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Teste físico barra mulheres na arbitragem brasileira

País até tem candidatas a árbitras centrais, mas exames exigidos, que são os mesmo para os homens, dificultam o acesso feminino à carreira

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Bibiana Steinhaus
Bibiana Steinhaus apitou jogo da Bundesliga, na Alemanha, no fim de semana passado e saiu de campo bastante elogiada
PUBLICADO EM 13/09/17 - 03h00

A comissária de polícia Bibiana Steinhaus, 38, roubou a cena no último fim de semana durante o empate em 1 a 1 entre o Hertha Berlim e Werder Bremen, pela Bundesliga. Ela trocou a arma pelo apito e tornou-se a primeira mulher a apitar uma partida da principal divisão do Campeonato Alemão. Firme e segura, Bibiana deixou o gramado bastante elogiada após os 90 minutos de bola rolando.

O Brasil também já teve suas árbitras no passado, mas assumir o comando de uma partida de futebol masculino ainda é praticamente um desafio para as mulheres. O principal entrave apontado pelas pessoas ouvidas pela reportagem seria a exigência dos mesmos testes físicos aplicados aos homens, o que deixa as árbitras em desvantagem.

Presidente da comissão de arbitragem da Federação Mineira de Futebol (FMF), Giuliano Bozzano reconhece essa barreira, mas explica que é necessária para que elas possam entrar em campo em condição de igualdade com os homens. “De fato, esse é um problema, porque as mulheres precisam ser aprovadas nos testes masculinos. Talvez essa questão do teste físico seja uma barreira difícil de transpor, mas é necessária, porque na hora da partida elas estarão diante de jogadores profissionais que têm o mais alto índice de preparo físico”, explica ele. “Um árbitro de futebol hoje corre até mais do que um jogador, chega a percorrer entre 12 e 14 quilômetros a cada jogo. Então, o preparo físico dos árbitros precisa ser igual. As mulheres como assistentes são muito precisas, estão se saindo cada vez melhor. Mas para atuar em jogos masculinos, você precisa correr como os homens, senão elas estariam em desvantagem dentro de campo”, exemplifica Bozzano.

Minas Gerais tem hoje 19 mulheres nos quadros de arbitragem da FMF, sendo que quatro delas são árbitras, mas podem trabalhar apenas em jogos de futebol feminino, base e futebol amador (partidas nas quais o nível de força física dos atletas não é como o dos profissionais masculinos). Destas, sete pertencem aos quadros da CBF, sendo seis assistentes e uma árbitra central.

A exigência de testes para árbitros centrais e assistentes é diferente e varia de acordo com as necessidades de cada um em campo. O juiz precisa ter uma capacidade aeróbica maior, enquanto os bandeirinhas são mais exigidos em corridas rápidas e curtas, além de corridas laterais.

Apenas duas mulheres em Minas Gerais, atualmente, conseguiram ser aprovadas nos testes físicos para apitar as partidas de futebol masculino. A corretora Helen Aparecida Gonçalves Silva Araújo, 31, e a professora de educação física Fernanda Nândrea Gomes Antunes, 26, que são assistentes, já trabalharam em partidas do Módulo I do Campeonato Mineiro e aguardam agora a oportunidade de atuar em partidas das Séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro. “No início é assim mesmo. Você entra para os quadros da CBF e vai passando por um período de aprendizado, em competições como o sub-20, por exemplo. Tenho agora que esperar a minha chance em partidas nacionais principais, o que acho que já deve acontecer a partir do ano que vem”, explica Hellen. Mesmo aprovada, Fernanda Nândrea acredita que poderia ser encontrado um meio termo para os exames. “Seria o ideal, porque os testes são muito sofridos”.

A reportagem tentou contato durante a tarde de ontem com a comissão de arbitragem da CBF, mas até o fechamento desta edição não obteve resposta sobre o número de mulheres na arbitragem no país e se existe a possibilidade de alguma mudança no processo de seleção de árbitras centrais.

Pressão. Para a assistente Fernanda Nândrea, a questão física é, sim, bastante complicada, mas existe um outro fator que pesa muito na hora de fazer os exames. “O mais difícil no teste é manter a concentração, porque quem está bem condicionado e bem preparado fisicamente, tira de letra. Mas nessa hora tem o fator psicológico que conta demais. Principalmente pra mim, porque é muito desgastante”, explica ela. Pouco a pouco, ela vem ganhando experiência nas competições estaduais, enquanto aguarda ansiosa aparecer a primeira oportunidade no Brasileiro.
 

