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Carta & Crônica
Henry Galsky
14 de Março - Quinta-feira - 18:29

Dois mísseis foram lançados a partir de Gaza em direção a Tel Aviv. De acordo com imprensa palestina, membros do Hamas abandonaram posições militares em preparação para retaliação israelense. Até agora, nenhum grupo terrorista reivindicou a ação.

O sistema de defesa Domo de Ferro interceptou um dos mísseis. O outro caiu em campo aberto.

O jornal Times Of Israel obteve a informação de um oficial do Hamas de que o grupo desconhece os responsáveis pelos mísseis e não estaria interessado numa nova escalada de violência. É a mesma posição da Jihad Islâmica.

Recentemente, o Hamas tem adotado este discurso circunstancialmente. Pode ser uma estratégia para se distanciar das retaliações israelenses. Muito embora Israel considere o grupo palestino como responsável por qualquer ação ou ofensiva lançada a partir de Gaza.

Em 2007, o Hamas expulsou a Autoridade Palestina (AP) de Gaza e passou a controlar o território. Desde então, travou três guerras abertas com Israel: 2008/2009, 2012 e 2014.

Em novembro passado, o Hamas lançou 400 mísseis contra o sul do território israelense. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu resistiu às pressões do próprio gabinete de segurança e decidiu não iniciar uma nova guerra como resposta aos mísseis, o que provocou protestos dos moradores do sul do país.

A crise de novembro ainda não terminou. Pelo contrário. O desgaste se aprofundou, quase derrubou o governo e levou Netanyahu a convocar eleições antecipadas – que ocorrem em três semanas.

Os mísseis desta quinta-feira podem estar relacionados ao processo eleitoral, mas podem também ser fruto da crise na região conhecida como Monte do Templo (pelos judeus) e Esplanadas das Mesquitas (pelos muçulmanos), em Jerusalém.

Há permanente temor por parte da população muçulmana de que Israel pretenda alterar o status-quo do lugar sagrado, algo negado sucessivamente pelas autoridades israelenses.

No foco da disputa, os símbolos sempre têm papel central. Especialmente num conflito de tamanha sensibilidade.

Lançar mísseis sobre Tel Aviv é sempre um símbolo de ousadia e poder por parte do Hamas. E é entendido desta forma por todos os palestinos – mesmo por aqueles que vivem do outro lado, na Cisjordânia, e que são governados pela Autoridade Palestina, principal rival política do Hamas.

Netanyahu não foi à guerra contra o Hamas quando o grupo terrorista bateu o recorde de mais de 400 mísseis lançados sobre o sul de Israel.

Na sequência, o líder israelense foi questionado internamente pela própria população. Se iniciar um conflito mais amplo com o Hamas depois de dois mísseis sobre Tel Aviv, vai ser questionado novamente sobre o peso da população atingida.

Este é outro problema que o grupo responsável pelos mísseis em Tel Aviv joga no colo do primeiro-ministro – novamente, a três semanas das eleições. São esses os elementos que cercam a liderança israelense neste momento e o contexto dos acontecimentos mais recentes cujos desdobramentos ainda estão em curso.  

11 de Março - Segunda-feira - 15:45

A chapa Azul e Branco (que reúne sob a mesma candidatura Benny Gantz e Yair Lapid) tem agenda própria quando o assunto é o contexto regional, o a que inclui as complexas relações com os palestinos, os vizinhos árabes com os quais Israel ainda não possui acordos diplomáticos ou mesmo reconhecimento mútuo e as perspectivas de paz no Oriente Médio.

De forma ampla e sem entrar em detalhamento, o projeto da chapa menciona oposição a retiradas unilaterais por parte de Israel - como as promovidas no passado no sul do Líbano e em Gaza -, mas apoia a separação física em relação aos territórios reivindicados pelos palestinos moderados para a constituição de seu estado.

A chapa também é favorável à realização de conferências de paz conjuntas incluindo a participação de parceiros árabes. Mesmo os que não possuem acordos ou relações com o Estado judeu.

Ainda segundo a plataforma de campanha, Jerusalém permaneceria unida e com seu status atual de capital israelense. O país também manteria os principais blocos de assentamentos judaicos na Cisjordânia. Nada disso constitui novidade, na medida em que este é o desenho amplo já existente nos planos de paz que preveem dois estados para dois povos.

