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Carta & Crônica
Henry Galsky
13 de Julho - Sexta-feira - 12:21

Em complementação ao último texto, considero importante estabelecer alguns parâmetros e análises sobre o chamado “acordo final” ou “acordo do século” prometido pela administração Trump. Não se trata de um processo banal, mas, pelo contrário, um ponto que pode marcar a ruptura da tradicional abordagem americana sobre o Oriente Médio de forma ampla e sobre o conflito israelense-palestino de maneira particular.

É evidente que há uma rota pensada pela Casa Branca para apresentar o plano ou mesmo sentir a temperatura do ambiente. Esta rota inclui viagens dos enviados Jared Kushner e Jason Greenblatt para além dos atores regionais diretamente interessados – israelenses e palestinos.

Nos Acordos de Oslo – considerado métrica principal deste esforço americano atual –, nomeavam-se os passos rumo à construção de confiança entre as partes e medidas preliminares como “road map”, mapa do caminho – expressão comum não apenas a esta circunstância das relações internacionais, importante dizer.

O mapa do caminho atual envolve o percurso que Kushner e Greenblatt têm realizado pelas principais capitais dos aliados árabes sunitas no Oriente Médio e também pelo Catar – faço esta observação sobre o Catar porque este ator passou a manter relações complicadas e antagônicas com as demais monarquias da região, aproximando-se do Irã, além de aliança tradicional com o Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza.

É justamente de um cidadão do país, Muhammad Amadi, enviado especial do Catar a Gaza, a informação de que Israel e o Hamas estariam em contato indireto sobre a situação de colapso no território costeiro palestino. De acordo com Amadi, em entrevista à agência chinesa Xinhua, os Estados Unidos teriam conhecimento sobre esses contatos, o que reforçaria ainda mais os argumentos que expus em meu texto anterior.

Ou seja, seguindo o raciocínio deste texto atual e do anterior, se confirmados, os elementos que sustentam esta nova lógica americana e seu “acordo do século” ou “acordo final” estão todos expostos.

Washington procuraria, portanto, viabilizar alguma forma de negociação e posterior acomodação entre israelenses e palestinos costurando um entendimento entre Hamas, Israel e as monarquias sunitas do Golfo Pérsico apesar da franca oposição da Autoridade Palestina (AP).

A ideia quanto à possibilidade de se chegar a alguma forma de entendimento – mesmo provisoriamente – de “fora para dentro” é até bastante coerente com o modelo de atuação do atual governo americano. Esta lógica estabelece que, diante de um obstáculo (papel por ora exercido pela AP), o sucesso pode e deve ser encontrado a partir de uma eventual substituição ou superposição.

Na prática, esta é uma decisão que parece ter sido tomada pela indisponibilidade da AP em negociar com os americanos ao questionar repetidamente a legitimidade do governo Trump na mediação deste conflito. O impasse entre AP e EUA foi encarado por ambas as partes como uma espécie de “ida” ao mercado internacional de alianças. Como se poderia imaginar, os palestinos e seu presidente Mahmoud Abbas tiveram por enquanto menos sucesso que os membros do governo Trump.

A medição de forças levou os EUA a fazerem uso com ainda mais intensidade da histórica proximidade com as monarquias sunitas do Golfo – aparentemente cada vez menos interessadas no conflito entre israelenses e palestinos em função da ameaça representada pelo Irã para a sobrevivência de seus próprios regimes.

Esta é a dinâmica atual e é neste ambiente que o “acordo do século” parece estar em construção.

 

Informação aos leitores: o site vai dar uma parada em julho. Entro de férias e retorno às análises por aqui na segunda semana de agosto.

11 de Julho - Quarta-feira - 09:46

Há grande expectativa sobre a possibilidade de o governo Trump apresentar um plano de paz em breve para retomar as negociações entre israelenses e palestinos. Trump chama este projeto de “o acordo final” ou “o acordo do século”. O presidente americano tem especial interesse no assunto, o nó internacional a ser desatado que provoca, como a espada do Rei Artur, as maiores ambições de sucessivas lideranças, inclusive de seu antecessor e rival permanente Barack Obama.

No entanto, há também muitos empecilhos para a retomada das negociações. O primeiro deles é a confiança dos palestinos – especialmente os representantes oficiais da Autoridade Palestina (AP) – no papel por parte deste governo americano de mediador do processo.

Em dezembro de 2017, Donald Trump anunciou em Washington a decisão de transferir a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. A retórica se transformou em prática em maio deste ano sob protestos veementes dos palestinos – parte dos protestos realizado ou cooptado pelo Hamas em Gaza ocorreu sob este argumento, muito embora a sequência de enfrentamentos com o exército israelense na fronteira entre Gaza e Israel já tivesse sido planejada anteriormente.

Há alguns pontos que cercam as possibilidades e principalmente impossibilidades do momento atual. Um deles está relacionado à disputa de poder interno entre os palestinos, especialmente entre o presidente palestino, Mahmoud Abbas, representante oficial e reconhecido internacionalmente da Autoridade Palestina (AP), e o grupo terrorista Hamas.

As várias tentativas entre os dois lados de reconciliação interna permanecem infrutíferas. E, na prática, depois de a AP ter sido expulsa de Gaza pelo Hamas em 2007, essas duas entidades têm posições opostas e controlam territórios distintos. O Hamas tem soberania integral no interior da Faixa de Gaza; a AP, parcialmente na Cisjordânia.

