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Carta & Crônica
Henry Galsky
21 de Setembro - Sexta-feira - 13:47

Na segunda-feira, dia 17, um míssil do sistema de defesa sírio derrubou um avião militar russo, causando a morte de 15 militares a bordo. O incidente se transformou numa disputa narrativa em função da confusão de versões na medida em que, de acordo com o posicionamento oficial sírio, o alvo era a força aérea de Israel, que naquele momento estaria realizando mais um ataque contra uma base síria envolvida na transferência de armamento à milícia xiita libanesa Hezbollah.

O episódio rapidamente subiu na escalada de acontecimentos que caracterizam não apenas a Guerra Civil síria, bem como o Oriente Médio de maneira mais ampla. A posição israelense é de que o incidente foi fruto do “lançamento indiscriminado de mísseis” por parte da Síria. Os sírios acusam Israel e colocam na conta dos israelenses a morte dos russos. A posição russa está em transformação, muito em função dos interesses regionais do presidente Vladimir Putin.

Num primeiro momento, o porta-voz do descontentamento de Moscou foi o ministro da Defesa Sergei Shoigu, que, em conversa telefônica com o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, deixou claro que os russos consideravam que a culpa pelo incidente cabia integralmente a Israel. Shoigu ainda acrescentou que a Rússia se reservava o direito de responder da maneira “apropriada”. O mistério naquele momento era entender como o termo poderia se aplicar na prática.

Existia inclusive a possibilidade, mesmo que remota, de, por interpretação da declaração do ministro russo, na medida em que creditava a responsabilidade inteiramente a Israel, o país optar por provocar a queda de um avião israelense – atitude que, se concretizada, elevaria a tensão entre Israel e russos a patamar inédito.

Mas as lideranças políticas dos dois países rapidamente trataram de minimizar o potencial do acontecimento. Mesmo sem admitir responsabilidade pelo ocorrido, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ligou para Putin lamentando o incidente. Também prometeu investigar a fundo o episódio e enviar o comandante da força aérea para explicar pessoalmente ao presidente russo os resultados obtidos.

Putin por sua vez deixou claro que a situação era diferente da grave crise ocorrida entre Rússia e Turquia depois que um caça russo foi abatido pelos turcos.  Segundo o líder russo, na ocasião a Turquia abateu a aeronave da Rússia deliberadamente, enquanto o episódio na Síria representa “uma cadeia de acontecimentos trágicos” e prometeu que as medidas de retaliação serão basicamente “prover segurança adicional aos nossos homens em serviço e estruturas (estabelecidas) na Síria”.

Nem Israel, nem Rússia têm interesse em entrar em confronto direto. Nenhum dos dois países têm vantagens a obter a partir de um eventual enfrentamento, muito pelo contrário. Putin já empenhou recursos, capital político e homens no complexo esforço de obter alguma forma de acomodação na Síria. E está vencendo.

Israel e Rússia mantêm coordenação próxima em função das ações dos dois países na Síria. Israel tem usufruído de grande liberdade de atuação cujo propósito envolve basicamente dois focos: impedir o estabelecimento de bases iranianas no território; e impedir a transferência de armamento sírio e iraniano ao Hezbollah.

Como estratégia permanente, perder esta liberdade de ação deixaria o país em situação vulnerável. Daí a razão da deferência israelense aos russos. A ponto inclusive de enviar a Moscou delegação militar chefiada pelo comandante da força área Amikam Norkin.

Neste momento, portanto, o objetivo das lideranças políticas dos dois países é acalmar os ânimos internos e retornar ao status-quo.

18 de Setembro - Terça-feira - 09:39

Uma das possibilidades que poderia criar garantias necessárias à segurança de israelenses e palestinos a partir de um eventual plano de retirada da Cisjordânia seria substituir as Forças de Defesa de Israel (IDF) por um aparato militar internacional.

Este é um projeto que já existe na região e atende pelo nome de United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL), estabelecida depois que, em 1978, os israelenses invadiram o Líbano para proteger as cidades e comunidades da região norte de seu território que vinham sendo atacadas pelos palestinos que militarmente se fixaram no sul do Líbano e de lá operacionalizam ofensivas contra Israel.

Como tenho escrito por aqui, depois da retirada do Líbano em 2000, diante de pressão interna da sociedade israelense, a presença das IDF foi substituída na prática pela milícia xiita libanesa Hezbollah, cujo arsenal na região é hoje estimado em mais de cem mil mísseis. Seis anos depois, Israel e Hezbollah travaram uma guerra de pouco mais de um mês. O conflito passou a ser conhecido como Segunda Guerra do Líbano.

Hoje, a UNIFIL ainda está presente no sul do Líbano. A força militar internacional conta com 10.500 soldados de 41 países diferentes.