Gantz prometeu que, se assumir a liderança do país, irá aumentar o número de residentes nas Colinas de Golan de forma a deixar claro que Israel não está disposto a abrir mão do território conquistado da Síria durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

É uma agenda notadamente de esquerda - quando observada ainda de forma ampla, como escrevi, e se diferencia das posições de Netanyahu. Este era quadro amplo imaginado pelos americanos desde os Acordos de Oslo até o governo Obama. E em boa medida esta posição causou ainda mais desgastes na problemática interação entre o ex-presidente e Benjamin Netanyahu. 

Muito embora a Azul e Branco não se assume abertamente como partido de esquerda, a campanha eleitoral está colocando a legenda neste lugar. Até porque Netanyahu já está dando conta disso. O atual primeiro-ministro tem construído sua propaganda política a partir da repetição de slogans associando Benny Gantz e Yair Lapid à esquerda.

A polarização mundial que vem se manifestando em muitas campanhas ao redor do mundo está presente em Israel, uma sociedade com histórico de profundas divisões internas, mas com um sistema político que exige alguma forma mínima de entendimento entre seus partidos de forma a possibilitar a formação do novo governo.

É importante sempre ter em mente que conceitos de esquerda e direita são mutáveis e dependem das realidades locais. A forma como se imagina a esquerda no Brasil é distinta da maneira como a esquerda se manifesta em Israel. Também é diferente da forma como a direita de Israel pensa a sua oposição. E até a forma como a própria direita atua.

Por exemplo, nos exercícios matemáticos anteriores às eleições, o bloco comandando pelo Azul e Branco - líder nas pesquisas - é colocado sempre ao lado dos partidos árabes. Apesar de esses partidos árabes não possuírem agenda claramente de esquerda. E, ainda mais importante, a informação de que as legendas partidárias árabes não costumam historicamente aderir a qualquer coalizão governamental israelense. Sejam essas coalizões de esquerda ou direita.

Ao mesmo tempo, a própria chapa Azul e Branco é liberal do ponto de vista econômico. Mesmo que entre seus membros esteja o líder sindical Avi Nissenkorn, presidente da Histadrut, a Organização Geral dos Trabalhadores de Israel.

Na prática, ainda é difícil entender como a chapa Azul e Branco se encaixa e se diferencia dos demais partidos. O único ponto bastante claro é que hoje ela existe a partir da união de adversários cujo foco principal é a oposição ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Talvez, depois das eleições de abril, caso não consiga formar a coalizão de governo, o Azul e Branco venha a ser mais um dos muitos partidos que surgem e desaparecem com a mesma velocidade do espectro político israelense.

01 de Março - Sexta-feira - 18:05

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, será julgado por suborno e quebra de confiança. A partir de agora, aguarda audiência. É a primeira vez na história do país que um primeiro-ministro em exercício é comunicado oficialmente de que enfrenta acusações criminais.

O Likud, partido de Netanyahu, pode perder parcela significativa de votos e capacidade de formar uma coalizão de governo após a votação de 9 de abril. Netanyahu será notificado e poderá solicitar audiência para contestar a acusação.

O processo completo pode durar até um ano (ou até mais que isso, segundo analistas da legislação israelense). Neste período, o primeiro-ministro não está legalmente obrigado a renunciar.

Logo depois do anúncio do procurador-geral Avichai Mandelblit escrevi que sua decisão teria o poder de mudar o quadro eleitoral de forma decisiva a menos de seis semanas da votação. Na verdade, já mudou.

O cenário agora é completamente diferente. Se antes havia um clima de quase certeza absoluta sobre a liderança de Netanyahu à frente de qualquer coalizão minimamente viável de governo (ele seria o único capaz de alcançar o número mágico de 61 membros do Knesset, ou seja, a metade mais um do parlamento), esta premissa passou a ser questionada – e diretamente ameaçada – a partir do indiciamento do primeiro-ministro.

Há duas brechas que serão exploradas pelo adversários mais diretos de Netanyahu (Benny Gantz e Yair Lapid, os companheiros da chapa favorita a obter maioria, a Kahol Lavan – Azul e Branco, em português): Gantz já vinha reforçando o discurso do novato na política ostentando biografia de homem militar alheio aos escândalos que caracterizam o jogo pelo poder.

Esse discurso ganha ainda mais força diante do fato de o primeiro-ministro estar indiciado. Mas, além dele, há um ponto prático levantando por David Horowitz em artigo no Times Of Israel: durante o tempo restante de campanha o primeiro-ministro precisará convencer os eleitores de que é totalmente capaz de dedicar-se à liderança do país e de todos os muitos e complexos desafios que o cargo representa ao mesmo tempo em que elabora a própria defesa jurídica. Não é simples, pelo contrário.

