Recuperar Senha
Fechar
Entrar
Carta & Crônica
Henry Galsky
15 de Novembro - Quinta-feira - 10:18

A sensação de instabilidade política nunca foi tão explícita ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A crise dos mísseis em Gaza – o maior confronto direto contra o Hamas desde a guerra de 2014 – deixou o líder do país no centro das críticas. E elas vêm de toda a parte. Ao pedir demissão do cargo de ministro da Defesa, Avigdor Lieberman deu forma ao momento de fragilidade que o longevo primeiro-ministro enfrenta. Esta é a pior crise do governo.

A percepção de que o Hamas detém o controle sobre quando confrontos devem ser iniciados e interrompidos representa a antítese da ideia que a coalizão liderada por Netanyahu sempre buscou representar ao público doméstico. Os três dias de lançamentos de mísseis pelo Hamas e contra-ataques de Israel carregam a possibilidade de se transformar num ponto de inflexão do mandato atual. A ponto de ser celebrado pelas lideranças dos grupos palestinos pelas ruas de Gaza. A comemoração – que teve direito a “marcha da vitória” pelo território costeiro – foi ainda mais encorpada a partir da crise que o comunicado de demissão de Lieberman instalou de vez em Israel.

A Jihad Islâmica, que realiza operações terroristas em parceria com o Hamas (grupo que efetivamente controla Gaza desde 2007), diz ter conseguido “despedaçar a política israelense ao mesmo tempo em que deteve (Israel) pelas vias militares”. O Hamas seguiu pelo mesmo caminho, declarando ter “semeado confusão nas considerações políticas (em Israel)”.

Ao anunciar que abandonaria o cargo, levando consigo os cinco assentos que o Israel Beiteinu (seu partido) detém no Knesset, Lieberman disse claramente que o cessar-fogo aprovado pelo gabinete de segurança do país representava capitulação diante do Hamas. Depois da atitude, a saída oficial do partido da coalizão governamental deixa Netanyahu em maioria parlamentar – e, portanto, na liderança executiva do país – pela margem mínima de apenas um membro no Knesset (61 deputados compõem a maioria num universo de 120 cadeiras).

Mesmo já bastante intensa, a lista de problemas diante de Netanyahu não se limita ao que escrevi acima. Ainda no governo, apesar da declaração de que todos os membros do gabinete de segurança foram favoráveis ao cessar-fogo (a reunião que apresentou esta decisão teve seis horas de duração), agora que a crise está oficialmente instalada há desmentidos também em relação a este ponto. Quatro ministros foram a público para declarar que se opuseram ao acordo: além de Lieberman, Zeev Elkin, ministro de Assuntos de Jerusalém e Proteção Ambiental (membro do Likud, o partido de Netanyahu), Naftali Bennet, ministro da Educação (partido A Casa Judaica), e Ayelet Shaked, ministra da Justiça (também do partido A Casa Judaica).

A situação envolvendo o ministro Naftali Bennet merece um aparte. Desde a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, Bennet é figura em franca ascensão na política israelense. Com vitórias expressivas nas urnas, credenciou-se a protagonista do cenário doméstico, passando a compor a restrita lista de favoritos à sucessão do próprio Benjamin Netanyahu. A crise atual pode representar um salto ainda mais importante em sua trajetória de sucesso. Na sequência do pedido de demissão de Lieberman, o partido A Casa Judaica exige que, de forma a continuar no governo, Netanyahu entregue a Bennet a pasta de Segurança que ficou vaga.

A ideia inicial do primeiro-ministro era acumular mais este ministério (ele já tem sob sua responsabilidade o executivo e as Relações Exteriores), mas a forte pressão exercida por Bennet e seus apoiadores coloca Netanyahu diante de escolhas importantes: dobra a aposta (e precisará convocar eleições, na medida em que pode deixar de ter a maioria de parlamentares em sua coalizão) ou cede e entrega poder e visibilidade a um de seus mais poderosos concorrentes?

Hoje, a situação do governo é de maioria mínima. Benjamin Netanyahu é sustentado por uma coalizão de cinco partidos. Dentre eles, A Casa Judaica, de Bennet, com oito assentos no Knesset. Se o partido passar para a oposição, o governo perde a maioria.

Tudo isso está em jogo. Tudo isso causado pelos ataques lançados por Hamas e Jihad Islâmica.  

13 de Novembro - Terça-feira - 10:00

O dia 12 de novembro entra para os registros do conflito entre Israel e os palestinos. Nesta segunda-feira, entre 16h30 e 22h (hora local), as facções palestinas, especialmente Hamas e Jihad Islâmica, lançaram a maior quantidade de mísseis sobre o território israelense em apenas seis horas e meia. O recorde é resultado da onda mais recente de enfrentamentos entre as partes.

