturno, uma espécie de Arraial de Canudos. E essa guerra se refere à obra do Ariano, mas também de Euclides da Cunha, de Guimarães Rosa e tem tudo a ver com hoje”, finaliza Braulio.
 
Suassuna – O Auto do Reino do Sol
Sesc Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, centro). Dias 18 (sábado), às 21h; e 19 (domingo), às 19h30. R$ 50 (inteira).
 

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