Mas aí começa o problema; existe uma distância – às vezes pequena, às vezes enorme – entre a solução imaginada e o mundo real. A UNIFIL está no sul do Líbano desde 2006. E, nesses últimos 12 anos, não foi capaz de interromper o fluxo de transferência de armamento de Irã e Síria ao Hezbollah, até porque não era esta a missão nem a tropa teria condições de realizar a tarefa. Hoje, a milícia xiita libanesa conta com arsenal superior ao que mantinha ao fim do conflito da primeira década do século 21.

E a partir deste ponto, nasce o impasse. Se a comunidade internacional não conseguiu (por não alocar força militar da ONU capaz de realizar a tarefa) interromper o envio de armas ao Hezbollah desde que Israel deixou o sul do Líbano em 2000, se a comunidade internacional não pôde proteger a Autoridade Palestina e evitar que o Hamas tomasse a Faixa de Gaza e a transformasse em base permanente de lançamentos de mísseis contra o sul do território israelense, como imaginar que qualquer quadro do complexo espectro político de Israel será capaz de convencer o público doméstico a apostar pela terceira vez na retirada das IDF – desta vez da Cisjordânia – sem qualquer garantia?

Além disso, os acontecimentos registrados nesta terça-feira entre Israel, Síria e Rússia mostram a complexidade do cenário sob o ponto de vista político e militar. Mesmo que tropas internacionais sob a chancela da ONU fossem alocadas na Cisjordânia, elas não teriam como garantir a paz por si só sem que antes fosse celebrado um acordo amplo e definitivo entre as partes que também contasse com a participação ativa dos demais atores regionais.

12 de Setembro - Quarta-feira - 12:19

A decisão americana de fechar a missão diplomática palestina em Washington é mais uma etapa do processo de pressão do governo Trump para acelerar o encerramento do conflito israelense-palestino. A questão é que, como tem ficado claro ao longo desses dois anos, a atual administração apresenta perspectivas muito particulares sobre a forma de negociação a ser estabelecida entre as duas partes.

Simbolicamente, o gesto carrega ainda mais significado, na medida em que ocorre 25 anos depois da assinatura dos Acordos de Oslo entre israelenses e palestinos, em 1994 (foto). Símbolo máximo das abordagens imaginadas pelo partido Democrata, nos EUA, e pelo partido Trabalhista, em Israel, os Acordos de Oslo têm sofrido sucessivos revezes e, na prática, foram enterrados pela realidade dos acontecimentos.

Se há algo de concordância rara – tanto por parte da atual coalizão de governo em Israel, como da liderança americana e palestina – é que Oslo, apesar de simbólico, não vale mais. No entanto, esta concordância é muito breve. As três partes citadas acima se dividem em dois blocos; as lideranças americana e israelense acusam a liderança palestina pelo fracasso. A liderança palestina acusa americanos e israelenses.

Seja como for, se politicamente as atuais lideranças de governo americana e israelense fecham posição sobre Oslo e sobre como entendem as possibilidades daqui para frente, os diversos organismos que compõem a estrutura de segurança israelense pensam o contrário. Ou melhor, essas instituições técnicas de Israel, inclusive as Forças de Defesa de Israel (IDF), entendem que as sucessivas medidas apresentadas pelo governo de Donald Trump podem prejudicar a segurança interna de Israel.

Como escrevi, a ideia de questionamento da UNRWA e da estratégia de prolongamento do status dos refugiados palestinos por tempo indeterminado (o que ocorre na prática em virtude dos argumentos que apresentei na primeira parte deste texto) serviu como base para determinar a redução total da doação americana à agência. Em 2017, os EUA repassaram à UNRWA 370 milhões de dólares. Em 2016, 355 milhões de dólares.

Além do conceito relativo à forma única como a agência entende o status de refugiado palestino em contrapartida a todos os demais grupos de refugiados do mundo, a UNRWA é acusada de manter proximidade a grupos terroristas palestinos locais.

No entanto, mesmo com todos esses elementos, o aparato de segurança israelense discorda da posição do próprio primeiro-ministro do país neste aspecto. A posição é técnica em relação à segurança: é fundamental manter a Cisjordânia em funcionamento até como forma de oposição à situação existente em Gaza controlada pelo Hamas.

Em entrevista ao site de análises Al-Monitor, um alto oficial israelense expôs esta posição:

“Na situação que foi alcançada, um palestino médio quase não vê os militares (de Israel). Quase não há checkpoints (postos de checagem) e há ampla liberdade de movimento (...). Pouco se vê o que existia no passado, como longas filas de checagem e engarrafamentos em checkpoints. Milhares de pessoas (da Cisjordânia) trabalham em Israel e nos assentamentos todos os dias”.

Ou seja, movimentos e decisões abruptas (como a interrupção do repasse americano à UNRWA) colocam em risco a situação de relativa calma e qualidade de vida dos palestinos da Cisjordânia. Por consequência, o aparato militar e de inteligência israelense – em oposição a membros da coalizão governamental do país – entende que este cenário representa ameaça direta à segurança da população de Israel.