A sequência de acontecimentos mostrava a possibilidade de um caminho oposto, pelo menos temporariamente. Israelenses e palestinos do Hamas sinalizavam a partir de negociações indiretas – mediadas por ONU e Egito – que poderiam alcançar um acordo de cessar-fogo de maior duração. O governo Netanyahu chegou inclusive a liberar a entrada em Gaza de malas com 15 milhões de dólares enviados pelo Qatar que possibilitariam o pagamento de salários a servidores civis do Hamas.

Tudo ruiu rapidamente. No domingo, o evento ainda não esclarecido em que agentes israelenses disfarçados com vestimenta feminina se engajaram militarmente com o Hamas no interior de Gaza, resultando na morte de sete membros armados do grupo e de um oficial israelense.

A interpretação do ocorrido, ainda que não explícita, é que se tratava de uma operação de coleta de informações. Mas que não teve sucesso e acabou descoberta durante sua execução.

Com o primeiro-ministro fora do país e o acordo informal já encaminhado, é improvável imaginar que o objetivo fosse o assassinato de lideranças do grupo terrorista que controla Gaza.

No entanto, a sequência de acontecimentos surpreendeu pela intensidade. Além da grande quantidade de mísseis sobre o sul de Israel, um ônibus foi alvejado por um míssil antitanque.

O contra-ataque israelense envolveu aviões de combate. Já à noite, Jerusalém determinou o envio de tanques para a fronteira com Gaza, sinalizando o aprofundamento da crise.

Ao mesmo tempo, as facções palestinas – especialmente Hamas e Jihad Islâmica – anunciam a possibilidade de aumentar o escopo dos ataques, prometendo colocar sob a mira dos mísseis “um milhão de sionistas”, segundo o porta-voz do Hamas, Abu Obeida.

Neste momento, a declaração é para ser levada a sério, considerando-se a surpreendente decisão dos grupos palestinos de aumentar a temperatura. É uma aposta arriscada, levando-se em conta a capacidade militar de Israel e os resultados dos três enfrentamentos já ocorridos entre as partes ao longo do século 21.

Vale lembrar o contexto deste ano. A situação se deteriorou e esteve próxima de guerra aberta por diversas vezes, especialmente depois que o Hamas passou a patrocinar as manifestações na fronteira entre Gaza e Israel.

O novo formato de confronto com os israelenses passou a ser chamado pelo grupo de Grande Marcha do Retorno, evento semanal cujo propósito era levar milhares de pessoas à fronteira e incentivá-las a cruzar a cerca que separa os dois territórios.

A iniciativa alcançou seu ápice em 14 de maio, quando 52 palestinos – a maior parte deles membros dos grupos armados locais, segundo informações divulgadas pelo próprio Hamas – foram mortos em confronto com forças militares israelenses no mesmo dia em que autoridades internacionais celebravam a inauguração da embaixada americana em Jerusalém.

Como escrevi acima, a situação atual pode ser um revés ao Hamas, uma aposta. Ao contrário de Benjamin Netanyahu – que parece interessado em alguma forma de acomodação com o grupo palestino que controla Gaza –, há membros do governo israelense que defendem abertamente que há apenas um meio de encerrar a crise: o assassinato das lideranças do Hamas.

Essa é exatamente a posição de Gilad Erdan, ministro da Defesa Pública. Se a ideia da cúpula decisória do grupo palestino for blefar aumentando cada vez mais as chances de uma nova guerra franca (que já esteve próxima de ocorrer em diversas ocasiões ao longo de 2018), estará assumindo o risco de fortalecer as correntes do governo de Israel menos interessadas em chegar a qualquer entendimento mínimo. E este pode ser um caminho sem volta.

06 de Novembro - Terça-feira - 13:16

No dia 12 de dezembro de 2017, escrevi um texto por aqui (“Trump, Jerusalém e o Juízo Final”) de forma a explicar parte das razões que motivaram o presidente americano a anunciar a transferência da embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Agora, com a grande repercussão das declarações do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, demonstrando a intenção de seguir o mesmo caminho, acho válido iniciar esta reflexão a partir da mesma lógica que naquele momento apliquei a Donald Trump:

“o ‘presente’ da declaração sobre Jerusalém tem muito menos a ver com os judeus do que com a militância doméstica de Trump: os cristãos evangélicos.

