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Carta & Crônica
Henry Galsky
16 de Janeiro - Quarta-feira - 13:06

O primeiro-ministro Netanyahu admitiu que Israel atacou centenas de alvos iranianos e do Hezbollah na Síria. Inclusive um depósito de armas no aeroporto de Damasco.

Ao mesmo tempo, o agora ex-chefe do Estado Maior, general Gadi Eisenkot, admitiu ao New York Times pela primeira vez que Israel realizou milhares de operações de ataque a bases militares do Irã na Síria.

Formalmente, houve também o anúncio do fim da "Operação Escudo do Norte", que descobriu e inutilizou seis túneis que partiam do território libanês e terminavam em Israel.

De acordo com os israelenses, o Hezbollah utilizaria as construções num eventual novo conflito como elemento surpresa de forma inclusive a ocupar por terra a Galileia, parte da região norte do Estado judeu - um evento que, se de fato ocorresse, seria inédito e teria enorme impacto em Israel e em todo o Oriente Médio.

É raro que autoridades israelenses admitam ações regionais como os ataques a alvos iranianos na Síria. Por isso, não me parece ocasional que dois dos mais altos representantes político e militar tratem publicamente do assunto praticamente em sequência.

Eisenkot, que deixou o cargo nesta semana depois de 40 anos de serviços militares, é conhecido pela discrição. Apesar de já ter abordado publicamente operações das Forças de Defesa de Israel (FDI) no passado, a entrevista ao New York Times soou como ato de despedida.

O caso de Benjamin Netanyahu é diferente. Mas também funciona como reconhecimento pela busca de segurança. Com a disputa eleitoral a pleno vapor, o primeiro-ministro novamente vem a público para garantir a competência de seu governo - e, mais do que isso, seu mérito pessoal, uma vez que também é o atual ministro da Defesa - na bandeira que se confunde com a sua própria biografia.

Além disso, há também o fator da concorrência nas eleições de abril. Por enquanto, neste processo de reorganização política em curso, o Likud de Netanyahu continua liderando as pesquisas.

No entanto, a intensa movimentação tem levado ao surgimento de novos nomes e partidos. Entre as novas legendas, a que por ora aparece como a segunda força é a Hossen LeIsrael (Resiliência para Israel), partido criado pelo ex-chefe de Estado Maior Benny Gantz.

De acordo também com as pesquisas preliminares, o partido de Gantz pode obter entre 13 e 20 cadeiras no Knesset, o parlamento.

Todo este movimento é fruto do desgaste sofrido pelo governo Netanyahu ao longo de 2018 em função, em primeiro lugar, dos sucessivos embates na fronteira entre Israel e Gaza e, no final do ano, da crise de mais de 400 mísseis lançados pelo Hamas sobre o território israelense.

Esses acontecimentos quase provocaram o colapso da coalizão de governo. Mas foram contornados pelo próprio Benjamin Netanyahu. No entanto, este é um processo ainda em curso, evidenciando a influência dos palestinos sobre a política doméstica israelense.

Como escrevi, a pauta da segurança ocupa papel central na discussão política de Israel.

E como o próprio primeiro-ministro ainda busca se recuperar da crise mais recente com o Hamas e do desgaste de confrontos semanais ao longo de quase um ano na fronteira com Gaza, os adversários políticos internos em Israel entendem que a segurança é o aspecto principal a ser objeto de contestação durante a disputa eleitoral.

Por causa disso tudo Netanyahu e sua base de sustentação correm para reafirmar publicamente - algo absolutamente raro - as medidas que vem sendo tomadas de forma a conter o ímpeto da oposição política doméstica.  

10 de Janeiro - Quinta-feira - 11:59

O cenário eleitoral em Israel parecia muito previsível. Parecia. Mas aí veio o processo de reorganização política a partir da antecipação das eleições para 9 de abril.

A direita se fragmentou parcialmente. O ministro da Educação Naftali Bennett e a ministra da Justiça Ayelet Shaked saíram enfraquecidos da crise dos mísseis lançados pelo Hamas e buscaram criar um fato novo, deixando o partido A Casa Judaica e fundando um novo, o Hayamin HaHadash (A Nova Direita).

A situação da centro-esquerda é ainda pior. O campo chamado de O Acampamento Sionista formado pela união entre os partidos Trabalhista e o Hatnuá (O Movimento) se desfez – este último liderado pela ex-ministra das Relações Exteriores Tzipi Livni. Ou seja, a já enfraquecida esquerda irá disputar as eleições totalmente dividida. O mesmo vale para o Meretz, ainda mais à esquerda do espectro político.

Desta maneira, o caminho está ainda mais livre para o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. No entanto, a bola que esteve quicando nesses últimos anos em Israel parece que será chutada, uma vez que o procurador-geral Avichai Mandelblit pode indiciar o primeiro-ministro por corrupção antes das eleições de abril. E se isso se confirmar, aí sim haverá um elemento novo na disputa, deixando o pleito completamente em aberto.