E assim chegamos ao segundo impasse do conflito: os palestinos não têm como garantir a Israel que se os israelenses deixarem completamente a Cisjordânia este território não terá o mesmo destino de Gaza (tomada pelo Hamas e transformada em base de lançamentos de mísseis contra o sul de Israel). Mais ainda, não há garantias de que as consequências não serão as mesmas resultantes da retirada israelense do sul do Líbano em 2000 (o Hezbollah transformou a região em base permanente onde há estimativas de que aloca mais de cem mil mísseis apontados para Israel).

Ao mesmo tempo, a impossibilidade de encontrar uma solução viável para as demandas de segurança de Israel e para a autodeterminação pleiteada pelos palestinos prolonga indefinidamente este impasse. Mas a vida na Cisjordânia segue em condições melhores quando comparada ao território dominado pelo Hamas em Gaza.

Este é o tecido e a base sobre as quais se sustentam hoje tanto o dia a dia dos palestinos da Cisjordânia quanto o cotidiano dos israelenses, principalmente o da maioria da população que vive na região central do país. Esta condição de normalidade usufruída pelas duas populações pode ser afetada pelas decisões tomadas pela necessidade do governo Trump de “resolver” o conflito o mais rapidamente possível. É como empurrar uma placa tectônica. Pode ser que nada aconteça. Pode ser que haja um terremoto. Ou um tsunami.

06 de Setembro - Quinta-feira - 09:27

Israelenses e palestinos estão profundamente conectados pelas decisões de seus governos. Mesmo que não queiram. Esta conexão ocorre de maneira prática menos por vontades individuais e mais pela proximidade geográfica e pelas frequentes escaladas de tensão que pequenos e grandes gestos domésticos e internacionais terminam por impactar no dia a dia das duas populações. Esta análise é válida a dois acontecimentos recentes: o plano do “Acordo do Século” que aos poucos se revela – mesmo que por meio de frestas e declarações pinçadas aqui e ali – e a decisão americana de deixar de financiar a UNRWA (UN Relief and Works Agency), agência da ONU exclusivamente dedicada aos refugiados palestinos.

Há muito tempo o governo israelense acusa a UNRWA de perpetuar o drama dos refugiados. Espalhados não apenas por Gaza e Cisjordânia, os palestinos jamais foram absorvidos pelos países árabes onde estão alocados, com exceção da Jordânia. No Líbano, até hoje vivem em campos de refugiados. Durante boa parte do conflito – especialmente até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando o confronto árabe-israelense era majoritariamente uma disputa entre os países árabes e Israel – os palestinos e seus refugiados foram usados como forma de pressão pelos próprios países árabes.

Depois da fundação da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), em 1964, e após a derrota dos países árabes na Guerra dos Seis Dias, Yasser Arafat e sua instituição assumiram o protagonismo da chamada causa palestina. Os refugiados passaram, portanto, a ser parte central do discurso. A permanência de seu status serviu desde então como ponto central da narrativa palestina.

A UNRWA é enxergada com suspeita pela sociedade israelense por uma questão específica: a agência da ONU dedicada aos palestinos adota critério único e sem paralelo entre todos os refugiados. Para ela, a condição de refugiado palestino se aplica a todas as gerações subsequentes, mesmo aos detentores de cidadania estrangeira.

Os critérios internacionais mais amplos foram estabelecidos pela Convenção e Protocolo da ONU Relativo ao Status dos Refugiados em 1951. Este acordo determina que o status de refugiado deixa de ser válido em caso de obtenção de nova nacionalidade e proteção nacional. A definição da UNRWA, portanto, estabelece parâmetros específicos aos palestinos que não se estendem a qualquer outro grupo de refugiados em todo o mundo. A crítica israelense – agora explicitada também pela atual administração americana – se fundamenta sobre estas questões.

Por outro lado, ao decidir retirar o financiamento à UNRWA, os EUA encaminham mais uma mensagem sobre o “Acordo do Século” e também sobre o modo como encaram o atual momento para decidir os rumos do conflito israelense-palestino. Chamo este modelo de “solução Jerusalém”, na medida em que replica o modelo de transferência da embaixada americana para a capital israelense.

Assim como Jerusalém, a questão dos refugiados palestinos é ponto nevrálgico de qualquer acordo definitivo. É um impasse fundamental, uma vez que a demanda palestina (que tem se mostrado inflexível desde Arafat) exige o “retorno” de todos os refugiados e suas gerações seguintes a Israel.

Israel, por sua vez, não aceita esta condição, uma vez que, ao admitir a entrada de cerca de 5,6 milhões de palestinos em suas fronteiras, abriria mão do caráter judaico do país, portanto deixando de cumprir voluntariamente a missão primordial do estado israelense de ser o lar nacional judaico. Nenhum governante do país, de esquerda ou direita, deu até hoje sinalização mínima de que estaria disposto a isso.

No próximo texto, abordarei este assunto sob outras perspectivas, levando em consideração mais impactos políticos regionais.

