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“Eufrates”

André de Leones passeia lento pela história recente do Brasil

Dois amigos conduzem narrativa que trata de luta e comunhão

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PUBLICADO EM 15/09/18 - 03h00

André de Leones é escritor e tradutor brasileiro, nascido em Goiânia e radicado em São Paulo. Autor, entre outros, de “Abaixo do Paraíso” (Rocco, 2016), “Terra de Casas Vazias” (Rocco, 2013) e “Hoje Está um Dia Morto” (Record, 2006, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura), além da coletânea de contos “Paz na Terra Entre os Monstros” (Record, 2008), acaba de lançar seu novo livro, o belíssimo “Eufrates”.

“Eufrates” é um romance cinematográfico-literário que tem como pano de fundo diversos eventos que ocorreram entre os anos 1991 e 2013 no Brasil e em Israel. Conduzidos pelos protagonistas e amigos Moshe e Jonas, o livro nos apresenta, com maestria e originalidade narrativa, as relações pessoais, os desencontros, as aspirações e as desventuras de todos nós – pessoas ditas “normais”. E é com essa normalidade e tensão que o texto caminha delicadamente sempre acompanhado de um clima de amizade entre os protagonistas. A narrativa lenta e dura nos questiona sobre a possibilidade de uma comunhão ou de confidência entre pessoas mesmo vivendo um caos político e moral. Momento que assolava (e ainda está presente) o Brasil e o mundo durante o tempo literário do livro.

Um bom texto literário é capaz de revelar e esconder, despertar desejos e reprimir lições, iluminar e ao mesmo tempo dissimular, e é exatamente isso que o olhar arguto do narrador de “Eufrates” faz. Nos aproximamos da letargia e da apatia de Moshe – uma forma de encarar as incoerências e os absurdos da vida –, visitamos os desencontros e os desencantos do ordinário Jonas, sem muitas explicações e teorizações – como é a vida, afinal –, e nos angustiamos diante do enigma e das aspirações freudianas das mulheres, Manoela, Iara, Nili, entre outras. Enquanto os frágeis personagens masculinos se deixam levar passivamente pela vida, as personagens lacunares femininas inflamam a pergunta feita por Freud em 1953: “A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não tenho sido capaz de responder, apesar de meus 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: ‘O que quer uma mulher?’”. Não há resposta, não há explicação e nem sublimação, mas há uma vontade de conhecer mais a fundo os mistérios e as incongruências das pessoas.

E nesse clima ou clímax, o narrador desconstrói ou desilude seus personagens apresentado uma certa solidão, um grande desespero, e muitas vezes até uma depressão e uma indiferença em relação ao futuro e ao momento vivido, apesar da esperança ainda persistir – e insistir em margear o texto.

Chama-me particularmente a atenção os “passeios”, como nomeou Umberto Eco, “pelos bosques da ficção” que a narrativa nos proporciona. Somos conduzidos sutilmente, em qualquer pequeno trecho do livro, pelos bosques do passado, dos sonhos irrealizados, das figurações epifânicas e históricas. Um direcionamento que só é possível ser feito por um grande escritor e por um ótimo livro.
Vale a pena se perder nos bosques, nas páginas, nas veredas incertas e cotidianas de Eufrates.

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