Para parte significativa da comunidade evangélica americana, há uma interpretação sobre o Apocalipse, que também é chamado de 'O Livro da Revelação'. De acordo com esta teoria muito popular entre os cristãos evangélicos americanos e suas lideranças, é fundamental que os judeus procedam com a reconstrução do Grande Templo judaico de Jerusalém, na medida em que este projeto causaria um conflito internacional de grandes proporções - esta guerra poderia, portanto, abrir o caminho ao fim dos dias, ao Juízo Final previsto pelo Apocalipse e ao retorno de Jesus.

Como menciona a jornalista do israelense Haaretz Alisson Kaplan Sommer, Trump obteve percentual de 81% de votos entre eleitores evangélicos, índice superior inclusive ao recebido pelo ex-presidente George W. Bush. Para parte significativa deste eleitorado, Trump é o instrumento político que está conseguindo viabilizar os planos divinos. Portanto, é improvável imaginar algum tipo de estratégia de política externa mais elaborada neste momento”.

Trump e Jair Bolsonaro apresentam semelhanças. Aliás, o eleitorado brasileiro e norte-americano parece cada vez mais semelhante. É impossível dissociar a vitória nas urnas de Bolsonaro – e Trump, como já mencionei acima – do poder do eleitorado cristão evangélico. O perfil desta corrente do cristianismo no Brasil e nos EUA se aproxima cada vez mais, no caso brasileiro justamente em função de mudanças profundas das características sociais e religiosas por aqui.

De acordo com o IBGE, os cristãos compõem a maior parcela da população brasileira: 86,8%. O Brasil continua a ser o maior país católico do mundo, mas nos últimos 20 anos o percentual de perda católica foi de 22%.

Já os cristãos evangélicos seguem caminho oposto, representando o segmento religioso que mais cresce percentualmente. Em 1970, eram 5,2% dos brasileiros. De acordo com este censo do IBGE, em 2010 passaram a representar 22,2% das pessoas que se declaram pertencentes a algum grupo religioso.

É evidente que tal transformação do tecido da sociedade também apresenta impacto político. Aliás, o próprio presidente eleito Bolsonaro reflete esta mudança religiosa. Seus pais eram católicos, mas ele se converteu ao cristianismo evangélico. 

Para além das questões religiosas – que serão pelo visto fundamentais no governo Bolsonaro. O primeiro pronunciamento foi iniciado por uma oração –, há também a pública admiração do presidente eleito por Donald Trump, sinalizando a Washington antes mesmo da corrida eleitoral.

Bolsonaro também parece pretender seguir trajetória similar ao presidente americano. Como escrevo sempre por aqui, um dos balizadores das decisões políticas de Trump é eleger caminhos permanentemente opostos ao de seu antecessor, Barack Obama (por quem ainda nutre grande rivalidade).

Este modo de operação já foi demonstrado diversas vezes: se Obama seguia o multilateralismo, Trump rechaça a Otan; se Obama reforçava política mais preocupada com o meio ambiente, Trump abandona o Acordo do Clima assinado em Paris; se a maior obra internacional do governo Obama (ao lado da aproximação a Cuba) era o tratado sobre o programa nuclear iraniano, Trump abandona o acordo. Não faltam exemplos e eles certamente se multiplicarão até o final de seu governo.

Bolsonaro não tem um Obama. A rivalidade por aqui é ainda mais ampla. E aí concluo porque esses dados de certa maneira explicam a decisão do presidente eleito sobre a transferência da embaixada para Jerusalém. Segundo o Datafolha, 25% dos eleitores que declararam voto em Bolsonaro o fizeram por rejeição ao PT. Outros 13% o escolheram por concordar com seus valores pessoais e imagem, e aí estão incluídas as questões familiares e religiosas amplamente divulgadas durante a campanha.

Ou seja, o “Obama” de Bolsonaro são os 13 anos de Lula e Dilma na presidência da República. Se Lula e Dilma punham em prática política externa percebida como favorável aos países árabes e oposta aos EUA, o novo presidente brasileiro inclui a mudança nesta forma de atuação como mais um item em seu pacote de rejeições aos governos petistas. É o que ele chama de “política internacional sem viés ideológico”. Muito embora, claro, este novo caminho já esteja repleto de ideologia, como explico ao longo deste texto.

01 de Novembro - Quinta-feira - 13:32

É importante dizer em meio a este grande processo de análise sobre o fenômeno que fez ascender Jair Bolsonaro não apenas à presidência da República, mas também à posição de mais novo midas da vida política brasileira, que seu caso não é único. Não, sua rápida evolução de candidato desprezado pelo meio político tradicional aos 57 milhões de votos recebidos não é um ato isolado, mas o capítulo nacional do populismo que se espalha rapidamente por todo o mundo. É claro que há cores próprias, mas esta é uma onda avassaladora que não começa – nem certamente se encerra – por aqui.