Este parece ser o único adversário real diante de Netanyahu – franco favorito nas urnas.

Vale lembrar as acusações que pesam contra ele:

O primeiro-ministro é investigado pela polícia israelense por alegações envolvendo suborno, fraude e quebra de decoro. Netanyahu acabou se aliando ao magnata americano Sheldon Adelson, proprietário de cassinos nos EUA que em Israel opera o jornal gratuito Israel Hayom. Ao contrário dos veículos pagos, o diário costuma ser elogioso ao primeiro-ministro.

No entanto, a polícia empreendeu investigação mostrando que o próprio Bibi teria tentado se aliar a seu inimigo histórico Arnon Mozes, proprietário do jornal mais popular do país, o Yediot Aharonot, prometendo se esforçar para impedir a circulação gratuita do suplemento de final de semana do Israel Hayom em troca de cobertura mais favorável por parte de seu jornal.

Há também uma série de episódios mal explicados de troca de favores com empresários. Além desta acusação sobre a abordagem a Arnon Mozes, chamada de Caso 2000, há o Caso 1000 (suspeita de recebimento de presentes de doadores ricos), o Caso 3000 (investigação sobre o envolvimento pessoal de Netanyahu durante o processo de compra de três submarinos alemães) e o Caso 4000.

O Caso 4000 investiga a possibilidade de que o primeiro-ministro teria recebido suborno e agido em conflito de interesses intervindo e atuando em decisões regulatórias favoráveis a Shaul Elovitch e o Grupo Bezeq, e, ao mesmo tempo, teria exigido interferir no conteúdo do site Walla de forma que se beneficiasse. Elovitch é ex-proprietário do Grupo Bezeq, corporação a que pertence o portal Walla.

Mesmo com as acusações sendo investigadas, Benjamin Netanyahu não é obrigado a renunciar. Isso ocorreria apenas ao final do processo caso o primeiro-ministro seja considerado culpado.

04 de Janeiro - Sexta-feira - 09:41

Uma análise ainda inicial sobre o governo diz respeito ao nascimento de um mito. E aqui não me refiro ao modo como os fãs, seguidores e apoiadores se referem ao agora presidente Jair Bolsonaro. Faço menção a um dos muitos significados do termo que estabelece a crença ou relação do grupo num suporte para ideias ou posições (uma das definições de mito).

O mito – dito e repetido ao longo da campanha eleitoral e repetido novamente pelo presidente Bolsonaro em seu discurso ao público durante a posse – se refere à ideia de que este será “um governo sem viés ideológico”. Mito.

É preciso estar atento aos fatos e às escolhas. E aí entro no terreno das escolhas ministeriais, em especial a de um ministério (que tende a ser um dos mais importantes deste governo): o das Relações Exteriores.

De acordo com a premissa estabelecida pelo atual presidente, é preciso desvencilhar-se de ideologias e alianças forjadas por proximidades ideológicas – e aqui os exemplos são os sempre mencionados casos de Venezuela, Cuba, Bolívia etc.

O diplomata Ernesto Araújo é um funcionário de carreira do Itamaraty. Este seria o lado técnico a que se refere o presidente. No entanto, seu nome passou a ganhar força depois que Araújo assinou texto na publicação Cadernos de Política Exterior, da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), elogioso ao presidente americano Donald Trump.

Em setembro, iniciou o blog com o sugestivo título de “Metapolítica17 – Contra o Globalismo”. Daí passou a ser observado por Olavo de Carvalho e chegou até a família Bolsonaro.

Vale aqui abrir um espaço para lembrar a origem da ideia de luta contra o Globalismo, a que ele se refere e a forma como se aplica nesta nova era de governos apoiados pela militância de extrema direita:

O termo ganhou força, legitimidade e adesão de governos importantes ao redor do mundo – o mais importante deles, o governo americano – graças em boa medida a Steve Bannon, ex-editor do site Breitbart News, ex-estrategista chefe de Donald Trump e responsável diretamente por dar forma e peso a este novo movimento político que ele mesmo passou a chamar de direita alternativa (apenas “Alt-Right”, em inglês).
 
Para Bannon e seus correligionários, a humanidade – e nos caso americano, os EUA, claro – está ameaçada por uma elite global que planeja destruir a pureza do patriotismo, da família e do cristianismo por meio da promoção de valores internacionalistas que incentivam ondas de imigração desenfreadas aos países desenvolvidos, o temor a mudanças climáticas (que para a nova extrema direita é apenas uma narrativa mentirosa para ameaçar os empregos nacionais), a integração entre mercados, o Acordo Transpacífico, a União Europeia, a agenda LGBT, entre outros.
 
Para esta nova extrema direita – cujas bandeiras são uma atualização de velhas ideias –, o projeto ocorre por meio dos banqueiros, de governos liberais, do controle da mídia. Cada um desses países elege pautas nacionais, mas, em comum, um aspecto antigo, mas que se renova a cada geração: o antissemitismo.

