Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Perfil

A dona do futuro da Lava Jato

Raquel Dodge notabilizou-se na operação Caixa de Pandora e ouviu delações de esquadrão da morte

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
Raquel Dodge
Para Raquel, não procede a alegação feita pela defesa do ex-presidente de que o acórdão do TRF-4 teria sido proferido sem fundamentação
PUBLICADO EM 03/07/17 - 03h00

Se o Senado avalizar a escolha do presidente Michel Temer (PMDB), o que hoje parece óbvio, o futuro da maior operação de combate à corrupção da história, a Lava Jato, a partir de setembro, estará nas mãos de uma ilustre desconhecida da população: a subprocuradora Raquel Elias Ferreira Dodge. Escolhida pelo presidente Michel Temer (PMDB) na última quarta-feira como sucessora de Rodrigo Janot na chefia da Procuradoria Geral da República (PGR), a goiana de 55 anos assume o comando do Ministério Público Federal (MPF) sob a desconfiança de ter sido apoiada por detratores da operação.

Nos últimos dias, a reportagem de O TEMPO conversou com juristas, amigos e familiares da indicada a procuradora geral da República, de modo a apontar o perfil da responsável pela continuidade – ou não – das investigações.

No MPF desde 1987, Raquel Dodge teve atuações quase que temáticas no órgão. Em sua maioria, processos envolvendo a defesa dos direitos humanos, principalmente casos sobre trabalhadores em situação análoga à escravidão e violações aos direitos indígenas. Entre palestras e debates internos no MP, costumava defender que atos de corrupção deveriam ser considerados como uma violação aos direitos humanos. “Pessoas se apropriam de verbas públicas importantes para a realização de direitos fundamentais, previstos na Constituição, como direito a saúde, educação, moradia e o de transitar livremente em estradas seguras. Quando há apropriação ilícita de verbas, esses serviços acabam não sendo prestados ou prestados de forma ruim”, disse, em 2010, à revista “Veja”.

Duas operações mudaram o patamar de Dodge no MPF. A principal ocorreu em 2009, quando, convidada pelo então procurador geral Roberto Gurgel, coordenou a força-tarefa da Caixa de Pandora, da Polícia Federal (PF), responsável por investigar um esquema de corrupção que tinha, entre seus integrantes, o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Em tempos de mensalão e casos de crimes políticos surgindo a todo momento, a Caixa de Pandora levou certo simbolismo heroico ao MPF: foi a primeira operação a prender um governador no exercício do cargo.

“Isso tudo aconteceu em uma época em que o país ia bem economicamente, não havia crise como agora, mas a desconfiança nas instituições já existia. A prisão do governador levou um prestígio ao MPF e ao Gurgel que era difícil surgir de forma espontânea”, disse uma fonte ligada ao Judiciário.

Além da Caixa de Pandora, Dodge integrou a operação que investigou o esquadrão da morte comandado pelo ex-coronel e ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, na década de 1990, no Acre. Por lá, familiarizou-se com a delação premiada: ia nos finais de semana, de forma voluntária, quando ainda amamentava a filha mais nova, Sophia, ouvir e negociar contribuições de presos para a operação.

Além do sucesso das operações, outro fator importante pesou para o ganho de força da subprocuradora nas eleições da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), onde obteve 587 votos e ficou em 2º lugar na lista tríplice da entidade: a influência do pai, o subprocurador da República aposentado José Rodrigues Ferreira. Ele, junto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, foi o principal cabo eleitoral de Dodge entre os eleitores da ANPR. “Foi um trabalho que contou com o prestígio do pai junto aos procuradores e subprocuradores, principalmente os da velha guarda. Eram ligações, indicações, até alguns jantares foram feitos para contribuir com o nome da Raquel”, conta a fonte.

José Rodrigues Ferreira aposentou-se da entidade em 1991. Durante os 21 anos em que atuou como subprocurador, fez amizades no meio político. Coube a ele apresentar Raquel Dodge aos fechados círculos de Brasília, que contêm, entre figurões, Gilmar Mendes, hoje amigo da família de Dodge e principal avalista da subprocuradora perante membros da classe política. Não à toa, figuras como o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-senador José Sarney também levaram a Temer sua preferência pela goiana.

Na avaliação do ex-ministro do STF Carlos Velloso, a subprocuradora é livre de interesses políticos. “A minha impressão sobre a Raquel é a melhor possível. Brilhante jurista. Enérgica, não tem nenhuma vinculação política e é fiel cumpridora da lei e da Constituição”. Velloso foi professor de Raquel Dodge no curso de direito da Universidade de Brasília (UnB).


