Nosso trânsito

Pensando na mobilidade, mineiros criam aplicativos de carona solidária grátis

Por Joana Suarez

Em BH não há mais motivos para enfrentar quilômetros de engarrafamento todos os dias sozinho. Criações mineiras, dois novos aplicativos de caronas solidárias prometem mudar a relação de motoristas e passageiros com o trânsito da capital.

Por um deles, o Zumpy, tem cerca de 50 mil pessoas usando a ferramenta há mais de um ano, fazendo amizade e tirando carros da rua. Foram dadas mais de 72 mil caronas nesse tempo, e isso representou 1.230 toneladas a menos de gás carbônico que poluíam o meio ambiente.

“Temos uma tabela com dados para esse cálculo de quando você deixa um carro em casa. Nossas preocupações são a mobilidade urbana, a emissão de poluentes e tornar a cidade mais sustentável”, explicou o arquiteto urbanista André Andrade. Ele fundou o aplicativo Zumpy quando teve que mudar de uma casa, a dois quarteirões do trabalho, para outra, a 40 minutos, com congestionamento. “Pelo menos 80% dos carros particulares andam só com o motorista, você olha para o lado, e todos os carros têm apenas uma pessoa na direção. A gente precisava fazer alguma coisa, mesmo que isso não significasse um grande milagre”, disse Andrade.

Quem pega ou dá carona usando o Zumpy ainda ganha pontos para ter descontos em postos de gasolina, alimentação, festas e serviços. Helton Luiz Ferreira, 39, foi um dos primeiros usuários e já chegou a economizar R$ 100 de gasolina em um mês e fazer a revisão do carro com as pontuações adquiridas dando carona.

“Hoje, eu só dou carona, mesmo que seja para um amigo com quem vou almoçar, se pedir no aplicativo, para eu ganhar pontos”, contou Ferreira, que, a princípio interessado nos descontos em gasolina, passou a enxergar outras qualidades no serviço. “Comecei a ver a questão solidária, de ajudar as pessoas”. Ele fazia o mesmo caminho de casa para o trabalho havia quatro anos sozinho e, agora, anda quase sempre bem acompanhado por caroneiros. “Se você só olhar o risco, você nem sai de casa”, ressaltou. Nessas idas e vindas, Ferreira ficou amigo de um casal e foi chamado para ser padrinho do filho dele.

O aplicativo OnRide também tem foco colaborativo, e a ideia é a de construir uma rede social de caronas para que usuários interajam no tráfego, tornando-o menos maçante. Os fundadores estão em busca de mais usuários para bater a meta de 3.000 caronas dadas por mês. “Não conheço iniciativas semelhantes em outros lugares. Já temos investidor interessado no nosso aplicativo no Canadá”, afirmou o diretor de planejamento, Alexandre Strehle, 29, CEO do OnRide. Eles também se preocupam com a segurança do serviço, por isso lançaram um modo de mulheres só pegar carona com mulheres. Strehle avalia ainda que o risco pode estar em você não pegar a carona e ficar sozinho no ponto esperando o ônibus. “Teve o caso de uma menina que utilizava o aplicativo, e a amiga não; ela conseguiu uma carona no aplicativo, e a outra ficou na rua e foi assaltada no mesmo dia”.

Bicicletas e mobilidade

Para quem pensa que só os governos podem melhorar o trânsito de uma cidade com obras e sistemas de transporte público, o movimento BH em Ciclo está aí para provar o contrário. Além do foco nas ciclovias e ciclistas, já bastante conhecido, eles participam de audiências para discutir a mobilidade urbana. Durante as eleições municipais, fizeram debates com os candidatos para que eles incluíssem no plano de governo demandas para uma cidade mais sustentável, que valorize o transporte por bike. A campanha #D1Passo incluiu ainda os grupos Nossa BH, Bike Anjo BH e Tarifa Zero, que juntos estruturam um documento com seis eixos para a promoção da melhoria da mobilidade urbana da cidade.

A BH em Ciclo também mensalmente participa das reuniões do GT Pedala BH, onde os ciclistas e técnicos da BHTrans discutem sobre projetos referentes ao uso da bicicleta na cidade. Outra ação do Tarifa Zero propõe a implantação de uma linha no aglomerado da Serra, região Centro-sul da capital. Foi colocada uma “buzona” rodando gratuitamente no bairro por um dia e agora eles estão recolhendo assinaturas para que a linha seja oficializada.

“É importante a sociedade se movimentar, nem tudo depende só do poder público. Os bons projetos são aqueles que tentam reduzir a necessidade de deslocamento das pessoas, algo que vai até contra o nome ‘mobilidade urbana’, criado por marketing. Para melhorar a qualidade de vida, a sociedade tem que se mover menos na cidade”, defendeu o professor de engenharia de transportes da Universidade Federal de Minas (UFMG), Dimas Gazolla Palhares. Para ele, incentivar, através da iniciativa privada, uma criação de mais cinco grandes centros em BH, como nos bairros Castelo, Cidade Nova e em Venda Nova, com o mesmo padrão da Savassi, é mais importante do que colocar metrô, “gasta menos e tem mais eficiência”.

Expediente

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