Nos anos 1990 e início dos 2000, Europa e EUA se consolidaram como democracias liberais com instituições fortes e diversidade política. O caso europeu é emblemático, uma vez que as economias mais avançadas do continente deram o passo seguinte; depois do fim da Guerra Fria e com as duas guerras mundiais ainda mais distantes, a promessa de paz parecia ter sido cumprida. Os nacionalismos e movimentos de extrema-direita estavam relegados à marginalidade política. Os países se alinharam economicamente depois da constituição da União Europeia (UE) na criação da moeda única, o euro.

Dando um salto bem rápido, a forte crise do final da primeira década dos anos 2000 pôs em xeque a força desta narrativa. As ideias transformadas em prática de liberalismo econômico, abertura de fronteiras e certeza de pacificação passaram a ficar desgastadas. O movimento de extrema-direita assumiu a dianteira como caminho alternativo, englobando para si uma série de outras bandeiras. No todo, este novo discurso passou a ser conhecido como populismo. A extrema-direita desafiou o liberalismo fazendo uso dos próprios mecanismos políticos existentes, não apenas de modo subversivo.

O parlamento europeu passou a receber eurodeputados eleitos nas urnas graças a discursos eurocéticos. É contraditório, mas ajuda a entender o momento atual. Lembrem-se no cenário brasileiro do Movimento Brasil Livre (MBL), da queima de bandeiras de partidos tradicionais, e, agora, do estabelecimento da segunda maior bancada na Câmara dos Deputados pelo PSL, sigla agregadora de neopolíticos que manifestam publicamente a ojeriza aos políticos.

Aos poucos, as vitórias passaram a se suceder: Hungria, Polônia, República Tcheca, EUA, Itália, Áustria, Brasil. As pautas comuns a todos esses atores muito distintos têm em seu ápice de ação e ruptura o Brexit, a decisão obtida por meio de referendo popular que provocou a saída da Grã-Bretanha da UE.

E aí retomo o ponto de argumentação; todo este movimento é como puxar um fio de novelo; está sustentado pela premissa fundamental de que as democracias liberais não cumpriram com suas promessas. Desta maneira, o próprio conceito de democracia passou a ser contestado. E aí vem o restante do fio: a globalização é culpada, portanto é preciso fechar fronteiras, rejeitar imigrantes, reforçar os nacionalismos, questionar a própria ciência (o Acordo de Paris sobre o clima é uma “mentira” financiada pelos liberais para impedir o crescimento econômico), deixar a União Europeia (como o caso da Grã-Bretanha), reescrever a História.

Diante desta enorme gama de possibilidades e bandeiras, a extrema-direita deixou os esgotos do mundo e ascendeu a alguns dos principais palcos do planeta, elegendo heróis simbólicos (os presidentes Donald Trump e Vladimir Putin) e vilões culpados pelo multiculturalismo que ameaça as identidades nacionais (a chanceler alemã Angela Merkel e o investidor sempre associado às pautas de esquerda George Soros).

No Brasil, as adaptações já foram feitas. O revisionismo histórico se aplicou à flexibilização dos crimes cometidos durante a Ditadura Militar; a família passou a estar em permanente “ameaça” pelas reivindicações da comunidade LGBT; e, claro, o comunismo (?) está sempre à espreita. E, como o superministro Paulo Guedes já declarou publicamente, “o Mercosul não é prioridade”.

Adaptações feitas, esta é a versão brasileira de um movimento internacional que a cada nova eleição ganha mais força. É uma onda que se retroalimenta em todo o mundo. Por aqui, os próximos quatro anos apresentarão seus desdobramentos.

29 de Outubro - Segunda-feira - 13:08

Ainda se sabe muito pouco sobre o futuro governo de Jair Bolsonaro, mas está claro que o Brasil marcou na noite deste domingo o encerramento de um ciclo iniciado pela vitória eleitoral de Lula nas eleições do distante ano de 2002.

Entre erros e acertos, os governos petistas de Lula e Dilma tiveram como foco o olhar às populações permanentemente esquecidas pelas políticas públicas. Também houve a preocupação e o reforço das possibilidades de afirmação de identidades e reconhecimento pelo Estado dos segmentos representados pelas mais diversas minorias.

Entre outros aspectos igualmente importantes, este Brasil foi derrotado nas urnas. O projeto de inclusão a partir de olhar mais generoso do próprio Estado brasileiro sofreu um grande revés.

Este é um processo que não começou agora, como tenho escrito há muito tempo por aqui. A meu ver ele teve início nas manifestações de junho de 2013, passou pela contestação do resultado eleitoral de 2014, tornou-se cada vez mais viável por meio do impeachment e do fortalecimento do Movimento Brasil Livre (MBL) em 2016 e se cristalizou na noite deste domingo.