Em março deste ano, o primeiro-ministro palestino, Rami Hamdallah, sofreu tentativa de assassinato quando visitava a Faixa de Gaza. A AP acusa o Hamas pelo ato cujo propósito, de acordo com Mahmoud Abbas, seria impedir o prosseguimento do processo de reconciliação interna palestina. A AP pretende reunificar os territórios palestinos na mesma configuração existente antes da expulsão de seus membros pelo Hamas, governando desta maneira Gaza e Cisjordânia. O Hamas não pretende retornar a este ponto.

Esta disputa interna palestina tem levado o presidente Mahmoud Abbas a impedir o repasse de salários a funcionários públicos palestinos e cortar o fornecimento de eletricidade e suprimentos médicos a Gaza. A ideia é forçar o Hamas a desistir de suas ambições estratégicas.

E é neste ponto que o plano de paz do governo Trump se apresenta no Oriente Médio. O assessor sênior e genro do presidente, Jared Kushner, e o enviado para o Oriente Médio, Jason Greenblatt, estão em contato permanente com lideranças regionais em busca de recursos para costurar um plano capaz de amenizar a situação de colapso na Faixa de Gaza. E, a partir disso, apresentar este chamado “acordo do século”.

As informações preliminares dão conta de que oficiais americanos estariam em busca de 500 milhões de dólares das monarquias do Golfo Pérsico para financiar a reconstrução de Gaza. Haveria a possibilidade de criação de infraestrutura no norte do Deserto do Sinai egípcio, que incluiria duas usinas (uma de dessalinização da água, outra para produção de energia solar) e até um porto destinado a receber e exportar produção palestina – este último seria estabelecido no Chipre.

Seja como for, se realmente confirmado, o projeto em sua configuração ampla representaria um olhar absolutamente novo no contexto dos planos apresentados até hoje para solucionar ou ao menos impedir o progresso dos conflitos entre israelenses e palestinos.

No entanto, como escrevi, se concretizado, este plano teria consequências políticas importantes. E a primeira delas é o isolamento da AP, que passaria a ser figura irrelevante na política palestina e no processo de interação regional. Se as monarquias sunitas aderirem ao plano da forma como ele parece se desdobrar, o protagonismo palestino passaria a ser da entidade que hoje de fato administra a Faixa de Gaza; o Hamas, portanto.

No plano regional, outra dúvida seria a questão quanto ao destino da Cisjordânia. Num cenário de liderança prática palestina por parte do Hamas com a AP em franco colapso, a quem ficaria a responsabilidade governamental neste território? Haveria uma nova liderança palestina (hoje inexistente numa Cisjordânia parcialmente administrada com mão-de-ferro por Mahmoud Abbas)? Israel assumiria o controle integral do território? Ou os jordanianos estariam dispostos a participar de alguma maneira deste processo? Como reagiriam os palestinos que vivem nesta região?

Sob o ponto de vista americano, o plano decretaria a morte dos já finados Acordos de Oslo, assinados em 1993 pelo então primeiro-ministro israelense Itzhak Rabin, pelo então presidente americano Bill Clinton e pelo então presidente da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) Yasser Arafat.

Ou seja, se este for mesmo o “acordo do século” e se de fato este acordo for posto em prática, ele tem o enorme poder de uma só vez derrotar o histórico de atuação internacional dos EUA no Oriente Médio, a maior conquista do partido Democrata na região, a posição histórica da esquerda israelense em seu principal projeto político e, finalmente, causar o fim ou o enfraquecimento fundamental da própria AP.

Resta saber se o “acordo do século” tem exatamente essas configurações, se ele é flexível e como os atores regionais irão reagir quando ou se ele for apresentado formalmente.

03 de Julho - Terça-feira - 15:54

O México tem um novo presidente, o político de esquerda Andrés Manuel López Obrador ou apenas AMLO como é conhecido. Crítico da atual administração de Enrique Peña Nieto, López Obrador já foi prefeito da cidade do México e tem se mantido relevante politicamente há décadas. Tentou se eleger presidente por três vezes e, nesta última, foi bem-sucedido.

Entre seus desafios, o combate à pobreza, desigualdade e violência. Num momento de discussão sobre imigração, o tema também esteve presente no debate eleitoral, mas este era um ponto comum a todos os candidatos – todos discordam de Trump e da política adotada na fronteira sul com o México. E, assim, também expuseram críticas ao posicionamento do governo atual do presidente Enrique Peña Nieto.

As crises migratórias e suas consequências são pautas permanentes das discussões políticas nacionais. As decisões de Peña Nieto seguiram as diretrizes presidenciais dos EUA. Para ser justo, não apenas de Trump, mas também de seu antecessor, Barack Obama.

Hoje, ao contrário do que se imagina, o número de mexicanos tentando cruzar a fronteira americana ilegalmente está em queda acentuada. Dos cerca de 1,6 milhão no início dos anos 2000, caiu para 130 mil no ano passado. O governo mexicano realiza um trabalho rigoroso de perseguição e deportação de cidadãos dos países da América Central que buscam o território do país como ponto de passagem para os EUA.

Em agosto de 2016, o então candidato Trump esteve em visita ao México. E, em conferência de imprensa conjunta, Peña Nieto fez questão de deixar claro que estava contribuindo para impedir o fluxo migratório de latino-americanos aos EUA. Trump já sinalizava sua intenção de construir o muro na fronteira e exigir que o governo mexicano arcasse com os custos.

A estratégia do presidente mexicano era reforçar que o país não deveria ser estigmatizado. Mas não funcionou. Oitenta e oito porcento de entrevistados pelo jornal El Universal se consideraram ofendidos pela visita de Trump e também pela posição do presidente Peña Nieto – que saiu do episódio marcado por um comportamento julgado pelos eleitores como submisso.