28 de Agosto - Terça-feira - 09:20

O acordo regional que vem sendo costurado pelos EUA – ou pelo menos há indícios disso – corresponde ao principal foco da política externa americana no momento. Sob a presidência de Trump, como escrevi, encontrar alguma forma de acomodação mínima ou estabilização frágil no conflito entre israelenses e palestinos é interpretado como parte do processo de vitória deste governo sobre o anterior. Com as denúncias domésticas envolvendo o atual ocupante da Casa Branca, o assunto passou a ser tratado com ainda mais urgência.

Os sinais sobre o que deve ser este “Acordo do Século” já foram abordados por mim aqui no site anteriormente. Vale lembrar: reconstrução de Gaza, cessar-fogo no sul de Israel e isolamento da Autoridade Palestina presidida por Mahmoud Abbas. O resultado prático deste formato é o óbvio fortalecimento do grupo terrorista Hamas. Este não é um juízo de valor de minha parte, mas uma constatação.

E aí retorno a dezembro de 2017, quando o presidente Trump determinou a mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Há uma série de questões envolvendo a capital israelense sobre as quais já tratei por aqui inúmeras vezes. Há a política interna americana e evangélicos americanos apoiadores do presidente, há a ideia de Trump de, devido à complicação representada por Jerusalém simplesmente tomar a decisão de forma a “remover o item” das discussões, há a relação entre o presidente americano e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Mas houve também na ocasião, além das críticas mais estomacais à decisão, o argumento repetido inclusive pela oposição interna a Netanyahu em Israel uma vez que se tratava de uma conquista inegável do atual governo israelense: por que Washington não fez exigências ao primeiro-ministro, considerando-se o impacto e a relevância da decisão anunciada naquela ocasião pela administração americana?

Talvez esta crítica possa começar a ser respondida. Na última semana, em evento público na Virginia Ocidental, Trump disse que “os palestinos irão receber algo muito bom” em função da transferência da embaixada. “Porque é a vez deles”, completou.

Há duas possibilidades diante desta declaração: Trump pode estar tentando ganhar tempo para apresentar mais propostas; pode também estar em busca de credibilidade como homem de negócios que ora se apresenta como inovador nos assuntos internacionais, incluindo sua experiência profissional nesses processos; ou de fato o projeto do “Acordo do Século” está em curso e a mudança da embaixada americana para Jerusalém era moeda de troca sigilosa da ampla proposta dos EUA.

E aqui reside o desafio a Benjamin Netanyahu, considerando-se que Israel é um país cujo regime é parlamentarista e para se manter no cargo político executivo mais relevante é preciso habilidade extrema. Netanyahu indiscutivelmente tem esta credencial, mas pode ser que a conta apresentada por Trump tenha um preço alto demais a se pagar.

Netanyahu teve dificuldades para se sustentar durante a mais recente rodada de hostilidades com o Hamas. Apesar de o sul de Israel ter sido alvo de mais mísseis do que em 2014, quando o próprio Netanyahu lançou a Operação Margem Protetora, o líder israelense optou por não iniciar uma guerra aberta contra o Hamas, levando seu governo a sofrer inúmeras críticas internas da oposição e principalmente dos moradores do sul do país.

É muito provável que a decisão de Netanyahu tenha relação com o plano regional americano. Se o propósito do “Acordo do Século” é investir na reconstrução de Gaza, não faria sentido iniciar uma guerra que certamente causaria grandes danos estruturais a uma região que já sofre inúmeras dificuldades estruturais, inclusive com o boicote realizado pela Autoridade Palestina (rival interna do Hamas) no fornecimento de energia elétrica.

Para Netanyahu, o desafio político que se apresenta no ano anterior à eleição marcada para novembro de 2019 (mas que sempre pode ser antecipada) é conseguir responder às críticas da oposição de que, para atender aos pedidos de Washington, seu cessar-fogo (mediado por Egito e ONU) terminou por fortalecer o controle, a soberania e o capital político do Hamas.

22 de Agosto - Quarta-feira - 12:16

E eis que o cessar-fogo entre Hamas e Israel se concretizou. Mas, como de costume, o Oriente Médio não é para principiantes. O cessar-fogo está em vigor, mas isso não necessariamente significa o fim por completo da violência e das hostilidades. O Hamas novamente promoveu mais uma sexta-feira dedicada ao projeto “A Grande Marcha do Retorno”, a série de manifestações em que seus membros e também palestinos em geral vão à fronteira de Gaza para enfrentar as tropas israelenses.

Existe a sensação clara de que, por mais que Israel e Hamas tenham interesse – por razões distintas – no fim das hostilidades, nenhum dos dois lados quer ser o primeiro a silenciar. Se há algo de comum entre essas duas entidades absolutamente distintas é que ambos concordam que baixar as armas e baixar o tom pode e será interpretado pelo público externo e principalmente interno como sinal de fraqueza.

Como escrevi em meu texto mais recente, o Hamas tem capitalizado esta lógica de enfrentamento, recolhimento, aceno de trégua e novo enfrentamento para aumentar sua força política e econômica em diversas frentes. Ao mesmo tempo, o governo israelense não tem conseguido encontrar saídas e respostas para a própria população – especialmente a do sul do país – e anseia por uma solução rápida. O Hamas compreendeu a necessidade. E está conseguindo obter as vantagens que procura.

