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Uma mina, um mineroduto, um porto e muitos problemas. Por 525 Km, o projeto Minas-Rio, da Anglo American, vai unir, por meio de um mineroduto, a extração de minério de ferro, em Minas Gerais, ao porto, no Rio de Janeiro. O mineroduto é o maior do mundo e o complexo só espera a concessão das licenças de operação para começar a funcionar, o que deve acontecer até o fim do ano. Enquanto os tubos do projeto vão sendo enterrados, um rastro de insatisfação vai se abrindo entre os atingidos, que se sentem abandonados pela empresa.
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A SIMPATIA DO ARY

Ary Jorge Teixeira, 50 / Borracheiro / Morador do distrito do Sapo, em Conceição do Mato Dentro

Quem ouve a voz mansa e vê o sorriso largo do "seu" Ary não imagina os transtornos que a família dele enfrenta há quase um ano, quando o terreno deles foi cercado pela obra do mineroduto. Mas quem presta atenção a suas palavras, percebe o drama que ele tem vivido: além da invasão da sua propriedade e da falta dágua, ainda há a insegurança de criar filhas adolescentes a poucos metros de um alojamento com centenas de operários. "Elas não saem de casa sozinhas nem pra ir ao ponto de ônibus", conta. Isoladas de quase tudo, as meninas se alegram com a nossa presença, conversam, mostram fotos do casamento da prima e ainda nos convidam a ir a uma cachoeira que "nem fica longe, uma hora e meia daqui". Mesmo com o calor escaldante, eu e Mariela declinamos do convite porque estávamos ainda na primeira cidade do trajeto e nossa jornada era longa.

Ana Paula Pedrosa

O AMOR SIMPLES DE ARISTIDES E MARIA

Aristides José dos Santos, 88 / Maria Elisa dos Santos, 78 / Agricultores / Moradores de João Antônio, distrito de São Domingos do Prata

Com uma simplicidade desconcertante, seu Aristides e dona Maria desfiaram um rosário de lembranças e de amor que mora nos detalhes. Antes de posar para a foto, dona Maria ajeitou a gola da camisa puída do esposo. Quando viu o retrato dos dois, elogiou: "ele ficou bonito". Aristides retribuiu: "ela passa no exame". São 60 anos de casados. O convite das bodas de ouro, celebradas em 2003, está emoldurado e exposto na parede. O dos 60 anos de casados está encadernado e Aristides nos mostrou com orgulho. Quase na despedida, ele contou que Maria canta no coral da igreja. "O senhor não canta?", perguntei. Ela apressou-se em responder: "Ele canta o hino nacional bonito que você precisa ver". Saímos, eu e Mariela, com lágrimas nos olhos.

Ana Paula Pedrosa

A GENEROSIDADE DA DONA RITA

Rita Teixeira Filha Moura, 51 / Dona de casa / Moradora do distrito do Sapo, em Conceição do Mato Dentro

Chegamos à casinha simples no meio da tarde e sem avisar. O acesso é à pé por um terreno acidentado, porque a estrada que levava até lá foi engolida pelo mineroduto. Dona Rita queria aproveitar o fogão a lenha já aceso para coar um cafezinho. Recusamos porque o dia muito quente não combinava com café. Sem mais o que nos oferecer, pegou os dois únicos biscoitos de polvilho que tinha em casa, repartiu em seis pedaços e distribuiu entre os três integrantes de nossa equipe, eu, Mariela (fotógrafa) e Reginaldo (motorista). Diante da comovente generosidade, não tivemos como recusar.