O jogo nunca se apresentou tão desfavoravelmente não apenas a Netanyahu mas aos partidos de direita. De acordo com as pesquisas divulgadas após o indiciamento, pela primeira vez nesta campanha – e pela primeira vez em muito tempo – os partidos de centro-esquerda (e mais os partidos árabes) conseguem juntos alcançar o número mágico que expus acima (61 membros no Knesset) sem a necessidade de recorrer a qualquer legenda da nova direita ou da tradicional.

Se este cenário se confirmar no próximo dia 9 de abril, uma mudança real está para transformar a realidade israelense e do Oriente Médio. Lembrando sempre que, além de tudo o que isso representa por si só, o presidente americano Donald Trump pretende em breve apresentar seu plano de paz para encerrar o conflito entre israelenses e palestinos (intitulado por ele de “O Acordo do Século”). Se não o tornou público até agora foi justamente a pedido de Netanyahu – que solicitou adiar a divulgação para depois das eleições de abril.

Abaixo, a pesquisa de intenções do canal público de TV Kan. Ela mostra esta tendência de mudança que se apresenta. Agradeço ao historiador João Koatz Miragaya por enviá-la. Em negrito, os partidos de centro-esquerda e os dois partidos árabes.

Kahol-Lavan - 37

Likud - 29

Nova Direita - 7

Hadash-Ta'al - 7

Yahadut HaTora - 7

Shas - 6

Avoda - 6

Meretz - 6

Ra'am-Balad - 5

União dos Partidos de Direita - 5

Kulanu - 5

26 de Fevereiro - Terça-feira - 11:02

É claro que a ambiguidade e a polarização interessam muitíssimo ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Tanto que no sábado, 23 de fevereiro, discursou a apoiadores num púlpito decorado com os dizeres em inglês "hands off Venezuela" (“tirem as mãos da Venezuela”). 

Há dois planos em curso: a ideia de intervenção estrangeira a partir de demandas opostas. A noção de que os EUA preparam a invasão ao país sul-americano atende aos anseios de algumas figuras do partido Republicano interessadas no apoio dos exilados venezuelanos e da grande comunidade latina estabelecida em território americano. 

Por outro lado, ao próprio Maduro dar publicidade ao plano de invasão se transforma em alternativa de sobrevivência política. Talvez até já imaginando a possibilidade de, diante de necessidade de deixar o cargo, encontrar uma forma de atuação até mesmo em eventual exílio. 

Existe na América Latina um temor sobre intervenções americanas. Esta não é de nenhuma maneira uma fantasia infundada. Os EUA possuem histórico de alianças com governos ditatoriais locais e intervenções diretas no continente. Desta maneira, apelar à memória coletiva a respeito da atuação de Washington é sempre uma estratégia política à disposição. 

Num cenário como o atual – e, no caso da Venezuela, de um governo com longo registro de oposição aos EUA – lançar no lago a pedra da intervenção americana se ajusta com perfeição na busca por apoio doméstico e externo. 

Governos e figuras populares já se posicionaram. Maduro pretende ganhar tempo ao mudar o foco da discussão; no lugar de questionar os resultados factuais e o fracasso de um regime a cada dia menos democrático, o debate passou a ser, naturalmente, sobre a defesa da soberania nacional venezuelana diante do planejamento militar americano. 

A Casa Branca também aprofunda narrativa da intervenção e subida no tom já mirando as eleições presidenciais do ano que vem. O governo Trump representou o ponto mais profundo de divisão da sociedade americana no século 21. Esta situação reflete os discursos, ideias, planos e comunicação do presidente. E se espalhou pelo espectro político doméstico. 

Hoje, há representantes eleitos no Congresso que ganharam força graças ao modo de atuação de Donald Trump. E aqui me refiro a congressistas de oposição. O presidente americano contribuiu intensamente para o surgimento de figuras que se opõem a ele e a seu modo de fazer política. 

E a Venezuela vai passar a ser mais um fator polarizador durante a próxima campanha presidencial americana. A estratégia de Trump, assim como foi a estratégia de Bolsonaro por aqui, vai procurar vincular todo o partido Democrata – em especial os autointitulados socialistas, como o senador e possível candidato à presidência Bernie Sanders – ao regime venezuelano e aos resultados catastróficos de 20 anos de chavismo. 