O cessar-fogo mediado pelo Egito e pela ONU – cuja implementação vinha sendo negada oficialmente pelo governo de Israel – entrou em vigor na última quarta-feira. Foi aprovado pelo gabinete de segurança em Jerusalém com dois votos contrários – do ministro da Educação Naftali Bennett e da ministra da Justiça Ayelet Shaked, ambos jovens influentes da nova direita israelense.

Membros do partido A Casa Judaica, Shaked e Bennett representam a aliança ambígua e frágil sustentada pela coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Bennett é permanentemente cotado para substitui-lo. A desaprovação de Bennett e Shaked ao cessar-fogo apresentado pelo governo Netanyahu cumpre um rito político importante, já que Bennet e Shaked são símbolos de um posicionamento de parte da sociedade israelense.

A frágil coalizão do primeiro-ministro e sua frágil trégua/não-trégua com o Hamas apontam a um possível impasse político a partir da análise que os israelenses têm feito: a de que o “acordo” atual não soluciona a situação de insegurança das comunidades vizinhas a Gaza; e de que o gerenciamento desta crise e os caminhos apresentados pelo governo correspondem justamente à realização do projeto do Hamas, que sai fortalecido e possivelmente conseguirá se armar para a próxima rodada de hostilidades.

É claro que Benjamin Netanyahu sabe disso tudo. É um político experiente e compreende que de dentro de sua coalizão pode emergir seu concorrente direto e substituto nas eleições até agora marcadas para novembro de 2019 (no parlamentarismo é sempre possível – e muitas vezes até provável – que haja necessidade de eleições antecipadas). Mas Bibi está no centro de um tabuleiro que não deixa exatamente margem para movimentos mais amplos. Este é o tema do próximo texto. 

15 de Agosto - Quarta-feira - 10:14

Pode parecer estranho, pode num primeiro momento não fazer sentido algum, mas está muito claro que a troca de hostilidades entre Hamas e Israel em curso explicitamente desde março – que chegou a seu ponto máximo na última semana quando o grupo terrorista palestino lançou 200 mísseis sobre o território israelense – é parte de uma estratégia de curto prazo. Sob o ponto de vista do Hamas, o aprofundamento das tensões com Israel pode trazer benefícios políticos e econômicos ao grupo.

Com a certeza de que o foco do chamado “Acordo do Século” planejado pelo governo Trump – mas ainda não oficialmente divulgado – é justamente sobre Gaza, território sob controle do Hamas desde 2007, os membros do grupo entenderam que criar novas ondas de atrito com Israel é o mesmo que construir poder de dissuasão.

Um acordo mínimo no conflito entre israelenses e palestinos é a conquista mais almejada e valiosa (apesar de este não ser o conflito mais sangrento da região) das relações internacionais. O Hamas sabe que este é o grande objetivo de política externa de Donald Trump. Não apenas por razões geopolíticas, mas porque encontrar alguma forma de acomodação representaria uma vitória sobre o antecessor, o ex-presidente Barack Obama.

As manifestações violentas conduzidas na fronteira desde março chamadas de “Grande Marcha do Retorno”, o lançamento de mísseis, pipas e balões incendiários e a permanente situação de instabilidade no sul do território israelense são os elementos que constroem o “boleto de pagamento” apresentado pelo Hamas. Esta conta será paga não apenas por Trump, mas também pelo inimigo interno, a Autoridade Palestina presidida por Mahmoud Abbas.

A saúde frágil, a idade avançada do presidente palestino e o cenário político interno de Israel – que cada vez mais caminha para construir consenso de que os Acordos de Oslo já não existem mais – são as janelas de oportunidade ao grupo terrorista que controla Gaza. A ideia de reunificar as duas principais entidades palestinas não conseguiu ser concretizada. Para o Hamas, então, o plano é substitui-la. Inicialmente em Gaza – o que já ocorreu há 11 anos, mas agora deve receber a “chancela” de Israel e EUA –, posteriormente na Cisjordânia.

Ao mesmo tempo, a situação política em Israel é complexa. Especialmente frágil ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cuja maioria no Knesset, o parlamento do país, é obtida por apenas seis cadeiras. Dos 120 deputados, a coalizão de partidos a sustentar Netanyahu no cargo tem 66. Basta um partido decidir romper, mesmo um com poucos membros, e o governo cai.

E as discussões internas são muitas, todas elas com potencial de derrubar a coalizão: assentamentos na Cisjordânia, casais homossexuais que querem ter filhos, reação à ofensiva do Hamas, alistamento obrigatório de judeus ortodoxos no exército, a Lei do Estado-nação. Esses são apenas alguns dos temas que causam enorme controvérsia e, portanto, carregam intrinsecamente o potencial de desgastar e separar os partidos.