Ana Paula Pedrosa

A BOA VONTADE DO JOÃO

João Batista da Silva, 32 / Lavrador / Morador do distrito de Cabeceira do Turco, em Conceição do Mato Dentro

Além de nos contar sua história, João Batista se tornou parte da equipe por um dia e meio. Sem ele, talvez não conseguíssemos encontrar os caminhos tortuosos que levam às comunidades do Turco e de Água Quente e também teríamos que nos esforçar para ganhar a confiança dos arredios moradores desses povoados. Com ele, ficou mais fácil. Como se não bastasse, João ainda fez questão de descer do carro inúmeras vezes para abrir as porteiras que encontramos pelo caminho, evitou que o carro ficasse atolado nas estradinhas de terra mais apropriadas a um veículo off road do que a um Palio,  e ajudou a Mariela a carregar os pesados equipamentos de fotografia.

Ana Paula Pedrosa

AS CRENDICES DA ADRIANA

Adriana Silva Oliveira, 28 / Tribo Imbiruçú, em Carmésia

Na falta de um título oficial para a mulher do cacique, Mariela resolveu chamá-la de "primeira dama" e eu optei por "cacica". Pois Adriana, a cacica, está grávida do terceiro filho. "Menino ou menina?", quisemos saber. "Homem", respondeu rápido o cacique, expilcando que uma tia colocou a mão na barriga da mulher e sentiu que nasceria um menino. "Tia velha sabe das coisas", justificou ele. "Vai ser moça", returcou Adriana. Ela explicou que uma coruja cantou na cozinha de casa no início da gravidez, sinal de que o bebê seria menina. Ela faria um ultrassom na semana seguinte. Pegamos o número do telefone dela e, dois dias depois, a curiosidade nos venceu e liguei para ela. "Cacica, tudo bem? Estou ligando para saber quem acertou, a tia ou a coruja..." Ela riu. Disse que a coruja estava certa e que uma menina estava a caminho da tribo.  Agora só faltava alguém da aldeia sonhar com o nome da criança, como manda a tradição.

Ana Paula Pedrosa

O BOM HUMOR DO CACIQUE TXONÃG

Romildo Alves da Conceição, 35 / Cacique / Tribo Imbiruçú, em Carmésia

O chefe dos Pataxós abriu a aldeia e não economizou na prosa: contou que a tribo faz, todo ano, um intercâmbio cultural com os parentes de Porto Seguro (BA), nos convidou para voltar em outubro para participar da festa das águas  e ainda nos batizou com nomes indígenas: eu sou Adxuara (pronuncia-se Andiuara), que significa Rosa, e Mariela é Txahá (Tcharrá), que significa Flor. Reginaldo, que não desceu do carro nesse dia, não ganhou nome Pataxó e continua sendo Reginaldo mesmo.

Ana Paula Pedrosa

A MOBILIZAÇÃO DA DADÁ

Maria da Graça Drumond Andrade  / Professora / Moradora de São Domingos do Prata

Maria da Graça é conhecida em São Domingos do Prata como Dadá. E bem conhecida. É ela quem reúne e mobiliza os moradores da região em busca de soluções para os problemas causados pelo mineroduto. Na sua luta, ela já procurou o Ibama, foi recebida pelo promotor do Ministério Público e participou de audiências públicas em Belo Horizonte. Elétrica, nos recebeu junto com o marido, Beline, para um café da manhã delicioso, traçou um roteiro que facilitou muito a nossa vida naquele dia e foi de uma hospitalidade sem igual.

Ana Paula Pedrosa

O SENSO CRÍTICO DO PINDUCA

José Roberto de Almeida (Pinduca)52 / Agricultor / Morador de Água Preta, distrito de São João da Barra

São João da Barra (RJ), destino final da nossa jornada. É lá que está o Porto de Açu, que receberá o minério que vai sair de Conceição do Mato Dentro (MG) para ser exportado. É lá que encontramos Pinduca, um agricultor de 52 anos, morador do distrito de Água Preta, dono de terras secas, atingidas pelo processo de salinização gerado com a obra do porto. Dono de um olhar capaz de transmitir toda a revolta e de um senso crítico surpreendente, aceitou prontamente conversar com a reportagem, mostrou a indignação em cada pé de abacaxi seco. “Não sou contra o porto. Sou contra o ‘desarespeito’. Quando o governo decreta acabar com a água, decreta acabar com o país”, desabafou.