Trabalho dividido entre a Polícia Civil e a arbitragem

A policial civil aposentada Maria Edilene Siqueira é uma das árbitras centrais mais conhecidas do país. Em 8 de novembro de 1992, na Ilha do Retiro, depois de já ter arbitrado outros cinco jogos menores, a pernambucana Maria Edilene foi selecionada para apitar Sport x Santa Cruz, válido pela última rodada da primeira fase do segundo turno do campeonato local.

Era o primeiro clássico que seria dirigido por uma mulher no futebol pernambucano. Os corais venceram por 1 a 0, e a “juíza” não admitiu indisciplina, expulsando o tricolor Malhado e provocando revolta dos torcedores.

A desejo de Maria Edilene pelo futebol começou na infância, quando ela ainda estava na escola e se interessou pelas partidas de futebol. Com o tempo, foi estudar e se tornou árbitra. Ela dividia o tempo entre os gramados e a Polícia Civil pernambucana, onde aposentou-se como instrutora de tiro.

FMF. Quem quiser tornar-se árbitro de futebol deve procurar, em Minas Gerais, a Federação Mineira de Futebol e fazer o curso. A carga horária é composta de 220 horas-aula, que são feitas em seis meses. O custo do curso completo é de oito pagamentos de R$ 390. A próxima turma ainda não tem data exata para começar, mas está prevista para daqui a três semanas.

Processo. As aulas acontecem na sede da própria FMF, na rua Piauí, no bairro Funcionários. Após a finalização do curso, os alunos passam pelos testes físicos. Caso sejam aprovados, estão aptos a começar a apitar em jogos do futebol amador e de categorias de base logo em seguida.

FOTO: arquivo pessoal
Maria Edilene Siqueira
A pernambucana Maria Edilene Siqueira foi uma das árbitras centrais mais conhecidas do país

Números

38 anos tem a alemã Bibiana Steinhaus; que apitou na Bundesliga

19 mulheres fazem parte atualmente do quadro da FMF

7 delas fazem parte do quadro nacional de arbitragem da CBF

4 dessas mulheres são árbitras, mas não podem apitar jogos masculinos

15 optaram pela carreira de árbitras- assistentes

2 mulheres de Minas Gerais conseguiram ser aprovadas nos testes masculinos

14 quilômetros em média corre atualmente um árbitro do futebol nacional

FOTO: JOÃO GODINHO - 11.9.2015
Ana Paula
A ex-assistente Ana Paula foi reprovada em testes e lutou pela diferenciação entre homens e mulheres

Mineiras reconhecem dificuldade e importância

Mineiras aprovadas nos testes para trabalhar em jogos masculinos do futebol nacional, as assistentes Helen Aparecida Gonçalves Silva Araújo, 31, e Fernanda Nândrea Gomes Antunes, 26, reconhecem o nível de exigência das provas, mas confirmam que estar bem preparada é fundamental para apitar as partidas no futebol atual.

“Eu entendo a intenção deles com relação a isso. A Ana Paula Oliveira (ex-assistente) lutou muito por essa questão, mas a CBF entende o contrário. Geneticamente falando, é impossível você competir com um homem, principalmente em corrida. Eu custei a entender essa situação, mas hoje eu concordo. Os jogos estão muito corridos, cada vez mais disputados. Às vezes, se você não estiver bem preparada, você pode se complicar. No passado, eu não entendia. Mas, hoje, vejo que o futebol moderno exige isso”, pondera Helen.

“A gente ama o que faz e quer melhorar a cada dia. Se a exigência hoje é essa, eu tenho que tentar dar o melhor de mim para estar apta a fazer o que eu gosto todos os dias”, completa a assistente, que entrou na profissão graças ao marido, que também apitava e hoje aposentou-se dos gramados. Quando não está apitando, ela divide o tempo entre as atividades físicas e o trabalho em uma corretora de imóveis da família.

Fernanda Nândrea, que também trabalha como professora de educação física, segue a mesma linha de raciocínio de Helen. “Olha, de certa forma, eu concordo. Porque necessitamos estar muito bem condicionadas para trabalhar nos jogos, e acaba que o teste nos força a estar bem. Sinto uma diferença enorme de quando eu não tinha índice masculino para hoje. Agora, consigo acompanhar as jogadas com maior facilidade” explica.

FOTO: Douglas Magno - 3.4 2016
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Fernanda é uma das duas mineiras aprovadas nos testes masculinos

 

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