Para deixar claro, toda esta análise não isenta o PT – e de forma mais ampla o campo mais à esquerda do espectro político – de seus erros. Houve equívocos no modo de fazer política e na forma de análise de demandas da sociedade. Por exemplo, o campo mais progressista deixou em branco a pauta da segurança pública, um dos itens mais relevantes a explicar o nascimento da candidatura de Bolsonaro e sua posterior vitória nas urnas.

Com resultados eleitorais consolidados, é preciso que o novo governo apresente propostas claras. Se estiver realmente comprometido com a pacificação do país, Bolsonaro deverá atuar de maneira firme em relação a seus apoiadores. O discurso do presidente eleito necessita de revisão para que atue de acordo com o cargo que passa a ocupar, não como representante de parcela da população que se sente livre para vociferar frases como “vamos metralhar a petralhada”. Um democrata real não bota fogo num barril de pólvora, não exige a prisão de seu adversário nas urnas, nem ameaça os opositores com exílio.

Este é um ponto importante. Os acontecimentos das duas últimas semanas nos EUA servem como alerta ao Brasil. Um presidente que incita seus apoiadores contra a imprensa e a oposição pode aprofundar a divisão do país, não pacificá-lo. Ou seja, se a ideia for amenizar a polarização em nome de um projeto nacional, Bolsonaro deverá organizar e comunicar de forma clara suas propostas e ao mesmo tempo impedir que seus apoiadores iniciem um processo de revanchismo.

Se Bolsonaro não se manifestar claramente, o país pode assistir a cada vez mais atos de violência, especialmente contra as minorias sobre as quais o presidente eleito já se manifestou de forma negativa ou pejorativa muitas vezes no passado.

Durante as comemorações pela vitória, algumas questões me chamaram a atenção: as palavras de ordem contra o PT e o primeiro pronunciamento do presidente eleito: é normal que a militância se ressinta em relação ao partido rival (especialmente porque o processo eleitoral se transformou numa espécie de plebiscito sobre a legenda fundada por Lula), mas cabe ao presidente eleito apaziguar o ambiente.

É preciso aguardar os acontecimentos e torcer para que Bolsonaro seja mais enfático quanto à universalidade do cargo que virá a ocupar (ele será o presidente mesmo daqueles que não votaram nele); o primeiro pronunciamento oficial se iniciou com um culto religioso. Isso soa bastante contraditório a alguém que repete sempre que possível estar a serviço da Constituição (que estabelece a laicidade do Estado).

Entre toda esta confusão, está muito claro que o país viverá um novo ciclo a partir de 1 de janeiro de 2019. Bolsonaro é repleto de contradições, mas agora precisará mostrar que as vestes do cargo serão capazes de transformar seu modo de atuação. Se não pode apagar tudo o que disse no passado, vai precisar mostrar ser capaz de responder a todas as muitas questões e desafios que se apresentam desde já. A ideia de pacificação nacional passa por tudo isso.

25 de Outubro - Quinta-feira - 11:15

O episódio envolvendo o assassinato do jornalista saudita pelo próprio governo dentro do consulado em Istambul é apenas a ponta do iceberg de um regime autoritário que tem extensa lista de abusos contra opositores e repressão a mulheres e minorias. Mas não apenas isso; também exemplifica a incoerência nas relações internacionais e na forma como a comunidade de países exerce pressões desequilibradas quanto se trata de direitos humanos.

Desde março de 2015, a Arábia Saudita lidera uma coalizão de forças sunitas em guerra contra os rebeldes houthis – xiitas apoiados pelo Irã no Iêmen. Este conflito já matou mais de dez mil civis, deixou mais de 50 mil feridos, causou fome em larga escala e provocou, entre outras doenças, a maior epidemia de cólera mundial.

Em setembro do ano passado, 60 ativistas políticos foram detidos pelo país. Críticos ao regime estão presos. Mulheres e membros de minorias são discriminados. Em 2017, 146 pessoas foram executadas legalmente, 59 delas por crimes não-violentos relacionados a drogas. E a comunidade internacional parecia não dar nenhuma importância a esses dados até Jamal Khashoggi ser assassinado.

Comentei sobre o desequilíbrio nas relações internacionais e na condenação internacional (ou falta dela, no caso da Arábia Saudita). Mesmo com todas essas informações, o país ocupa assento no Conselho de Direitos Humanos da ONU até 2019.

Hoje, o Conselho tem 47 membros, entre eles países com histórico muito pobre ou absolutamente inexistente de respeito e adequação mínima ao que se entende como direitos humanos. Alguns dos que têm assento na organização, além da própria Arábia Saudita: China, Congo, Iraque, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Egito, Emirados Árabes Unidos, Venezuela, entre outros.

