Uma moradora do bairro Santa Mônica, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, fez uma denúncia de ameaça contra o funcionário de uma academia da região. A vítima registrou um boletim de ocorrência após ser ameaçada pelo homem para retirar um vídeo em que conta ter sido vítima de gordofobia. O relato viralizou nas redes sociais e desde a sua publicação, na última quinta-feira (30/7), outras mulheres afirmaram que também já foram vítimas da mesma pessoa.
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Dayane Magalhães de Oliveira tem 34 anos e desde criança luta contra a obesidade. Em entrevista a reportagem de O TEMPO, ela contou que há dez anos ela estava passando por uma avenida do bairro onde mora quando, ao parar em uma faixa de pedestre, acabou sendo xingada pelo proprietário de uma academia da região. Na época, a empresária conta que se sentiu mal, mas decidiu mudar seu estilo de vida, chegando a fazer uma cirurgia bariátrica.
“Já na semana passada aconteceu a mesma coisa. Eu parei na parada obrigatória e, não sei se ele me reconheceu ou se só achou que era outra mulher mais gordinha, aí começaram os xingamentos: ‘gorda’, ‘imensa’, ‘baleia’”, explicou a vítima.
Inconformada com a situação, Dayane falou com o homem que não iria discutir com ele no trânsito e sim iria para a porta da sua academia para resolverem o problema. Ela conta que chegou a ir até a empresa, no entanto, ele não apareceu. Revoltada, ela gravou um vídeo relatando o caso e publicou em suas redes sociais. “A partir desse relato, a cada dia, aparecem mais vítimas. E todas falando a mesma coisa. As pessoas têm medo dele porque ele as ameaça, fala que é ex-policial, tentando botar medo. Minha família está com medo, porque em um dos comentários nas redes sociais ele fala que já mexeu com um dos maiores traficantes de Belo Horizonte e que não tem medo de nada”.
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Diante da situação, Dayane procurou uma base móvel da Polícia Militar e registrou um boletim de ocorrência contra o homem. Ela conta, ainda, que apesar do suspeito dizer que não a conhecia, isso não é verdade. Segundo a empresária, após seu vídeo viralizar o homem chegou a ligar para o seu irmão pedindo que ele a convencesse a apagar a publicação. “Antes do episódio em já conhecia ele. Eu moro no bairro desde os cinco anos de idade. Quando ele e a esposa abriram a academia, minha família foi uma das primeiras clientes. Em um dos áudios que ele me mandou, mas depois apagou, ele me disse que era para eu retirar o vídeo se não iria até a porta do meu estabelecimento ‘me fazer apagar’, e que ele não gasta dinheiro com advogado, mas eu teria que gastar um dinheirão”.
Procurada, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que o crime de ameaça, conforme dispõe a legislação vigente, depende, a princípio, de representação criminal para que seja instaurado o procedimento investigativo correspondente, possibilitando a adoção das medidas legais cabíveis. “Dessa forma, orienta-se que a vítima compareça à Delegacia Adida ao Juizado Especial Criminal, localizada na Av. Presidente Juscelino Kubitscheck, nº 3250, bairro Padre Eustáquio, a fim de manifestar seu interesse em representar criminalmente”.
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A reportagem conversou com uma pessoa que malhou por sete anos na academia vinculada ao homem. De acordo com ela, apesar de não estar no quadro societário do estabelecimento, por ser marido da proprietária, o homem acaba administrando o local. A fonte, que não será identificada, informou, ainda, que era comum que ele xingasse alunos. “Ele é um barraqueiro que fica arrumando confusão na internet. Quando outras academias abriram na região, ele fez vídeos difamando os concorrentes. Em um dos casos foi processado, perdeu e teve que publicar uma retratação”.
Injúria pela internet
Além de Dayane, o homem também foi denunciado por outra mulher. Dessa vez, a injúria foi cometida pelas redes sociais. À reportagem a empresária Carolina Giacomo, contou que nunca viu o suspeito, mas mesmo assim ele achou prudente fazer um comentário inapropriado em uma foto publicada por ela, em seu perfil pessoal. “No final de junho publiquei uma série de fotos de uma viagem que fiz com a minha família. Quando acordei no dia seguinte me deparei com o comentário dele na minha publicação”.
Na foto comentada pelo investigado, Carolina está de costas e veste um biquíni e uma saída de praia preta. Após a publicação, o homem comentou: “Quando a bunda é feia não tem filó que esconda”. Inconformada, a empresária, que possui uma empresa de moda plus size, questionou o homem o motivo do comentário perguntando quem o havia autorizado a fazer comentários na publicação de uma mulher que ele não conhecia.
