Análise

Segurança público-privada seria saída para conter excessos no Carnaval de BH

No teste da folia, houve falha na segurança, brigas e reclamações da ação de PMs, além de uma enxurrada de furtos de celulares

Por Isabela Abalen e Vitor Fórneas
Publicado em 15 de janeiro de 2024 | 18:17
 
 
 
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Foliões que estiveram no Ensaio do Carnaval de Belo Horizonte, que aconteceu nesse fim de semana (13 e 14 de janeiro), acumularam queixas com relação à segurança do evento. No teste da folia, houve falha na segurança, brigas e reclamações da ação de policiais militares – principalmente pelo uso de spray de pimenta durante o desfile do bloco Truck do Desejo –, além de uma enxurrada de furtos de celulares, conforme comprovado pela reportagem no local. Para entender como seria a segurança ideal para eventos de multidão, como o Carnaval, que envolve também o consumo de bebidas alcoólicas, O TEMPO conversou com especialistas que apontam a parceria público-privada como uma alternativa para prevenir excessos e especializar a segurança. “Os agentes privados poderiam ficar no meio das pessoas, enquanto a PM ficaria na retaguarda”, considera Arnaldo Conte, um dos especialistas ouvidos. 

O uso de spray de pimenta no final da tarde de domingo (14 de janeiro) foi o que mais causou revolta em foliões e artistas. De acordo com a Polícia Militar (PM), uma “briga generalizada” demandou a intervenção dos agentes, que usaram “instrumentos de menor potencial ofensivo para restabelecer a ordem e conter os agressores”. O governo de Minas Gerais, responsável pelo evento, não informou quantas pessoas precisaram ser atendidas pelos brigadistas após inalarem o spray. Segundo o órgão, como os foliões não precisaram ser encaminhados ao posto médico, não houve contagem de atendimentos pelos brigadistas no local. Mesmo assim, pessoas que presenciaram a confusão relataram que pelo menos duas pessoas desmaiaram, enquanto dezenas passaram mal a ponto de vomitar. 

Uma foliã de 27 anos, que preferiu não ser identificada, estava atrás da percussão da Truck do Desejo no momento em que a confusão começou. Segundo ela, dois homens iniciaram uma briga. “Eu estava no meio da confusão. Esses homens começaram a usar de força física para passar entre as pessoas, estavam sendo brutos mesmo. Estava apertado, e eles não estavam seguindo o bloco como todos, estavam querendo confusão. Em um momento, eles empurraram eu e uma amiga, entraram no meio da gente. Nós nos perdemos uma da outra”, relata.

Neste momento, ao perceber o início da movimentação da polícia, a mulher decidiu que o Carnaval havia acabado (mesmo antes de começar), e que, se era para ser assim, que iria embora. “Nós só pensamos em sair ali do meio. Eu quase fui pisoteada. Quando conseguimos sair, foi sorte, porque foi quando soltaram o gás de pimenta”, continuou. “Eu fiquei chateada com a situação, porque ficou parecendo que não tínhamos proteção. As pessoas passando em cima das outras, uma confusão que deixou o clima pesado, eu me senti violada ali naquele momento. É uma pena, porque Carnaval tem que ser bom para todos. Tem que ser confortável, a gente tem que ser respeitada”, reclamou. 

A sensação de desapontamento também foi sentida pelo jornalista e criador de conteúdo, Luiz Othavio Gimenez, conhecido como Zotha, de 31 anos. Ele foi um dos foliões que usou as redes sociais para denunciar a truculência da Polícia Militar (PM). “Dois homens começaram a se estranhar, iniciaram uma briga, e foi aberto um espaço no meio do público das pessoas tentando separar os dois. Quando a polícia chegou, começaram a bater neles com o cassetete, e jogaram spray de pimenta na galera”, disse.

Essa foi a primeira vez que Zotha, que frequenta o Carnaval de BH desde 2012, foi atingido por spray de pimenta durante a folia. Ele disse que sentiu o olho arder, tossiu repetidamente e teve ânsia de vômito. “Durou pelo menos 15 minutos todas essas sensações intensas. Muita gente passou mal, vomitou, vi pelo menos duas que desmaiaram no chão. Foi desproporcional, muito violento. Algumas crianças estavam no meio", reclamou.

"Eu, que já fui em inúmeros blocos de Carnaval, há anos, nunca tinha visto nada parecido. O nosso Carnaval era conhecido por ser seguro”. Segundo o comunicador, após a dispersão pelo gás de pimenta, os policiais deixaram o local, e a assistência aos foliões que passaram mal ficou por conta dos brigadistas. A confusão estragou o clima do pré-Carnaval de Zotha. “Com a polícia agindo dessa forma, deixa a gente em alerta para como será o feriado oficial do Carnaval”, lamentou. 

Mas a sensação de segurança não foi a mesma para todos os foliões. Alguns apreciaram a organização dos militares durante o Ensaio Geral. É o caso do psicólogo Anderson Pio, de 30 anos. “Esse ensaio é uma prévia de que o Carnaval deste ano vai ser muito melhor. A gente percebe o policiamento melhor; eles (policiais) estão passando toda hora. Estou me sentindo muito mais seguro do que no ano passado”, elogia.

Quando é necessário o spray de pimenta? 

Segundo um policial que estava no comando da atuação, que não será identificado, a atitude seguiu o protocolo da PM. “Não dá para engessar uma situação, tudo depende do cenário e da circunstância. Mas, basicamente, em casos de multidão, nós usamos instrumentos de menor potencial ofensivo. Primeiro, o diálogo, depois, o bastão, o controle do contato entre os envolvidos e, por último, dependendo da gravidade da briga, o disparo de spray de pimenta para dispersão das pessoas e para abrir espaço para a atuação da polícia”, informou. “Ali foi um momento que foi necessária a intervenção próxima ao trio”, continuou. 