Esta grande análise sobre o Globalismo não significa necessariamente que todas as suas formas e expressões encontrarão eco na sociedade brasileira, principalmente porque esta noção ainda está em processo de construção.

Mas está claro que a ideia de cruzada antiglobalista deve influenciar diretamente o novo governo. Vejamos alguns trechos de textos publicados pelo atual ministro Ernesto Araújo em seu blog:

“Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o Globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história”.

Na luta antiglobalista, a esquerda exerce papel fundamental. A esquerda é, de acordo com esta visão, um anteparo entre homem e Deus. Mais um trecho de autoria do ministro:

“Eles querem (os militantes de esquerda) uma sociedade onde ninguém nasça nenhum bebê, muito menos o menino Jesus. Pergunto inclusive se o sadismo abortista da esquerda não provém de uma pretensão niilista de, em cada bebê, estar matando o Cristo antes de nascer”.

Toda esta análise e exposição para mostrar o ambiente em que este novo governo se insere. A ideia de que se trata de um grupo não ideológico não se sustenta. É claro que Bolsonaro e seus ministros não esta afiliados às pautas dos governos anteriores, em especial aos governos de Lula e Dilma Rousseff, pelo contrário – Bolsonaro obteve sucesso eleitoral, entre outros, por justamente ser identificado como o principal opositor aos governos petistas.

No entanto, não se trata do nascimento da primeira gestão no executivo com olhar puramente técnico – o mito em questão –, mas, aí sim, da substituição de uma visão ideológica por outra.

30 de Dezembro - Domingo - 13:25

Além de ocupar o cargo executivo mais importante da estrutura política israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também é responsável pela pasta de Relações Exteriores. Isso é fundamental para que se possa entender o lado de Israel nesta repentina aproximação com o Brasil do governo Jair Bolsonaro.

A política externa ocupa papel central nos governos de Israel. E uso o plural porque realmente não se trata de uma questão ou fascínio específico por parte de Netanyahu. As características regionais do Oriente Médio podem transformar rapidamente assuntos domésticos em crises internacionais. Este não é um privilégio de Israel, mas dado concreto que une, apesar de tudo, todos os atores da região. Uma revolta popular no Irã, o descontentamento de servidores públicos palestinos ou a crise de coleta de lixo no Líbano tem potencial para desencadear problemas que extrapolam fronteiras nacionais (aliás, todos os exemplos que uso acima são reais).

Mesmo com acordos de paz firmados com os vizinhos Egito e Jordânia, Israel entende a própria vulnerabilidade em função da permanente instabilidade a cercar o país. Mais ainda, apesar desses acordos, o Estado judeu é alvo frequente de votações desfavoráveis nos organismos multilaterais. E este é um ponto que envolve matemática e política: entre árabes e não-árabes, há 48 países onde ao menos metade da população é muçulmana. Quando se trata de Israel, esses estados tendem a votar em bloco.  A situação numérica israelense em busca de aliados é complicada.

Hoje, Netanyahu tem como objetivo expandir as alianças internacionais do país. Não apenas porque é preocupação sua mudar a situação de isolamento de Israel nesses organismos multilaterais, mas também porque é uma das conquistas que pretende apresentar na próxima disputa eleitoral (as eleições legislativas em Israel ocorrem em 2019).

O projeto de expansão das relações diplomáticas – abertas ou secretas – tem sido bem-sucedido. O governo de Jerusalém tem dois pontos principais de atuação: a África e as monarquias do Golfo Pérsico (essas são as relações secretas. Embora cada vez mais abertas, como desenvolverei mais adiante).

Na África, estão em jogo 54 votos. E Israel tem se aproximado do continente. A capacidade tecnológica criada pelo país e as soluções que encontra para problemas graves enfrentados pelos países africanos trabalham a favor do projeto. Em dezembro de 2016, os israelenses receberam representantes de 13 países da África que participaram da conferência cujo título era “Melhorando a produtividade agrícola sustentável em regiões áridas e semiáridas”. O encontro foi organizado conjuntamente pela Agência para o Desenvolvimento da Cooperação Internacional de Israel (Mashav) e pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS).

Também em 2016, em julho, o primeiro-ministro israelense visitou quatro países da África Oriental. Na ocasião, encontrou-se com sete chefes de estado.

Ao mesmo tempo, o protagonismo iraniano na região e as ameaças que representa em especial às monarquias do Golfo Pérsico colocam esses países árabes ao lado de Israel. Quanto mais evidentes os interesses de expansão do Irã, mais as monarquias regionais se interessam pela aproximação ao Estado judeu. Este passou a ser o ponto comum entre esses atores que historicamente são antagônicos e com os quais Israel não tem relações diplomáticas oficiais. Pelo menos por enquanto.

