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Resistência de Natal

O Pampulha foi atrás de iniciativas que traduzem o verdadeiro sentido do Natal

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PUBLICADO EM 16/12/17 - 04h00

Vai chegando o fim do ano e muita gente, em vez de se empolgar com o Natal e o réveillon, fica desanimada: a correria contra o tempo para realizar as últimas tarefas pendentes, o trânsito sempre intenso, o sol que passa a maior parte do tempo escondido entre nuvens ou sobre a chuva, os shoppings abarrotados e, no meio disso tudo, tem sido cada vez mais comum ouvir quem diga que não suporta essa época. 

Mas não era para ser justamente o contrário? Não devíamos, a essa altura, estar tomados pelo espírito natalino e emanando energias boas por onde passamos? Então, o que foi que deu errado? A vida, de fato, não tem sido fácil para muitos de nós nos últimos tempos, e é por isso que o Pampulha foi atrás de pessoas que, apesar de toda a dificuldade e independentemente de crença ou religiosidade, seguem exercendo os valores relacionados ao Natal. Elas consomem de maneira consciente, exercitam a paciência, valorizam o encontro, têm um olhar positivo sobre as coisas e são solidárias, atitudes simples que já nos aproximam do sentido original. 

É o caso da roteirista Juliana Pacheco, 32, que criou com mais cinco amigas o “amigo planta”. A ideia é simples e, como o próprio nome indica, o presente dado nessa versão do tradicional amigo oculto precisa pertencer ao reino dos vegetais. “Nós éramos um grupo de vizinhas e estávamos sempre juntas. Foi chegando o Natal e quisemos fazer um almoço e trocar alguma coisa que fosse simbólica, mas que não custasse muito, porque ninguém tinha muito dinheiro”, conta. “Uma amiga que tinha quintal sugeriu isso das plantas e todo mundo achou legal. Funcionou tanto que este ano chegamos à quinta edição. Aos poucos, fomos entendendo melhor o espírito, afinal uma planta é um presente que precisa ser pensado não só de acordo com a personalidade de quem vai receber, mas também com o ambiente que vai ocupar e o trabalho que vai demandar”.

 

FOTO: Arquivo Pessoal
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Consciente. Em vez de objetos, Juliana (vestido floral) e seus amigos trocam plantas no Natal

Juliana acredita que essa é, sem dúvidas, uma forma de reencontrar o espírito natalino. “Embora esse seja um conceito um pouco abstrato e, se parar para pensar, acabou muito direcionado pra questão do consumo, não significa que ainda não mexa com a gente por dentro. Mesmo quem não é cristão está imerso nesse clima geral. Nós não dizemos espírito natalino, mas celebramos o amor. E não tem nada mais natalino do que isso, estar entre amigos, olhar no olho, abraçar as pessoas que no dia a dia acaba não vendo”, afirma. “E a planta mais do que uma troca comercial, representa o sentido da renovação da vida, trazer uma vida nova pra de cada um. Ela transforma o ambiente de uma forma que simples objetos não são capazes. Eterniza esse espírito”.Ao longo do tempo, o grupo foi aumentando e a proposta até já serviu de inspiração para outras pessoas. Além disso, as plantas recebidas nos anos anteriores seguem crescendo e dando identidade aos ambientes que ocupam. “Não é um presente que simplesmente é engavetado. Ele exige cuidado, afeto, atenção e assim pode durar indefinidamente. A nossa amiga que deu a ideia hoje mora num sítio e já ganhou duas árvores. Nós brincamos que nossos filhos vão brincar sob elas”, diz.

 

A associação entre roqueiros e o espírito natalino pode não ser óbvia, mas a Casa Cultural Matriz – espaço da cidade que recebe shows de rock e outras expressões alternativas – já está no 15º ano da campanha Matriz Solidária. A proposta é simples: bandas locais se reúnem para tocar e o ingresso é um brinquedo ou 1 kg de alimento não perecível. As arrecadações são direcionadas a entidades beneficentes. 

Além de ajudar as entidades, a proposta é também fortalecer a cena musical local, como explica o sócio gerente da casa Edmundo Correa, 58. “Eu e minha sócia Andrea Diniz fazemos com o intuito de ajudar a região onde nascemos, o bairro Primeiro de Maio (região Norte da capital). E também para abrir espaço para bandas autorais da cidade, para que mostrem seu trabalho e também fazer uma retrospectiva do que acontece no Matriz ao longo do ano”, diz. “O interesse das pessoas em ajudar, que aflora nesta época, eu acredito que é fundamental para o sucesso do evento”.

Para Além do cristianismo

Não há mistério: o espírito natalino são os valores ensinados por Jesus Cristo, como explica o teólogo e professor de antropologia da PUC Minas, João Nogueira Pereira. “É uma coisa que se espalhou mundo afora, não está mais só onde há cristianismo. É a simplicidade, a solidariedade e a própria alegria. Coisas muito bonitas que têm sua fonte em Jesus”, afirma.

O professor acredita que quem se indispõe com o Natal e o fim do ano pode estar, na verdade, com alguma questão mal resolvida dentro de si. “Não tem como essa ser uma época negativa, termina um ano, mas está começando outro. O Natal é justamente ligado ao renascimento, reanima, dá vida nova. Se a pessoa fica incomodada, algo no coração dela precisa ser mudado”, justifica. 

