Violência em BH

Áudio mostra ameaças de 'traficante' a comerciante do bairro Santa Tereza; ouça

Conforme a Polícia Militar (PM), trata-se de estelionatários que teriam se aproveitado do medo dos comerciantes após um homicídio ser registrado na rua Mármore

Por José Vitor Camilo e Alice Brito
Publicado em 18 de abril de 2024 | 17:00
 
 
 
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"A senhora sabe que aqui é controlado pelo PCC, certo?". Assim começa o diálogo entre um suposto traficante e um comerciante do bairro Santa Tereza, na região Leste de Belo Horizonte. Conforme adiantado na última quarta-feira (17 de abril) por O TEMPO, dezenas de lojistas receberam ameaças telefônicas após um homem ser assassinado e outro baleado, na última segunda-feira (15) em frente a uma padaria da rua Mármore, a principal do bairro.

"Então, meu amor, aqui nós (sic) não admite esse tipo de atitude, então, a gente pegou eles e botamos dentro do carro e sumimos (sic). Algum morador ou comerciante da rua Emílio Ribas denunciou, não estamos ligando pra fazer acusação, mas, através dessa denúncia, teve operação hoje pela manhã na quebrada, que resultou na prisão de dois gerentes nosso, um deles é o filho do chefe", diz a voz, com sotaque de carioca.

Ouça:

Em seguida, o criminoso diz que um delegado corrupto descobriu que um dos presos era o filho do "patrão" e estaria cobrando uma quantia muito alta de propina e, por isso, eles estavam entrando em contato para recolher a ajuda financeira dos comerciantes. "É o PH que está falando senhora", encerra o áudio.

Em entrevista ao programa Direto da Redação, da rádio FM O TEMPO, o tenente Luis, do 16º Batalhão da Polícia Militar (PM), que é responsável pelo policiamento na região, reafirmou que a corporação acredita que tenha se tratado da ação de golpistas.

"Quando começaram a eclodir essas ligações, de imediato, a gente (PM) acionou uma operação, uma força-tarefa, para orientar os comerciantes. Passamos em cerca de 60 deles e orientamos sobre esse possível golpe. Nas ligações era a mesma pessoa, masculino, com sotaque que aparentava ser carioca. A cada hora, ele usava uma história, dizia que era para pagar dívida do tráfico, advogado ou sepultamento e velório de infratores", pontuou.

Ainda segundo o militar, já há algum tempo o 16º Batalhão da Polícia Militar vem realizando uma série de operações na região para coibir o tráfico de drogas nas vilas Dias e São Vicente, localizadas no bairro Santa Tereza — que, há alguns meses, estaria vivendo uma guerra pelos pontos de venda de entorpecentes.

"A gente está realizando várias operações para coibir.. Nos últimos dias realizamos várias operações, com apoio aéreo inclusive, que resultaram em várias apreensões. A vítima desse homicídio, por sinal, foi presa com uma arma em uma dessas ações. A gente vem tentando combater os crimes em toda a área do 16º para trazer mais segurança à população", completou o tenente Luis.

Procurada, a Polícia Civil confirmou que instaurou um inquérito após ser acionada por comerciante do bairro Santa Tereza que teria sido vítima das ligações. "A PCMG orienta que as vítimas compareçam a uma delegacia de polícia mais próxima para o devido registro da ocorrência e demais medidas legais cabíveis", concluiu a instituição.

Moradores relatam escalada da violência e PM confirma guerra do tráfico

Apesar das ameaças a comerciantes serem, inicialmente, ação de estelionatários, moradores da região garantem que, nos últimos meses, está explícita a mudança no comportamento dos traficantes da região. Se antes a ação era mais "discreta", há alguns meses, não é difícil se deparar com traficantes armados e equipados com rádios de comunicação nas entradas das vilas Dias e São Vicente.

"Outro dia, chegando à noite de metrô, um dos meninos com rádio e armado estava no meio da passarela. A gente fica com medo né, ainda mais depois desse homicídio", pontua um morador do bairro que preferiu não ser identificado.

Segundo outro relato obtido sob anonimato por O TEMPO, a situação teria mudado desde agosto de 2023, depois que os dois antigos chefes do tráfico na região foram assassinados e outros criminosos assumiram a área. "Além da presença dos traficantes, também aumentou muito o número de usuários de crack nas ruas do bairro. Está assustador", denuncia o morador.

Questionado sobre a escalada na violência, o comandante do 16º Batalhão, tenente-coronel Israel Calixto, garantiu que, desde antes do homicídio, a PM já vinha fortalecendo o policiamento na região. "Estamos presentes nesse local, com operações preventivas e repressivas. O efetivo policial foi aumentado para 'sufocar' estes criminosos e deixar a comunidade tranquila, mantendo a paz do bairro", afirmou.

Entretanto, por outro lado, o comandante confirma que há uma disputa de traficantes da área. "Não temos informação sobre chegada de criminosos de fora. O que temos é acerca de uma disputa pelos pontos de venda de droga, o que tem gerado um certo conflito, isso muito antes desse homicídio. Inclusive, as informações iniciais indicam que a motivação seria, justamente, em decorrência dessa disputa. A vítima (do assassinato) era moradora da vila e tinha envolvimento com o crime. Já o adolescente, que ficou ferido, tinha passagens (pela polícia), como por tráfico, roubo e ameaça", completou o tenente-coronel Calixto.

O assassinato

O assassinato registrado na madrugada de segunda foi filmado por uma câmera de segurança. Nas imagens é possível ver o homem, de 35, sentado em frente a uma padaria, junto ao adolescente, de 17, que acabou ficando ferido. Uma terceira pessoa estava próxima a eles. O suspeito se aproxima do trio, e atira diversas vezes. O adolescente e a terceira pessoa conseguiram fugir durante o momento dos disparos. O suspeito deixa o local em seguida.

Veja o momento do homicídio:

De acordo com a Polícia Militar, os militares encontraram o homem, de 35, caído em frente a padaria, sem sinais vitais. O corpo dele foi encaminhado pelo rabecão para o Insituto Médico Legal (IML). Conforme a polícia, seis cápsulas de calibre 9mm foram recolhidas no local.

O adolescente foi socorrido por um serviço de carona por aplicativo para uma UPA. Em seguida, foi transferido para o hospital João XXIII. Os militares foram até a unidade de saúde, onde a vítima prestou depoimento.

Segundo o boletim de ocorrências, o adolescente disse ter sido alvo de uma tentativa de assassinado, possivelmente motivado pelo envolvimento dele com o tráfico de drogas na vila Dias. Ele foi atingido na perna, no joelho e no antebraço.

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