AMLO, o presidente eleito, deve seguir rumo distinto. Promete inclusive rever e até reverter a política de energia do antecessor, que abriu o setor de petróleo e gás para investimento privado. É interessante assistir ao comportamento do novo presidente, uma vez que este também é um assunto que deverá ser amplamente – e intensamente – discutido durante a campanha presidencial no Brasil.

Nas relações com os americanos especialmente, o novo presidente também não deve se esforçar ao máximo para salvar o NAFTA, o acordo de livre comércio entre México, EUA e Canadá em vigor desde dezembro de 1993. Assim como tem agido em outros fóruns, o presidente Trump também pôs em xeque o tratado. Sua promessa é considerar a possibilidade de assinar um novo modelo de NAFTA apenas depois das eleições de novembro nos EUA. Em conversa por telefone com AMLO, propôs que EUA e México trabalhem diretamente para concretizar uma negociação de comércio bilateral entre os dois países.

López Obrador é considerado um nacional-desenvolvimentista clássico. Pode inclusive ter em mente uma aproximação maior com países da América Latina do que com seus vizinhos do norte. Assim, não seria surpreendente se, num cenário posterior às eleições de outubro por aqui, AMLO procurasse intensificar relações com o Brasil – imaginando, claro, a posse em janeiro de 2019 de um governo com alguma legitimidade em Brasília.

O novo presidente mexicano tem desafios como pontuei acima, mas assumirá suas funções a partir de realidade econômica bem estruturada. Entre 1994 e 2018, a taxa anual média de crescimento do PIB foi de 2,48%. O índice de desemprego caiu de 3,6% para 3,2% em maio deste ano, e a inflação anual foi de 4,51%.  

29 de Junho - Sexta-feira - 12:57

Recep Tayyip Erdogan é novamente o grande vitorioso das eleições turcas. Em meio à Copa do Mundo, o assunto não foi objeto de maiores análises, mas a Turquia é um dos principais atores não apenas no Oriente Médio, mas na Europa. Seu líder se percebe como alguém cuja missão se estende para além das fronteiras do país, almejando a percepção de “paternidade” entre os muçulmanos de todo o mundo.

A Turquia é um país que, assim como parte da europa central, oriental, Rússia e os EUA de Trump, tem no nacionalismo o motor de mudanças e arbítrios para justificar exceções e emendas constitucionais internas e, ao mesmo tempo, questionar a globalização.

Como escrevi em meu último texto sobre Donald Trump e a polêmica forma de atuação em sua fronteira sul, esses regimes encontraram no nacionalismo a resposta para os dilemas globais –  e a consequente aproximação com governos pautados pelas mesmas diretrizes.

No poder desde 2003 – quando se tornou primeiro-ministro pela primeira vez –, Erdogan já ordenou a prisão de dezenas de jornalistas, opositores e até processou cidadãos que publicaram comentários críticos a seu governo e ao seu modo de atuação política.

No ano passado, sobreviveu a uma tentativa de golpe. A reviravolta de sucesso culminou na manobra de alterar a constituição, transformando o regime para presidencialismo, permitindo-o se manter na liderança do executivo. Depois de eleito presidente nesta última semana, já se sabe que Erdogan será o presidente turco durante o ano de comemoração do centenário da fundação da República, em 2023, podendo inclusive ser reeleito até 2028.

Há muitos fatores a explicar seu sucesso. Além da máquina do Estado nas mãos desde 2003, a economia, apesar de o momento atual ser ruim, permitiu ascensão social e uma vida confortável à boa parte da população.

Nos primeiros quatro anos de domínio de seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), entre 2002 e 2006, o país passou a crescer a uma taxa anual de 7,2%. Erdogan é um especialista na promessa e na execução de grandes projetos e obras. Depois de parques, rodovias e linhas férreas (inclusive um trem de alta velocidade conectando os 533 quilômetros entre Istambul e a capital Ancara), a próxima ambição é a conexão entre o Mar Negro e o Mar de Mármara por meio de um canal.  

Nesses 15 anos, o presidente mudou de estratégia. Do político moderno que parecia interessado na aproximação com o ocidente, especialmente com a União Europeia (UE), seguiu caminho no sentido contrário ao se aliar com a Rússia na Síria – percebendo a posição protagonista do país no novo Oriente Médio – e aumentou os esforços para ser amado no mundo islâmico em suas lutas mais populares (assumindo cada vez mais posições contra Israel, por exemplo).

Internamente, além da estratégia permanente de personalizar a busca pelo “renascimento” otomano, aliou-se ao Partido do Movimento Nacionalista (MHP), legenda xenófoba e antagônica às minorias turcas – os curdos especialmente.

Erdogan tem o propósito dos líderes autocentrados interessados na longevidade de mandatos, mas também na construção dos mitos em torno de si. Este é o caminho seguido não apenas pelo presidente turco, para ser justo, mas por personalidades tão diversas quanto Viktor Orban, na Hungria, Donald Trump, nos EUA, e, claro, o ícone de maior sucesso entre esta nova-velha linha de líderes nacionalistas, o presidente russo Vladimir Putin.

Assim, ao longo dos 15 últimos anos, Erdogan percebe e se transforma a partir do movimento global. No início do século 21, multilateralismo; no final da segunda década, populismo, nacionalismo e questionamentos à globalização.

Mas aí o líder turco inclui as características peculiares ao seu entorno. Interpreta – e é possível mesmo que acredite nisso – o papel de “sucessor” do próprio fundador da república, Mustafá Kemal Pasha. Assim como os líderes nacionalistas que se reproduzem em larga escala nos dias de hoje, ele se vê como parte de uma missão maior, possivelmente até divina.

A semelhança com Mustafá Kemal Paxá, que em 29 de outubro de 1923 proclamou a República da Turquia, está no nacionalismo. E no sobrenome que o parlamento concedeu a Pashá em 1934 e pelo qual seria conhecido em todo o mundo, Ataturk (o “pai dos turcos”). É evidente que Erdogan quer ir além, quer ser o pai dos muçulmanos, o defensor de seu povo num mundo hostil e desequilibrado, entre outros fatores, pelas desigualdades da globalização.

Ao contrário de Ataturk, no entanto, Erdogan quer seguir no sentido oposto; o fundador da república modernizou o estado e estabeleceu a primeira república entre os países muçulmanos.

O atual presidente está interessado em sua própria versão do Império Otomano, com o qual Kemal Ataturk fez questão de romper. Em seu processo de recriação de mitos, Recep Tayyip Erdogan parece crer ser o único capaz de ajustar as contas entre passado, presente e futuro. Esta é a sua missão. 

25 de Junho - Segunda-feira - 13:06

Talvez esses sejam os dias em que assistimos às maiores manifestações em torno – e possivelmente contrárias – ao presidente americano, Donald Trump. A política de separação de menores dos pais que cruzam a fronteira dos EUA produziram imagens, casos e situações reais de comoção internacional. Para além das discussões objetivas, as histórias envolvendo crianças detidas distantes dos pais provocam emoção. E esta é uma força capaz de afetar a forma de se fazer política em Washington e em qualquer lugar.

Trump está agindo como seus eleitores queriam. Lembre-se que Trump foi o candidato que reclamava da política internacional americana, dizia que os EUA gastavam demais “sustentado” aliados da Otan que não davam nada em troca. O presidente acredita na teoria do “producerism” – sobre a qual escrevi longamente por aqui -,a ideia de que existe uma extratificação da sociedade entre “os que trabalham e produzem” e aqueles que “se aproveitam do trabalho e do Estado”.

Este presidente segue exatamente a cartilha do “producerism”. Não há compaixão por imigrantes, mas a visão de que imigrantes ameaçam a sociedade do trabalho e se acumulam de forma a exigir que o Estado os sustente. Esta não é apenas a linha de raciocínio do presidente, mas de boa parte de seus eleitores.

Trump não apenas quer desmontar acordos e estrutura criados pelo antecessor Barack Obama, mas crê ser possível refundar os EUA sobre novas bases. Estas bases partem do princípio de que a relação americana com o resto do mundo precisa ser estabelecida por meio de trocas – possivelmente econômicas – negando plenamente tudo o que possa ser entendido como "concessão" ou “perda”.

Desta maneira, a etiquetagem de “perda” e “concessão” é ampla o bastante para justificar a saída de acordos, o rompimento de relações e o abandono de projetos. O acordo do clima é perda – de empregos dos carvoeiros do Tennessee (como costumo escrever desde a posse. Este argumento sustenta um conceito principal que se baseia numa entrevista da deputada republicana Marsha Blackburn).

O Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP) era “perda” e “concessão”. O acordo nuclear com o Irã era “concessão”. A sobretaxa de importações de aço e alumínio é uma maneira de correção de “perda” e “concessão”. E por aí segue o governo americano atual.

Por isso não é exatamente uma surpresa os acontecimentos na fronteira que culminaram com a separação de 2.300 crianças de seus pais. Trump tem uma maneira de governar determinada a “reformar” os EUA. A mudar a América do imaginário internacional, dos presidentes democratas e republicanos que pensaram e realizaram a América histórica, alterando-a para a América de Donald Trump. A ideia de refundação não é nova e já houve várias lideranças internacionais que se perceberam a si próprios como dignos de uma missão ampla e restauradora.

Hoje, este fenômeno tem sido chamado de populismo. O fechamento de fronteiras, a obsessão pelos mitos fundadores nacionais e, entre outros, o questionamento da globalização.

Este é um período de transição onde as lideranças interessadas no multilateralismo têm sofrido as consequências em seguidas derrotas políticas. Isso está em curso na Europa oriental, mas também na Itália e cada vez mais esses grupos têm obtido  vitórias na França, Grã-Bretanha, na Holanda e na Alemanha. A pressão desses grupos na Alemanha foi tema de um texto recente aqui no site. A ponto de colocar em xeque a principal liderança multilateral do mundo contemporâneo, a chanceler Angela Merkel.

Este populismo está no poder hoje no país mais poderoso do mundo. Ao partir em visita a um centro de detenção de crianças imigrantes desacompanhadas de seus pais, a primeira-dama Melania Trump estava vestida com  uma jaqueta onde se lia a mensagem “eu realmente não me importo, você se importa?”. O texto deixa claro o que pensa a respeito. Talvez o propósito fosse reafirmar o compromisso do casal com o “producerism” que tanto agrada aos eleitores responsáveis por levar Trump e Melania à Casa Branca.

19 de Junho - Terça-feira - 13:37

A chanceler alemã, Angela Merkel, enfrenta agora um drama capaz de dissolver seu governo. A situação resume uma das questões deste século e deixa claro que a mais liberal das lideranças democráticas atuais também está enquadrada e sob pressão. O fogo amigo é causado por seu ministro do interior, Horst Seehofer.

Seehofer e Merkel são aliados no modelo parlamentarista. Ambos formam a principal coalizão partidária alemã, chamada apenas de União. Ela representa a conexão entre as duas mais bem-sucedidas legendas do país, a União Social Cristã (CSU), liderada por Seehofer, e a União Democrática Cristã (CDU), liderada por Merkel.