Para acalmar a situação no sul, aparentemente o governo em Jerusalém está disposto a aumentar a complexidade das negociações com o Hamas. Até hoje, havia diálogos indiretos sobre cessar-fogo. Agora, a realidade é mais complexa. Graças ao que parece ser o caminho do “Acordo do Século” planejado pelos EUA, o Hamas tende a ganhar status de Estado, já que é a entidade que oficialmente e de fato controla Gaza. Serão seus membros os responsáveis por decidir, direta ou indiretamente, o futuro do território. Não apenas sob aspecto militar, mas político e econômico.

E tudo isso pode vir a ocorrer sem que o Hamas tenha recuado um centímetro sequer em sua narrativa oficial (que inclusive está explícita na carta de fundação do grupo) que estabelece seu objetivo de destruir Israel.

O grupo, portanto, aparentemente soube analisar o cenário político interno israelense, o doméstico da disputa por poder palestino, o regional do Oriente Médio e o internacional alterado pela eleição de Donald Trump para montar a estratégia que até agora caminha para conferir ao Hamas o seu momento de maior projeção e poder.

09 de Agosto - Quinta-feira - 09:51

As sanções americanas ao Irã estão de volta. Este é o resultado natural de uma escalada cujo pontapé inicial foi a decisão tomada por Washington no último dia 8 de maio de retirar os EUA do Acordo Nuclear assinado entre as potências internacionais e os iranianos em 2015. Foi até aqui o golpe mais profundo não apenas contra Teerã mas principalmente contra o escopo teórico e prático da obra internacional do ex-presidente Obama, de seus secretários de Estado Hillary Clinton e John Kerry e, finalmente, contra a visão da política externa praticada pelo partido Democrata.

Em noventa dias, portanto em novembro, as sanções serão ampliadas para que alcancem também a poderosa indústria de petróleo iraniana e suas exportações. A decisão do governo Trump tem uma série de impactos políticos importantes que atingem não apenas o centro da geopolítica do Oriente Médio, mas também a chamada aliança transatlântica histórica entre EUA e Europa vigente ao longo do século 20.

Neste aspecto, a discordância é explícita, a ponto inclusive de a União Europeia (UE) comunicar que pretende pôr em prática o “estatuto de bloqueio”, instrumento que impede as companhias europeias de aderirem às sanções. É um evidente desafio por parte da UE à decisão do governo Trump. Considerando o ambiente já inflamando das disputas comerciais entre as partes, a questão iraniana pode se tornar mais um ponto de discórdia a ser aprofundado.

No entanto, é possível que a mediação europeia possa ter como resultado um apaziguamento das tensões entre EUA e Irã, na medida em que a UE pretende manter o acordo nuclear. Apesar de os americanos já estarem fora, os europeus poderiam atuar como mediadores de forma a encontrar um ponto comum entre Washington e Teerã. Este é um momento de tensão, mas é preciso ser claro: ambas as partes têm projetos pragmáticos. A construção de alguma forma de consenso pode ser obtida a partir deste ponto.

Lembrando sempre que o aspecto mais fundamental ao regime iraniano é sua própria sobrevivência. Para os americanos, há algumas questões inegociáveis, entre elas a segurança de seus aliados regionais – as monarquias sunitas do Golfo, sob liderança da Arábia Saudita, e Israel. Por mais que os russos tenham substituído os americanos no cenário sírio, por exemplo, a Casa Branca entende a pressão sobre o Irã como espaço adequado de forma a reforçar os compromissos históricos regionais, mas de forma absolutamente distinta à atuação do governo do ex-presidente Barack Obama.

Em novembro, a intensidade americana deve atingir seu ponto máximo, já que o alvo será a produção de petróleo iraniana. Até lá, é possível que os europeus busquem uma saída. Dos dois milhões de barris exportados diariamente pelo Irã, a Europa compra cerca de 25%.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, diz que a Casa Branca não busca a mudança do regime iraniano, mas o compromisso de que o Irã passe a atuar como um “país normal”. Esta declaração é muito provavelmente destinada a enquadrar dois projetos importantes da República Islâmica: a influência, interferência e manobras regionais visando ao estabelecimento de ligação contígua entre o próprio território e o mar Mediterrâneo (com repercussão direta sobre os aliados americanos); e a busca por armamento nuclear e seus mísseis balísticos.

A abordagem americana parece similar ao processo adotado na Coreia do Norte. Mas a complexidade neste caso é muito maior. Há uma infinidade de possibilidades regionais no Oriente Médio, inclusive é preciso levar em consideração as aspirações e práticas russas. As posições e conquistas de Vladimir Putin são inquestionáveis. E ele está a ponto de superar a Guerra Civil síria, uma frente os EUA preferiram agir mais discretamente.

A pressão sobre o Irã e a exigência de retração de ambições por parte do país também envolvem a Rússia, uma vez que os iranianos e as milícias xiitas que financiam são parte integrante da aliança do Kremlin na Síria. É possível que russos e americanos estejam dialogando sobre isso. Em crise interna com fortes pressões da população, o regime dos aiatolás talvez precise aceitar algum recuo em sua estratégia internacional, principalmente se EUA e Rússia alcançarem um acordo de bastidores sobre o Irã.

