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Adriana Calcanhotto: da cor de brasa da madeira

Adriana Calcanhotto estreia nacionalmente, nesta sexta (10), em Belo Horizonte, seu novo show: 'A Mulher do Pau Brasil'

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PUBLICADO EM 09/08/18 - 03h00

Quando Adriana Calcanhotto, 52, cruzou o Atlântico a convite da Universidade de Coimbra, a ideia era que ela assumisse o cargo de embaixadora da instituição na área da língua e da cultura. Porém, na sequência, a cantora recebeu o convite para ministrar, na faculdade de Letras, “Como escrever canções”. O curso, com inscrições esgotadas, abriu a possibilidade de ela ficar por mais um semestre em Portugal.

“É uma experiência que caiu no meu colo – e só posso dizer que estou muito grata”, resume a gaúcha, que, durante a temporada no país europeu, se propôs a uma vivência que encontra ecos nas experimentadas por outros brasileiros no curso da história. “Há uma tese do professor (cientista política e historiador) José Murilo de Carvalho que fala da elite cultural que se conheceu em Coimbra em várias ondas no tempo. Todas as ideias de independência do Brasil em relação a Portugal, as sementes começaram com os alunos daqui que iam para lá”, diz.

Imersa em pensamentos e ideias, Adriana acabou se reconectando com o Manifesto Antropofágico, lançado nos anos 20 por Oswald de Andrade (1890-1954). A torrente desaguou no show “A Mulher do Pau Brasil” – assim mesmo, com quatro letras maiúsculas e sem hífen (“Oswald também escreve sem hífen”, argumenta) –, que tem estreia nacional, nesta sexta (10), em Belo Horizonte.

O quadrado vermelho pintado no rosto da cantora (índia futurista ancestral, imagem que vai estar na entrada do teatro) é a síntese gráfica desta Mulher do Pau Brasil. “Conversei com (a artista plástica) Adriana (Varejão), falamos desse olhar eurocêntrico, de que o ritual antropofágico é selvagem e desordenado, quando na verdade é espiritual. Andam dizendo que ‘a nossa bandeira jamais será vermelha’. Mas o sangue dos índios, dos escravos, a extração do pau-brasil, tudo isso é uma dor brasileira que não é representada na nossa bandeira”, aponta a cantora, lembrando que o “brasil” de “pau brasil” é uma referência à cor de brasa da madeira.

Na verdade, a semente de tudo pode ser detectada em 1987, quando, ainda em terras gaúchas, Adriana apresentou um show homônimo, que se iniciava com a releitura de “Eu Sou Terrível”, de Roberto e Erasmo Carlos.

Passados 30 anos, veio a ideia de reativá-lo, porém transmutado como um show-tese, “como trabalho final de curso”. O passo seguinte foi ampliá-lo para apresentações Portugal afora e, agora, no Brasil. “Às vezes me dou conta, nos ensaios: ‘Meu Deus do céu, ainda estou aqui, ensaiando ‘Eu Sou Terrível’ (risos). Mas, ao mesmo tempo, é bacana, as coisas mudaram muito nesse meio-tempo”, avalia.

A diferença em relação à turnê lusitana é que, aqui, Adriana não contará com os músicos que a acompanharam por lá. No lugar deles, entram em cena Bem Gil e Bruno de Lullo. Já em relação ao ponto de partida – aquele, lá atrás, de 1987 –, há um diferencial e tanto. “No primeiro show, A Mulher do Pau Brasil era uma pessoa idealizada, uma personagem. Mas, recentemente, me dei conta de que ela sou eu. E, quanto mais permaneço na Europa, mais me sinto a mulher do pau brasil”, situa.

Aliás, a cantora e compositora ressalta que o conceito não repensa só as ideias de Oswald de Andrade e do grupo dele, como encontra ecos no Tropicalismo e na montagem histórica de “O Rei da Vela”, feita por Zé Celso Martinez em 1968. “O show mexe com isso – com essas ideias e com a forte influência que eu sempre tive delas”, afirma.

Além da citada “Eu Sou Terrível”, o repertório inclui pérolas como “Geleia Geral”, poema de Torquato Neto musicado por Gilberto Gil. “E tem também ‘ A Dor Tem Algo de Vazio’, poema de Emily Dickinson, traduzido pelo Augusto de Campos e musicado pelo Cid de Campos”. Ela vai cantar também “As Caravanas”, de Chico Buarque, e “Nenhum Futuro”, de João e Francisco Bosco, ambas lançadas em 2017.

O roteiro prevê, claro, autorais, como a recentíssima “A Mulher do Pau Brasil”, concebida já no espírito do espetáculo. “Trouxe canções que estavam esparramadas por repertórios vários meus ao longo desses anos, mesmo em momentos que essas questões não eram protagonistas”, diz. (Com Thiago Prata e agência)

 

Cumplicidade com o público mineiro

No que tange a sua relação com a capital mineira, Adriana Calcanhotto sintetiza: “É a de sempre: a cumplicidade do público com o meu trabalho e a possibilidade de me apresentar em uma sala que adoro e que considero uma das melhores do Brasil... E é tão bacana voltar, e voltar com outras coisas e saber que o público está ali, me esperando, querendo ver o que quer que seja... Então, acho que vai ser bonito”, promete.

Em tempo: a cantora, que no ano passado lançou, pela Companhia das Letras, o livro “É Agora Como Nunca: Antologia Incompleta da Poesia Contemporânea Brasileira”, no qual se incumbiu da organização, participou, na semana passada, da abertura da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que segue até domingo, dia 12, no Pavilhão de Exposições Anhembi.

Agenda

O quê. “A Mulher do Pau Brasil”, com Adriana Calcanhotto.

Onde. Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro, 3236-7400).

Quando. Sexta (10), às 21h.

Ingressos esgotados.


Confira letra da música inédita que dá nome ao show de Adriana Calcanhotto e o repertório do espetáculo:

"A Mulher do Pau Brasil"
Foi para o Rio
E amou como nunca se viu
Depois do rio que tragou
No além mar onde emergiu
Chamam-lhe
A Mulher do Pau Brasil
Chamam-lhe
A Mulher do Pau Brasil
Trabalha no negócio da folia
Trabalha no negócio da orgia
Trabalha no negócio da poesia
Trabalha no negócio do ócio
Nasceu no sul
Foi para o Rio
E amou como nunca se viu
Depois do rio que tragou
No além mar onde emergiu
Chamou-se
A Mulher do Pau Brasil
Chamou-se
A Mulher do Pau Brasil
Trabalha no negócio da folia
Trabalha no negócio da orgia
Trabalha no negócio da poesia
Trabalha no negócio do ócio,
Nasceu no sul
Foi para o Rio
E amou como nunca se viu
Depois do rio que tragou
No além mar onde emergiu
Chamam-me
A Mulher do Pau Brasil
Chamem-me
A Mulher do Pau Brasil
Chamai-me
A Mulher do Pau Brasil (Cham I’m A Mulher do Pau Brasil)
Chamo-me
A Mulher do Pau Brasil
"

Set list (músicas confirmadas no show)
"Range Rede" (instrumental)
"A Mulher do Pau Brasil"
"A Dor Tem Algo de Vazio"
"Mortal Loucura"
"Esquadros"
"Noite de São João"
"Inverno"
"Era pra Ser"
"Outra Vez"
"Devolva-me"
"Vamos Comer Caetano"
"Nenhum Futuro"
"As Caravanas"
"Geleia Geral"
"Vambora"
"Juízo Final"
"Eu sou Terrível"

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