22 de Fevereiro - Sexta-feira - 12:52

 Só em abril saberemos se Benny Gantz será capaz de transformar sua biografia como militar de sucesso no próximo fenômeno político de Israel.


Vale reforçar algo que tentei deixar claro em meu último texto: todos os adjetivos atribuídos a Gantz não podem ser entendidos como uma matemática simples que resultará em vitória certa sobre Benjamin Netanyahu. 

O primeiro-ministro de Israel é um político muito bem-sucedido que atravessa sem nenhuma dúvida o momento mais delicado de sua longa carreira. 

Mas Netanyahu, mesmo à sombra das acusações que pairam sobre seus atos, tem um legado a defender (ao contrário de seu principal adversário). 

Os itens mais óbvios são percebidos pelo grande público doméstico e compõem o catálogo de conquistas de seus dez anos de governo. São números sempre lembrados por Netanyahu, principalmente durante esta campanha: por exemplo, o índice de desemprego que chegou a ser reduzido a apenas 3,2% no primeiro trimestre do ano passado. 

O índice atual permanece baixo (algo em torno de 4% a 4,4%), mas, de acordo com os modelos projetados pela consultoria Trending Economics, pode cair para 3,5% nos próximos meses. Como efeito de comparação, em dezembro de 2018 o dado no Brasil girava em torno de 12%. 

A economia do país também está em crescimento. A média do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 89,46 bilhões de dólares anuais entre 1960 e 2017. Até que, em 2017, o país atingiu a marca recorde de 350,85 bilhões de dólares. 

Mas a preocupação em Israel está longe de estar concentrada apenas sobre índices econômicos. A segurança não apenas é a pauta mais complexa, mas também foco de ansiedade do eleitorado e de debate entre os partidos. Também nesse aspecto Netanyahu tem uma série de resultados positivos a apresentar; as fronteiras do país nunca estiveram tão seguras. 

Há pouquíssima insegurança nas cidades israelenses, e mesmo o temor de atentados foi reduzido graças, entre outros, à capacidade de impedir que terroristas sequer consigam cruzar postos de controle. 

E vale a observação que hoje as forças de segurança trabalham não somente com barreiras físicas, mas também em constante monitoramento das atividades suspeitas por diferentes meios de investigação digital. 

O mesmo empenho de Netanyahu se aplica para as alianças internacionais. Em especial, no Oriente Médio, onde fica a cada dia mais evidente que Israel conta hoje com a boa vontade de atores inimagináveis há alguns anos. As monarquias sunitas do Golfo Pérsico continuam a replicar estereótipos antissemitas internamente, mas adotam postura pragmática na política internacional. 

Esses países têm flexibilizado posições históricas em relação a Israel graças à percepção de que o Irã está pondo em prática suas ambições regionais - que intimidam e podem pôr em xeque a própria continuidade dos regimes monárquicos sunitas. 

Assim, mesmo enfraquecido internamente, Netanyahu tem muitos elementos a usar de forma a convencer o público interno de que deve continuar no cargo. 

Além de todos os itens mencionados acima, há o ponto fundamental: a inexperiência política de Benny Gantz. Ao lado de seu agora companheiro de coalizão Yair Lapid, o primeiro-ministro já está tentando apresentá-los ao eleitorado como parte do campo de oposição de esquerda, numa clara tentativa de enfraquecimento de seus adversários.

19 de Fevereiro - Terça-feira - 11:30

Não há dúvidas de que as próximas eleições israelenses vão girar em torno do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Esta não é a novidade entre algumas das novidades que estão em jogo neste momento. O que é novo – especificamente em relação a Netanyahu – é que este pleito também será uma espécie de julgamento público sobre o comportamento ético de um dos líderes mais simbólicos e longevos da história do país. 

O fato é que este é um momento difícil para o primeiro-ministro, já que ele se encontra num lugar pouco comum em sua trajetória política muito bem-sucedida. Neste lugar de questionamentos, sente-se desconfortável porque precisa responder às acusações que lhe são feitas. 

Mesmo empenhado na defesa de seu legado, o público doméstico não tem dado sinais de que esteja disposto a passar por cima dos denúncias contra o primeiro-ministro. Aqui é preciso fazer uma pausa de forma a contextualizar alguns itens relevantes. 

Apesar de questionado, Netanyahu ainda pode obter resultados positivos. É possível que seja vitorioso e se mantenha no cargo por meio do voto. Ele pode também ser derrubado pelo procurador-geral Avichai Mandelblit antes ou depois das eleições. É também provável que o partido sob sua liderança, o Likud, tenha mais uma boa performance nas urnas. 

