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Entrevista

'Não existe no Brasil um projeto de desenvolvimento'

Há 42 anos na Usiminas, Sergio Leite comanda um dos maiores complexos siderúrgicos das Américas há dois anos

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Sergio Leite, diretor-presidente da Usiminas
Sergio Leite, diretor-presidente da Usiminas
PUBLICADO EM 09/08/18 - 03h00

Sergio Leite

Diretor-presidente da Usiminas

Há 42 anos na Usiminas, Sergio Leite comanda um dos maiores complexos siderúrgicos das Américas há dois anos. Sem meias-palavras, o executivo, que ocupará a presidência do conselho do Instituto Aço Brasil, diz que o país precisa de um choque de gestão, mas que nenhum candidato o apresentou até agora.

Diante dos desafios do mercado, como manter o elevado patamar da Usiminas?

Estamos com um trabalho em equipe focado nas pessoas, nos clientes e na busca permanente de resultados. Em 2016, operamos com média trimestral de Ebtida de R$ 300 milhões. No ano passado já subimos para um patamar de R$ 500 milhões por trimestre e neste ano estamos nos aproximando de um patamar em torno de R$ 600 milhões. 

A Usiminas reativou o alto-forno 1 em Ipatinga. Podemos ter novos investimentos?

Colocamos a planta de Ipatinga a plena carga. A Usiminas é o maior complexo de produção de laminados planos da América Latina, com capacidade de 10 milhões de toneladas e estamos operando num patamar entre 4 milhões e 4,5 milhões de toneladas. Então, nosso foco nos próximos anos tem que ser ocupar a capacidade instalada. 

Precisamos ter uma economia mais aquecida para que a capacidade instalada do setor siderúrgico em 68% chegue ao menos aos 80% para que se justifiquem novos investimentos da empresa?

Estamos vivendo no Brasil cinco anos de profunda crise econômica. Tivemos três anos de recessão – 2014, 2015 e 2016. Em 2017 e 2018, crescimento na faixa de 1%, um crescimento pífio para a necessidade brasileira. No Instituto Aço Brasil fizemos um estudo e colocamos duas questões: qual foi o ano em que mais se consumiu aço no Brasil? Foi em 2013, 24 milhões de toneladas. Quando é que voltaremos a ter esse consumo no Brasil? Em 2033. Então, nosso país precisa passar por um choque de desenvolvimento, um choque de gestão voltado para o crescimento. 

Qual seria o caminho?

Um grande impulsionador que precisamos no Brasil é a infraestrutura, a logística e a construção civil. Somos um país de grande potencial, mas de extremas carências: segurança, educação, saúde, transportes, mobilidade urbana, moradia. Temos um déficit de moradia superior a 5 milhões de unidades residenciais. Este é o maior desafio: é enfrentar essas carências e trabalharmos para fazer o país crescer. O maior impulsionador para o consumo de aço é a construção civil, no mundo inteiro. 

Você assume a presidência do conselho do Instituto Aço Brasil, que representa as siderúrgicas no país, com um desafio enorme perante a economia nacional desaquecida e a mundial protecionista. A defesa é de uma política liberal ou protecionista?

Temos conversado nos últimos meses com vários pré-candidatos e temos levado a eles nossa preocupação com a volta da indústria a um protagonismo. A indústria de transformação no Brasil há 15, 20 anos representava cerca de 25% do PIB, hoje está num patamar em torno de 10%. A liderança desse trabalho é a liderança do governo. Não há outro agente que possa fazê-lo a não ser o governo. É estimularmos o crescimento da indústria. No campo internacional somos a favor do liberalismo, somos a favor da isonomia, das relações comerciais equilibradas, como estão regidas pela Organização Mundial do Comércio. 

Mas, numa era Trump, o que fazer?