Diante da dificuldade – mesmo interna – de encontrar uma solução para o conflito palestino que não derrube o seu governo (lembrando que Israel é um país parlamentarista e a coalizão que sustenta Netanyahu no cargo é mantida por uma maioria mínima neste momento), o primeiro-ministro caminha regionalmente em busca da costura de alianças de fora para dentro. Assim, entendendo de maneira muito clara o quadro do Oriente Médio, ele encontra cada vez mais espaço, tolerância e reduz a hostilidade a Israel entre as monarquias do Golfo.

Em março de 2018, encontrou-se por acaso com os embaixadores dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e do Barein em Washington; em 2017, o Barein enviou pela primeira vez uma delegação de cristãos, muçulmanos e hindus para visitar Israel; em outubro de 2018, pela primeira vez os atletas do país puderam competir ostentando a bandeira israelense em seus quimonos durante o Abu Dhabi Grand Slam de Judô, nos EAU. Ao vencer suas disputas, dois judocas puderam também pela primeira vez ouvir a execução do Hatikva, o hino nacional de Israel.

O ponto alto da política de novas empreitadas foi a visita surpresa de Netanyahu, da primeira-dama Sara e altos oficiais da segurança do país a Omã, onde o primeiro-ministro foi recebido pelo sultão Qaboos bin Said.

O Brasil

E eis que, de repente, o Brasil elege um candidato abertamente favorável a Israel. Depois de 15 anos de governos que votavam sucessivamente contra o país nos organismos multilaterais (inclusive o governo Temer, importante ressaltar), existe a possibilidade de mudança. E, ao contrário da grande energia que Netanyahu precisa despender de forma a abrir portas pesadas e resistentes, Israel não precisou fazer qualquer esforço. Era um caminho que não estava mapeado até poucos meses atrás.

E o Brasil apresenta muitas vantagens; ao contrário de Omã, Barein ou EAU, o país é uma liderança regional incontestável por suas dimensões, população e grande economia. E, ainda melhor, é um ator do jogo internacional que mantém relações diplomáticas com todos os países do mundo. Este é um presente com o qual Netanyahu não contava. E, claro, ele vai fazer todo o possível para aproveitar e valorizar esta aproximação. 

21 de Dezembro - Sexta-feira - 13:33

Há uma disputa evidente de visões em todo o mundo. Quase foi possível estabelecer que o grande debate das duas primeiras décadas do século 21 foi marcado exclusivamente pela dicotomia entre Ocidente e o fundamentalismo islâmico. Até que, é preciso dizer novamente, a nova extrema direita obteve sucesso em alguns dos principais centros decisórios do mundo, alterando a pauta de discussão.

É claro que a dicotomia das duas primeiras décadas teve grande contribuição para moldar o momento atual. A nova extrema direita não excluiu o combate ao fundamentalismo islâmico de sua agenda, de forma alguma. Mas ampliou a abordagem.

Aquecimento global, imigração, terrorismo, desemprego, integração econômica, nacionalismo são elementos que compõem alguns dos pontos mais relevantes e caros ao movimento. Tudo isso pode ser resumido numa nova visão dicotômica – embora com todas essas questões intrínsecas – que se manifesta: a disputa entre global e nacional. Esta é a principal discussão em curso e que segue viés de alta. Ou seja, não há indícios de que o debate esteja perto de esfriar, muito pelo contrário.

Está presente na Europa – fincado na Hungria, República Tcheca, Polônia e Bulgária – e teve papel central na retirada da Grã-Bretanha da União Europeia. Nos EUA, dominou o processo eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca. E no Brasil adornou a campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro e promete marcar seu governo e a política externa do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo.

É possível que a partir de janeiro o governo brasileiro também personalize a sua luta contra o globalismo em George Soros, o judeu húngaro que emigrou para os EUA depois da Segunda Guerra Mundial e tem histórico de atuar na promoção de valores liberais democráticos na Europa Oriental e nos EUA.

Soros é o vilão preferido de regimes marcados pelo nacionalismo e pela rejeição ao liberalismo, como a própria Hungria, além de Polônia, República Tcheca e outros. Mas, em função do antissemitismo com o qual o movimento flerta em maior ou menor grau, a personificação do ódio em Soros também se manifesta em regimes como Turquia, Irã e Rússia.

Mas é importante dizer que George Soros não é o único vilão eleito pelo antiglobalistas alinhados à extrema direita. Barack Obama, Hillary Clinton, Emmanuel Macron e Angela Merkel são outros exemplos.

O projeto de tornar consensual a ideia de que existe uma conspiração globalista é um trabalho ainda em construção. É um processo para lá de difuso, mas que cada vez se manifesta com mais desenvoltura.

Por isso, como exemplo deste discurso, encerro este texto citando um trecho de um antiglobalista. Dá para perceber que há uma rejeição clara ao que é internacional, sejam empresas ou mesmo fóruns multilaterais, além da tentativa de estabelecer estratificação de discursos, como se o antiglobalismo estivesse entre os derrotados pelo sistema – cujo propósito parece ser justamente reafirmar a tese de teoria de conspiração globalista.

