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Estratégias para sobreviver

Artista trans paraibana é um dos nomes mais prolíficos e destacados da cena contemporânea

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Temática. Jota Mombaça lança olhar sobre violência contra minorias
PUBLICADO EM 14/09/18 - 03h50

Diante dos alarmantes números de assassinatos de jovens negros e de pessoas LGBT no Brasil, a artista paraibana trans Jota Mombaça propõe um pacto com seu trabalho “A Gente Combinamos de Não Morrer”, que faz única apresentação, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro (FIT-BH), nesta sexta (14), às 18h, no Centro Cultural da UFMG. “O título da performance expressa esse combinado fundamental que nós, negros e pessoas trans, temos que fazer. As condições sociais estabelecidas são para o genocídio da população negra, das trans, das travestis. É como se o plano do poder fosse nos matar. Em face disso, o que nos resta é fazer um combinado ao avesso, que é o de não morrer, e isso passa por se cuidar, estudar os modos como a violência se organiza e ser resiliente, sobreviver a ela”, destaca Jota.

A artista ressalta, ainda, que o público vai presenciar um ritual de elaboração das mortes, que acontecem o tempo todo ao nosso redor, mas que, ainda assim, é um ritual que fala sobre a vida. “O trabalho é sobre a morte, mas também sobre a vida, o viver em meio à morte social, à política social da morte”, garante.

O título da performance é retirado de um conto da escritora Conceição Evaristo, do livro “Olhos D’Água”. “Eu a leio como espécie de documento histórico, ainda que ficcional, que trata dos efeitos somáticos, psíquicos, emocionais, subjetivos encarnados da escravidão e da vida após a morte da escravidão. Ou seja, do que sobra depois que a escravidão é abolida no Brasil. O trabalho da Conceição é fundamental porque elabora o trauma, a ferida da escravidão. Os livros dela estão abarrotados desse processo de elaboração que é, ao mesmo tempo, sensível, poético, contundente e brutal. O espetáculo tem muito a ver com a influência dela no meu trabalho, mas também com essa articulação tão sensível do viver em corpos e contextos marcados pela necropolítica”, destaca.

A artista utiliza o termo “necropolítica” para explicitar uma ação institucionalizada que oprime e se baseia na morte de alguns estratos sociais no Brasil. “Todas essas vidas que a avalanche necropolítica leva. Todos os jovens assassinados pela polícia, travestis assassinadas por homens cis, as mulheres que são assassinadas por seus companheiros. Como podemos sobreviver a essa avalanche?”, indaga Jota.

Trajetória. Jota destaca que sua trajetória se dá na confluência de vários elementos entre o artístico e o acadêmico. “Meu trabalho perpassa a arte da performance, o campo das artes visuais, as práticas pedagógicas não hegemônicas e a escrita criativa, com elaboração teórica e formalização do conhecimento. São polos que se influenciam reciprocamente, de modo que eu opero em um continuum entre essas linhas de força”, ressalta.

“A Gente Combinamos de Não Morrer” já foi apresentado em Salvador, Copenhague e Berlim. “Meu trabalho é uma tentativa de criar ferramentas, discursos, metodologias, imagens, rituais, práticas coletivas que, de alguma maneira, vêm dessas posições e visam fortalecer nossas lutas, articular nossas questões, intensificar nossa sensibilidade. Todas essas formas do meu trabalho estão implicadas com esse compromisso com a vida negra, com a vida trans, com a vida não normativa em geral”, completa.

Além da performance, Jota e os artistas que a acompanham farão leituras ao ar livre do livro “Kindred: Laços de Sangue”, de Octavia Butler, nos dias 15, 16 e 17 de setembro. Ela também colocará em prática seu “Laboratório de Ficção Visionária”, em um encontro de um dia com os inscritos pré-selecionados pelo FIT. “É um espaço de desenvolvimento da nossa imaginação a partir da literatura fantástica e da ficção científica, a partir de uma metodologia que estou desenvolvendo, como uma ferramenta epistemológica de viagem no tempo. Espero que o público venha e se jogue, porque pouquíssimas pessoas levam a imaginação a sério”, pontua Jota.

Serviço. Apresentação de “A Gente Combinamos de Não Morrer”, de Jota Mombaça, sexta (14), às 18h, no Centro Cultural da UFMG (av. Santos Dumont, 174, centro). Entrada franca, mediante retirada de ingressos no local com uma hora de antecedência

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