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Cinema

Eis Murilo Benício, o diretor

Ator dirige seu primeiro filme, uma adaptação inusitada e interessante de 'O Beijo no Asfalto', de Nelson Rodrigues

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PUBLICADO EM 06/12/18 - 03h00


Em seu primeiro longa-metragem como diretor, Murilo Benício apresenta uma obra de Nelson Rodrigues (1912-1980) sob um ângulo inusitado, e o resultado é interessantíssimo. “O Beijo no Asfalto”, que estreia hoje, mostra a visão que o diretor tem da clássica peça e presta uma homenagem ao ofício do ator. Benício conta a história a partir dos ensaios do elenco e leituras desta obra, publicada em 1960, que continua atual em seus temas, criando certo ineditismo em torno da peça, tantas vezes encenada nos teatros e nos cinemas. “Queria fazer um filme em que eu pudesse dar um olhar muito pessoal”, diz Benício em entrevista a O TEMPO.

Em uma mesa, os atores e atrizes se reúnem para ler “O Beijo”, em meio a análises dos personagens e dos simbolismos de Rodrigues. E não é uma mesa qualquer. Benício tem um elenco forte, com Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Otávio Müller, Stênio Garcia, Augusto Madeira, Marcelo Flores e Luiza Tiso. Juntos, eles leem seus diálogos e encenam toda a peça em um palco num teatro. Há poucas cenas externas. A maior parte do filme é mostrada aos espectadores como se eles fizessem parte da equipe de produção. “Quando li ‘O Beijo’, tive a ideia toda do filme: seria um pouco de teatro; seria uma peça cinematográfica”, conta Benício que comprou os direitos da peça em 2001, mas adiou o projeto até 2015 por falta de verba para realizá-lo. 

“O Beijo” já estava tão claro na mente de Benício, que sua realização foi um processo natural. O que lhe deu mais trabalho foi editar a leitura da peça na mesa, que abre o filme. Tudo o que é dito lá é muito rico para a compreensão da obra de Rodrigues. O diretor também usa a riqueza desta mesa para trazer a peça para os dias de hoje, por meio de uma fala de Fernanda Montenegro sobre homofobia, que encerra o longa. “Toda a fala dela nos dá uma dimensão de quem é Fernanda Montenegro”, enaltece Benício. “Hoje, beijar um homem na rua é algo banal para muita gente, mas não para todos, e a fala dela traz essa questão. O Brasil ainda não progrediu nesta área”.

No filme, Arandir (Lázaro Ramos), um homem casado, vê um atropelamento, vai ao socorro do moribundo, segura a cabeça dele e lhe dá um beijo na boca. Seu sogro (Stênio Garcia) e alguns transeuntes presenciam a cena, que vira capa de jornal, cuja manchete diz: “O Beijo no Asfalto”. A reportagem é fruto de uma armação entre o delegado Cunha (Augusto Madeira) e o jornalista sensacionalista Amado Ribeiro (Otávio Müller), que começam a criar uma trama para vender jornal, sem pensar nas consequências dessa invenção nas vidas de Arandir, de sua mulher, Selminha (Débora Falabella), de sua cunhada Dália (Luiza Tiso) e de seu sogro. 

Benício optou por fazer o filme todo em preto e branco, pois esse recurso transporta o espectador naturalmente para uma época mais antiga. “Além disso, filmar em preto e branco ajudou na hora de fazer as filmagens externas”, explica o diretor. “Quando passa um carro moderno na rua, por exemplo, ele não rouba a cena descontextualizando o filme”. Para seguir a lógica do longa, mesmo as cenas feitas na rua têm enquadramentos que mostram os bastidores, as câmeras, as movimentações no set. Benício valoriza o trabalho dos atores, mostrando-os em ação em frente às câmeras ou nos ensaios. Ele traz o ator por trás de toda a glamourização da profissão.

“Esse glamour do ator é uma coisa nova, e o ofício não é”, afirma Benício. “Quis mostrar os atores estudando, pois tem gente que acha que basta pegar um texto, decorar e sair falando”. O diretor acredita que, como em qualquer área, a qualidade do profissional varia muito, e, com isso, as pessoas perdem a noção desse processo de construção de um personagem, de entendimento da obra. “É um resgate mesmo para poder mostrar esse trabalho”.

A ideia de Benício dá certo, e o filme tem um pouco de documentário. O longa já foi apresentado em alguns eventos no Brasil e exterior. “Tem sido muito legal acompanhar as exibições, porque, apesar de ser algo alternativo, um filme praticamente independente, a gente vê como ele é popular, como atinge diversas pessoas”, comenta. “Em Teresina, mostramos o filme para um público sem ligação com o mundo da arte, e as pessoas ficaram impactadas, pois não conheciam o texto de Nelson”, conta.

Benício está finalizando seu próximo longa como diretor (leia abaixo) e vai gravar a novela “Troia”, de Manuela Dias, na Globo. “Alternar projetos é bom para mim como ator, pois consigo descansar e não corro o risco de ficar repetitivo. Acho que essa é a grande cilada de qualquer carreira e, ficando um momento longe da atuação, volto mais novo”.

 

Benício finaliza “Pérola”, seu segundo filme

Lá no começo dos anos 2000, quando decidiu que iria se aventurar na direção, Murilo Benício teve a ideia de uma trilogia. “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, inicia esse ciclo em grande estilo.

Neste momento, ele está finalizando seu segundo longa, “Pérola”, adaptação da peça de Mauro Rasi.

“É coincidência ser teatro de novo”, fala Benício. “Esta é uma peça que esteve em cartaz nos anos 90 e foi um marco, principalmente no eixo Rio-São Paulo. A gente brincava que os atores mudaram de classe social por conta do sucesso da peça”, lembra. “Fui ver ‘Pérola’ e depois disse para Rasi: ‘Isso é um filme’.

E, desde então, nunca me esqueci.” Benício conta que “Pérola” é bem diferente de “O Beijo”. “É muito (Pedro) Almodóvar, bem colorido, leve e engraçado. É outra coisa”.

Pérola, a protagonista, que no teatro foi interpretada por Vera Holtz, chegará aos cinemas na pele de Drica Moraes.

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