“O Secretário-Geral das Nações Unidas, o diretor executivo do Banco Mundial, o Secretário-Geral da OTAN, o Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio, um Prêmio Nobel da Paz, o Presidente do Conselho de Relações Exteriores, o presidente da CNN. Todos eles devem certamente ser ouvidos – assim como um senador eleito do Kansas (...), os poloneses e búlgaros desequilibrados que queriam construir cercas em suas fronteiras ou renegados membros do parlamento britânico que pressionam pelo Brexit não deveriam ser (ouvidos)”, escreve Victor Davis Hanson, historiador militar, colunista, pesquisador e ex-professor na Universidade do Estado da Califórnia

18 de Dezembro - Terça-feira - 11:24

Ao longo do mês de dezembro, estamos assistindo ao desenrolar de um tipo de disputa que, para além das guerras mais evidentes entre exércitos nacionais e toda a sorte de grupos terroristas, deve ser uma das marcas dos conflitos de agora em diante. A prisão de Meng Wanzhou, chief financial officer (CFO) da empresa de tecnologia chinesa Huawei, no Canadá é parte de um novo processo global: a tentativa dos governos, do Ocidente e do Oriente, de conter as ambições econômicas e geopolíticas de Beijing.

Wanzhou foi detida no Canadá a pedido dos EUA. Os norte-americanos a acusam de fraude envolvendo milhões de dólares em transações com os iranianos de forma a que Teerã pudesse encontrar caminhos para fugir das sanções aplicadas por Washington em função do programa nuclear do país.

Mas não se trata apenas disso. Há crescente pressão de governos em todo o mundo para isolar não apenas a Huawei, mas também outras empresas de tecnologia chinesas. A China vive um sistema misto de economia, em que o Partido Comunista, o governo, portanto, mantém alianças estratégicas com as empresas privadas do país. Apesar de ser uma companhia de capital fechado, a Huawei sustenta vínculos de proximidade estratégica com o governo e ambos se retroalimentam na forma de abordagem ao mercado internacional.

É claro que este tipo de relação não ocorre apenas na China. Empresas privadas em todo o mundo mantêm proximidade a governos de forma a ampliar conquistas, mercado e gerar empregos. Mas no caso chinês, onde o Partido Comunista atua num monopólio político, as relações e estratégias se confundem. A ponto, inclusive, de cada vez haver menos diferenciação internacional na forma de enfrentamento da concorrência chinesa.

O Japão baniu não somente a Huawei, mas também a ZTE de participação em contratos oficiais. A British Telecom decidiu retirar o equipamento provido pela Huawei de sua infraestrutura de 4G ao longo dos próximos dois anos. A Índia, um mercado gigantesco, excluiu, em setembro deste ano, a empresa chinesa dos testes para execução de tecnologia 5G no país. Nova Zelândia e Austrália fizeram o mesmo.

Há cada vez mais consenso de que a “parceria público-privada” na China tenha objetivos escusos, entre eles espionagem internacional por meio dos equipamentos de tecnologia desenvolvidos nas empresas do país. O fato é que as estratégias agressivas de atuação no mercado criaram uma barreira aos chineses. Também graças aos incentivos e subsídios do governo em Beijing.

Matéria da Bloomberg aborda um ponto fundamental desta disputa entre governos de todo mundo e o governo e as corporações chinesas; o objetivo mais importante do presidente Xi Jinping é, no plano de crescimento que o PC estabeleceu, o país precisa ser menos dependente de semicondutores e software dos EUA. Este é o passo adiante que os chineses consideram ser necessário em seu projeto de superação em relação à economia americana.

E, claro, seria impossível imaginar que Washington assistiria a este processo sem reação. A prisão de Meng Wanzhou no Canadá está inserida neste grande contexto de guerra comercial, governamental e, ainda mais, na estratégia de grandes economias para frear o processo de expansão ilimitada da China.

04 de Dezembro - Terça-feira - 13:56

Há uma nova operação israelense em curso dentro de seu próprio território. Chamada de North Shield (o escudo do norte) envolve a fronteira entre o país e o Líbano (norte de Israel, sul do Líbano). Na porção libanesa, a área é amplamente dominada pela milícia xiita Hezbollah – considerada hoje por Israel como uma de suas principais ameaças estratégicas. De acordo com Jerusalém, o setor de inteligência do país descobriu uma extensa e diversificada rede de túneis. 

Não é exatamente uma novidade, até porque os israelenses já haviam detectado este tipo de construção no passado, levando o governo a criar artificialmente uma série de barreiras e penhascos de forma a evitar que as escavações pudessem penetrar com sucesso em território israelense. 