Rivalidade

Ruptura e discussão com o atual PGR

Da amizade com o ministro Gilmar Mendes nasceu a ruptura de Raquel Dodge com outro figurão do Judiciário brasileiro: o atual chefe da PGR, Rodrigo Janot. O desgosto de um pelo outro não parte apenas da influência de Gilmar. Dodge discorda profundamente de teses defendidas por Janot.

Em abril, já em campanha na ANPR, Dodge teve embate pesado com o procurador geral: uma discussão em plena reunião do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) por conta de uma proposta apresentada por ela. A ideia da subprocuradora era restringir o trânsito de procuradores no MPF, situação que, para Janot, prejudicaria os trabalhos da Lava Jato.

“Você pensou e apresentou isso sem conversar com o procurador geral? Que estranho”, ironizou Janot. “Eu tentei, fui duas vezes à sua sala, mas o senhor não estava lá”, retrucou Raquel Dodge na ocasião.

Nos últimos meses, Janot fez campanha pesada contra a subprocuradora. Em sua concepção, o círculo de influência de Raquel Dodge coloca em perigo os trabalhos da Lava Jato. Ele apoiou abertamente o vice-procurador geral eleitoral Nicolao Dino, primeiro lugar na eleição da ANPR, mas que não contou com o aval de José Sarney junto ao presidente da República: o irmão de Dino, Flávio Dino (PCdoB), é governador do Maranhão e rival político do clã Sarney.

Trâmite. Raquel Dodge ainda precisa passar por uma sabatina no Senado e, se for aprovada na Casa, tomará posse como nova procuradora geral da República no dia 17 de setembro.


Família

Primas de Morrinhos fazem elogios

Natural de Morrinhos, no Sul de Goiás, Raquel Dodge é uma “pessoa família”. É o que garantem as primas Marcilia Helena Campos e Lília Maria dos Santos, profissionais da unidade de Morrinhos da Universidade Estadual de Goiás.

“Tentamos sempre manter o contato, a amizade continua forte, e ela é uma pessoa muito simples, muito apegada aos familiares. Em toda data festiva ela vem pra Morrinhos e fazemos uma confraternização”, diz Marcilia.

No início do ano, a subprocuradora passou por um drama familiar: perdeu o irmão, com quem tinha relação próxima, devido a um câncer na bexiga. “Foi um trauma muito grande para todos nós. Uma coisa muito rápida. Ele foi diagnosticado com a doença em fevereiro e dois meses depois faleceu”, afirma Lília.


Conservadora

Indicada é contra foro privilegiado e já condenou eutanásia

Desde 1995, Raquel Dodge é casada com o norte-americano Bradley, de quem herdou o sobrenome. Eles se conheceram em Brasília, quando a jurista se preparava para um mestrado na tradicional universidade de Harvard, em Massachusetts. Ele, professor de inglês, deu aulas à subprocuradora com foco em termos jurídicos. Pouco tempo depois, já eram pais do casal Eduardo e Sophia – ambos, atualmente, morando e estudando nos Estados Unidos. “No geral, a Raquel, como pessoa, é muito discreta. Até nas roupas você percebe isso. Ela sempre optou por vestir aquele estilo executivo, normalmente na cor preta ou cinza. Estranhei demais ela, outro dia, ter aparecido com um casaquinho amarelo. Não é muito a dela”, diz a prima Lília.

Católica desde criança, Dodge mantém aspectos conservadores do pensamento religioso. Em 2004, por exemplo, elaborou artigo em que condenava a eutanásia. “O sistema jurídico brasileiro é orientado por princípios fundamentais que expressam os valores acolhidos pela sociedade. A presença destes valores é mais evidente, para a população em geral, nas situações que envolvem bens jurídicos de maior relevância, como a vida. Por isso, o consentimento do paciente à prática da eutanásia ou a motivação piedosa de quem a pratica não retiram a ilicitude do ato, tampouco exoneram de culpa quem a praticou”, argumentava, à época.

Ela também notabilizou no meio jurídico por militar pelo fim do foro privilegiado a políticos. Para ela, o mecanismo prejudica combate à corrupção e se baseia na desconfiança de que os juízes singulares não possuem isenção para julgar autoridades. A partir de setembro, as apostas estarão abertas: o histórico combativo de Raquel Dodge vai sobrepor a onda de incertezas geradas por suas perigosas amizades?

O que achou deste artigo?
Fechar

Perfil

A dona do futuro da Lava Jato
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório

Comentários (4)

Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter