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Operação Hashtag

Líder muçulmano foi interrogado em Varginha e critica ação brasileira

'A polícia não tinha nada contra mim, mas vieram me questionar sobre o assunto. Essa operação é ridícula', diz sheik Omar Dorio

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Aparato. Forças integradas de segurança que trabalharão nas Olimpíadas se apresentam no DF
PUBLICADO EM 23/07/16 - 03h00

Além das 11 pessoas presas suspeitas de planejar ataques terroristas durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro no próximo mês, a Polícia Federal (PF) também cumpriu em Varginha, no Sul de Minas Gerais, um mandado de condução coercitiva (quando a pessoa é obrigada a ir prestar depoimento) relacionado à operação Hashtag, de combate ao terrorismo. O investigado seria um funcionário de uma fábrica do município, segundo o Sheik Omar Dorio, um dos fundadores da Associação Beneficente Islâmica de Varginha, que também disse ter sido abordado pelos órgãos de investigação.

“A polícia não tinha nada contra mim, mas vieram me questionar sobre o assunto. Essa operação é ridícula. Desrespeitam a pessoa por uma coisa que ela não fez”, disse Dorio.

Quanto ao suspeito conduzido coercitivamente anteontem, o sheik disse ser uma pessoa que ele conhece, pois se reverteu na mesquita da cidade (termo usado por muçulmanos para designar a conversão ao islã). Segundo ele, é um homem trabalhador e que depende do emprego na fábrica para sobreviver. Porém, Dorio preferiu não aprofundar nos detalhes sem a autorização do investigado. “Se a polícia for prender todo mundo que tem alguma pista de ser um suposto bandido, vamos prender 90%da população brasileira. Eles não podem prender porque estão curtindo as coisas no Facebook”, questiona.

Diante da investigação, o sheik afirmou que o varginhense frequentador da sua mesquita está recebendo o apoio da associação para evitar que ele perca o emprego.

“Esse tipo de caça às bruxas pode trazer um prejuízo grande não só pra ele, como para os outros muçulmanos e outras religiões. Os órgãos de polícia do governo estão causando pânico e medo sem necessidade”, diz Dorio.

Na cidade, há cerca de 60 muçulmanos, sendo que 35 participam mais ativamente das celebrações, segundo o sheik. “São todos moradores da cidade, que geram emprego, pagam seus impostos ao Estado. Se a polícia bate na porta de um, na verdade bate na porta de todas essas pessoas”.

Além do varginhense, uma organização não governamental (ONG) também estaria sendo investigada na cidade por suspeita de fazer palestras em favor do Estado Islâmico (EI). Nem a identidade do suspeito e nem a ONG tiveram os nomes divulgados pela Polícia Federal.

De lado

Órfãos. A retirada de agentes da Força Nacional de Segurança de missões em andamento no país tem deixado Estados ‘órfãos’ do apoio federal em meio a um cenário de acirramento da criminalidade.

Desabafo no Sul

A família do jovem de 26 anos preso na quinta-feira no Rio Grande do Sul por suspeita de terrorismo se diz assustada e com medo de possíveis represálias. É o que relata o pai dele, que prefere não se identificar.

A prisão ocorreu na localidade de Açoita Cavalo, no interior de Morro Redondo, em uma ação da Polícia Federal em dez estados.

“Ele é meu filho, nunca vai deixar de ser meu filho. Vai ser sempre. Se ele cometeu algo errado e for provado que ele cometeu, ele vai pagar. Agora, eu nunca desconfiei de nada, eu acredito na inocência dele”.

Minientrevista


Lenin Pires, antropólogo, professor do curso de Segurança Pública da UFF

Por Raquel Sodré

Como o senhor avalia a atuação dos nossos órgãos de defesa na operação Hashtag?

Por um lado, surpreende que as pessoas sejam presas por esse tipo de acusação (terrorismo). Por outro lado, o modus operandi não. As investigações em sigilo, a construção de evidências, a maneira inquisitorial de construção da verdade e as implicações disso nos direitos civis, isso tudo não surpreende. Considerando os Jogos Olímpicos e a escalada da violência por parte desses grupos extremistas, cuidados são bem vindos. Mas questiono se pode ser considerada uma boa prática preventiva a prisão de pessoas que não cometeram o crime que porventura viriam a cometer.

Quais consequências o senhor acha que essa ação pode ter?

Essa é uma ação absolutamente episódica, que está voltada para o clamor do momento para dar uma resposta prévia a interesses colocados nos Jogos Olímpicos. Mas esse tipo de prática pode significar uma agudização do caráter inquisitorial da nossa tradição político-jurídica. A polícia constrói verdades. Mas agora tem o fato de que essa narrativa está sendo construída com base em alguns elementos que apontam um crime futuro.

O que deveria ter sido feito?

Prender em flagrante.

Há registros de que um dos suspeitos teria comprado uma arma em uma loja virtual no Paraguai. Isso já não seria suficiente para a prisão?

Eles compraram mesmo essa arma? Ela vai chegar? Isso significa que eles teriam uma arma não registrada?

O que estaria por trás dessas prisões, então?

A polícia diz que já tem elementos suficientes para configurar que essas pessoas estão cometendo um crime com base na lei do terrorismo. Do ponto de vista político, será produzido o efeito esperado, de que o Brasil agiu preventivamente. O ministro Alexandre de Moraes não explica, por exemplo, como a Polícia Federal conseguiu os dados criptografados das conversas dos suspeitos no WhatsApp e no Telegram.

O ministro Moraes diz que a violência cotidiana do Rio de Janeiro é ameaça maior às Olimpíadas do que o terrorismo...

Isso só pode ser uma preocupação do nosso ministro da Justiça, que é um sujeito já conhecido por seu preconceito com relação à forma pelas quais os segmentos sociais se manifestam. Não vejo como a dinâmica de violência urbana no Rio possa ser uma ameaça às Olimpíadas.

Por que não?

Conhecendo o Rio e seu histórico de eventos, não vejo como as Olimpíadas podem ser mais problemáticas do que a Copa do Mundo (2014) ou do que e a Jornada da Juventude (2013).

Mas as Olimpíadas envolvem comitês de praticamente todos os países do mundo.

Aí não estamos falando de violência urbana. Estamos falando de problemas envolvendo grupos internacionais. Essa tese acaba desmentindo um pouco o Moraes. Parece que ele não sabe muito bem onde está e do que está falando. 

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