A novidade é que, apesar disso, ainda há túneis – e bem construídos. O primeiro deles a ser descoberto parte de dentro de uma casa no vilarejo libanês de Kafr Kila e consegue por 40 metros no norte de Israel. O túnel tem 200 metros de extensão, iluminação e aparatos de comunicação. 

De acordo com as Forças de Defesa de Israel (IDF), o Hezbollah teria levado dois anos para concluir o projeto. Desde 2014, as IDF têm recebido denúncias de moradores do norte do país sobre esses túneis, mas não havia obtido resultados mais significativos. Até que o setor de inteligência conseguiu localizar as construções. Foram, portanto, quatro anos de esforços e busca de informações até as ações realizadas nesta terça-feira. 

A operação israelense tem como objetivo destruir este e outros projetos. Para além do óbvio, é preciso enxergar o quadro mais amplo. 

Há três semanas, o governo israelense quase caiu depois de o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aceitar o cessar-fogo com o Hamas, que lançou cerca de 500 mísseis sobre o sul de Israel. Na ocasião, o então ministro da Defesa Avigdor Lieberman abandonou seu posto sob argumento de discordância do primeiro-ministro. 

Agora, vai tomando corpo a narrativa de que o cessar-fogo teve como objetivo interromper rapidamente a escalada no sul de forma a se concentrar nas ameaças do norte do país. Sem a menor dúvida, o Hezbollah representa um inimigo muito mais poderoso que o Hamas. 

Entre 1978 e 2000, Israel manteve o controle de uma faixa de 18km de território no sul do Líbano. Sob pressão interna, o então primeiro-ministro Ehud Barak ordenou a retirada das forças israelenses. Desde então, o Hezbollah se estabeleceu na região. 

Seis anos depois, Israel e Hezbollah travaram a primeira guerra aberta entre os dois – chamada de Segunda Guerra do Líbano. O confronto durou 34 dias e, apesar do maior número de baixas, o Hezbollah conseguiu sair do conflito fortalecido. 

Com o auxílio de transferências de grandes somas de dinheiro e armamento por parte do Irã – o principal ator regional xiita, assim como a própria milícia libanesa – o Hezbollah tem arsenal hoje estimado entre 120 mil e 150 mil mísseis apontados para Israel. 

E a descoberta dos túneis mostra um novo cenário – que para os israelenses é muito grave: a possibilidade do próximo conflito ser travado no interior do território do país. Ou seja, ações por terra com milícias xiitas, soldados de Hezbollah e Irã invandindo Israel apoiados pelo lançamento de mísseis. 

Mesmo que as ações desta terça-feira tenham sido realizadas por Israel dentro de seu próprio território, elas representam exposição e vitória israelense parcial diante do Hezbollah, uma vez que os túneis foram descobertos – inquestionavelmente uma das principais possibilidades de concretização de ataque surpresa. Resta saber o que o próprio Hezbollah e até o Irã poderão coordenar como contra-ataque a partir disso. 

30 de Novembro - Sexta-feira - 09:29

A retirada da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), que passou a ser conhecida como Brexit, a vitória de Donald Trump nos EUA, a ascensão de regimes de extrema direta na Europa, a contestação oficial de muitos desses governos ao aquecimento global e às mudanças climáticas em curso representam, conjuntamente, parte de um processo de avanço oficial conservador conhecido, mas que segue acompanhado de suportes conceituais cujos propósitos são, acima de tudo, combater o que seus militantes chamam de “Globalismo”.

 

O termo ganhou força, legitimidade e adesão de governos importantes ao redor do mundo – o mais importante deles, o governo americano – graças em boa medida a Steve Bannon, ex-editor do site Breitbart News, ex-estrategista chefe de Donald Trump e responsável diretamente por dar forma e peso a este novo movimento político que ele mesmo passou a chamar de direita alternativa (apenas “Alt-Right”, em inglês).

 

Para Bannon e seus correligionários, a humanidade – e nos caso americano, os EUA, claro – está ameaçada por uma elite global que planeja destruir a pureza do patriotismo, da família e do cristianismo por meio da promoção de valores internacionalistas que incentivam a ondas de imigração desenfreadas aos países desenvolvidos, o temor a mudanças climáticas (que para a nova extrema direita é apenas uma narrativa mentirosa para ameaçar os empregos nacionais), a integração entre mercados, o Acordo Transpacífico, a União Europeia, a agenda LGBT, entre outros.

 

Para esta nova extrema direita – cujas bandeiras são uma atualização de velhas ideias – o projeto ocorre por meio dos banqueiros, de governos liberais, do controle da mídia. Cada um desses países elege pautas nacionais, mas, em comum, um aspecto antigo, mas que se renova a cada geração: o antissemitismo.

