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Entrevista

Diante do 'ovo da serpente'

Autora da obra “Odiolândia”, que integra a Bienal de Arte Digital e pode ser vista no Museu de Arte da Pampulha, a artista comenta como o trabalho segue reverberando e aborda a preservação de projetos criados na web

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Giselle Beiguelman
Giselle Beiguelman, artista, professora e pesquisadora
PUBLICADO EM 01/04/18 - 03h00

“Odiolândia” foi concebida para a mostra “São Paulo Não É Uma Cidade: As Invenções do Centro” e, frequentemente, é avaliada como perturbadora pelo fato de mostrar a intensidade do discurso de ódio nas redes sociais. De lá para cá, você acha que as “odiolândias” têm se espalhado?

Cada vez mais tenho a percepção de que são “continentes-odiolândia”. Eu venho seguindo os comentários, desde janeiro, em torno do julgamento do Lula, acompanhei as publicações após a execução da vereadora Marielle Franco, e, realmente, o clima é assustador. As redes são, de fato, reveladoras de uma manifestação de conflitos que está se explicitando.

Você acha que isso acontece, principalmente, nesses espaços porque as pessoas ali se valem de algum possível anonimato?

Eu acho que não. A Web 2.0, tecnicamente, diminuiu muito esse espaço do anonimato, porque os perfis são ligados às pessoas. E eu não acho que elas se escondem para revelar seus ódios nem que isso é um caso particular do Brasil. Acho que nós estamos de fato em um momento pré-eleitoral que têm tensionado muito a situação aqui, mas essas manifestações são algo global. O Brasil tem vivido momentos, nos últimos anos, em que os enfrentamentos têm ficado mais nítidos. Nessa última semana, o Lula estava em caravana, e um dos ônibus tomou um tiro. O ministro Edson Fachin, que é relator da Lava Jato, no Supremo Tribunal Federal, deu uma entrevista dizendo que tem recebido ameaças e está preocupado com a segurança de sua família. Esse é o clima que nós estamos vivendo. Não há só um enfrentamento pontual entre partidos de esquerda e direita no país. Nós estamos vivendo um momento em que essa “odiolândia” é o nosso “ovo da serpente”. Eu faço uma referência direta, na apresentação desse projeto, ao filme “O Ovo da Serpente”, do Ingmar Bergman, não porque eu penso que nós estamos à beira do nazismo. A relação que eu faço é com essa imagem muito forte que o Bergman cria: o ovo da serpente como algo que nos aponta, como, através de uma fina membrana, você pode ver o réptil inteiro formado a partir do embrião. E esse momento que nós estamos vivendo é muito perigoso, porque nós estamos perdendo completamente a capacidade de escuta. Talvez, o que as redes favoreceram foi a existência de um espaço de múltiplas falas, onde todo mundo fala muito e ninguém escuta ninguém. Ou seja, eles são muito mais um lugar em que todo mundo atira e ninguém discute. Não são lugares de debate, mas de artilharia. É isso que elas têm se tornado.

Você acha que o deslocamento dos comentários do Facebook para o vídeo potencializou o impacto das frases que compõem a obra “Odiolândia”?

O trabalho é muito minimalista; ele é seco, e é curioso que ele cause impacto não só pelo conteúdo. Eu acho que dentro das redes, naquele maremoto dos comentários, talvez eles se neutralizem em sua virulência. Quando eles aparecem fora daquele ambiente, da rolagem da tela vertical, e são apresentados de forma sequencial, no modo como nós seguimos o fluxo natural da leitura, na linha horizontal, eles produzem um impacto muito maior. E o vídeo é completamente despido de imagens; é uma pancada.

A ideia de deixar de fora as imagens foi algo que você buscou desde o início?

Essa obra não foi pensada, ela foi parida. Eu não ia fazer esse projeto para a mostra “São Paulo Não É Uma Cidade”. Eu ia produzir uma obra sobre o Minhocão (elevado localizado em São Paulo), como os curadores haviam me pedido. Eu tenho várias obras sobre o Minhocão, que é um símbolo da cidade, e eu me identifico muito com esse imaginário. Eu estava viajando, e, como praticamente a população não só de São Paulo, mas de todo o Brasil, fui surpreendida por essa ação na Cracolândia. Eu não estava no país e acompanhei a operação, que foi muito brutal, via noticiário. Eu fui procurar imagens e havia muito pouco registro até pela maneira como a ação foi feita. Eu acabei encontrando pouca coisa no YouTube, e havia muito mais comentários sobre isso. Eu nunca havia prestado muita atenção nesses textos, e isso começou realmente a me mobilizar. Comecei a coletar os comentários e decidi que iria fazer um trabalho sobre essa ação focando muito mais a questão da reação e o que ela revelava sobre esse “ovo da serpente”. A partir daí, a estética veio junto com a coleta de comentários. Ele não foi um projeto muito elaborado. Eu comecei a reunir os comentários e já me veio esse formato de uma coisa seca, bruta, que dizia muito mais que as próprias imagens. Essas já estavam disponibilizadas; o que eu tinha a acrescentar era por meio da filtragem desses comentários, que estão muito editados. A primeira versão do vídeo tinha mais de três horas antes de chegar nesses cinco minutos, que poucas pessoas conseguem assistir até o final.

Seu primeiro trabalho, “O Livro Depois do Livro” (1999), trouxe olhares para as possibilidades de leitura, criação e navegação na internet. A liberdade de escolha e ação nesse ambiente continua a mesma?

“O Livro Depois do Livro” faz parte de uma época da internet que não existe mais. Não era melhor nem pior. Ela era apenas outra, pré-web 2.0 e anterior ao (atentado de) 11 de setembro. A internet não tinha determinados protocolos de segurança nem essa vigilância planetária atual, de modo que a questão de programas não certificados não era automaticamente entendida como conteúdos daninhos, perigosos e que podem colocar seu sistema em risco não só pelos ‘browsers’ (navegadores), mas pelos sistemas operacionais. “O Livro Depois do Livro” foi inteiro construído com esse tipo de programa. Ele agora faz parte da coleção do MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) e está sendo todo reconstruído. Não dá para falar em restaurado ou conservado. A versão que está no ar atualmente já é uma versão que refizemos. A próxima será uma atualização inteira. Nós optamos por continuar a trabalhar com códigos livres, que agora sempre serão certificados, e a versão que em breve vai entrar no ar, em 2019, quando será os 20 anos de “O Livro Depois do Livro”, será totalmente nova. Nós estamos, inclusive, programando um novo lançamento. A versão original, disponibilizada para download, não funciona mais. Nós estamos trabalhando nessa forma de preservação que é uma renovação total; um original de segunda geração.

E, hoje, quem faz uma obra na internet pode ter alguma garantia de que ela poderá ser vista no futuro?

Hoje as pessoas se preocupam cada vez mais com essa questão. Era uma ingenuidade nossa, no começo da internet, achar que o que colocávamos na internet estaria a salvo para sempre. Ninguém imaginava a internet como um ambiente finito. Hoje há uma discussão sobre preservação digital. Há pesquisas mais avançadas, trabalhando na direção de formatos de arquivamento de metadados. Então, o futuro nessa direção, pelo menos do ponto de vista técnico, é menos sombrio. O que vai faltar é espaço, porque é avassaladora a quantidade de dados que se produz.

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