O órgão tem agenda política controversa e, em função disso, se omite no cumprimento de suas obrigações mais básicas. A distorção na forma de interpretar a realidade é tamanha que até o início deste ano, apesar de todos os números, a Arábia Saudita não havia recebido qualquer resolução condenatória. Nem a China, por exemplo. A Coreia do Norte recebeu apenas nove condenações. O Irã, seis. A Síria – cujo regime fez uso de armamento químico contra a própria população em pelo menos três ocasiões – recebeu 20 condenações.

No entanto, Israel recebeu 68 resoluções do Conselho de Direitos Humanos.

Sempre escrevo por aqui que a busca por coerência na política e nas relações internacionais é a receita para a decepção. O exemplo envolvendo o desequilíbrio do Conselho de Direitos Humanos da ONU e a situação na Arábia Saudita é um dos exemplos mais representativos deste sistema distorcido.

18 de Outubro - Quinta-feira - 10:44

Na medida em que o desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi no interior do consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, vai se desenhando mais claramente como um ato de governo, o caso pode trazer muito mais problemas ao reino do que a condenação internacional – algo raro, por sinal. A aliança que os sauditas mantêm com os EUA pode estar ameaçada ou, ao menos, pode passar por um momento de grande pressão exercida também pelos próprios americanos.

Um grupo de senadores democratas e republicanos enviou conjuntamente a Donald Trump uma carta invocando a Lei Magnitsky que exige ao presidente tomar uma decisão no prazo de 120 dias sobre o caso. A situação coloca a Casa Branca em possível xeque, uma vez que os EUA podem se ver na condição de iniciar um processo de investigação sobre a morte do jornalista. Se a Arábia Saudita for considerada culpada, os americanos deverão impor sanções justamente sobre o principal aliado do país entre as nações árabes.

Vale dizer que a relação de proximidade entre EUA e Arábia Saudita tem sido estrategicamente reforçada durante o governo Trump. Foi ao país árabe que o presidente americano fez sua primeira viagem internacional oficial. Jared Kushner, assessor, genro e homem de confiança do presidente para assuntos relacionados ao Oriente Médio, rapidamente estabeleceu amizade com o jovem príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman (mais conhecido como MBS).

Os interesses de Washington no reino vão muito além de superficialidades. Em sua linha-mestra de atuação internacional (seguir caminho contrário ao do antecessor Barack Obama), Trump procurou reforçar a aliança com os sunitas no Oriente Médio de forma a isolar o Irã. No entanto, por enquanto os efeitos desta política parecem improdutivos.

A ideia de transformar o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês) num bloco de contenção à atuação do Irã por ora teve como resultado prático a aproximação do Catar à administração em Teerã.

Por muito pouco – apenas quatro votos – o Congresso americano esteve perto de suspender a venda e assistência militar aos sauditas em decorrência das mortes de civis iemenitas na guerra que o país árabe trava contra a milícia xiita houthi (grupo armado e apoiado pelo Irã).

O projeto de calar um jornalista de oposição que vivia nos EUA pode ter muitos impactos ao país. Em entrevista ao programa 60 Minutes, Donald Trump prometeu punir severamente o reino saudita se ficar comprovado que a morte de Jamal Khashoggi foi um ato oficial de governo.  

É uma situação aparentemente de impasse e que pode ter grande repercussão na estratégia regional americana e na principal disputa em curso no Oriente Médio, a luta por influência, fontes de energia e predomínio militar entre sunitas e xiitas.

15 de Outubro - Segunda-feira - 13:08

Complementando o texto anterior, vale ainda analisar as fontes e acontecimentos que contribuíram decisivamente para a construção do momento atual. Por trás da decadência dos partidos e da política tradicional – cujos resultados no plano nacional, especialmente na Câmara, no Senado e na corrida presidencial mostram a própria incompetência na interpretação e na formulação de estratégias –, o nascimento de organizações e lideranças que carregam em sua formação genética o propósito de estabelecer, sem previsão de encerramento, um novo olhar sobre Brasil com foco conservador.

É importante dizer que o nascimento desta nova onda conservadora ocorreu a partir de dois fatos de extrema relevância na história recente do país (um deles articulado inclusive por parte da classe política tradicional que passou, ela mesma, a ser substituída pelos conservadores do momento que estão rapidamente tomando o lugar da classe política dominante).

O primeiro deste eixo fundamental se deu justamente em junho de 2013 durante as manifestações de junho analisadas extensamente por aqui. Dediquei boa parte do texto anterior a recordar o episódio envolvendo as manifestações, quando rapidamente as reivindicações do Movimento Passe Livre (MPL) deram lugar a pautas difusas, que no final se concentraram sobre a contestação aos políticos tradicionais.