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O homem então teria dito que se a mulher postasse uma foto deveria “aguentar” as opiniões de terceiros. “Então pare de postar porque eu não te sigo e apareceu para mim, então tem que aguentar as opiniões sim. Está ruim mesmo, você tem que fazer dieta e procurar uma atividade física antes de querer se expor”.
Inconformada, a mulher também fez uma publicação expondo toda a situação. “Ele a todo momento disse que a esposa dele era nutricionista, como que para dizer que ela está com um corpo bom e, por isso, pode postar foto. Já eu que sou a gorda, tenho lipedema e estou acima do peso, não posso postar foto ou se posto tenho que estar disposta a ouvir comentários contra a minha pessoa, de alguém que eu não conheço, não sabia da existência e nem tinha ouvido falar da academia dele”, desabafou.
O que disse o homem?
Nas redes sociais da academia, que sua esposa está no quadro societário, o homem, acusado de gordofobia e ameaça pelas vítimas, publicou um vídeo em que se defende das acusações. Na gravação, publicada há dois dias, ele afirma que dizer que uma pessoa é gorda não é crime e sim opinião, mas “depende da forma” que é dito.
Em seu pronunciamento, ele ainda diz que já ajudou muitas pessoas já que na pandemia, durante a série de lockdowns para tentar frear a propagação do Coronavírus, mesmo impedido por decretos municipais abriu sua academia e recebeu seus alunos. “Vocês lembram na pandemia quantos gordos, magros, gays, bonitos e feios eu acolhi dentro da minha academia mesmo não podendo. Foram vários. Se eu fosse um cara tão preconceituoso com o pessoal, com qualquer público, eu não teria feito isso”, enfatizou.
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Ele ainda afirmou que já ajudou muitas mulheres vítimas de violência, as acolhendo no estabelecimento. “Vocês sabem quantas mulheres que sofreram agressão física ou moral eu acolhi aqui dentro da minha academia? Quantas vítimas de feminicídio eu acolhi? Várias. Mulheres que foram espancadas pelos seus namorados, pelos seus maridos, e mulheres que perderam a vida com requinte de crueldade, eu acolhi aqui dentro da academia”.
Em nota, o advogado do denunciado afirmou que, apesar de estar sendo identificado como proprietário da academia, atua apenas como funcionário do estabelecimento. Em seu posicionamento formal, por meio de sua defesa, o homem afirmou que na última quinta-feira (30/7) atravessava o cruzamento entre a rua dos Astecas e a avenida Francisca Gregory, na faixa de pedestre, quando foi surpreendido por uma mulher que repentinamente jogou o veículo que conduzia em sua direção, “supostamente com clara intenção de o atropelar”.
“Marcelo informou à proprietária da Ao Corpo que não se recorda de conhecer a sra. Dayane, assim como, os relatos de ofensa por ele não ocorreram. Que no local do ocorrido, claramente foi possível perceber que o desejo de Dayane era de atropelá-lo, pois, se o mesmo não tivesse pulado para frente o veículo o teria acertado de forma grave, ocasionando graves danos físicos. Que somente gritou ao momento que se ele tivesse sido atingido, iria quebrar o carro todo”, pontua a nota.
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No documento, assinado pelo advogado Matheus Corgozinho, a academia afirma que não houve participação do estabelecimento e que as gravações que indicam que o local possui relação com os fatos foram feitas de maneira “negligente” e “leviana”. “A Ao Corpo repudia qualquer tipo de discriminação, preconceito, ofensas, sejam elas contra pessoas gordas, magras, negras, homossexuais ou deficientes físicos, mantendo em seu estabelecimento o acesso a todas as pessoas, sejam elas de quaisquer tipos físicos, características ou gênero”.
Gordofobia é crime?
A gordofobia apesar de ser um tipo de preconceito e discriminação não é considerada um crime. Em casos como os relatados pelas vítimas, as pessoas que proferiram as ofensas podem responder por injúria ou outro crime contra a honra como calúnia e difamação. O advogado criminalista Paulo Crosara, explica que, por isso, fazer um discurso contra pessoas gordas não é crime, mas xingar uma pessoa especificamente pode ser tipificado.
Quando a situação acontece pelas redes sociais a lei pode ser triplicada. Caso a injúria, calúnia ou difamação seja contra uma mulher, por ela ser mulher, pode ser duplicada. “Há esse agravamento porque pelas redes sociais o alcance do que foi dito é maior”, explica Crosara.
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