Ou seja, há muitas possibilidades neste horizonte breve. E uma delas – e esta é a maior novidade dentre todas – é a de Netanyahu não ser o próximo primeiro-ministro de Israel. E aqui reside o ponto no qual o líder israelense não imaginava se encontrar porque há nessas eleições um tipo de adversário que Netanyahu não gostaria de enfrentar. 

Benny Gantz tem o perfil mais temido pelo Likud; assim como no restante do mundo, a ideia de admiração pelo altruísta que ostenta biografia irrepreensível paira sobre o eleitorado israelense. Principalmente num ambiente de investigação e suspeitas, Gantz preenche uma série de requisitos de causar inveja a seus muitos concorrentes. 

Entre fevereiro de 2011 e fevereiro de 2015, ocupou o cargo de chefe do Estado Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF). Nomeado justamente por Netanyahu. O perfil de homem de família dedicado à defesa nacional e que, ao mesmo, não está envolvido com a política tradicional tem enorme poder de atração. 

Após anunciar a criação do partido Hosen LeIsrael (A Resiliência de Israel) e a liderança da legenda, teve ampla aceitação nas pesquisas. Neste momento, conseguiu a projeção de 15 assentos no Knesset, o parlamento do país. 

Esse número foi catapultado na semana passada após a confirmação da candidatura e do lançamento grandioso da campanha, evento onde o ex-militar fez críticas indiretas ao atual governo e principalmente, claro, às artimanhas e mecanismos envolvidos no sistema político tradicional. 

Desta forma, imaginando um cenário possível de união com o partido de centro Yesh Atid (Há Futuro), de Yair Lapid, a chapa pula para até 35 deputados eleitos, tornando-se a maior do Knesset. O Likud ficaria logo atrás, com ainda significativas 30 cadeiras. 

E aí o caminho estaria aberto a Gantz, uma vez que possivelmente o presidente Reuven Rivlin – também membro do Likud, mas com histórico de independência de atuação e atritos com Netanyahu – pode dar a ele, Gantz, a missão de estabelecer coalizões e encontrar uma brecha para alcançar a maioria simples de ao menos 61 deputados. E assim Israel teria um novo primeiro-ministro depois de dez anos em sequência da liderança de Benjamin Netanyahu.

12 de Fevereiro - Terça-feira - 15:43

Nos primeiros sete meses de 2018, a Venezuela exportou mais de 800 milhões de dólares em ouro à Turquia. Esta pode ser a ponta do fio de um novelo cujo destino pode vir a ser conectado a uma das posições mais firmes do atual governo americano: as sanções aplicadas ao Irã em virtude de seu programa nuclear.

Esta é apenas uma possibilidade. No entanto, não seria inédita. A Turquia já foi acusada pelos EUA de negociar em ouro de forma a driblar as sanções impostas ao regime iraniano.

As autoridades americanas já monitoram a situação. Aqui reside mais um aspecto capaz de aumentar os pontos de atrito entre Washington e Caracas. O que pode levar o presidente Trump a tomar decisões mais drásticas diante do impasse atual.

As guerras formais entre países - cada vez mais raras nos dias de hoje - ocorrem justamente quando se esgotam as possibilidades de diálogo (exceção feita às invasões para tomada de território).

O caso venezuelano obedece exatamente aos parâmetros teóricos mais convencionais. A comunidade internacional se divide em dois grupos com interesses distintos e opostos: os que querem a continuidade de Maduro e os que pretendem pressionar até que ele deixe o comando do governo.

A questão é mais complexa em virtude, obviamente, da forma de atuação e das alianças formadas pelos atores mais relevantes envolvidos neste jogo.

O caso turco ilustra algumas das dinâmicas contemporâneas que, ao contrário do que se pode concluir num primeiro momento, apresentam camadas de interpretação nada binárias.

A Turquia é membro da Otan (a aliança militar Ocidental), onde, portanto, é sócia dos EUA.

No entanto, seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, optou por investir na aproximação com adversários tradicionais dos americanos, como China, Rússia e Irã. Mas na guerra civil síria, a posição do país é de oposição ao ditador Bashar al-Assad, sustentado no cargo justamente por Rússia e Irã (além de milícias xiitas que lutam ao lado de membros do grupo terrorista libanês Hezbollah).

Na Síria, a Turquia ainda apoia as forças militares de oposição a Assad.