 

A extrema direita, como não poderia deixar de ser, encontra nos judeus a origem de todas as ameaças. Os velhos mantras antissemitas são reproduzidos sem qualquer constrangimento: os judeus controlariam os bancos, as finanças, os governos globais, a mídia. Isso não é novo, absolutamente. Não apenas esses estereótipos acompanharam a Europa na Idade Média, mas também Hitler fazia questão de reafirmá-los. Os judeus não teriam vínculo com a pátria, com o solo, ameaçando, portanto, a pureza e o destino manifesto dos verdadeiros cidadãos. Aos antissemitas de hoje bastaram algumas adaptações. A mensagem continua a mesma.  

 

É inevitável associar o crescimento do antissemitismo a este novo movimento de extrema direita, embora – é sempre importante deixar claro – muitos desses estereótipos sobre os judeus que citei acima são usados pela extrema direita e extrema esquerda igualmente – o antissemitismo que busca nos judeus a causa para todos os problemas globais talvez seja um dos poucos pontos de intercessão entre essas duas correntes políticas em oposição permanente.

 

O crescimento do antissemitismo não é uma hipótese, mas é refletido em pesquisa encomendada pela rede de TV CNN. Na Europa, 28% dos entrevistados disseram que os judeus têm influência demais nas finanças globais; 23% disseram o mesmo quando perguntados sobre conflitos mundiais. Sobre as comunidades judaicas locais, 57% acreditam que os judeus representariam pelo menos 3% da população do país – quando, na verdade, apenas em Israel os judeus compõem mais de 2% da população. A narrativa repetida quanto ao poder dos judeus é tão bem-sucedida que 24,38% dos húngaros entrevistados acreditam que os judeus são ao menos 20% da população mundial, quando, na verdade, compõem apenas 0,2% da humanidade.

 

A bandeira do antissemitismo voltou a se tornar uma força política relevante em boa medida porque, graças a esforços de figuras como Steve Bannon, ele é capaz de unir os mais diversos movimentos da nova extrema direita. E refiro-me especificamente à extrema direita – e não à extrema esquerda, igualmente antissemita – porque há neste momento uma tendência de experiências eleitorais bem-sucedidas deste novo formato de governos de direita, a Alt-Right, como escrevi acima. Esta experiência Alt-Right também assumirá o governo aqui no Brasil a partir de 1 de janeiro.

 

No entanto, é bom deixar claro também que os estereótipos antissemitas aplicados para justificar a luta contra o Globalismo também foram usados em diversos outros governos que não poderiam ser considerados como membros do “clube” mais tradicional desta nova extrema direita, casos de Turquia e Rússia, por exemplo. Mas, ainda sim, e justamente em função disso, fica evidente o poder do novo termo e da força que Bannon e seu discurso conseguiram obter nos mais diversos círculos políticos e sociais.

 

A nova onda de antissemitismo é mais um dos efeitos colaterais do resgate da militância nazista – que durante boa parte do século 20 esteve relegada às margens da sociedade. Agora, muitos de seus membros passaram a ocupar os principais centros decisórios em todo o mundo e, assim, claro, puderam retomar velhas pautas para apresentá-las em nova embalagem.

27 de Novembro - Terça-feira - 13:06

Este é um texto mais simples cujo objetivo é mostrar o poderio do Likud, o partido liderado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. A ideia é encerrar por ora este ciclo de análises sobre o cenário doméstico no país desde que a crise dos mísseis mais recente se encerrou depois de quase iniciar um novo conflito com o Hamas – seria o quarto neste século (2008/2009, 2012 e 2014).

É interessante notar que a sequência de guerras abertas entre Israel e Hamas também marca o ciclo de vitórias de Netanyahu. Os dados mostram quase um monopólio eleitoral do Likud no século 21.

Desde a derrota do ex-primeiro-ministro trabalhista Ehud Barak, foram quatro vitórias na sequência: 2003, 2009, 2013 e 2015 (não há necessariamente intervalos de quatro anos entre as eleições porque o parlamentarismo implica vulnerabilidade, já que os governos dependem da manutenção de maiorias).

As conquistas eleitorais consecutivas foram quebradas apenas em 2006. Mesmo assim, num contexto específico de um dos principais símbolos políticos e militares do país, Ariel Sharon. Depois de promover a retirada de todos os assentamentos judaicos da Faixa de Gaza, em setembro de 2005, Ariel Sharon deixou o Likud para unir-se a elementos até do Partido Trabalhista com visões mais pragmáticas. Fundou o Kadima (Avante, em hebraico) porque pretendia seguir adiante com decisões importantes – mesmo que unilaterais, como a retirada de Gaza – de forma a solucionar o conflito com os palestinos.

Sharon poderia vencer as eleições de 2006, mas em janeiro daquele ano sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) – morreria oito anos mais tarde depois de passar todo este período em coma. Também membro do Kadima, Ehud Olmert acabou eleito.

Todo este histórico para deixar claro a absoluta excepcionalidade de derrotas do Likud ao longo do século 21. O partido não venceu em apenas uma ocasião, quando foi derrotado justamente pelo substituto de um de seus nomes mais representativos – mas dissidente em seu projeto final de carreira.

