Educação

País patina entre os últimos em teste mundial de ensino

Quatro em cada dez adolescentes não sabe identificar ideia principal de um texto; diferença entre ricos e pobres é uma das maiores, e alunos estão mais tristes

Por Litza Mattos
Publicado em 04 de dezembro de 2019 | 06:00
 
 
 

A  nota dos estudantes brasileiros de 15 anos teve uma leve melhora na maior avaliação de educação básica do mundo, o Pisa, em 2018. No entanto, a evolução não foi suficiente para tirar o Brasil das últimas posições no ranking internacional de leitura, matemática e ciência. 

Além disso, o país permanece extremamente desigual na educação e com menor gasto por aluno, cerca de US$ 30 mil (R$ 126 mil) ao ano, atrás de países como Malásia, Uruguai e Chile. Tudo isso reflete no aprendizado: quatro em cada dez adolescentes não conseguem identificar a ideia principal de um texto, ler gráficos, resolver problemas com números inteiros ou entender um experimento científico simples. 

O levantamento foi divulgado ontem pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em Paris. Participaram da prova, realizada no ano passado, 600 mil estudantes em 79 países. O exame é feito desde 2000, de três em três anos, com países membros da OCDE e convidados, como é o caso do Brasil – nação com a maior diferença de desempenho entre estudantes ricos e pobres.

Alunos brasileiros também faltam mais à escola e perdem mais tempo de aula por indisciplina. Além disso, demonstram ter menos confiança em sua capacidade, cooperam menos que os outros e têm visto aumentar casos de bullying. 

O país tem ainda uma parcela maior de estudantes que se sentem “sempre tristes”. A fatia desses alunos brasileiros é consideravelmente mais que o dobro da média da OCDE: 13% do total, contra 6%, só menor que a de países como Brunei, Macau e Malásia.

Embora os resultados fossem ‘previsíveis’, a diretora de tecnologias educacionais do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Maria Amábile Mansutti, diz que analisa com apreensão os dados do Pisa. 
“O mais preocupante é que as médias nas três áreas estão bastante abaixo da média de outros países na América do Sul. Do ponto de vista do porcentual do PIB, o Brasil investe pouco mais de 4% em educação e, pelo Plano Nacional de Educação (Meta 20 da Lei Federal 13.005 de 26 de junho de 2014), deveria estar em 7% neste ano, e até 10% em 2024. Mas ainda estamos muito distantes”, diz.

Segundo Maria, o governo não tem se mobilizado. “Em dez anos não tivemos ações concretas para reverter os resultados do Pisa, e eles (resultados) pouco têm contribuído para mudar as condutas dos governos nas esferas federal, estadual e municipal no enfrentamento desses gargalos”, avalia. 

Minientrevista

“O país está estagnado em um patamar muito baixo”

Quais pontos chamaram mais a atenção neste Pisa?

O primeiro ponto que eu destaco é que a pontuação média do Brasil aumentou, porém, foi tão baixo que não é estatisticamente significante. Desde 2009, o nível de aprendizagem é praticamente o mesmo. O segundo ponto é que o país está estagnado em um patamar muito baixo de aprendizagem.

O Brasil é um dos países com menor gasto por aluno. Você acredita que o investimento é fundamental?

De fato, o investimento por aluno ao ano ainda é extremamente desigual. Nos últimos anos o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) conseguiu reduzir bastante as desigualdades, mas ele ainda é um mecanismo que pode ser melhorado. O investimento é um fator, mas a carreira do professor e tudo que deriva daí também é importante para explicar esses resultados, assim como outras políticas.

Qual perspectiva podemos ter?

Se olharmos dos anos 2000 até hoje, o Brasil avançou. Esse não é um cenário de terra arrasada. Outros países mostram que é possível avançar.

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