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História

Na mira do soldado 'Santo'

Frederico Pernambucano de Mello revela quem matou Lampião em livro que esmiúça a trajetória do Rei do Cangaço

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Abrahão  Lampião
Livro que traz novos fatos sobre a vida e a morte de Lampião resultou de pesquisas e buscas de décadas
PUBLICADO EM 22/12/18 - 03h00

O historiador Frederico Pernambucano de Mello, reconhecido como um dos maiores especialistas no cangaço, recebeu, em 1978, uma informação que o levou a gastar décadas em uma pesquisa reveladora sobre a morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1898-1938). Por meio do coronel Audálio Tenório de Albuquerque, a partir de relato do também coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão, ele soube que, em vez do soldado Antonio Honorato da Silva, o responsável por derrubar o Rei do Cangaço teria sido um dos guarda-costas do aspirante Francisco Ferreira de Mello.

De posse dessa revelação, ele passou a correr atrás de pistas, que o conduziram ao rastro de Sebastião Vieira Sandes, o “Santo”, cujo tiro certeiro pôs fim à vida de Lampião e de uma era na história brasileira. O percurso de sua pesquisa e os detalhes das volantes que desembocaram na Grota do Angico (SE), onde o bando do perseguido cangaceiro foi surpreendido, são apresentados no livro “Apagando o Lampião: Vida e Morte do Rei do Cangaço” (Global Editora), publicado pelo autor recentemente.

Porém, antes de chegar até o nome de Sandes, Mello recorda que no início quase desistiu de sua busca, pois concebia ser aproximadamente dez o número de guarda-costas à disposição de Francisco Ferreira de Mello. “Eu pensei: vou passar o resto da vida procurando essas pessoas sem talvez encontrá-las. Mas era engano meu, o aspirante tinha apenas dois guarda-costas, um mais velho e outro mais novo. O primeiro era Antonio Honorato da Silva, o Noratinho, e o segundo, Sebastião Vieira Sandes. Então, logo comecei a tentar alguma forma de contato com ele”, diz.

Mello tomou conhecimento de que Sandes, na década de 70, morava com a família em Maceió. Entretanto, apesar dos seus esforços, nunca lograva qualquer possibilidade de encontro com ele.

“Sempre diziam que eu não conseguiria ter acesso a Sandes. Uma vez me falaram até que ele me conhecia, que não tinha nada contra mim, mas que, sendo sobrinho-neto da baronesa de Água Branca (Joanna Vieira de Sandes), ele nunca deveria ter se metido nessa questão de cangaço”, conta Mello. Apesar desses percalços, o historiador não desistiu. Anos depois, descobriu que Sandes havia se mudado para São Paulo. Novamente, Mello tentou contato com ele na capital paulista, porém sem sucesso.

Até que a última tentativa surtiu efeito. “Ele mandou dizer por uma irmã dele que estava encabulado com esse assunto e que, se algum dia viesse a falar desse episódio, iria relatar tudo a mim. Eu voltei ao Recife animado e continuei na minha busca, mas já quase sem esperança”, recorda Mello. A confiança nesse trabalho foi reativada quando recebeu uma ligação que garantiu o tête-à-tête almejado por ele.

“Eu estava no quintal de minha casa, e minha mulher me disse: ‘Frederico, tem uma pessoa de São Paulo no telefone querendo falar com você’. Eu perguntei quem era, e ela respondeu: ‘Sebastião Vieira Sandes’. Eu pensei até que fosse algum amigo meu com brincadeira. Quando peguei no telefone, ouvi uma voz bastante grave: ‘Seu Frederico, quem fala é Sebastião. Sei que o senhor há muitos anos tem esse propósito de falar comigo e ainda não tinha conseguido’”, lembra Mello.

Sandes, de acordo com o historiador, revelou que estava com o diagnóstico de um aneurisma inoperável e que estava prestes a comprar passagens para ir até Paulo Afonso (BA) e de lá para Pedra Velha, em Delmiro Gouveia, se despedir da família. “Ele me disse: ‘Se o senhor quiser conversar comigo, eu estou à disposição. Tenho determinados fatos que não gostaria de levar para o túmulo comigo’. Nessa hora, eu já estava tremendo e combinei de encontrá-lo em dezembro de 2003”, frisa Mello.

De parceiro de Virgulino a inimigo

Sebastião Vieira Sandes não só confirmou que havia atirado em Lampião, como deu detalhes da posição em que estava quando desferiu o tiro. O ângulo descrito por Sandes bateu com o resultado da perícia realizada pelo especialista da Polícia Federal Eduardo Makoto Sato, a partir de análise do punhal de Lampião, que recebeu a bala.

Mas talvez o mais impressionante dessa história seja a reviravolta que permeia a própria trajetória de Sandes. Em “Apagando o Lampião”, Mello demonstra que Sandes foi recrutado compulsoriamente após ser preso pelos militares que estavam atrás do Rei do Cangaço. Sandes tinha sido coiteiro de Lampião, como eram chamados aqueles que ajudavam os cangaceiros em fuga. Quando foi aprisionado, os oficiais viram nele alguém facilmente capaz de reconhecer Virgulino Ferreira.

Questionado se Sandes expressava remorso pelo seu passado, Mello diz que, se diretamente não revelou se sentir culpado, também não exprimiu nenhum orgulho. “Eu gravei com ele de 8 a 12 de dezembro de 2003, e Sandes morreu no dia 4 de janeiro de 2004, em São Paulo. Durante a entrevista, ele estava todo crispado, tenso, com a vista baixa o tempo todo. E um fato corrobora essa minha impressão. Ele me contou que Lampião tinha recebido uma patente de capitão e que ele nunca a desonrou. Quando Sandes atirou no cangaceiro, Lampião torceu o corpo, e a preocupação de Sandes é que o tivesse acertado pelas costas, porque fazer isso com um capitão seria uma desonra”, narra Mello.

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