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Análise

Boicote à obra carrega simbolismo

“Nós somos formados por três raças, e as crianças precisam saber da cultura de cada uma delas”, diz a proprietária da Mazza Edições

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Criação. Maria criou a Mazza Edições depois de perceber falta de espaço para negros escritores
PUBLICADO EM 03/04/18 - 03h00

O boicote ao livro “Omo-Oba: Histórias de Princesas”, da autora Kiusam de Oliveira, não significa apenas a não circulação da obra, mas também carrega uma forte carga simbólica sobre o ensino da cultura africana nas escolas. É o que indica Maria Mazzarello, proprietária da Mazza Edições. “Nós somos formados por três raças, e as crianças precisam saber da cultura de cada uma delas. Esse é o papel da escola, e não o de dizer que o livro é coisa do diabo”, diz.

Ela ainda argumenta que, quando tipos de publicações como essa são perseguidas, a autoestima de crianças e mulheres negras é afetada. “Nós, mulheres negras, temos a autoestima baixa porque temos que matar um leão por dia para enfrentar o racismo. O que vejo é um retrocesso”, indica.

Maria, aliás, já notou, ao longo de sua carreira, que pelo menos três obras suas com a temática negra não foram premiadas por editais por causa do fundamentalismo religioso. “Quando procuro saber o motivo da rejeição, descubro que é porque os examinadores acham que é coisa do diabo”, comenta.

À frente da Editora Malê, Vagner Amaro diz que a falta de diretores pedagógicos negros nas escolas também é um fator dificultador para a disseminação da cultura africana nas instituições de ensino. “A maioria dos professores não é negra. Não apresentando os conteúdos da cultura afro-brasileira, estamos negando o Brasil e a sua diversidade”, diz.

Editoras. O trabalho das editoras que publicam e divulgam material escrito por pessoas negras é fundamental para que o ensino da cultura africana nas escolas se fortaleça. Funcionando desde 1971, em Belo Horizonte, a Mazza Edições foi criada depois que Maria percebeu que “As editoras brasileiras davam pouco ou quase nenhum espaço para escritores negros e que quase não existiam livros ilustrados para crianças com personagens negros”, diz.

“Sou uma mulher negra. E, quando abri a editora, a minha ficha já tinha caído. Eu tinha captado o problema do racismo no Brasil, que existe desde o período escravocrata”, revela. Entre as áreas de atuação da editora estão a de antropologia, sociologia, história, educação e literatura brasileira.

Também na capital, a Nandyala Livros se dedica à publicação de literatura afro-brasileira há 12 anos. Criada há dois anos no Rio, a Editora Malê é outra que exerce trabalho de publicação e divulgação de obras produzidas por negros. Para Amaro, entretanto, “A própria existência das editoras negras revela que existe desigualdade do mercado editorial para este tipo de produção”, nota. “O ideal é que essas editoras não precisassem existir. Por outro lado, elas ampliam o canal de comunicação dessa literatura que trabalha com a humanidade dos sujeitos negros”, completa.

Amaro percebeu, com a criação da Malê, uma crescente demanda tanto de autores que desejam ter seus trabalhos publicados quanto de pessoas que anseiam por consumir os livros. “O que percebei é que existia uma lacuna de autores negros que não estavam representados nas livrarias e (eram lembrados) em poucos eventos literários. Mas existe uma demanda imensa de autores negros querendo que seus livros sejam mais bem distribuídos, além de jovens negros escrevendo muito bem”, pontua. Recentemente, a editora também lançou o selo Malê Mirim, com publicações voltadas para crianças.

Não é isolado

Proprietário da Editora Malê, Vagner Amaro analisa que o caso envolvendo o livro “Omo-Oba: Histórias de Princesas” não é isolado. “Quando participamos de seminários ligados à educação, são diversos os relatos de professores que têm o desejo de implementar esse tipo de ensino, mas sempre encontram muita resistência”, conta.

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