Nossa saúde

Recepção reformada na marra juvenil

Por Joana Suarez

O pintor Getúlio Pacheco, 65, costuma ler o jornal Super Notícia todos os dias à procura de emprego e foi no jornal que ele viu uma reportagem sobre estudantes que estavam a procura de de doações e voluntários para reformar a recepção do Hospital São Francisco de Assis, no bairro Concórdia, região Nordeste de Belo Horizonte. “Dinheiro eu não tinha não, mas liguei e disse que eu mexia com pintura e podia ajudar”, contou Pacheco que saiu do Vera Cruz, região Leste, a 40 minutos de ônibus, para trabalhar o fim de semana inteiro com os alunos de 18 a 25 anos da Faculdade Ibmec numa missão solidária pela saúde.

“Eu ainda trouxe um colega de trabalho para o emprego “0800”. Botei os meninos (estudantes) para lixar parede e a gente pintou”, disse Pacheco, sorridente ao final do expediente puxado no domingo. A remuneração não veio em dinheiro, mas sim em novas amizades e a satisfação de ver a entrada do São Chico, como o hospital é carinhosamente chamado, pronta para receber os pacientes do SUS com dignidade.

A ideia da reforma veio de uma reunião entre o projeto Ibmec Social e a diretoria do hospital. Para além de ajudar com doações, os alunos queriam botar a mão na massa e, após conhecerem a unidade, decidiram começar pela recepção. “Os pacientes chegam e precisam se sentir acolhidos no hospital. Juntando as pessoas é possível fazer qualquer coisa”, disse a coordenadora do projeto, Guilhermina Miranda, 23. As mais de 500 pessoas que passam por ali todos os dias ganharam mais espaço, mobiliário, telhado e piso nivelado com a reforma. O São Chico é o segundo hospital mais antigo da capital, chegou a fechar em 2009, e hoje tem 344 leitos, mas passa por dificuldades. Todo dinheiro recebido pelo governo vai para as áreas essenciais da saúde, remédios e materiais, não sobrando para reformas como a da recepção, onde bastava chover para alagar.

Durante o mutirão no último fim de semana de novembro, os pacientes olhavam pela janela, sem entender o que estava acontecendo. Nos corredores do São Chico, teve até gente achando que era coisa do programa Lar Doce Lar, da TV Globo, e que o Luciano Huck a pareceria para cortar o laço. Mas quem inaugurou a recepção reformada foi o grupo de mais de 50 voluntários belo-horizontinos, que ficou mais de 20 horas trabalhando em prol da cidade. Eles estavam com o rosto vermelho de tanto sol que pegaram - quando a causa é boa até o tempo ajuda, afastando a chuva.

Os alunos conseguiram R$ 14 mil para comprar o material e contratar profissionais da construção, mas foi graças aos vários voluntários que a obra saiu. Quem não era da área, ajudava como podia, fazendo massa de cimento, misturando areia, varrendo e executando serviços de servente. Cristian Feital, 32, é motorista particular, mas quando soube da reforma pela imprensa, pensou que essa seria a hora de ajudar. “Às vezes a gente não sabe o que fazer, e tem que abrir mão de alguma coisa, porque você nunca vai ter um tempo livre. A cidade só melhora quando cada um melhora por dentro”.

O pai de uma das alunas, Leonardo Diniz, empresário do ramo da construção, também resolveu trocar a folga pelo trabalho, estava preocupado se os jovens dariam conta do recado, e foi muito útil. “O problema era o pouco tempo, mas a equipe era grande e disposta”. Funcionários da manutenção do hospital foram escalados para auxiliar a turma. O médico Helder Yankous, superintendente geral da unidade, levou os filhos. O menino de 9 anos saiu até suado. “Queria que meu filho despertasse dentro dele essa energia de ação solidária”.

O mutirão não deve parar na recepção, a turma pretende ainda reformar o vestiário dos funcionários e o refeitório do hospital, mas será preciso fazer novas campanhas de arrecadação e contar novamente com os belo-horizontinos. “São pessoas muito jovens, envolvidas, engajadas. Vê se isso tem palavra?”, emocionava-se a gerente do hospital, Ana Beatriz Monteiro.

A reforma é algo inusitado para o hospital, que costuma fazer campanhas pontuais para arrecadar fraldas, papel, cobertor, etc. “Tem que incentivar esse tipo de coisa, sensibilizar as pessoas. São coisas que deveriam ser feitas pelas instituições, mas uma ação dessa faz com que a gente (equipe médica) consiga continuar atendendo, tem lugares que precisam muito. A sociedade organizada faz a cidade funciona melhor, espero que isso possa ser multiplicado”, destacou Yankous.

Expediente

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