E aí há dois acontecimentos que considero simbólicos e que sinalizavam para as possibilidades que agora surgem como reais: o aparecimento das primeiras faixas clamando por intervenção militar (que não necessariamente irá ocorrer, mas que contribuiu para a ascensão de um candidato diretamente relacionado ao passado histórico recente de ditadura militar) e os vários episódios ocorridos durante as manifestações de junho de 2013 quando bandeiras de partidos políticos foram queimadas.

Este é o pequeno histórico sobre 2013 no período pré-eleitoral durante a ebulição de sentimentos, vozes e demandas reunidas depois que, vale sempre lembrar, as manifestações organizadas pelo MPL foram apropriadas.

Já no período pós-eleitoral do ano seguinte, 2014, parte do setor político tradicional iniciou o processo de autodestruição depois que Aécio Neves contestou a lisura do sistema de contagem eletrônica dos votos que deu a vitória à Dilma Rousseff. O antipetismo se transformou numa bandeira clara levantada, desta vez, pelos partidos que naquele momento representavam a oposição.

O PSDB, legenda tradicional e a maior força de centro do país, iniciou o caminho que hoje encontrou o PSL, Jair Bolsonaro e o empoderamento do Movimento Brasil Livre (MBL). Aécio Neves criou a figura inédita do “terceiro turno” e, em 2015, aglutinou o partido a muitos setores da sociedade que patrocinaram o impeachment, inclusive outro grande partido derrotado neste ano de 2018, o PMDB.

No entanto, a aposta de PMDB e PSDB não levava em consideração as mudanças globais que agiriam com enorme poder nas eleições brasileiras de 2018; o antipetismo anabolizado nos últimos quatro anos pelas delações premiadas, o Judiciário, a Lava Jato, o impeachment e o fenômeno das fake news pôs em xeque não apenas o partido de Lula, mas o sistema político de maneira ampla. Nas urnas, o poder que o PT ocupou desde 2003 não foi transferido de volta ao PSDB. O “acordo” sonhado por Romero Jucá foi rejeitado.

Nem PT, nem PSDB, nem PMDB (nem Romero Jucá, inclusive). As urnas transferiram o poder dos políticos tradicionais para aqueles que, em 2013 e 2015 (aí já durante as manifestações que de forma explícita rejeitavam os partidos e também apoiavam em boa parte o retorno ao regime militar) foram os civis articuladores do processo de guinada do Brasil; foram paridos à relevância política aqueles mais identificados com o MBL e a onda conservadora que flerta com o poder coercitivo: Kim Kataguiri, um dos fundadores do próprio MBL, Janaína Paschoal, autora do pedido do impeachment de Dilma e agora a deputada estadual mais votada da história, e Jair Bolsonaro, político tradicional, mas considerado como alguém de fora devido a suas declarações e posicionamentos nada políticos.

Em comum a todos esses nomes, a contestação do status-quo político, a grande oposição ao PT e o conservadorismo extremo representado, entre outros aspectos, pela rejeição às conquistas obtidas pelas minorias nos últimos 15 anos. O PSL, que a partir de janeiro será a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, é um símbolo deste raciocínio, um partido que existe apenas porque o processo eleitoral demanda a candidatura por um partido. No entanto, é uma legenda que reúne conservadores que representam a antítese ideológica das legendas tradicionais. Para nomes como Janaína Paschoal, Jair Bolsonaro e Alexandre Frota, o PSL é apenas um meio obrigatório. Não uma bandeira.

E tudo isso recebeu enorme aceitação do eleitorado. A onda conservadora vencedora é uma grande contestação não apenas ao petismo, mas a direitos obtidos ao longo deste século. As liberdades individuais, as cotas nas universidades, o bolsa família, a Comissão da Verdade, a igualdade de gênero são elementos rejeitados por parte do eleitorado que provocou esta grande mudança no cenário político. O slogan de Jair Bolsonaro – “O meu partido é o Brasil” – resume bem essa história recente de questionamentos e rejeições.  

09 de Outubro - Terça-feira - 09:31

A onda de Bolsonaro e de seus associados que saiu vencedora das urnas encontra em sua origem as distantes manifestações de junho de 2013, quando, inicialmente, a população foi às ruas para protestar contra o aumento das passagens de ônibus. Naqueles dias, pouco depois de o Movimento Passe Livre (MPL) entender que a reivindicação primária havia sido tomada, começou a ser pavimentado o caminho que hoje resultou em Jair Bolsonaro.