Este é o equilíbrio de forças que mantém o governo federal alemão sob a liderança da chanceler. No campo internacional, Merkel é fortalecida pelo enfraquecimento da legitimidade americana entre seus pares europeus.

Graças ao acentuamento da extrema-direita internacional, inclusive em Washington, a líder alemã simboliza um mundo que se transforma rapidamente. A coalizão democrática que moldou as relações internacionais no pós-guerra – sustentada em boa medida pela aliança entre a Europa e os EUA – está sob ameaça.

E agora a principal liderança restante está fragilizada pelo principal foco de desestruturação regional, a discussão sobre imigração.

Angela Merkel tem uma posição firme sobre os imigrantes: sua política de fronteiras abertas é uma exceção diante dos vizinhos e de tantos países europeus que recorreram aos próprios nacionalismos como resposta.

Para a chanceler alemã, a solução deve ser encontrada como parte do projeto conjunto, a União Europeia (UE). Seehofer, o adversário interno, acredita que os imigrantes devem ser barrados, decisão que, de acordo com Merkel, pode prejudicar dois dos países economicamente mais vulneráveis do bloco, Grécia e Itália.

Apesar da coerência com seu posicionamento recente sobre o assunto, o entendimento de Merkel já precisou ser flexibilizado para que ela pudesse sobreviver politicamente à pressão.

 Assim, em 2016, seu governo alterou o regulamento para pedido de asilo, estabelecendo alguns dos países de origem do fluxo migratório como “seguros”. Nestes casos, pessoas chegando à Alemanha não se enquadrariam mais como refugiados, uma vez que estariam deixando países teoricamente seguros em busca de simples imigração na Alemanha.

O partido CSU, de Seehofer, existe apenas na Baviera, o maior estado alemão em área. O CSU governa o estado desde 1957, mas tem visto sua popularidade local cair em função, entre outros, dos debates em torno dos refugiados. Com 12,5 milhões de habitantes, a Baviera tem o segundo PIB do país e abriga as sedes de algumas das principais empresas alemãs, como Allianz, Audi, Adidas, Puma e BMW.

A dor de cabeça comum a Merkel e Seehofer é o partido de extrema-direita, o Alternatativa para a Alemanha. A legenda se beneficia diretamente da queda de popularidade do CSU na Baviera e conseguiu criar um problema para a União.

A agência de notícias AP informa que Seehofer deu a Markel um prazo até o final do mês para que ela elabore um plano conjunto com a União Europeia dando destino aos refugiados e imigrantes na Alemanha.

A mudança de rumos na maior economia do bloco e principal liderança regional pode marcar uma guinada muito relevante da Europa para a extrema-direita. Com Trump presidente dos EUA, se Merkel cair a liderança democrática e interessada na construção do multilateralismo se tornará um cargo vago. E não se sabe se será preenchido.

15 de Junho - Sexta-feira - 09:25

Apesar de a abordagem à Coreia do Norte servir como parâmetro teórico para, entre outros aspectos, sustentar a decisão de retirada americana do acordo nuclear iraniano, as situações são diferentes. Os objetivos são distintos. Por mais que a ameaça norte-coreana seja considerada pela Casa Branca como igualmente perigosa, o programa nuclear do Irã é item fundamental e influente no palco mais relevante das relações internacionais.

Mesmo que Washington esteja aos poucos repassando a liderança regional aos russos, os símbolos ainda são mantidos. Isso significa na prática o interesse real de manter também a assertividade nos pontos principais. E o acordo nuclear iraniano é um desses itens, em virtude, entre outros, da crítica severa de Donald Trump à assinatura do tratado pelo seu antecessor e rival permanente Barack Obama.

Há uma grande contradição explícita na comparação entre a aproximação de Trump e Kim Jong Un e o acordo do qual o presidente americano se retirou assinado com o Irã; do encontro com o ditador norte-coreano, Trump obteve alguns compromissos verbais, superificiais e cuja verficação pode levar muito tempo para ocorrer, se de fato ocorrer.

Por mais que simbolicamente a importância do encontro seja inegável, a fragilidade, desconfiança e incapacidade de verificação das armas nucleares do arsenal da Coreia do Norte ainda são os fatos sobre a mesa nas relações entre americanos e a comunidade internacional e o regime de Kim Jong Un.

Ao contrário do Irã. Ainda que Trump seja um crítico histórico do acordo assinado por Obama, é inquestionável que o documento é composto por uma série de mecanismos de controle, exigências de acesso e verificação.

Mas, como escrevi, os objetivos são distintos. Na Coreia do Norte, a relação parece bastar. Mesmo que haja algum compromisso entre os dois líderes, a pretensão final americana no Irã é outra, a queda do regime. Há um entendimento cada vez maior – especialmente entre Israel e EUA – de que o regime atual está com os dias contados.

Já escrevi em outros textos sobre a situação de profunda crise no Irã: economia, mercado de trabalho e até no fornecimento de água à população. Talvez um acordo nos moldes do que a atual administração americana imagina como ideal alcançasse resultados positivos para a Casa Branca. Mas nenhum entendimento se iguala à possibilidade – encarada cada vez mais como real – de queda do regime.

E aí é muito mais simples negociar com a Coreia do Norte do que com o Irã. Isso porque a legitimidade de Kim Jong Un não está sendo contestada. A oposição não existe. Os norte-coreanos no exterior são muito poucos, desorganizados e irrelevantes para influenciar minimamente a condução do país.

