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Memória

Carolina Maria de Jesus é tema de HQ e obra de ensaios

Autora paulista morou na favela do Canindé e teve seu trabalho descoberto nos anos 50

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Obra. Carolina Maria de Jesus trabalhava como catadora e registrava o cotidiano da comunidade em cadernos que achava no lixo
PUBLICADO EM 22/10/16 - 03h00

SÃO PAULO. Negra, pobre, mãe solteira de três filhos, favelada, catadora de papel. Tais epítetos que se ligam a Carolina Maria de Jesus (1914-1977) costumam ser enfileirados antes de se dizer que ela também foi um fenômeno literário mundial nos anos 60.

Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, da “Folha da Noite” (precursora da “Folha de S.Paulo”), durante uma matéria sobre a extinta favela do Canindé, em São Paulo, a mineira tinha uma pilha de cadernos que incluíam diários, poemas e ficção. A partir do material saiu “Quarto de Despejo”, livro de 1960 focado na vida dos favelados do período.

Com a alcunha “vedete da favela”, ela chegou a números hoje reservados a youtubers: 100 mil exemplares vendidos no Brasil. O livro foi lançado em 16 países naquela década e adaptado para teatro e um álbum de canções, com letra e voz da própria Carolina.

Apesar de ter seguido carreira com outros quatro livros – um deles póstumo –, a autora desapareceu rápido dos holofotes. Cinquenta anos depois, virou uma curiosidade ou um símbolo da literatura marginal, lembrada principalmente em trabalhos acadêmicos. E, agora, numa biografia em quadrinhos.

Artista plástico e quadrinista, João Pinheiro vinha fazendo excursos biográficos em torno de autores da geração beat: lançou “Kerouac” (Devir, 2011) e “Burroughs” (Veneta, 2015). Na primeira produção sobre uma escritora brasileira, divide o roteiro com Sirlene Barbosa, pesquisadora da obra de Carolina.

O álbum assume a função biográfica, mas não fica apenas nesta. Há uma linha quase integralmente linear que parte de Carolina já favelada e mãe de três, pouco antes de virar autora publicada, até sua morte. Mas esta linha é entrecortada por trechos das histórias da escritora, algumas delas dramatizadas na HQ – são histórias da favela, do que ela via no seu entorno.

Permitindo-se ver o universo pelos olhos de Carolina, a narrativa começa a ingressar no mundo interno da autora. A HQ cresce quando chega em cenas fantasiosas, como a em que a escritora paira acima da favela, da cidade, do planeta, e toma uma estrela nas mãos. É uma transição que faz bom uso de recursos poéticos, atribuindo ousadia ao livro.

O estilo levemente mais didático assume a narrativa a partir daí, para contar sua vida após “Quarto de Despejo”. Há cenas paradas, até reprodução de fotos, para narrar a realidade de Carolina autora. Destaca-se o contraste entre o apreço que ela recebeu da elite e o desprezo dos vizinhos, que se sentiram explorados por aparecer nos livros.

A linearidade some de novo ao final, em uma cena que volta à infância. É um belo fechamento, que fixa a estrutura ora didática, ora poética. O resultado é uma perspectiva de Carolina Maria de Jesus que tenta contemplar como foi viver na pele da escritora. (Érico Assis)


Estudos sobre autora viram livro em BH

O grupo de estudos Mulheres em Letras, da UFMG, também se debruçou sobre os trabalhos de Carolina Maria de Jesus. Em 2014, o “VI Colóquio Mulheres em Letras” teve inúmeras mesas redondas e palestras sobre a autora. O resultado, uma obra com estudos sobre diversos aspectos da produção artística da escritora, feita por 14 pesquisadoras e 3 pesquisadores, é lançado neste sábado (22), às 10h, no Idea Espaço Cultural (rua Bernardo Guimarães, 1.200, Funcionários). No evento, integrantes do grupo estarão presentes para promover um bate-papo sobre a temática. (Da Redação)

 
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“CAROLINA”
João Pinheiro e Silene Barbosa, Veneta, 128 págs., R$ 39,20
 
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“Memorialismo e Resistência”
Mulheres em Letras, Paco editorial, 224 págs., R$ 40

 

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