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“Hannah”

Charlotte Rampling carrega novo filme em seu rosto

O diretor italiano Andrea Pallaoro tenta elevar isso a uma outra potência e construir todo o seu filme no rosto da estupenda Charlotte

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Charlotte venceu a Copa Volpi de melhor atriz em Veneza pelo filme
PUBLICADO EM 12/07/18 - 03h00

Ingmar Bergman recebeu o crédito pela exploração de uma “dramaturgia do rosto” – a ideia de um close-up “grávido” de sentidos, capaz de expressar mais que mil palavras. Mas a prática pode ser remontada aos primórdios do cinema, com Carl Dreyer e seu “O Martírio de Joana D’Arc”. 

Em “Hannah”, que estreia nesta quinta-feira (12), o diretor italiano Andrea Pallaoro tenta elevar isso a uma outra potência e construir todo o seu filme no rosto da estupenda Charlotte Rampling. Só que ele esquece que a ideia de “dramaturgia do rosto” pressupõe uma dramaturgia – e não apenas um rosto. E, por mais que o rosto da atriz inglesa (premiada em Veneza pelo papel) carregue o longa e hipnotize o espectador, fica a sensação de que falta algum outro elemento ali à altura dela – a exemplo do que o cineasta Andrew Haigh fez no recente e excelente “45 Anos”. 

Roteiro. Charlotte vive a Hannah do título, uma mulher que parece gradualmente perder seu lugar no mundo após o marido (André Wilms) ser preso. Ela busca preencher o vazio deixado por ele, acentuado pelo fato de que o filho se recusa a vê-la, com uma rotina que inclui aulas de teatro e natação, enquanto tenta sobreviver como diarista de uma família de classe alta.

É um cotidiano que deixa cada vez mais clara a solidão e a impossibilidade de Hannah de verbalizar a dor que sente, o que explica a quase ausência de diálogos. Pallaoro mergulha o espectador nesse estado de espírito da protagonista, um mundo sem música e monocromático, com uma paleta que varia entre o azul e o cinza. 

Sem todos esses elementos, o cineasta escreve tudo que o espectador precisa saber no rosto de Charlotte. Incapaz, ou impossibilitada, de comunicar o que sente, Hannah busca no mundo reflexos do que ela não pode expressar ela mesma – de uma briga de estranhos no metrô à exasperante cena final na aula de teatro –, com a performance silenciosa da atriz mediando e ressignificando esse seu universo para o público. 

E esse universo interior da personagem interessa bem mais a Pallaoro que o exterior. O filme não oferece descrições ou explicações fáceis – sugerindo fortemente, mas nunca revelando, por exemplo, o motivo da prisão do marido de Hannah – o que pode exasperar o espectador. Mas o fato é que “Hannah” é um estudo de personagem incondicional e minimalista, que recusa a fornecer uma trama convencional para suavizar a dura e constante descida da protagonista ao ostracismo. 

O curioso é que, ainda assim, Pallaoro se rende a metáforas pouco sutis e elegantes, como a baleia encalhada na praia. Seu longa funciona melhor quando aposta em imagens menos óbvias, como a recorrência de filmar Hannah no metrô – uma mulher em trânsito, sem lugar, escolha que fica clara no plano final. Mas mesmo com todas essas estratégias, o longa só sobrevive a sua subnutrição dramatúrgica graças à presença de Charlotte Rampling e seu rosto na tela. Sem ela ali, o filme não se sustentaria.

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