Neste momento em que o cenário interno em Israel parece buscar novamente a realização de eleições antecipadas para alcançar um novo estágio de frágil equilíbrio, acho válido apresentar as dinâmicas de disputa de poder que mais marcadamente acompanharam os 70 anos do país.

Nos primeiro 30 anos – entre a independência em 1948 e a eleição de Menachem Begin, em maio de 1977 – os trabalhistas lideraram a política israelense. Hoje, a realidade é distinta. O Likud comanda a coalizão de direita. Se estiver no cargo em 17 de julho de 2019, Benjamin Netanyahu superará David Ben Gurion como o político a ocupar o cargo de primeiro-ministro por mais tempo na história de Israel.

Mas não necessariamente é possível estabelecer verdades absolutas sobre a esquerda e a direita quando as negociações de paz estão em pauta. Foi Menachem Begin quem assinou os Acordos de Camp David, em setembro de 1978, que levariam à assinatura do acordo de paz com o Egito do presidente Anwar Sadat em março do ano seguinte. Nos anos 1990, os trabalhistas Yitzhak Rabin e Shimon Peres assinaram os Acordos de Olso, com o líder da OLP Yasser Arafat, e com a Jordânia do Rei Hussein.

21 de Novembro - Quarta-feira - 10:08

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta neste momento o seu período de maior questionamento político. Não apenas por parte da esquerda – permanentemente na oposição ao governo –, mas da coalizão de parlamentares que o sustenta no cargo.

A crise doméstica iniciada pelo número recorde de mísseis lançados por Hamas e Jihad Islâmica contra o sul do território israelense foi agravada pela decisão do ex-ministro da Defesa de renunciar em protesto ao cessar-fogo aceito justamente por Netanyahu.

Os acontecimentos rapidamente acenderam a luz verde ao ministro da Educação, Naftali Bennett, que reivindicou a titularidade da Defesa para evitar o desmonte da coalizão. No parlamentarismo, deter a maioria dos assentos no parlamento é premissa para a sustentação governamental.

A velocidade de todas essas ações poderia levar a crer que o primeiro-ministro perderia o controle, levando à convocação de eleições antecipadas (oficialmente marcadas, se a coalizão for mantida, para novembro do ano que vem). Mas Netanyahu é um político habilidoso e fez um pronunciamento em rede nacional de televisão que conseguiu, de uma só vez, mobilizar a população, ganhar tempo e constranger seus adversários internos.

“Estamos no meio de uma campanha militar, e você não abandona uma campanha para fazer jogo político. A segurança do país está acima da política e das considerações pessoais”, disse. Ainda acrescentou que Israel enfrenta “período complexo em termos de segurança” e que, como primeiro-ministro, tem conhecimento de informações que, por questões estratégicas, não podem ser tornadas públicas.

Netanyahu passou a acumular a pasta da Defesa – a pretendida por Bennett. Neste momento, o ministro da Educação teve de segurar seus projetos políticos – que incluem de maneira cada vez mais explícita o interesse pessoal de substituir o próprio Netanyahu –, mas em entrevista coletiva devolveu a chamada que recebeu do primeiro-ministro:

“Não há apocalipse a caminho. Há inimigos, mas nenhum que me assuste. Há algo ruim acontecendo internamente, inclusive na última década nos governos Netanyahu – o Estado de Israel parou de vencer”, declarou.

As palavras firmes adornaram o aspecto central do pronunciamento: a decisão de voltar atrás na ameaça de abandonar o governo caso o primeiro-ministro não lhe concedesse a titularidade do ministério da Defesa.

“É melhor que o primeiro-ministro nos derrote em uma batalha política do que perder para (o chefe do Hamas, Ismail) Haniyeh”, completou.

Naftali Bennett fez uma análise simples a partir do discurso da véspera de Netanyahu: o Likud, partido do primeiro-ministro, é a principal legenda em Israel. Ao derrubar o governo, ele próprio, Bennett, levaria o crédito pelo fim da coalizão. Poderia ficar valendo o trecho fundamental do discurso de Netanyahu mencionando interesses pessoais que se sobrepõem à segurança nacional.

Vale lembrar que, no atual governo, o Likud detém 30 assentos no Knesset, enquanto A Casa Judaica (partido de Bennett), oito. Não dá para desprezar o histórico de vitórias do Likud sem quaisquer garantias de que, nas próximas eleições, será possível obter mais cadeiras do que a legenda de Netanyahu.

Mesmo assim, mesmo com mais uma demonstração de habilidades políticas e do enorme poder interno de que usufrui o primeiro-ministro, a maior parte do Knesset demonstra ser favorável a realizar eleições no final de março de 2019. Benjamin Netanyahu conseguiu se segurar por ora. Pode até não conseguir evitar o pleito antecipado, mas foi hábil o bastante para constranger e expor seu aliado-inimigo interno Naftali Bennett.