Ou seja, as implicações de uma aliança entre os regimes turco e venezuelano certamente esbarram nos interesses de Washington no Oriente Médio.

Assim, mesmo diante de uma situação de distância geográfica real, as decisões e consequentes ações dos países que estão no centro do jogo de poder internacional obedecem a uma visão macro de política, uma vez que as disputas são sempre globais.

Mesmo a ideia de intervenção americana na Venezuela não deve ser interpretada como ato isolado. E aí não apenas pelas conexões apresentadas acima, mas também porque poderia comprometer outros aspectos da política externa de Washington.

Em 2019, a Venezuela ocupa a presidência rotativa da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Isso significa, na prática, que o presidente da companhia estatal PDVSA, Manuel Quevedo - que também é o atual ministro do Petróleo no governo Maduro -, é o presidente da OPEP.

Daí a conclusão é óbvia: eventual intervenção - ou mesmo sanções - na Venezuela significaria na prática excluir do mercado fornecedor de petróleo dois grandes produtores, uma vez que os EUA já aplicam sanções ao Irã. E aí o mundo inteiro pode sofrer as consequências. Inclusive os americanos.

É, portanto, trabalhar a partir da lógica do cobertor curto. É possível pressionar Caracas. Mas até certo ponto. Do contrário, a crise venezuelana pode se desdobrar numa série de outros grandes problemas com consequências imprevisíveis.

06 de Fevereiro - Quarta-feira - 13:56

Em 2004, escrevi um longo texto sobre Os Protocolos dos Sábios de Sião, a principal cartilha do antissemitismo mundial que até hoje é a fonte primária a partir da qual todas as teorias antissemitas se assentam e se atualizam. 

Como escrevi anteriormente, o ódio aos judeus se adapta e se modifica ao longo dos séculos. 

Assim, o crime ambiental em Brumadinho e a consequente chegada da equipe de resgate israelense acabaram por se transformar - para além da tragédia que se abateu sobre o país - num demonstrativo prático e intensivo da força de adaptação e velocidade do discurso antissemita. 

Mesmo depois da equipe de resgate de Israel deixar o Brasil (sem o nióbio brasileiro, sem ocupar o Brasil, sem iniciar o processo de intervenção na Venezuela), nada é capaz de aplacar o ódio. Ele se adapta. O antissemita não se importa com argumentos racionais. Antes de tudo, ele é um obcecado pelos judeus. 

Abaixo reproduzo o texto que escrevi e publiquei em 2004. Ele permanece atual:

Os Protocolos continuam vivos 

Por Henry Galsky 

Mesmo quem nunca ouviu falar do livro "Os Protocolos dos Sábios de Sião" pode ter sido influenciado por seus ensinamentos. A obra - uma fraude criada pela polícia secreta do Czar Nicolau II e publicada pela primeira vez em 1897 - afirma existir uma conspiração judaica cujo objetivo secreto seria dominar o mundo. O livro baseia-se numa outra obra de ficção, publicada em 1864 pelo escritor francês Maurice Joly, que fantasia sobre uma conspiração para derrubar o regime de Napoleão III. 

Os Protocolos surgiram 33 anos após a publicação do livro assumidamente ficcional de Joly. A diferença sutil foi uma das responsáveis pelo assassinato de milhões de judeus ao longo do século XX: eles seriam os supostos conspiradores. O objetivo não seria apenas a derrubada de Napoleão III na França, mas a dominação de todo o planeta. 

O regime nazista utilizou-se da farsa para justificar o Holocausto. Até hoje, quase 60 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o livro ainda é citado por grupos políticos de direita e de esquerda e é sucesso editorial nos países muçulmanos. Levar o livro a sério nesses países é mais do que simples vontade popular; trata-se da posição oficial de governos como os do Irã, Líbano, Síria e Arábia Saudita. 

Mesmo no Ocidente, Os Protocolos influenciam milhares de pessoas que veem nos judeus os culpados por sua miséria e desinformação. Muita gente crê que são os judeus que controlam as finanças internacionais, os governos dos grandes países e, é claro, a mídia.

Essas mesmas pessoas ignoram o tamanho da população judaica: existem hoje em todo o mundo cerca de 14 milhões de judeus. Para se ter a noção exata do que este número representa, vale lembrar que há algo em torno de 2 bilhões de cristãos e 1,5 bilhão de muçulmanos. Somente no Brasil há cerca de 30 milhões de torcedores do Flamengo.