Estamos vivenciando a partir do posicionamento da China em nível mundial; a cada vez mais ela vai conquistando o mundo pela economia. Essa ação da China gerou uma reação americana – porque o posicionamento do Trump nada mais é do que uma reação à ação da própria China –, só que foi uma reação eivada de protecionismo. Na hora em que introduz sobretaxas, está, na verdade, protegendo o mercado, e aí as reações começam na Europa, na Ásia, até na África do Sul. E o único lugar desprotegido no mundo é a América Latina, onde não temos salvaguardas, e eu destaco o Brasil. Nós gostaríamos que o mundo fosse mais aberto ao comércio. Mas pode o Brasil ser um país liberal num mundo protecionista? Não podemos nos colocar contra a tendência mundial que está se observando no campo das relações comerciais. 

Qual seria o tipo de proteção que o Brasil precisaria colocar no aço?

São as próprias salvaguardas. Se um parceiro comercial coloca uma salvaguarda de 25%, você coloca também a contrapartida. Talvez seja a forma mais direta e a mais isonômica, porque toma a mesma decisão que o parceiro tomou.

Sobre a excessiva carga tributária no Brasil e a logística, uma das piores do mundo. O que fazer diante dessa encruzilhada em que está o Brasil, que precisa de investimentos de grande porte e tem um caixa combalido?

A solução tem que ser construída reunindo os melhores cérebros do país no campo da economia, da engenharia e da administração e construir um projeto para o Brasil. Foi o que nós fizemos na Usiminas. Quando eu assumi a presidência, em 2016, eu não tinha um projeto debaixo do braço, não. No meu primeiro dia na presidência, criamos o grupo dos dez, que foi o fórum das grandes discussões, e íamos realizando as ações necessárias para a recuperação da empresa. Temos que fazer o mesmo no Brasil. Hoje não existe no Brasil um projeto de desenvolvimento, nenhum candidato apresentou até hoje um projeto. O Brasil precisa reunir seus principais cérebros e, juntos, sob a liderança de um governo, construir um projeto para o país. 

Falando em investimentos, a Usiminas tem três linhas de galvanização em Ipatinga. Existe espaço para uma quarta linha e a retomada de áreas primárias da usina de Cubatão?

Atravessamos nos últimos três anos momentos delicados, como também atravessamos momentos de grande alegria para nós, equipe Usiminas. Nos momentos mais difíceis, ficamos sem condição de discutir planejamento estratégico. Quando apresentamos o resultado do segundo trimestre de 2017, comentamos que naquele momento voltávamos a ser uma empresa normal, que toca o seu dia a dia como toda e qualquer empresa o faz. A partir de julho do ano passado, depois de três anos sem fazê-lo, voltamos a nos debruçar sobre o planejamento estratégico com foco nos próximos cinco anos. Com relação à galvanização, temos três linhas em Ipatinga e estamos operando a plena carga. Se há espaço para se instalar uma nova linha, a minha resposta é “sim”. Estamos fazendo estudos para essa instalação. Evidentemente passa pela viabilidade econômica e pela aprovação da diretoria e do conselho. 

Isso pode acontecer neste ano? Qual é o plano?

Neste ano não vai haver uma decisão no que se refere à galvanização. Estamos conduzindo os estudos. No ano que vem teremos condição de ter um posicionamento. Sobre as áreas primárias de Cubatão, que interrompemos temporariamente em janeiro de 2016, estamos realizando estudos com relação ao futuro. Para a volta das áreas primárias de Cubatão, é necessário que o projeto seja viável economicamente, e, para ele ser viável, é necessário que o Brasil volte a crescer de forma robusta. Se continuarmos a crescer num PIB de 1%, vamos ficar sem perspectiva. Na minha visão, o Brasil precisa crescer 5% ao ano. Agora, nada ocorrerá com relação à volta das áreas primárias de Cubatão antes de 2021 entre os estudos que estamos desenvolvendo e a implementação da volta. Tudo no negócio do aço depende de demanda, tempo e recursos vultosos.

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