Para se reconectar com os valores natalinos, o professor João Nogueira recomenda três atitudes: não se isolar do mundo e valorizar o encontro; para quem tem fé, não perder a dimensão religiosa do momento e o vínculo com Deus; e, por fim, ter atitudes solidárias. “Além disso, é preciso tentar manter o olhar positivo sobre as coisas para poder encontrar o Natal dentro de nós. E assim, no próximo ano, talvez a gente consiga ver o mundo de uma maneira diferente, ainda que saibamos que há dificuldades e mantenhamos o pé no chão”, conclui.

Matriz Solidária

Apresentação de mais de 15 bandas belo-horizontinas.

Casa Cultural Matriz (r. Guajajaras, 1.353, Santo Agostinho, 3212-6122). Neste sábado (15), a partir das 15h. R$ + um brinquedo ou 1 kg de alimento não perecível.

Na França, iniciativa resiste ao consumo desenfreado

 

FOTO: FREDERICK FLORIN
FRANCE-TRADITION-CHRISTMAS-MARKET
Mercado em Estrasburgo propõe reflexão sobre consumo

Estrasburgo é uma cidade no leste da França que tem o mercado de Natal – uma tradição europeia datada da Idade Média – mais conhecido do país há 447 anos. Dentro da grande oferta de comidas, bebidas, roupas, artesanato e outros tipos de presente, surgiu, há três anos, uma iniciativa que se posiciona contra o consumismo desenfreado.

O Mercado Off acontece paralelamente ao Mercado de Natal de Estrasburgo, tem 24 expositores e está oficialmente incluído no calendário da cidade. Seu lema é “Um Outro Natal é Possível” e foi criado para estimular o consumo responsável e o comércio justo.

“O Mercado Off de Noel é um mercado de compras responsáveis, um mercado sobre o qual a economia social e solidária se insere no centro da capital do Natal, com o objetivo de fazer o diálogo entre o consumo e o engajamento, para incentivar as pessoas a consumirem produtos orgânicos, vindos do comércio justo, produtos vindos da estrutura de inserção da atividade econômica. São 24 expositores durante todo o período, que vendem toda sorte de produtos e presentes, como móveis, roupas, artesanato, eletrônicos, alimentação orgânica, uma gama larga e variada”, disse Marc Brignon, da Câmara Regional de Economia Social e Solidária do Grande Leste, organizadora do Mercado Off, à “Folha de S.Paulo”.

No restante do ano também

No fim do ano passado, o empresário Marcos Calmon, 45, recebeu um vídeo que o inspirou a dar o primeiro passo em direção a um desejo que há muito tempo queria realizar: ajudar moradores de rua. O vídeo em questão era de um projeto em Recife que viabilizava banhos para a população de rua da cidade. E foi o que o inspirou a criar o Banho de Amor, aqui em Belo Horizonte. 

A primeira ação local aconteceu no dia 17 de janeiro, mas ele acredita que o espírito natalino foi fundamental para conquistar voluntários para participar do projeto, uma vez que ele começou a procurá-los em dezembro. “A maioria das doações que recebemos foram no mês anterior, acho que as pessoas estavam mais predispostas a ajudar”, diz.

Mas o auxílio não ficou restrito àquela época. Hoje o projeto conta com mais de mil voluntários e oferece, todas as semanas, condições básicas de higiene, bem-estar e saúde, com um banheiro itinerante e outras ferramentas. Na próxima semana, inclusive, vai ser oferecida uma ceia de Natal para cerca de 300 moradores de rua. 

“Nesta época, é ainda mais importante não deixá-los desamparados. Nossa premissa básica é reconectar essas pessoas com a sociedade. E a via pela qual trabalhamos é a de elevar sua autoestima, pra que eles tenham força pra sair da rua”, explica o empresário. 

O Banho de Amor tem parceria com diversas entidades que fazem a reabilitação dos moradores de rua que têm problemas com álcool e drogas. Há também trabalhos de capacitação profissional e tentativa de reinserção no mercado de trabalho. 

 

FOTO: Filipe Rhodes/Divulgação
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Moradora de rua em ação do projeto Banho de Amor em BH

Desafio

“Hoje temos um cadastro de aproximadamente 50 pessoas sem envolvimento com álcool e drogas e prontas para trabalhar, mas ainda encontramos dificuldades de empregá-los por conta do preconceito. Nosso sonho é mudar o olhar das pessoas com relação aos moradores de rua em todos os sentidos e, sobretudo, os empresários, para que possam empregá-los”, afirma. “O emprego é a chave para tirá-los da rua e eles têm muita disposição para trabalhar”, garante.

Assim como Marcos, a voluntária do Centro de Valorização à Vida (CVV) Ordália Morais*, 72, tem trabalho durante o ano inteiro, mas ele se torna ainda mais importante na época das festas de fim de ano. “Nosso trabalho é oferecer apoio emocional e a prevenção do suicídio e nesta época do ano inevitavelmente existe uma demanda maior. A pessoa se sente sozinha, lembra dos entes queridos que já se foram ou que estão longe, tem mais angústia. É uma época em que as emoções ficam mais à flor da pele”, explica.

É por isso que o centro opera normalmente nessas datas. O trabalho, no entanto, não é um peso. Muito pelo contrário, como observa Ordália, voluntária do CVV há mais de 20 anos. “É um bem absurdo que faz ajudar alguém que está num momento de desespero, que não vê saída. É muito gratificante conseguir ajudar a encontrar uma luz”, diz.

(*) Sobrenome fictício

Ajude também!

Banho de Amor Toalhas de banho, luvas para limpeza, hidratante para o corpo, luvas cirúrgicas, limpador multiuso, saco de lixo 100 l, bucha vegetal, desinfetante, além de vagas para os moradores que têm condição de trabalhar. Encontre os pontos de coleta de doações na página facebook.com/projetobanhodeamor.

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