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Entrevista

‘O Brasil é extremamente perigoso para defensores dos direitos humanos’

A viúva de Marielle Franco conversou com O TEMPO na semana passada

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“Podemos olhar para o Estado e entender que ele nos mata mesmo quando não puxa o gatilho.”
PUBLICADO EM 11/02/19 - 03h00

Mônica Benício

Ativista social, arquiteta e viúva de Marielle Franco

Entre a dor da perda e a luta incansável por justiça, a viúva de Marielle Franco conversou com O TEMPO na semana passada. O crime, que chocou o mundo e ainda permanece no escuro, completa um ano no próximo mês.

Por que você acha que até hoje a polícia não conseguiu descobrir quem matou Marielle?

Essa é uma pergunta que devo ter cuidado para não responder de forma leviana. É óbvio que existe um inquérito que está sendo tocado, mas as autoridades não se reportam nem para nós, família, nem para a sociedade de forma clara a respeito do que, de fato, vem acontecendo nas investigações. Isso é uma coisa muito ruim em várias esferas. A maior delas é a insatisfação sobre o que tem que ser dado à sociedade a respeito da execução da Marielle. Foi um crime claramente político. Tudo indica que houve participação de agentes do Estado, de milícias e de figuras políticas muito poderosas, que julgam ter tanto poder que causa a certeza da impunidade.

Como você tem atuado para cobrar das autoridades um posicionamento?

Na verdade, há muitos movimentos, não estou sozinha. Alguns – por medida de segurança não só minha, mas do processo no qual eu recorro na Justiça para ter informações da investigação – não podem ser revelados. Mas há articulações envolvendo desde figuras públicas que têm algum tipo de envolvimento ou proximidade com o caso e também o processo de militância, que é o que mais demanda meu tempo.

O que diferencia a execução da Marielle de outros homicídios?

Precisamos muito entender que o caso da Marielle é diferente nesse momento. Não porque ela era uma pessoa fabulosa e especial – porque para mim, era –, mas, sobretudo, para entender que a conjuntura política do país é muito dramática. Marielle era uma parlamentar cumprindo um ano e três meses de mandato que deveria ter durado quatro anos. Não há democracia enquanto o Estado brasileiro não apontar quem a matou.

Você já sofreu ameaças?

Sim. A primeira – que eu levei mais em conta – aconteceu em maio do ano passado. Era tarde da noite quando um carro me seguiu na rua de casa e depois ficou parado por horas na frente do meu portão. Mas não vi ninguém e não disseram nada. As outras ameaças aconteciam e acontecem nas ruas, com xingamentos e discurso de ódio, além das redes sociais com mensagens e comentários.

Como tem sido seu dia a dia desde o crime?

Minha vida é muito confusa desde então. Vivo entrando e saindo de aviões, viajando pelo país e pelo mundo para promover a campanha #MarielleVive. Percorro milhares de quilômetros para não deixar que a memória dela e nem a gravidade desse crime sejam esquecidos. Além disso, no começo deste ano, aceitei um convite para estar na liderança do PSOL em Brasília com os deputados federais. É uma espécie de assessoria geral a todos eles. Estou com a pauta de mobilidade urbana e direito à cidade, que é minha especialidade enquanto arquiteta. Minha participação política sempre foi com a militância nas ruas e com movimentos sociais. Isso é uma novidade, encarei como uma oportunidade de tentar reconstruir alguma coisa.

Como o crime afetou seus projetos pessoais?

O único que sobreviveu é o mestrado que, infelizmente, andou muito pouco desde março. Mas a minha orientadora e a PUC Rio têm sido super solidárias e compreensivas, na medida do possível, a esse momento. Tenho tentado escrever a tese entre um voo e outro. Mas tive que abrir mão de todo o restante.

Como está a situação dos pais e da filha da Marielle?

Eu tenho pouco contato atualmente. A Luyara está empossada no gabinete da deputada carioca Renata Souza (PSOL) e, até onde sei, os pais dela estão seguindo em frente da maneira que conseguem. Cada um de nós perdeu uma Marielle diferente. Tem quem perdeu mãe, filha, irmã, mas todos tentando seguir do jeito que é possível.

Quais são seus sentimentos hoje?

É um misto de dor, revolta, saudade. Tenho um sentimento de justiça porque o caso não tem resolução, porque, para mim, não há justiça cabível nisso porque nada vai trazê-la de volta. Existe uma justiça social, que tem que ser cumprida até para que asseguremos que ainda existe alguma coisa de democracia nesse país. De resto, é imensurável, não dá para explicar essa ausência. Eu jamais imaginei sentir isso um dia. Só quem passa é que sabe.

A prisão de alguns chefes do Escritório do Crime pode, segundo a polícia, ajudar a elucidar o caso. Você acredita nisso?

É difícil comentar o que é especulação de mídia. Quando as autoridades se colocarem de forma clara a respeito do que é e do que deixa de ser, nós conseguimos nos posicionar melhor, inclusive para apoiar ou criticar. O problema é que as autoridades nunca vêm a público para dizer claramente do que se trata. Estamos sempre tentando entender o que está acontecendo, com receio de que esteja sendo conduzido para uma resposta só com intenção de finalizar o inquérito, que não a resposta correta.

Como é viver num Estado sitiado pelas milícias?

A milícia é o Estado. Ela não tem só o aparato do Estado, como o conduz porque temos milicianos no poder. Estamos falando dos grupos paramilitares mais poderosos e perigosos que existem no Brasil, que estão efetivamente dentro da política. Precisamos ter isso em mente para nos articularmos e desconstruirmos isso.

Como você avalia o momento que o país vive com ativistas, intelectuais e políticos sendo ameaçados e se autoexilando?

É o reflexo político do que vivemos. Eles têm toda a minha solidariedade e respeito. Temos responsabilidade sobre o Jean (Wyllys), porque foram quase dez anos denunciando as ameaças, e nada foi feito. Ele resistiu bravamente dentro daquele Congresso extremamente LGBTfóbico, lutando pelos interesses do povo até que chega ao extremo de precisar fazer o exílio para garantir a própria vida. Vale lembrar também que, ao olharmos para 2018, vemos que a única vereadora negra do Estado do Rio de Janeiro foi executada no mesmo ano que um candidato com discursos claramente fascistas, racistas, homofóbicos, machistas, misóginos, enfim, foi eleito pelo voto, por meio de um ato democrático. O Brasil é um país extremamente perigoso para os defensores dos direitos humanos.

Há alguns dias, a ativista Sabrina Bittencourt, que liderou as denúncias de abusos contra o médium João de Deus, se matou...

Podemos olhar para o Estado e entender que ele nos mata mesmo quando não puxa o gatilho. É uma série de violências que vão sendo associadas, colocadas sobre nossos corpos e nossas vidas. Não queremos perder os nossos como dramaticamente perdemos a Sabrina. Precisamos resistir para mostrar a todos que vamos viver e que vai ter luta.

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