A população judaica em todo o mundo corresponde a um quarto de um porcento de toda a população do planeta. Mas, mesmo assim, os seguidores dos Protocolos dos Sábios de Sião acreditam que existe uma conspiração judaica para dominar o mundo e que ela é eficiente (!). 

Esta teoria, além de simplista, mentirosa e ignorante, é contraditória, já que implicitamente qualifica como idiota toda o restante da população mundial.

Imaginemos que de fato existisse uma conspiração de todos os judeus para dominar o mundo. Se realmente estivessem todos organizados e dispostos a levar a cabo tal plano, como os demais 99,75% de habitantes do planeta permitiriam que tal dominação fosse bem-sucedida? 

Outro ponto interessante é que o conteúdo do livro só concebe uma conspiração realizada por judeus. Portanto, somente os judeus devem ser alvo de desconfiança mundial.

Imaginemos uma situação hipotética: há 45 Estados judeus no mundo e oito deles fazem parte de uma organização que determina o preço e a produção de uma matéria-prima essencial para o funcionamento da maior parte da tecnologia mundial. Isso seria o derradeiro sinal da grande conspiração judaica mundial? Os antissemitas provavelmente diriam que sim. 

Pois bem. Como se sabe, há apenas um Estado Judeu (Israel) e não 45, como no exemplo acima. Este número - 45 - corresponde, na verdade, à quantidade de Estados muçulmanos existentes hoje no planeta. E sim, há oito destes Estados muçulmanos que são membros de uma organização que controla a produção e exportação de uma matéria-prima fundamental para o funcionamento do planeta tal como o conhecemos hoje.

A matéria-prima é o petróleo, e a organização refere-se aos países exportadores desta matéria-prima (OPEP). Ela tem sede em Viena, na Áustria, e seus países-membros (14 no total, dos quais oito são Estados Muçulmanos) reúnem-se periodicamente para definir o aumento ou a diminuição da produção de petróleo.

Como todo brasileiro que possui automóvel ou anda de ônibus sabe, tais decisões afetam a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. E alguém é louco de afirmar que os muçulmanos dominam o planeta ou que existe uma conspiração para dominá-lo? Claro que não. A acusação só se aplica aos judeus, por mais escabrosa que ela pareça à luz de dados como os mostrados acima. 

Outro ponto importante na atualização das acusações aos judeus é a mídia. Os judeus também dominariam o setor, segundo os antissemitas, e, por isso, o mundo inteiro seria iludido por informações favoráveis aos judeus. Obviamente, os judeus não controlam todos os veículos da mídia.

Mas, é claro, há algum judeu dono de algum órgão de comunicação em algum lugar. Afinal, até onde eu saiba, membros de qualquer religião, povo ou etnia podem fundar e administrar seus próprios negócios. Pelo menos nos países ocidentais. Na Jordânia, entretanto, a constituição afirma, por exemplo, que qualquer um pode ser cidadão jordaniano, exceto se for judeu. Mas ninguém toca no assunto, já que isso não incomoda nenhuma organização de direitos humanos ou de luta contra o preconceito. 

Mas, voltando à mídia, o empresário australiano Rupert Murdoch é considerado hoje o "barão" da mídia. É dono da News Corporation, presente em 133 países, que tem entre seus maiores destaques os jornais Time, de Londres, o New York Post, as redes de TV 24 horas Fox News e Sky News e o tabloide inglês The Sun. Murdoch não é judeu. E se fosse? Seria este o sinal "mais do que claro" da "grande conspiração judaica"? Murdoch é cristão. Então isso significa que há uma conspiração cristã para dominar o mundo? Por falar em Murdoch, é bom lembrar que parte da comunidade judaica decidiu realizar um boicote a grandes jornais norte-americanos como o próprio New York Post, Washington Post e Los Angeles Times devido ao que considera cobertura parcial e pró-palestina dos conflitos no Oriente Médio. 

Afirmar que existe uma conspiração judaica para dominar o planeta soa mais como desvio de caráter e antissemitismo do que como ingenuidade. Ignorar os fatos expostos é tomar partido numa campanha difamatória e antijudaica que, infelizmente, tem feito a cabeça de muita gente considerada inteligente e que, desde o início da segunda intifada palestina, em setembro de 2000, mostra ter voltado com toda a força. Através dela, os antissemitas tiveram a oportunidade de reeditar velhos preconceitos e apresentá-los aos que ainda não o conheciam.