Mesmo com uma administração americana claramente menos interessada nos assuntos internacionais, o caso iraniano pode causar alguma preocupação aos russos. A depender da interpretação de Putin sobre os próximos passos –  se enxergar algum risco à sua vitória regional –, é possível que Moscou opte por sacrificar parcialmente as ambições do Irã. É aqui que se concentra o ponto-chave para encontrar a saída na crise atual.  

07 de Agosto - Terça-feira - 13:26

O antissemitismo voltou a ser uma pauta importante na Europa. Especialmente na Grã-Bretanha, é um ponto de discussão nevrálgico num ambiente politicamente tenso. Desde que assumiu a liderança do Partido Trabalhista, em 2015, Jeremy Corbyn é seguidamente acusado de manifestações públicas de antissemitismo. Para ele, neste momento, este assunto é seu calcanhar de Aquiles, na medida em que pode muito em breve vir a formar o novo governo britânico.

Corbyn é esquivo na forma de responder, preferindo insistir no argumento muito vago de que se trata de uma “questão de política externa”. Não é. Os judeus na Grã-Bretanha não pensam desta maneira e se sentem seguidamente discriminados pelo líder trabalhista. A situação é tão grave que no ano passado o Partido Trabalhista conduziu investigação interna e concluiu que em suas fileiras há “bolsões de ignorância” em relação aos judeus e chegou a expulsar, em função de manifestações antissemitas, membros do partido.

O jornalista Anshel Pfeffer do israelense Haaretz escreveu um longo artigo a respeito de Corbyn e mencionou alguns dos itens em seu histórico: em 2010, organizou um evento no parlamento exatamente no Dia Internacional de Lembrança do Holocausto cujo título tinha o propósito de tornar equivalentes as ações nazistas contra os judeus na Segunda Guerra Mundial à forma de atuação israelense em relação aos palestinos em Gaza. Como lembra Pfeffer, no ano seguinte patrocinou moção parlamentar propondo que o Dia de Lembrança do Holocausto excluísse o termo Holocausto.

Em suas relações internacionais, lembra Pfeffer, mantém proximidade com a milícia xiita libanesa Hezbollah, com o grupo terrorista palestino Hamas e o regime iraniano (para quem trabalhou como comentarista na TV estatal) e prefere se manter distante de críticas às ações de Putin ou do ditador sírio Bashar al-Assad na guerra civil local que já vitimou meio milhão de pessoas.

Corbyn resume em si mesmo um enorme desafio das esquerdas em todo o mundo, que encontram parte de seus membros reproduzindo um olhar simplificado onde tudo é misturado, mas ao mesmo tempo reduzido a um único argumento balizador: a luta dos “opressores” contra os “oprimidos”, da ideia de “resistência” ao “imperialismo”, dos “pobres” contra os “ricos”.

Esta noção superficial da realidade relegou aos judeus o papel permanente do opressor. E, em sua sequência, estabeleceu relações de paralelismo. Ao judeu entre as nações, o Estado de Israel, o monopólio da vilania. Aos judeus de todo o mundo, o resgate de mitos antissemitas usados no passado pela esquerda e pela direita; os judeus financistas, banqueiros, apátridas – mas ao mesmo tempo exclusivamente fieis a Israel –, os que não merecem qualquer solidariedade (a exceção cabe aos judeus que se colocam ao lado nas condenações unilaterais a Israel). É curioso notar que parece ser unicamente neste ponto – o antissemitismo – que a extrema-esquerda e a extrema-direita estão alinhadas. Ambos os grupos repetem exatamente os mesmos mantras.

Vale citar a exceção na forma de atuação da extrema-esquerda; a solidariedade aos judeus existe apenas e tão somente quando as acusações antissemitas partem da extrema-direita, dos nazistas; este é o momento único quando a extrema-esquerda se manifesta sobre o assunto, na medida em que o nazismo é seu contraponto político, ideológico e existencial mais óbvio.

“Jeremy Corbyn é a única liderança radical de extrema-esquerda e socialista à beira de chegar ao poder no ocidente. Se o Partido Trabalhista sob sua liderança vencer a próxima eleição geral, sua ideologia vai se tornar imensamente influente na Europa e nos EUA”, escreve Pfeffer.

Neste aspecto, o líder trabalhista representa um momento de grande polarização internacional. Da mesma maneira que Trump se tornou um símbolo da direita internacional e da ideologia sob a qual já escrevi por aqui, o chamado Producerism, Corbyn tem potencial de se transformar num contraponto ao presidente americano, mas, curiosamente, estruturando-se conceitualmente sob bases similares.