No caso iraniano a situação é completamente diferente; existe uma comunidade iraniana organizada no exílio, intelectuais, vozes dissonantes. E mesmo internamente, apesar da profunda repressão doméstica, o regime enfrenta ondas de protestos periódicos. Todos esses elementos, aliados às crises que o país atravessa, permitem aos antagonistas internacionais do regime imaginar que é possível um futuro em que os iranianos não sejam mais governados pelo modelo instalado no país desde a chamada Revolução Islâmica de 1979.

Todas essas questões são fundamentais na compreensão das distintas formas de abordagem americana sobre Coreia do Norte e Irã. Voltarei a este assunto mais adiante, mostrando as pré-condições exigidas por iranianos a europeus e também americanos a iranianos para encontrar alguma forma de acomodação entre essas partes – muito emboras essas pré-condições não sejam nada além de argumentos para a manutenção de suas próprias posições.

12 de Junho - Terça-feira - 10:51

A virada da última semana para esta foi sintomática para a análise quanto à política externa do presidente americano, Donald Trump. Depois de não assinar o comunicado conjunto do G7, deixou o encontro em busca de seu projeto maior, a cúpula com o ditador norte-coreano Kim Jong Un em Singapura. De um fórum multilateral a um biltareal, da histórica aliança transatlântica com europeus e com o vizinho do norte Canadá ao debate frontal com a ditadura de Pyongyang.

A crise no G7 é parte do projeto maior de Trump de questionar o sistema internacional e a inserção americana. Este é um item permanente de sua agenda desde a campanha. E ao sobretaxar as importações de aço e aluminínio de México, Canadá e União Europeia (UE) ele quer reforçar a percepção de seus eleitores e a sua própria de que há um desequilíbrio desfavorável a Washington que precisa ser corrigido a qualquer custo.

Este não é um ato isolado, é importante dizer. Em novembro de 2017, optou por retirar os EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, projeto conhecido pela sigla em inglês TPP.

Outros 11 países faziam parte do acordo: Japão, Austrália, Canadá, México, Peru, Chile, Malásia, Vietnã, Nova Zelândia, Singapura e Brunei. Se antes, com a participação dos EUA, a cooperação respondia por 40% da economia mundial, depois que Trump anunciou a saída do país em janeiro, este dado caiu para 15%.

A administração americana hoje questiona a globalização e seus impactos domésticos. Isso não torna o governo progressista no sentido mais comum do termo. Pelo contrário. Este é o motivo principal pelo qual Trump foi eleito. É um olhar sobre o processo de interação global protecionista no qual os “valores” tradicionais, as riquezas e o mercado interno de trabalho estão em permanente ameaça.

Logo depois da posse de Trump, citei em alguns dos textos o exemplo que passei a chamar de “o carvoeiro do Tennessee”.

Em entrevista à CNN, a deputada republicana Marsha Blackburn foi confrontada pelos índices econômicos positivos deixados pelo governo do ex-presidente Barack Obama. Em sua resposta, ela reconheceu os avanços, mas fez questão de segmentar ainda mais a questão, apresentando as demandas dos carvoeiros de seu estado, o Tennessee, desempregados pela falta de investimentos em combustíveis fósseis.

Esta tem sido a linha de atuação desde a posse. Em todas as oportunidades de negociação, expansão e relacionamento multilateral, a Casa Branca opta por reduzir alianças internacionais para privilegiar bilateralismos – o TPP, a retirada do acordo nuclear com o Irã, as críticas contundentes à OTAN (que retornaram neste episódio do G7) e a saída do acordo do clima são alguns dos exemplos evidentes desta linha teórica e prática.

Mais explícito foi o tweet do conselheiro de Segurança Nacional John Bolton: “Apenas outro G7 onde outros países esperam que a América seja sempre o seu banco. O Presidente deixou claro hoje. Não mais."

Enquanto Vladimir Putin tem a certeza de que acertou na escolha e tem obtido sucesso ao isolar os EUA sem precisar fazer nada além de deixar a administração americana atual trabalhar, o presidente Trump celebra a diplomacia de engajamento com a Coreia do Norte. 

08 de Junho - Sexta-feira - 13:27

Apesar das novas ondas de hostilidade entre Israel e Hamas, é possível que Jerusalém tenha a intenção de adotar uma visão mais pragmática sobre o grupo terrorista. Antes de firmar opiniões sobre isso, é preciso entender as consequência e o jogo de bastidores. Neste momento, há aparente desejo comum dos dois lados de evitar a escalada rumo ao conflito amplo, mas o Hamas vive um misto de complacência e dificuldades para evitar o lançamento de pipas e balões incendiários sobre o sul do território israelense ao mesmo tempo em que mantém as manifestações em Gaza.

Pode parecer brincadeira, mas não é. De abril até agora, houve mais de 260 grandes e médios incêndios em florestas e comunidades israelenses graças a este novo instrumento de ataque. A estimativa é que os incêndios tenham causado prejuízo tão profundo sobre as florestas que o meio ambiente local levará até três decadas para retomar a situação anterior.

Ao contrário da situação estratégica que caminha para possível estabilização no norte de Israel, a situação no sul é diferente. Os episódios de violência que marcaram as manifestações palestinas chamadas de “Marcha do Retorno” expuseram Israel na arena internacional da forma mais grave desde a guerra travada justamente contra o Hamas há quatro anos.

Simultaneamente, existe a noção de que o Hamas é a peça-chave do conflito. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, é carta praticamente fora do baralho. Aos 83 anos e com a saúde fragilizada, não é mais um jogador relevante. No entanto, sua morte pode sim causar uma briga interna pela sucessão, exatamente como ocorreu com seu antecessor, Yasser Arafat.

