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Atemporalidade de Mautner 

Lançamento de box com os três primeiros álbuns do artista coroa momento de revisão de sua obra inaugural

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Filho. Para o documentário “O Filho do Holocausto”, Mautner regravou suas músicas de outrora
PUBLICADO EM 11/02/14 - 04h00

Em 2012, veio à luz o documentário “O Filho do Holocausto”, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, cuja trilha sonora remonta, em boa parte, aos primeiros anos de produção fonográfica de Jorge Mautner. No ano passado, durante a Virada Cultural de São Paulo, ele fez um show inteiramente dedicado ao repertório de seu segundo álbum, lançado em 1974. E agora, neste início de 2014, sai pela série “Tons”, da Universal, uma caixa que reúne os três primeiros álbuns de Mautner, “Para Iluminar a Cidade”, de 1972, “Mil e Uma Noites de Bagdá”, de 1976, e o já referido disco de 1974, que levava apenas o nome do artista como título.
 

Essa sequência revisionista não se dá, nem de longe, porque Mautner não tenha nada de novo a dizer – aliás, ele começa a gravar ainda neste mês um novo álbum de inéditas, com previsão de lançamento para o segundo semestre –, mas porque se ocupa de obras que são atemporais e, mais que isso, permanecem atualíssimas, conforme destaca o jornalista Renato Vieira, que já atuou como repórter neste Magazine e que responde pela seleção de títulos, pesquisas e textos do recém-lançado box, intitulado “Três Tons de Jorge Mautner”.

“Ele sempre foi um farol, foi para os tropicalistas, foi para Caetano e Gil no pós-tropicalismo, quando voltaram do exílio, e continua sendo. Quem está tocando hoje em dia com ele são os músicos jovens. O Mautner está muito ligado nessa questão de nova geração, até porque a obra dele sempre esteve olhando pra frente, então continua atual. Exatamente por ele ter essa coisa à frente de seu tempo, irreverente, a nova geração se identifica muito com ele”, diz Vieira, destacando o contínuo interesse por sua obra.

“O primeiro disco já foi praticamente todo regravado, por gente como Lulu Santos, Sílvia Machete, Wanderléa. Do segundo disco, a gente tem ‘Maracatu Atômico’, que sempre foi muito gravada e regravada por outros intérpretes. No show da Virada Cultural, no ano passado, ele falou isso, que tinha feito aquele disco de 1972 pensando no futuro e que, 40 anos depois, as pessoas estavam ali entendendo o que ele estava tentando dizer”, aponta.

O próprio Mautner não hesita em dizer que os três álbuns ora relançados tiveram uma importância grande à época e seguem plenos de significados. “Aqueles discos são o modelo do que veio ocorrer depois, até porque é tudo ligado à minha literatura. São muitos temas, mas todos com um mesmo enfoque, de interpretação da cultura brasileira. Esses três discos têm muita história e têm atualidade, as propostas e tudo o que se segue a partir deles. É uma obra ligada a maravilhas que são atemporais”, diz, sem esconder o entusiasmo com que fala do amálgama que é a singularidade que glorifica o Brasil.

“É esse amálgama de que, em 1823, José Bonifácio já fala. Já no século XX, a antropofagia de Oswald de Andrade é esse amálgama em fúria, que depois se expressa com a construção de Brasília, com a Bossa Nova, a Tropicália. O Carnaval é outra grande expressão disso. Tudo é absorvido no Brasil e todos os problemas brasileiros serão triturados pela majestade grandiosa. Isso é o que está na motivação de todos esses trabalhos meus, escritos ou musicados”, diz.

Renato Vieira também credita o viés politizado que subjaz na obra de Mautner como um dos fatores de sua durabilidade. “Nesses discos dos anos 70, ele já se coloca de uma forma altamente politizada, e não existe ali nenhum ranço ideológico, não é uma coisa partidária. O ‘Para Iluminar a Cidade’, abre com a faixa ‘Super Mulher’, que o Mautner fez porque estava ligado no movimento feminista. Ele é um cara que não olha só pra frente, mas também para trás e para os lados. É um acúmulo de fatores que garante essa permanente atualidade do Mautner”, afirma.

O artista concorda com esse traço indelével de sua vida e de sua obra: “Desde 1956, quando comecei a escrever o ‘Deus da Chuva e da Morte’ (seu primeiro livro, publicado em 1962), o que eu estava fazendo é o movimento para, através da arte, mudar o país e mudar a vida”.

Discos da caixa
“Para Iluminar a Cidade”

Registro de show feito em abril de 1972, no Teatro Opinião, foi puxado pelo sucesso “Quero Ser Locomotiva”
“Jorge Mautner”
Com direção musical de Gil, traz músicas como “Maracatu Atômico” e “Cinco Bombas Atômicas”. É tido por muitos críticos como seu melhor disco
“Mil e Uma Noites de Bagdá”
Disco feito, segundo o próprio Mautner, “para tocar no rádio”, com produção mais esmerada

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