Nossa Educação

De A a Z

por Natália Oliveira

No quadro, a professora ensina a leitura de palavras e a separação de sílabas. Nas carteiras, os três alunos têm em comum a falta de oportunidade na infância e uma vontade incrível de aprender a ler e a escrever. E é em uma das salas da igreja do Carmo, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, que acontece o projeto de Alfabetização de Adultos. Por ali, a dedicação dos professores que reservam um tempo para o serviço voluntário e o esforço dos alunos que frequentam as aulas logo depois de trabalhar o dia todo chamam a atenção.

“Se eu soubesse ler, dava para fazer uma receita no meu trabalho, por exemplo. É muito triste a gente não ser alfabetizado, tem que ficar pedindo sempre ajuda para as pessoas”, lamenta Marlene da Silva, 61, empregada doméstica e uma das alunas. Outra colega de classe e de profissão, Maria Lira da Conceição, que prefere não revelar a idade, também sente falta da leitura, mas diz que as aulas já estão ajudando bastante.

“Antes eu tinha que pedir ajuda até para pegar um ônibus; depois das aulas eu comecei a conseguir identificar os coletivos, e isso é muito gratificante”, conta Maria. O aprendizado é fruto de muita dedicação. “A gente vê a força de vontade deles de vir aqui para aprender. Mesmo cansados, depois de trabalhar o dia todo, eles não faltam às aulas e demonstram muita vontade de aprender a ler e escrever”, afirma a professora Cecília Cica.

As aulas acontecem de segunda a quinta-feira, das 18h às 20h, e são ministradas por quatro professores voluntários, que se revezam. Há cerca de 20 anos a igreja oferece o trabalho. “É muito triste a pessoa chegar à idade adulta e não saber ler ou escrever. Primeiro de tudo, essa é uma necessidade do dia a dia, mas também é um passo para que eles possam conseguir empregos melhores”, considera a coordenadora do projeto Rita Roesberg.

Esse é um dos objetivos de Luiz Alberto de Oliveira Pinto, 55, que trabalha com reciclagem e espera que a leitura o ajude a melhorar sua vida pessoal e profissional. “Quando eu era criança, eu morava no Vale do Jequitinhonha e não tive oportunidade de ir à escola. Éramos muito pobres, e eu tive que trabalhar desde muito cedo para ajudar minha família. Agora eu tô correndo atrás de estudo para ver se melhoro minha vida”, conta.

Na sala de aula, os passos ainda são lentos, os alunos aprendem a formação de palavras, a separação de sílabas e o som das letras, mas aos pouquinhos cada um vai compreendendo a leitura e a escrita. Por lá, outro amigo dos estudantes é o dicionário, que lhes ensina o significado de muitas palavras que eles não sabem.

Além da alfabetização, na igreja também funciona uma escola profissionalizante com preços bem abaixo da média. “Nós facilitamos o pagamento e não exigimos nível de escolaridade; isso faz com que mais pessoas tenham acesso a uma formação profissional”, afirma Rita. Há cursos como estética corporal, massagem, cuidado de idosos, elétrica predial e outros.

Além dos muros da escola

Ensinar e incentivar os alunos a fazer da sua própria escola um espaço melhor. Esse é o objetivo do projeto Embaixadores de Minas, realizado por um grupo de estudantes que faziam um curso de empreendedorismo juntos. “Somos um grupo de amigos que queria multiplicar o que aprendeu e decidiu fazer este trabalho de empoderamento com alunos das escolas públicas. A ideia é mostrar que eles podem ser protagonistas de uma escola melhor”, explica Maria Guilhermina Abreu, 23, uma das integrantes do projeto.

Os voluntários vão até as escolas e tentam descobrir quais são seus maiores problemas e o que pode ser melhorado ali. A partir daí, eles criam incentivos de maneira dinâmica e lúdica para que os alunos se interessem a participar das melhorias.

“Tinha uma escola que estava sempre muito suja, os alunos jogavam papel no chão, e os gastos com a limpeza acabavam sendo muito altos. Fizemos um mutirão de limpeza, e os alunos perceberam que, se eles mantivessem a escola mais limpa, seria possível investir o dinheiro que antes era gasto com esses produtos em outra coisa”, contou Maria.

Ainda de acordo com a voluntária, em outras escolas foram criadas rodas de discussões sobre os problemas das unidades. “Em uma delas, os próprios alunos se organizaram e chamaram uma psicóloga para falar sobre bullying. Isso, para a gente, é muito gratificante porque mostra que valeu a pena”.

De casa para a rua

“Muito mais do que na escola, a educação deve começar em casa”. É com essa frase que a psicopedagoga Maria de Oliveira explica que a sociedade pode contribuir para uma cidade melhor. “Se os cidadãos são educados e se tratam com gentileza, com certeza conseguimos manter o respeito e melhorar a convivência na cidade tanto no âmbito social quanto no físico”, considera a especialista.

Segundo ela, pequenas ações no dia a dia também podem ser realizadas para melhorar a educação. “Isso vai desde ajudar alguém que conhecemos e que não sabe ler a se alfabetizar até levar conhecimentos para escola. Muita gente tem facilidade com arte, música e outras expressões culturais que voluntariamente podem ajudar na formação de alunos nas escolas”, conclui Maria.

Como ajudar? Para colaborar com os projetos, entre em contato com os organizadores pelos links no Facebook que estão no meio do texto.

Expediente

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