Por ora, no entanto, há algumas possibilidades para lidar com o Hamas sendo discutidas em Jerusalém; a primeira delas é a a destruição do grupo, alternativa controversa no governo, uma vez que os estrategistas militares e políticos sabem o tamanho do prejuízo e das vidas a serem perdidas num conflito “definitivo” (entre muitas aspas). É pouco provável que esta opção seja considerada como solução razoável, e o Oriente Médio sabe bem disso – não funcionou com a al-Qaeda, com o Estado Islâmico e provavelmente não irá funcionar com o Hamas. Não se destrói um conceito. Ele ressurge ininterruptamente das cinzas.

A outra ideia é um tabu de muitas consequências políticas e está diretamente relacionada ao pragmatismo que apresentei na abertura deste texto: o diálogo com o Hamas.

Israel não negocia com grupos terroristas. Esta é uma posição inflexível e histórica. Mas negociou com Arafat, idealizador do nacionalismo palestino e diretamente envolvido em muitas operações contra Israel antes de se transformar na figura política central palestina. Vieram os Acordos de Olso de 1993 e a fundação e reconhecimento conjunto por israelenses e palestinos da Autoridade Palestina (AP), a entidade nacional criada para negociar e ser o primeiro passo rumo à criação de um estado palestino.

A morte de Arafat em 2004 mudou a história. A centralidade do próprio Arafat foi um dos muitos elementos a inviabilizar a criação de um ambiente democrático. Sua sucessão se transformou numa guerra fratricida interna. Em Gaza, o Hamas assassinou membros da Autoridade Palestina até tomar de vez o território. O resto quem acompanha o site já sabe.

Na prática, não há um estado palestino, mas dois semiestados, um em Gaza, controlado pelo Hamas, e outro na Cisjordânia, controlado pela Autoridade Palestina. Um é antagônico ao outro. A ponto de a crise de eletricidade em Gaza ter sido causada pela facção de Mahmoud Abbas como forma de punir o Hamas.

Em Israel, com Abbas enfraquecido e o sul do país em constante ameaça pelo Hamas, amadurece silenciosamente a possibilidade de diálogo com o Hamas.

Alon Ben David escreve no jornal Maariv um artigo que resume os pontos principais das demandas israelenses ao Hamas: o estado judeu teria renunciado a duas de suas exigências principais – o completo desarmamento do grupo terrorista e o retorno da Autoridade Palestina a Gaza.

Em troca de uma trégua duradoura, Israel e Egito reduziriam as restrições impostas pelo bloqueio ao território desde que o Hamas não fizesse uso dessas medidas como forma de fortalecimento da ala militar. Nesta trégua, Israel exigiria a completa interrupção do lançamento de mísseis e da escavação de túneis, o banimento do acesso a áreas a oeste da cerca que separa Israel de Gaza e o retorno de cidadãos israelenses que estão desaparecidos ou em poder do Hamas.

Não se sabe ainda se este tipo de negociação irá prosseguir ou se apresentará resultados. Mas o pragmatismo israelense tem como consequência direta o isolamento da AP. Para ser muito claro, possivelmente às vésperas da morte de seu presidente, Mahmoud Abbas. A eventual decisão israelense de “negociar” com o Hamas pode se transformar num futuro breve na ponte de passagem do grupo de Gaza para a Cisjordânia, o que, aí sim, colocaria em ameaça direta 56% da população israelense (4% vivem em assentamentos na Cisjordânia, 40%, na região central do país, e 12%, na capital Jerusalém).

Este é um nó complicado de ser desfeito. E, apesar das vitórias no norte do país, na mediação bem-sucedida aparentemente consolidada pela Rússia na Síria para conter o Irã, a situação no sul se tornou o principal problema estratégico israelense. Talvez dialogar com o Hamas indiretamente consiga interromper a sensação de descontrole a partir dos acontecimentos em Gaza. Talvez esta solução seja apenas temporária, na medida em que se comprometer com o Hamas pode se transformar no pior pesadelo israelense: a transposição empoderada do grupo e de seu patrocinador principal, o Irã, para a Cisjordânia. Bem ao lado de Jerusalém e na porta de entrada do principal centro populacional de Israel.

05 de Junho - Terça-feira - 11:05

Parece que todos os acontecimentos foram combinados. Não foram, mas a sucessão de fatos que culminam nos momentos finais da vitória da Rússia, Bashar al-Assad, Hezbollah e Irã na estabilização da Síria a favor do presidente-ditador criam a impressão de que, no final, tudo está dando certo para quase todos os envolvidos. E, por incrível que possa parecer, mesmo para Israel. Ou melhor, especialmente para Israel.

Após ficar claro que o ex-presidente americano Barack Obama não faria nada de mais sério para interromper o uso de armamento químico contra a própria população por Bashar al-Assad, os russos entenderam que, dali por diante, os EUA não estavam de fato interessados em exercer protagonismo no Oriente Médio. Obama queria sim diplomacia, um acordo de paz entre israelenses e palestinos, a estabilização da região. Mas a Primavera Árabe mudou o quadro. Como escrevo por aqui, o Ocidente não teve reação à sucessão de acontecimentos porque estava amarrado às dinastias antidemocráticas que sempre apoiou. Quando essas lideranças foram caindo uma após a outra, não havia mais interlocutores.

