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Cinema

2016, o ano que não acabou

Premiado internacionalmente, documentário 'O Processo' narra os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff

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Dilma
PUBLICADO EM 16/05/18 - 03h00

O primeiro plano de “O Processo” é uma tomada aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no dia da votação do impeachment no Congresso. De um lado, “coxinhas”; do outro, “petralhas”. Direita x esquerda. Impeachment x golpe. É uma imagem digna de “Game of Thrones” – dois exércitos a postos para a batalha –, que não apenas representa um país dividido, como anuncia o embate que a cineasta Maria Augusta Ramos pretende apresentar nos próximos 137 minutos do documentário que estreia nesta quinta-feira (17). E que casa perfeitamente com o plano final do longa, talvez a síntese mais poética e devastadora do resultado dessa guerra.

Maria Augusta, porém, não é uma diretora de filmes de guerra. Sua obsessão, desde seus documentários mais famosos – “Justiça” e “Juízo” – é filmar o teatro das instituições. Observar a encenação de ritos rigidamente estabelecidos e captar as dinâmicas de poder e os significados subliminares escondidos nesse jogo de cartas marcadas. 

E, assim como nesses dois longas anteriores, em “O Processo”, ela se propõe a registrar isso a partir de um julgamento. Duas semanas antes da votação no Congresso, a diretora foi para Brasília, começou a filmar e, quando a abertura dos ritos de impeachment foi aprovada na sessão presidida pelo então deputado federal Eduardo Cunha, decidiu acompanhar seu andamento desde as comissões até a votação final no Senado. 

A grande diferença é que, se em “Justiça” e “Juízo” os personagens envolvidos não tinham tanta consciência de serem atores num teatro social pré-estabelecido, os protagonistas de “O Processo” – a acusação e a defesa no julgamento de Dilma Rousseff – são veteranos especialistas nele. Eles sabem que o resultado da cassação está dado desde o início – e admitem isso. E o que importa, portanto, é sua performance: a atuação mais convincente para cativar o espectador e cumprir seu papel na história – e história aqui, em todos os sentidos possíveis. 

“Mesmo que saibam que estão sendo filmados, que estão atuando para um público, os parlamentares expressam argumentos, discursos, maneiras de pensar e valores que são importantes e definem cada um deles”, analisa Maria Augusta. Para ela, por meio dessa atuação, das falas, do gestual, é possível refletir sobre a sociedade brasileira. “O teatral também é verdadeiro, ele tem um significado”, defende. 

Ciente disso, a cineasta estrutura seu filme nesses dois lados: a defesa, protagonizada pela trupe de Gleisi Hoffman, José Eduardo Cardozo & cia.; e a acusação, com Janaína Paschoal, Anastasia e sua patota. “Meu objetivo era destrinchar para que eu e o público leigo pudéssemos compreender melhor as bases das acusações, das tais pedaladas, tendo acesso aos argumentos dos dois lados, e fazer uma obra aberta para que as pessoas tirem suas próprias conclusões”, explica. O que, ela ressalta, não quer dizer que seja um longa neutro. “Não é isento. Não é imparcial. O filme é minha visão pessoal. Mas a proposta é convidar o público a ter acesso aos dois campos, e possibilitar esse posicionamento por meio de uma reavaliação”, argumenta. 

O que não foi algo fácil. Foram 450 horas de material filmado, e um corte inicial de quatro horas. E o grande milagre operado por Maria Augusta e sua montadora Karen Akerman (“O Lobo Atrás da Porta”) é transformar isso em um grande filme. É difícil imaginar uma razão para alguém querer revisitar esse verdadeiro show de horrores, mas as duas encontram uma: elas o transformam em uma história satisfatoriamente contada. O Brasil contemporâneo é um conto de som e fúria – mas talvez haja um sentido ali no meio, se o narrador não for um idiota.

Silêncio. “O Processo” vai do horror “torture porn” da votação no Congresso do prólogo, ao cômico farsesco de algumas sessões na comissão, ao monólogo dramático dos embates políticos, ao silêncio trágico e reflexivo. Sem entrevistas nem narração em off (assim como seus filmes anteriores), é quase como se Maria Augusta conseguisse, por alguns instantes, transformar aquilo numa ficção bem encenada, e quase distante, que não aconteceu conosco. Com personagens bem escritos. E escolhas narrativas acertadas, como tornar Dilma uma coadjuvante que só aparece em momentos-chave, ou deixar Michel Temer restrito ao extra-campo – uma eminência parda nunca mostrada, sempre mencionada. “Ele não estava envolvido diretamente no processo no Senado. Era uma parte importante dele, mas não essencial”, justifica a diretora.

Só que num certo momento, a ilusão se desfaz, os mecanismos de defesa baixam a guarda, e o filme te acerta como uma porrada. E como toda história bem contada, provoca uma catarse em que você sofre tudo aquilo de novo. Necessária, porém nada fácil, nem agradável. Mas a história – em todos os seus sentidos – nem sempre é.

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