De fato, segundo o especialista em Segurança Pública, Jorge Tassi, o spray de pimenta serve, segundo o protocolo militar, para evitar ações mais violentas. “O protocolo é chegar e verbalizar. Tentar a mediação do conflito pela conversa. Se não conseguir e precisar usar a força, o primeiro caminho é o spray de pimenta. Melhor utilizá-lo do que um cassetete”, explicou. 

Tassi reforça que o spray de pimenta é um produto que gera desconforto, mas que, quando necessário, deve ser usado por não ser letal. O especialista diferencia o spray de pimenta de gás lacrimogêneo. “Neste caso específico, outras pessoas que não tinham relação com o tumulto acabaram sendo afetadas, e a substância gera desconforto no nariz e nos olhos, além da dificuldade em respirar. Já o gás lacrimogêneo, por exemplo, se espalha por todo o ambiente, atinge mais pessoas”, disse.  

PM ainda pode melhorar escolha do uso do spray de pimenta

O comandante da Polícia Militar durante o Ensaio Geral disse ainda que, apesar do grande público do evento, em centenas de milhares de pessoas, segundo a organização, a guarnição não foi surpreendida, e os cerca de 160 policiais militares que estavam atuando “deram conta da segurança”.

Mesmo assim, após a confusão, segundo ele, foi realizada uma reunião com a organização do evento e os representantes do bloco Truck do Desejo, e aprimoramentos da intervenção serão estudados para o Carnaval oficial. “Todo planejamento pode ser aprimorado. Teremos mais reuniões futuras. A ideia é que, talvez, possa ser repensado o uso de spray próximo aos blocos, para não atrapalhar quem está tocando e cantando. Mas reforço que é uma medida necessária”, afirmou. 

Segurança em grandes eventos: qual o modelo ideal?

A integração entre segurança pública e privada é, na análise de Arnaldo Conde, a melhor forma de se atuar em eventos como o Carnaval, por exemplo. "O que aconteceu no Ensaio Geral é o típico exemplo de que a proteção e a guarda do evento não deveria ser feita apenas pela PM, mas sim pela segurança privada".

Para o especialista em segurança, isso deveria ocorrer levando em consideração a atuação dos profissionais da vigilância privada. "Para eventos desse porte, que tem peculiaridades e características próprias, nós temos um descompasso entre a atividade policial e a segurança privada. A polícia, por exemplo, vai colocar em prática aquilo que foi repassado nos cursos, que acaba sendo considerado como 'truculência' para as pessoas, mas, na verdade, é o protocolo. A segurança privada, por sua vez, acaba buscando solucionar o problema de outra forma, com o diálogo".

Conde exemplifica um evento que atrai pessoas de diversos lugares e que usa a segurança privada. "No Rock in Rio uma empresa de segurança privada é a responsável pela segurança interna. Nós até temos algumas pessoas relatando problemas encontrados, porém não o excesso por parte daqueles profissionais".

Aliar a segurança pública com a privada é uma boa saída para o especialista Jorge Tassi. "Sou defensor deste processo em nível nacional e para todas as circunstâncias. Isso precisa acontecer. A gente fala neste caso do Carnaval especificamente, mas seria essencial que acontecesse não só neste tipo de evento. É preciso que haja integração".

O Carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, recorreu à segurança privada para reforçar o efetivo de segurança na festa de 2018. Na época, por meio de uma empresa licitada, a ideia era contratar 3.375 vigilantes. Os seguranças dariam apoio à Guarda Civil Municipal percorrendo as ruas durante a festa. 

A integração faria, na análise de Conde, que policiais fossem deslocados para atuar em outras áreas, ficando numa "espécie de retaguarda". "Em Belo Horizonte, isso aconteceu durante os eventos esportivos da Copa das Confederações (2013) e Copa do Mundo (2014). Acho que esta integração ainda é um sonho e que vai demorar para acontecer na prática. Porém, temos que pensar nesta alternativa, pois em alguns casos pode ser somente a segurança pública, mas em outros é necessário recorrer aos vigilantes", complementa.

O Governo de Minas informou que no Ensaio Geral “não foram registradas ocorrências graves, sendo a maioria furtos e extravios de documentos ou objetos pessoais, com registro abaixo da média de eventos desse porte”. O Estado e a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) foram procurados e questionados sobre a possibilidade da utilização da segurança privada no Carnaval 2024. Os retornos são aguardados.

Perguntas não respondidas pelo governo de Minas e Polícia Militar

1) Por que foi necessário o spray de pimenta, visto que atingiu, também, foliões e blocos? Em quais situações do spray de pimenta é usado pela PM?

2) A contenção do problema poderia ter sido feita de outra forma? Por exemplo, segurando os suspeitos?

3) Qual é o protocolo seguido pela PM em grandes aglomerações como o Carnaval? Em que há chances de furto, roubo, assédio, briga, em meio a grande número de foliões e inocentes?

4) Este protocolo será seguido no Carnaval oficial de BH? Qual será o protocolo respeitado para o uso de spray de pimenta?

5) Durante o Carnaval, os policiais não vão circular entre a multidão? No sábado, havia poucos entre as pessoas. 

6) Os policiais reclamaram para a reportagem que não existiam oficiais comandando e que eles foram "jogados" sem preparação. 

7) A PM sabe da existência de quadrilhas que vão a esse tipo de evento só para roubar? O que é feito com relação a isso? 

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