Queila Ariadne

Especial Mineroduto

Porto do Açu 'salgou'  a terra dos produtores 

Morador reclama que a construção do porto, destino final do minério que sairá de Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas, tirou dos agricultores a possibilidade de plantar

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PUBLICADO EM 28/03/14 - 03h00

“Eu não sou contra o porto. Eu sou contra o ‘desarrespeito’”. A frase é do agricultor José Roberto de Almeida, 51, o Pinduca, morador do distrito de Água Preta, em São João da Barra (RJ), onde fica o porto do Açu. Ele reclama que a construção do porto, destino final do minério que sairá de Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas, tirou dos agricultores a possibilidade de plantar. “Quando eles puxaram a água do mar, o sal veio junto, e isso arrasou a agricultura”, conta.

Ele caminha rápido para mostrar as plantações totalmente secas, e as palavras saem quase que no mesmo ritmo dos passos, dando dimensão da revolta. “Aqui era abacaxi, aqui era maxixe, aqui era quiabo. Agora, olha, tudo seco. Perdi 70% do que plantei. A água que usamos para irrigar a lavoura está podre por causa do sal. O que é isso? É crescimento?”, desabafa.

Essa revolta levou os agricultores a procurarem o Laboratório de Ciências Ambientais (LCA), da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), que, desde de 2012, faz um estudo para medir a salinização no canal de Quitingute, na bacia do rio Doce, que banha a região. Na ocasião, foram encontradas amostras com índice de até 640 microsiemens por centímetro (µS/cm – unidade de medida de condutividade, usada para verificar a quantidade de sódio e indicar se a água é salobra). Segundo o professor Carlos Rezende, que coordenou o estudo, a água boa para irrigação deve ter, no máximo, 300 µS/cm.

Outro levantamento, feito pela empresa ERM em 2013, comprovou que a condutividade alcançou picos de 42 mil µS/cm. Para abacaxi, que tem presença marcante na região, o recomendável é 3.000 µS/cm. As referências estão em um estudo inédito, ao qual a reportagem teve acesso.

O levantamento foi encomendado pela LLX (atual Prumo e ex-empresa do grupo de Eike Batista) ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF) para verificar as condições atuais das águas do canal de Quitingute. De acordo com o relatório, a água foi avaliada em 55 propriedades, e, em agosto de 2013, 11% ainda apresentavam alto nível sódico no solo.

A medição aconteceu um ano depois que um dos tanques de transferência da LLX apresentou uma falha técnica durante as perfurações e extração do sal para a construção do porto do Açu. A água salgada vazou para córregos e rios.

Estudos como os da Uenf embasaram uma ação civil pública do Ministério Público Federal de Campos dos Goytacazes para provar que as obras para a construção do porto causaram a salinização em áreas de solo, de águas doces em canais e lagoas e da água tratada para o consumo humano. Em fevereiro deste ano, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) reconheceu que houve impactos no canal de Quitingute e em toda a região. A desembargadora Maria Helena Cisne reconheceu que a salinização pode ter atingido ainda a rede de água para abastecimento humano em toda região.

Grupo X

Desde 2012, o procurador da República, Eduardo Santos de Oliveira, do MPF de Campos dos Goytacazes, move uma ação civil pública contra EBX, OSX (do grupo de Eike) e LLX (agora Prumo), por conta da degradação ambiental causada pelas obras do porto do Açu. O Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea) e o Ibama também são réus.

Agora, com a decisão do TRF2, Oliveira espera um precedente para que os agricultores sejam ressarcidos. “Essa vitória significa que o MPF foi reconhecido como órgão competente para fiscalizar os impactos das obras do porto do Açu, o que era questionado, pois o licenciamento é fatiado e, no caso do porto, foi concedido pelo Estado do Rio de Janeiro, e não pelo Ibama. A partir daí, temos expectativas de decisões favoráveis aos prejudicados”, diz.

Rádio Super

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