Junho de 2013 iniciou a transformação. A ojeriza dos brasileiros pela política, pelos políticos e pelos partidos ficou expressa com clareza objetiva. Havia a expectativa de que as manifestações resultassem em mudanças no jogo logo nas eleições do ano seguinte. Houve um represamento desta latência, mas ela começaria a transformar a política tradicional durante o mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Transcrevo abaixo uma parte de um texto que publiquei por aqui em maio de 2016, três meses antes da concretização do impeachment de Dilma:

“Em 2015, a Operação Lava Jato tomou mais corpo, e os brasileiros foram às ruas em manifestações que, ao contrário daquelas de 2013 (em seu período inicial), exigiam o fim da corrupção. A pauta passou a ficar concentrada no governo Dilma, em Lula e no PT (as manifestações amarelas julgaram que essas três entidades eram as culpadas pela corrupção no Brasil). 

Naquele momento, nascia um novo herói nacional, o juiz Sérgio Moro.

Em comum à segunda parte das manifestações de 2013, novamente a rejeição à política. Tanto que Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram hostilizados na grande manifestação na Avenida Paulista realizada em março deste ano”. 

É impossível analisar o resultado atual ignorando esses eventos pregressos. Em comum também a 2013, 2015 e 2016 o surgimento do saudosismo militar. Foi com certo olhar caricatural que parte da sociedade interpretou os primeiros cartazes aludindo ao fascínio pela ditadura.

Primeiro, eram poucos manifestantes trajados com vestes militares e ostentado placas clamando por intervenção. Agora, cinco anos depois, o provável futuro presidente é o representante de setores abertamente favoráveis ao revisionismo histórico. Além de questionar a tortura, Bolsonaro promete – e deve cumprir – a opção de nomear militares e ex-militares em cargos importantes da futura administração.

Assim como ocorreu na corrida eleitoral americana que levou Donald Trump à Casa Branca, muita gente tomou como piada as declarações de Bolsonaro. Hoje, ele está a duas semanas de se tornar presidente e mostrou enorme força política: muitos dos vencedores pelo país se associaram a ele.

O Partido Social Liberal (PSL) foi uma legenda irrelevante durante 20 anos de existência. Agora, com Bolsonaro encabeçando a chapa presidencial, elegeu 52 deputados e quatro senadores.

O revisionismo histórico não é um fenômeno apenas entre os políticos, mas presente na sociedade brasileira (e que explica, parcialmente, o sucesso de tantos militares nas urnas em 2018). Em setembro de 2018, o Instituto Paraná Pesquisas realizou um levantamento em todo o país sobre o regime militar no Brasil.

Quando questionados sobre eventual intervenção militar provisória, 43,1% dos entrevistados responderam favoravelmente, enquanto 51,6% foram contrários. Quando a pergunta mudou para “Caso a justiça não puna os corruptos, o senhor(a) seria a favor ou contra a volta dos militares ao comando do Brasil?”, 50,6% dos entrevistados se posicionaram favoravelmente.

É impossível analisar o fenômeno Bolsonaro sem levar em consideração a sucessão de importantes eventos sociais e políticos ocorridos no Brasil nesses últimos cinco anos. O presidenciável do PSL é o resultado direto do amplo processo de ruptura com a política tradicional no qual o país mergulhou desde 2013. 

05 de Outubro - Sexta-feira - 10:39

A campanha eleitoral de 1933, na Alemanha, foi realizada sob clima de tensão. O parlamento alemão, o Reichstag, foi incendiado pouco antes da votação, em 27 de fevereiro (foto). A população foi convocada para definir a nova composição política parlamentar no dia 5 de março.

O chanceler Adolf Hitler e as demais lideranças nazistas disseminavam o medo pelas ruas. A Alemanha, diziam, deveria estar preparada porque era iminente um golpe contra o país articulado por judeus e comunistas.

Os seguidores nazistas e as tropas SA (“Divisão de Assalto”), organização paramilitar vinculada ao Partido Nacional Socialista, intimidavam os opositores nas ruas.

Joseph Goebbels, que viria a se tornar o influente ministro da Propaganda nazista, passou a chamar o 5 de março de “O Dia da Nação que Desperta”. Hitler salvaria de uma vez por todas a Alemanha dos judeus e do comunismo.

Os nazistas receberam 43,9% dos votos e conseguiram, por meio de composição, estabilidade para governar. Hitler chegava ao poder democraticamente.

O Partido Social Democrata (SPD), cujos parlamentares receberam 18,3% dos votos, foi proibido. Os mandatos dos deputados do KPD, o partido comunista, foram cassados.

Depois da eleição de 5 de março de 1933, houve mais uma, em novembro do mesmo ano. Mas, desta vez, só havia um único partido a ser votado.