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Entrevista

Atuais condutas dos líderes podem precipitar guerra

Em situações de crise, por mais paradoxal que pareça, um conflito armado se torna mais provável à medida que os líderes acreditam que ele não vai acontecer

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Eugenio Diniz
Eugenio Diniz: professor do Dep. de Relações Internacionais da PUC Minas; presidente da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) e Membro do International Institute for Strategic Studies (IISS – Londres)
PUBLICADO EM 11/09/17 - 03h00

É iminente uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte?

Em situações de crise, por paradoxal que possa parecer, uma guerra vai ficando mais provável à medida que as lideranças políticas, ou algumas delas, acreditem que ela não vai acontecer. Assim, na escalada de tensões, em que os lados tentam demonstrar que não vão ceder, os eventos são interpretados da maneira menos benevolente possível, e qualquer acontecimento, ainda que acidental, pode precipitar as hostilidades.

Como esse cenário mundial está se desenhando?

Ao que parece, o líder norte-coreano Kim Jong-un acredita que os EUA não estariam dispostos a ir à guerra – talvez em função de acreditar que o fato de dispor de armamentos nucleares impediria essa guerra. A administração Trump tem emitido sinais claros de que não pretende tolerar o comportamento que vem sendo adotado pela Coreia do Norte. É interessante observar que os pronunciamentos por parte de autoridades chinesas, mesmo recomendando prudência e que se evitem decisões unilaterais, não têm sido tão enfáticos quanto os dos EUA. Ou seja, pelo menos até o momento, a China não tem dado sinais claros de que entraria ao lado da Coreia do Norte numa eventual guerra. Por outro lado, se as lideranças norte-coreanas interpretarem os sinais como “Os EUA guerreariam contra a Coreia do Norte, mesmo nuclearmente armada, e a China não lutaria ao lado da Coreia do Norte”, isso poderia levá-las a recuar, evitando assim a guerra. Ou, por outro lado, isso poderia levá-las a agir imediatamente, antes que outros países comecem a tomar posições mais claras.

Temos motivos para preocupar?

Assim como no caso da Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962, os interesses dos EUA são muito claros, e, até o momento, não parece que a maioria das lideranças internacionais considere que o presidente Donald Trump repetiria o comportamento de Barack Obama, que, após estabelecer que o emprego de armamentos químicos pelo governo sírio era uma “linha vermelha”, nada fez quando essa linha foi cruzada. Embora seja difícil afirmar, ao que tudo indica, a manutenção dos atuais comportamentos poderia de fato precipitar uma guerra.

É possível prever quais seriam as consequências que uma guerra nuclear com esses atores provocaria no mundo?

Há muitas variáveis em aberto. A China entraria ao lado da Coreia do Norte? Qual seria o comportamento dos demais países diretamente afetados pelo comportamento da Coreia do Norte, particularmente o Japão? Qual seria o comportamento da Coreia do Sul, que provavelmente seria alvo imediato das ações da Coreia do Norte? Caso a China entre na guerra, qual seria o comportamento da Índia (que, tecnicamente, ainda está em guerra com a China, desde 1962)? Conforme o comportamento da Índia, qual seria o do Paquistão? Indo um pouco mais longe, qual seria o comportamento da Austrália? E dos demais membros da Otan? E da Rússia? O leque de possibilidades, portanto, inclui desde uma guerra envolvendo exclusivamente EUA, Coreia do Norte e Coreia do Sul até uma guerra de proporções gigantescas.

O que o senhor chama de “tabu nuclear”?

No cenário mais restrito, seria razoável esperar danos consideráveis à Coreia do Sul e danos devastadores à Coreia do Norte, principalmente se armamentos nucleares forem efetivamente empregados; nesse último caso, seria o fim do chamado “tabu nuclear”, ou a crença de que, contemporaneamente, armamentos nucleares não seriam empregados para valer. Também paradoxalmente, isso poderia ter um efeito surpreendente: uma vez que se percebesse que a mera posse de armamentos nucleares não é suficiente para impedir uma guerra, um dos incentivos para a proliferação de armamentos nucleares desaparece, ou pelo menos se enfraquece significativamente, ao mesmo tempo em que os riscos se tornam mais claros. Por estranho que possa parecer, isso poderia levar a duas consequências divergentes, mas não exclusivas: menor interesse na posse de armamentos nucleares; e, no caso daqueles que insistissem nesse caminho, a necessidade de aumentar substancialmente seus arsenais nucleares.

Em todos os casos, o cenário é de catástrofe?

Nos cenários mais complexos, as possibilidades são tantas que não há muito como fazer prognósticos – exceto que todas elas seriam horríveis. O pior cenário possível – que, por enquanto, parece pouco provável – envolveria o amplo emprego de armamentos nucleares por vários atores: Coreia do Norte, China, Índia, Paquistão e, principalmente, EUA e Rússia. Nesse caso, estaríamos diante de uma catástrofe: o mundo como o conhecemos deixaria de existir. Ressalto, porém, que considero que esse último cenário tem comparativamente baixa probabilidade de ocorrência.

O Brasil também poderia ser impactado? De que forma?

No cenário mais restrito, o impacto imediato tenderia a ser insignificante ou nulo; já em horizontes de tempo mais dilatados, é bastante provável, senão praticamente certo, que haveria um rearranjo decorrente de uma série de redefinições de expectativas políticas, realinhamentos políticos e reordenamentos normativos, com amplo potencial de impacto político e econômico. Particularmente, esperar-se-ia uma série de redefinições no âmbito dos arranjos relacionados a assuntos nucleares, que poderiam intensificar pressões políticas significativas sobre o Brasil. O fato de que o Brasil não assinou um Protocolo Adicional de Salvaguardas com a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) e o programa do submarino nuclear brasileiro vêm imediatamente à lembrança.

Como a comunidade internacional pode se unir contra a escalada nuclear norte-coreana?

Depende dos objetivos em mente. Se se tratar de fazer com que a Coreia do Norte pare de realizar testes nucleares, a melhor aposta (longe de ser uma certeza) seria o envio de sinais inequívocos de que a continuidade das ações implicaria, para a Coreia do Norte, uma guerra contra os EUA e vários outros países, sem o apoio da China e de outras potências. Já se o objetivo for a desnuclearização da península coreana, isso dificilmente seria obtido sem, no mínimo, uma postura bem mais drástica da China contra a Coreia do Norte. Mas mesmo isso talvez fosse insuficiente. Seria necessária, no mínimo, uma mudança de regime, ou então o colapso, da Coreia do Norte (possibilidades que poderiam ser fortalecidas pela imposição de sanções muito severas e por uma postura mais firme da China).

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