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Jogando por música

Melodias dão o ritmo dentro de campo

Relação entre futebol e canções vão além dos hinos e cânticos entoados no estádio e invade os vestiários

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Jemerson fone de ouvido
Jemerson deu seus pitacos musicais que podem ser ouvidos na playlist "O som dos boleiros", no Spotify
PUBLICADO EM 05/02/18 - 03h00

Não é de hoje que se diz que futebol e música possuem uma relação estreita. Recentemente, Claudio Ranieri, ex-técnico do Leicester-ING, publicou um texto no site The Player’s Tribune fazendo um paralelo entre os dois. Para ele, o treinador age como um músico, fazendo com que os jogadores atuem em harmonia, como se fossem notas musicais. Já no documentário “Bola no Asfalto”, que retrata a evolução do esporte na periferia francesa, as duas partes formam um binômio importante na identidade e no crescimento dos atletas. Mas até que ponto um interfere no outro?

Editor da revista FuLiA, da UFMG, e pesquisador de futebol, linguagens e artes, Gustavo Cerqueira vê uma influência direta da música no comportamento nos gramados. “Se você pensar nos estádios, há, por exemplo, a interação do torcedor cunhando hinos e cânticos e levando instrumentos. Uma charanga, por exemplo, dita o ritmo de uma arquibancada, que pode interferir no jogo. Temos um pesquisador italiano, o Paolo Pasolini, que diz que muito de o futebol da América do Sul ter o drible como característica marcante se deve ao fato de ele ter uma formação cultural intrínseca, e é impossível não pensar uma identidade cultural sem música. E a música interfere no modo como se modela o corpo”, avaliou.

Cerqueira cita como exemplo um método de treinamento usado pelo Alianza Lima, do Peru. “Fui a Lima fazer uma entrevista e vi que é comum eles colocarem a música durante os treinos para melhorar o movimento de corpo dos atletas, principalmente da base. Assim, o corpo se desenvolve dentro de um ritmo e assimila esse módulo”, exemplifica.

Os próprios atletas destacam essa harmonia. Para Jemerson, zagueiro da seleção brasileira e do Monaco-FRA, a música se faz presente nos vestiários seja para embalar uma conquista ou para relaxar em momento de decisão. “Tenho boas lembranças com música. Na base do Atlético, sempre colocava ‘Tá escrito’, do Revelação. Ela embalou nossa conquista na Copa BH que fomos campeões (em 2011). Acho que música e futebol têm uma harmonia muito grande. A maioria dos jogadores gosta de ouvir música antes dos jogos para dar uma relaxada, diminuir a tensão e também para se concentrar”, relembra.

Outro xerife, desta vez o zagueiro do Coelho Messias, vê a relação como intensa. “Eu sou até suspeito para falar, porque sempre gostei muito de samba e pagode. Para mim, tem a relação muito intensa”, aponta.

Passando por vestiários de três times de Estados diferentes, o atacante Lucas Marques, ex-Inter e Chapecoense e atualmente no Vitória, diz que quanto mais agitada a música, mais o time entra “ligado” em campo. “Acho que isso é com todos. A música é uma forma de concentrar, e claro que interfere no jogo. Por isso, gosto das músicas mais agitadas. Não dá para colocar músicas mais amorosas”, completa o avançado.

Documentário. Disponível no Netflix, o documentário francês “Bola no Asfalto” (Concrete Football, 2016), mostra como o futebol de rua possui um código próprio de conduta e costumes.

Editoria de Arte
O Som dos Boleiros
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Jemerson

Xerife nos gramados, mas coadjuvante no som

Se dentro de campo o zagueiro Jemerson impõe respeito aos atacantes do mundo inteiro, o mesmo não se pode dizer na hora de comandar o som no vestiário. “Desastre” nos vocais, como ele mesmo diz, o defensor prefere ficar apenas dançando quando o volume sobe.

“Olha, eu até dou uma enganada dançando. Agora, para cantar eu sou um desastre (risos). Só na dança que eu me viro mesmo”, brinca o xerifão.

Se no vocal ele prefere ficar no seu cantinho, na hora de escolher o som do vestiário do Monaco ele garante que dá seus toques. “Aqui, quem fica nessa função é o Fabinho e o Rony Lopes. De vez em quando, eu também ajudo e coloco as minhas músicas na playlist, mas deixo essa função pra eles”, revela o zagueiro.

Só na seleção brasileira que o zagueiro prefere não dar nenhum pitaco, apesar de destacar o ambiente democrático. “Na seleção tem bastante gente que reveza, tem o Neymar, o Daniel Alves, o Thiago Silva, o William e o Marcelo também. Não tem só um que comanda o som. Lá eu nunca cheguei a colocar nenhuma música. Vai que os caras não gostam. Deixa eles fazendo isso porque está dando certo (risos)”, brinca Jemerson.

Mas segundo o xerife, um dos melhores ambientes que viveu foi no Atlético, entre 2012 e 2015. “No Galo era muito legal. Sempre depois dos jogos rolava uma música, normalmente quem escolhia era o Tardelli ou o Donizete. Do trajeto até o Independência até o aquecimento era só animação. Eu gostava bastante”, recorda.

O futebol na música brasileira

Vice-versa. Assim como a música contagia um ambiente e um estádio, o contrário também se aplica. Apaixonado pelo tema, o editor da revista FuLiA, Gustavo Cerqueira, recentemente fez um trabalho de curadoria para o Museu Brasileiro do Futebol (MBF), localizado no Mineirão, no qual conseguiu incluir cerca de 180 músicas que citam diretamente o futebol.

Craques do som. Em suas pesquisas, Cerqueira destaca trabalhos de compositores consagrados da MPB, como Jorge Ben Jor, Pepeu Gomes, João Bosco, Aldir Blanc, Milton Nascimento e Fernando Brant. Além disso, ele cita músicas que nos embalaram nas Copas. “Tivemos das ‘Touradas em Madri’, em 1950, até ‘90 milhões em ação’, como na Copa de 1970”, destaca.

No vestiário

Ambientes democráticos e “samba para inglês ver”

A harmonia no América não é vista só dentro de campo. No vestiário alviverde, não existe hierarquia de quem vai comandar o agito antes e depois dos jogos.

“No América temos vários que puxam as músicas. Eu, Rafael Lima, Giovanni, Luan... Fica bem dividido. Quem chegar com uma música boa, que se encaixe no nosso ritmo, vai puxar tranquilamente. É um momento interessante, no qual todo mundo interage e não tem um comando. Fica um som bacana”, destaca o xerife Messias.

Porém, o defensor deixa claro que não faz questão alguma de soltar a voz no vestiário. “Olha, dançar eu não sei nada e canto muito mal, mas gosto de cantar na roda de samba com a rapaziada, mas só ali mesmo (risos)”, brinca o defensor.

O ambiente democrático também dita o tom no vestiário do Watford, onde atua o atacante Richarlison, cria da base do Coelho. Porém, como ainda a barreira linguística pesa um pouco, ele dá seu “jeitinho” para conquistar espaço no clube inglês.

“No vestiário, quando dá, eu sempre coloco minhas músicas para tocar. Como não entendo muito da música inglesa ainda, sempre coloco um Racionais, um funk ou um Exaltasamba. E aqui em Watford é mais tranquilo, porque o pessoal não entende nada das músicas brasileiras (risos)”, comenta.

Destaque do Watford na temporada, o atacante garante que também manda bem fora de campo. “Estou ganhando espaço. Mas no Fluminense e no Coelho quem comandava o som era eu (risos)”, garante.

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