Para Trump e para os adeptos do Producerism – que chamei por aqui de Produtivismo – existe uma divisão clara da sociedade; os que produzem e trabalham e os que se aproveitam deste valor para viver às custas da obra alheia e, claro, do Estado. Para o Produtivismo, este extrato da população é formado em grande parte pelos imigrantes. Para os seguidores de Corbyn, a visão é mais antiga – porque já foi repetida muitas vezes: a solidariedade permanente e inequívoca aos não-alinhados, não importando, portanto, qualquer opressão que os oprimidos desses regimes sofram ou venham a sofrer; basta ser parte do clube para não ser criticado. Os judeus, segundo esta visão superficial, já ocupam o seu posto. Hamas, Hezbollah, Irã, Bashar al-Assad são incriticáveis porque, também por esta mesma interpretação, “lutam contra o imperialismo”.

Esta divisão simplória da realidade não concebe solidariedade aos opositores desses grupos e regimes ou condenação às perseguições que esses regimes realizam a grupos minoritários, à inexistência de oposição livre. Esta corrente de pensamento se alinha ao antissemitismo porque parte de seus aliados internacionais é abertamente antissemita, repetindo os mesmos slogans usados pela extrema-direita e também pela extrema-esquerda ao longo dos séculos. Os judeus, portanto, são considerados “inimigos de classe”, “conspiradores internacionais”, “financistas apátridas”. E todo o pensamento e atuação são construídos a partir deste raciocínio.

Tudo isso está em jogo na Grã-Bretanha. E Jeremy Corbyn não consegue responder ou se posicionar de forma convincente a respeito. É possível que, mesmo assim, ele seja em algum momento o primeiro-ministro britânico.

13 de Julho - Sexta-feira - 12:21

Em complementação ao último texto, considero importante estabelecer alguns parâmetros e análises sobre o chamado “acordo final” ou “acordo do século” prometido pela administração Trump. Não se trata de um processo banal, mas, pelo contrário, um ponto que pode marcar a ruptura da tradicional abordagem americana sobre o Oriente Médio de forma ampla e sobre o conflito israelense-palestino de maneira particular.

É evidente que há uma rota pensada pela Casa Branca para apresentar o plano ou mesmo sentir a temperatura do ambiente. Esta rota inclui viagens dos enviados Jared Kushner e Jason Greenblatt para além dos atores regionais diretamente interessados – israelenses e palestinos.

Nos Acordos de Oslo – considerado métrica principal deste esforço americano atual –, nomeavam-se os passos rumo à construção de confiança entre as partes e medidas preliminares como “road map”, mapa do caminho – expressão comum não apenas a esta circunstância das relações internacionais, importante dizer.

O mapa do caminho atual envolve o percurso que Kushner e Greenblatt têm realizado pelas principais capitais dos aliados árabes sunitas no Oriente Médio e também pelo Catar – faço esta observação sobre o Catar porque este ator passou a manter relações complicadas e antagônicas com as demais monarquias da região, aproximando-se do Irã, além de aliança tradicional com o Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza.

É justamente de um cidadão do país, Muhammad Amadi, enviado especial do Catar a Gaza, a informação de que Israel e o Hamas estariam em contato indireto sobre a situação de colapso no território costeiro palestino. De acordo com Amadi, em entrevista à agência chinesa Xinhua, os Estados Unidos teriam conhecimento sobre esses contatos, o que reforçaria ainda mais os argumentos que expus em meu texto anterior.

Ou seja, seguindo o raciocínio deste texto atual e do anterior, se confirmados, os elementos que sustentam esta nova lógica americana e seu “acordo do século” ou “acordo final” estão todos expostos.

Washington procuraria, portanto, viabilizar alguma forma de negociação e posterior acomodação entre israelenses e palestinos costurando um entendimento entre Hamas, Israel e as monarquias sunitas do Golfo Pérsico apesar da franca oposição da Autoridade Palestina (AP).

A ideia quanto à possibilidade de se chegar a alguma forma de entendimento – mesmo provisoriamente – de “fora para dentro” é até bastante coerente com o modelo de atuação do atual governo americano. Esta lógica estabelece que, diante de um obstáculo (papel por ora exercido pela AP), o sucesso pode e deve ser encontrado a partir de uma eventual substituição ou superposição.

Na prática, esta é uma decisão que parece ter sido tomada pela indisponibilidade da AP em negociar com os americanos ao questionar repetidamente a legitimidade do governo Trump na mediação deste conflito. O impasse entre AP e EUA foi encarado por ambas as partes como uma espécie de “ida” ao mercado internacional de alianças. Como se poderia imaginar, os palestinos e seu presidente Mahmoud Abbas tiveram por enquanto menos sucesso que os membros do governo Trump.

A medição de forças levou os EUA a fazerem uso com ainda mais intensidade da histórica proximidade com as monarquias sunitas do Golfo – aparentemente cada vez menos interessadas no conflito entre israelenses e palestinos em função da ameaça representada pelo Irã para a sobrevivência de seus próprios regimes.

Esta é a dinâmica atual e é neste ambiente que o “acordo do século” parece estar em construção.

 

Informação aos leitores: o site vai dar uma parada em julho. Entro de férias e retorno às análises por aqui na segunda semana de agosto.