Falência de estados no Oriente Médio

Esse espaço vazio foi preenchido rapidamente por organizações terroristas, como a al-Qaeda na Líbia, por exemplo, e pela geração Y do grupo de Osama Bin Laden, o Estado Islâmico (EI). Com estados falidos, a região provocou mais susto e temor do que uma reação organizada. Com a Síria em Guerra Civil, os europeus desistiram de vez do jogo, preferindo recorrer parcialmente ao ressurgimento de grupos e partidos de extrema-direita. Com a eleição de Donald Trump impulsionada pelos russos e pela Cambridge Analytica, os EUA também deixaram o Oriente Médio de lado. Esta era a plataforma de Donald Trump, estão lembrados?

E aí surge Vladimir Putin com seu plano – aparentemente muito bem-sucedido até aqui – de perpetuação doméstica e renascimento da grande Rússia. O Oriente Médio é parte fundamental do plano, e a Síria era o território mais óbvio. Não apenas protagonizaria a invenção do remédio para curar o drama de sua rival Europa (que preferiu se fechar a partir do fluxo cada vez maior de refugiados), mas garantiria os ativos de Moscou no território sírio (o porto de Tartus, por exemplo) graças à aliança histórica com a família ditatorial local, os Assad.

A Rússia no comando regional

Em setembro de 2015, a Rússia entrou na Guerra Civil síria para virar o jogo contra os “rebeldes” (um conjunto difuso e de difícil definição composto inclusive por grupos terroristas como a al-Qaeda) prometendo aos xiitas do Oriente Médio uma aliança repleta de benefícios. O Irã entrou nessa, apoiando os russos e Bashar al-Assad sonhando com seu projeto próprio de hegemonia regional. Até aqui, o plano iraniano funcionou sem maiores problemas. O país passou a ser protagonista em três dos países da região, Iêmen, Líbano e Síria. Mas então veio o dia 10 de fevereiro, quando os iranianos decidiram iniciar o planejamento para o qual vinham se preparando: atacar Israel.

Neste dia, um drone iraniano sobrevoou por um minuto o espaço aéreo do estado judeu até ser destruído por um helicóptero de combate. A partir daí, todo mundo sabe o que aconteceu; mesmo sem admitir, os israelenses empreenderam uma série de punições militares, chegando a ponto de destruir parte considerável da infraestrutura iraniana construída em território sírio.

Comprar o projeto iraniano integralmente ou lutar pelos próprios objetivos mais amplos?

Aos russos restava um dilema (possivelmente não era um dilema prático, tão somente conceitual na medida em que sua resposta já estava dada desde o princípio): entrar no confronto assumindo o risco de uma guerra aberta com Israel na defesa do objetivo estratégico iraniano de se estender entre Teerã e o Mar Mediterrâneo? Ou compor com Israel, recuar os iranianos até o ponto possível e assegurar que os israelenses não se considerassem sob ameaça de seus principais inimigos regionais, evitando assim perder todos as conquistas obtidas nos últimos três anos no propósito fundamental de Moscou de garantir a manutenção da unidade síria sob a liderança do ditador-presidente Bashar al-Assad?

Esta resposta parece estar a caminho de ser dada depois que o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, se encontrou com seu colega Sergey Shoygu na capital russa. De acordo com a Associated Press citando fontes do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização não-governamental estabelecida no Reino Unido, os russos estariam empenhados em retirar tropas iranianas, milícias xiitas pulverizadas e soldados do Hezbollah libanês da parte síria das Colinas de Golan na fronteira com Israel.

A aliança entre Rússia e Israel

Israel nega qualquer acordo e insiste que não aceitará qualquer solução que garanta a retirada integral de qualquer força, agente ou base do Irã da Síria. Esta é a posição oficial dos israelenses, mas é possível imaginar alguma forma de acomodação por parte de Jerusalém para garantir a segurança de sua fronteira norte.

Se de fato isto se concretizar – e há inúmeras razões para crer que a retirada esteja em consonância com os interesses geopolíticos da Rússia na região, conforme expliquei detalhadamente no texto –, esta poderá ser considerada uma grande e ampla vitória do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Israel tem, neste ponto especificamente, uma espécie de dívida de gratidão em relação ao pragmatismo de Vladimir Putin. O projeto da Rússia de atuar e ser reconhecida como a nova superpotência do Oriente Médio – e seu único e livre acesso a todos os atores envolvidos – transformou a relação entre russos e israelenses num modelo ideal – até aqui – e muito raro capaz de resultar na chamada equação “ganha-ganha”.

Aos russos é importante a obtenção do reconhecimento por parte de Israel, o ator militar mais temido da região. As constantes negociações entre essas duas potências deu a Putin um acesso antes restrito aos americanos. A Israel, por outro lado, a aproximação com Moscou confere a possibilidade de estabelecimento de “negociações” indiretas com seu inimigo regional mais antagônico, o Irã.

A Rússia quer se estabelecer no Oriente Médio, quer retomar seu protagonismo. E, para isso, como sempre escrevo, não pode abrir mão dos grandes investimentos humanos, políticos e militares já realizados na Síria desde setembro de 2015.

Desde o episódio do drone iraniano em território israelense, o estado judeu enviou um recado claro aos russos: ou agem na contenção de seus aliados na Síria ou correm o risco evidente de perder a estabilidade conquistada a muito custo.

Assim, se de fato os iranianos, as milícias xiitas e o Hezbollah forem substituídos por tropas russas na fronteira com Israel, é possível que o governo em Jerusalém considere o assunto resolvido, mesmo que temporariamente. E a garantia de estabilidade na fronteira configura a maior vitória de Benjamin Netanyahu a pouco menos de um ano e meio da realização de eleições gerais.