Os Protocolos continuam vivos e não se vê muita possibilidade de exterminá-los de vez, mesmo a partir de sentenças exemplares, como a que condenou no Brasil o editor de livros antissemitas Siegfried Ellwanger.   

28 de Janeiro - Segunda-feira - 11:45

Há uma série de especulações em torno da missão de resgate enviada por Israel a Minas Gerais. Entre elas, manifestações antissemitas das mais diversas formas. 

O antissemitismo é um fenômeno que permanece, se reproduz e faz mutações ao longo dos séculos. É também uma força poderosa capaz de unir a extrema direita e a extrema esquerda, algo absolutamente raro em especial numa era de grande polarização. 

Desde que a missão israelense foi anunciada, já vi toda a sorte de teorias estapafúrdias: o país estaria interessado no nióbio brasileiro; ou iniciaria em Minas Gerais (!) o primeiro estágio de intervenção na Venezuela. Pois é. 

 Israel já enviou missões de resgate a diversas partes do mundo: no grande terremoto da Turquia, em 1999, e no que devastou o Haiti, em 2010; no tufão nas Filipinas, em 2013; e nos terremotos no Nepal, em 2015, e no México, em 2017. A unidade que está no Brasil atuou em 20 situações de desastres e tragédias em todo o mundo. 

Desde novembro de 2018, a Brigada de Resgate e o Comando de Frente Interna de Israel passaram a integrar o Grupo Consultivo Internacional de Pesquisa e Resgate (INSARAG, em inglês), rede de países e organizações dedicada a busca e resgate e coordenação operacional. 

Imaginar e teorizar algo além da missão humanitária é fruto do desconhecimento ou do próprio antissemitismo venal que estabelece que os judeus - e o Estado judeu, neste caso - devem estar sempre sob profunda desconfiança.  

Uma das manifestações antissemitas mais antigas e recorrentes enxerga os judeus como grupo único que se mantém permanentemente em atividade conspiratória se aproveitando da “inocência” do restante da humanidade. 

É exatamente este olhar de suspeita sobre os judeus -  e neste caso, sobre o Estado judeu - que está novamente em atuação no Brasil diante da missão de resgate israelense. É o velho antissemitismo de sempre. Nada além disso. 

24 de Janeiro - Quinta-feira - 13:45

Para além das questões apresentadas no texto anterior sobre a nova diplomacia brasileira, uma das intenções do Itamaraty é aumentar a pressão sobre Maduro.

Essa é uma das prioridades internacionais do Brasil não apenas por questões práticas, mas também ideológicas. 

Como escrevi, a Venezuela foi durante a campanha – e continua a ser – um assunto polarizador no Brasil. Ao mesmo tempo, o governo também faz uso do tema com ambições políticas internas. 

O aumento da temperatura sobre o PT a partir da relação do partido com a Venezuela funciona também para enfraquecer a oposição doméstica de maneira mais ampla. 

As feridas das eleições podem ter diminuído, mas ainda estão abertas. A Venezuela é tema complicado no jogo político brasileiro e rotular adversários como vinculados ao regime bolivariano encontra eco e provoca medo e rejeição em parcela relevante da sociedade brasileira. 

Há outros aspectos históricos muito importantes por aqui. A ditadura militar brasileira moldou em boa medida movimentos políticos, personalidades, partidos e é marca recente do país. A ditadura e suas heranças também estiveram muito presentes no durante o último processo eleitoral brasileiro. 

Na onda de revisionismos que estão na mesa, esse capítulo da história é um dos principais itens a dividir esquerda e parte desta nova direita brasileira. 

Por isso, quando o governo adere ao mesmo posicionamento político da atual administração americana em relação à Venezuela acaba por aprofundar ainda mais as diferenças do novo Itamaraty em relação ao histórico recente de diplomacia brasileira. 

O apoio dos EUA às ditaduras militares na América Latina é um fato histórico. Um governo brasileiro liderado por um presidente abertamente elogioso ao período ditatorial estabelece esta conexão e apresenta um elemento novo - e ainda mais polarizador - capaz de aprofundar divergências internas.

Ao mesmo tempo, também permite ao governo atual distanciar-se das administrações anteriores - de maneira mais clara, diferenciando-se com contundência dos governos do PT não apenas na diplomacia, mas em muitos outros pontos que podem ser resumidos em dois principais: a visão sobre a própria história brasileira e sobre o modo como chegamos até aqui. 

A Venezuela e a forma como o Brasil se relacionará com o país, seu governo e sociedade carrega todos esses significados implícitos. Não é pouco.