Integração é falha no Move
Sistema da capital não ‘dialoga’ com o metropolitano, e usuário é penalizado por ter que pagar duas tarifas

Se o Move de Belo Horizonte, um ano depois de sua inauguração, ainda divide opinião entre os usuários, quando o assunto é o sistema metropolitano os passageiros são quase unânimes: o modelo piorou, e muito, os deslocamentos até o centro da capital. Na terceira reportagem da série de aniversário do Move, O TEMPO mostra os desafios enfrentados por quem precisa utilizar diariamente o modal gerenciado pelo governo do Estado e as dificuldades resultantes da falta de integração entre os dois.
Estações improvisadas, tumultos nos embarques, ônibus lotados e a longa espera no tempo de baldeação são apenas algumas das queixas de quem mora no entorno de Belo Horizonte e precisa se deslocar até o centro da capital. Para agravar a situação, o fato de os sistemas municipal e metropolitano não dialogarem acaba gerando ainda mais transtornos para muitos passageiros, que por vezes precisam pagar duas tarifas para chegar aos seus destinos.
É o caso da atendente Rosinéia de Souza, 38, que mora em Santa Luzia e trabalha no bairro Jaraguá, na Pampulha. Após utilizar uma linha troncal (da estação ao centro) saindo da estação provisória São Benedito, a R$ 3,95, ela desce em uma estação de transferência do sistema metropolitano na avenida Antônio Carlos, entra em outra do Move da capital, mas precisa pagar mais R$ 3,10 para seguir até o trabalho.
“Prometeram melhorias com o Move, mas isso aqui piorou demais a vida da gente. Anda lotado, tenho que pagar duas vezes e só chego atrasada no trabalho. Está horrível”, reclama Rosinéia. Indignada, ela conta já ter pulado na rua na frente do ônibus para fazer o coletivo parar para que pudesse embarcar.
Na avaliação do consultor em transportes e trânsito Osias Baptista, a falta de conversa entre os sistemas da capital e da região metropolitana só traz prejuízos ao usuário. “É um problema terrível. Quem mora em Ribeirão das Neves e trabalha em Belo Horizonte ou Betim, por exemplo, na realidade é um cidadão metropolitano e fica com o sistema de transporte todo picado simplesmente por uma discussão política”.
Baptista afirma que já existe tecnologia disponível para integrações física, operacional e tarifária dos sistemas, preservando as competências e questões relativas às passagens de cada um. Falta, porém, os governos se entenderem. “É possível fazer. Mas nunca foi desejo de ninguém. Quando a Empresa de Transportes e Trânsito (BHTrans) criou o BHBus e o Estado, anos depois, criou o cartão Ótimo, já era claro que não era para ter integração. Um nunca procurou conversar com o outro e ajustar de forma que fosse bom para o usuário”.
Procuradas pela reportagem, tanto a BHTrans – que gerencia o Move municipal – quanto a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop) – responsável pelo sistema metropolitano –, alegaram que ainda estudam a possibilidade de integração.
Daniel Marx, diretor de Transporte Público da BHTrans, afirmou que a estrutura atual tem atendido os usuários, mas que o município tem buscado soluções para que um mesmo cartão possa ser aceito nos dois sistemas. “Estamos trabalhando nisso, e vamos agora buscar junto ao novo governo do Estado uma forma de pelo menos superar essas questões tecnológicas”.
Investimento
Verba. Cerca de R$ 162 milhões foram investidos em terminais do Move Metropolitano. Segundo a Setop, as obras nas estações de Justinópolis, São Benedito e Bernardo Monteiro foram paralisadas em 2014 e a retomada depende da aprovação do orçamento 2015.
Mesmo nome é ponto negativo
O batismo do sistema metropolitano com o mesmo nome do de Belo Horizonte foi negativo, na avaliação do consultor em transportes e trânsito Osias Baptista. Isso porque, segundo ele, a ideia seria a integração, mas que até hoje não ocorreu.
“Eles (os governos) sempre vão falar que estão tentando. Só que é inadmissível pensar que estão tentando há tanto tempo e ainda não conseguiram”, avalia Baptista. Além disso, o Move Metropolitano tem mais reclamação de usuário e, não havendo distinção, fica tudo parecendo um sistema só.
Saiba mais sobre o sistema metropolitano
Raio X. Com 288 ônibus, o Move Metropolitano transporta cerca de 173 mil usuários diariamente.
O sistema tem três terminais (São Gabriel e Vilarinho, em Belo Horizonte, e Morro Alto, em Vespasiano) e duas estações provisórias – São Benedito (Santa Luzia) e Justinópolis (Ribeirão das Neves).
Linhas. Cada terminal tem três linhas troncais (da estação ao centro) – uma direta, uma paradora e uma hospitais. São 15 linhas, abastecidas por linhas alimentadoras (dos bairros até as estações) da região metropolitana. Com o sistema, 180 linhas deixaram de circular no centro da capital.
Origens. O sistema atende 14 cidades: Caeté, Capim Branco, Confins, Jaboticatubas, Lagoa Santa, Matozinhos, Nova União, Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, São José da Lapa, Taquaraçu de Minas, Vespasiano e Sabará.
Lagoa Santa. O TEMPO tem mostrado a mobilização de comunidades para a retomada do antigo sistema de ônibus convencionais. Em Lagoa Santa, no mês passado, uma ação civil pública do Ministério Público pediu a retomada. Segundo o órgão, uma definição sobre o cancelamento deve ser apresentada no fim desta semana.
Reivindicações. Nesta quinta-feira, vereadores de Lagoa Santa entregarão à Setop propostas sobre o transporte intermunicipal da cidade. Eles cobram uma linha direta até a capital e a mudança das linhas do terminal Morro Alto para o Vilarinho.
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