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O camelô sonoro de Karol Conka

Rapper curitibana lança 'Ambulante', seu segundo disco, com dez faixas inéditas e autorais

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"O machismo está presente em todas as idades, raças e inclusive na cabeça de algumas mulheres"
PUBLICADO EM 08/11/18 - 04h00

Karol Conka chorou. Conhecida pelo sorriso franco e expressão altiva, por vezes de enfrentamento, a rapper curitibana não segurou as lágrimas ao ler as palavras de Elza Soares sobre seu novo trabalho. “Fiquei ali, parada por alguns minutos, quando o disco terminou de tocar. Original, sem cópia. Era esse o eco dentro do meu peito, na minha cabeça. Eu não escutava os sons à volta, nem mesmo minha barulhenta Copacabana, que eu via pela janela, nem o mar revolto. Essa obra é isso, cara. Está aí pronta pra servir ouvidos famintos em tempos de escassez de palavras”, escreveu a cantora octogenária. “Elza está presente na minha vida desde cedo, a minha mãe e a minha avó já a admiravam. Hoje, ter uma amizade com ela é um privilégio. Me sinto lisonjeada, abençoada pelo universo, não esperava tamanha ternura”, agradece Karol.

As duas se apresentaram juntas no Festival Samba Rap, em janeiro deste ano, no Rio, além de estrelarem o videoclipe “Escuta as Minas”, que clama pela igualdade de gênero e ainda traz a cantora Mart’nália no elenco. Quando Elza fala do “original sem cópia”, ela se refere ao emblemático refrão de “Kaça”, primeira faixa do novo CD. “Ambulante”, gravada em quatro meses na casa da curitibana, chega nesta quinta (8) às plataformas digitais e ao mercado físico, exatos cinco anos depois de “Batuk Freak”, que lançou a rapper na indústria fonográfica. “A palavra ‘ambulante’ vai além da pessoa que vende algo andando na rua, ela é quem que transita e está em todos os lugares. Me dei conta de que sou assim, inclusive musicalmente”, explica Karol.

A ideia do título veio antes das dez canções que integram o repertório. Todas são inéditas e assinadas somente pela rapper. A citação do hit “Piririm Pom Pom” na faixa “Bem Sucedida” e o flerte com o samba em “Você Falou” confirmam a abertura do leque da compositora para ritmos variados. O destaque, no entanto, fica realmente para a canção de abertura, que, não por acaso, ganhou uma versão audiovisual com forte teor de denúncia contra violências de gênero e de raça. Em “Kaça”, Karol dispara: “Quer falar de superação?/ Muito prazer, sou a própria/ Uma em um milhão/ Original sem cópia”.

“Sempre falo que o ouro das pessoas é a autenticidade. Cada um tem o seu jeitinho individual, e isso é fantástico. Sinto que atualmente é fácil se perder em conceitos distorcidos e ficar reciclando clichês. A minha intenção foi cutucar a criatividade que existe dentro das pessoas, inclusive de mim mesma”, destaca a intérprete de 31 anos, que, aliás, sabe a alcunha que melhor lhe cabe. “Gosto de me nomear artista e isso tem um amplo significado, que envolve a participação na estética de tudo o que proponho”, diz. Nessa direção, cruzar os caminhos com a drag queer e artista plástica Alma Negrot foi decisivo para a identidade visual do álbum. Na capa, Karol aparece envolvida em fitas coloridas do Senhor do Bonfim.

“Alma Negrot é uma artista brilhante que transforma sucata em arte. Quando eu vi o trabalho dela, achei que tinha tudo a ver com a minha nova era. E ela teve essa ideia maravilhosa de criar o vestido com fitinhas do Bonfim, o que remete à minha avó baiana e retoma a travessia do ambulante”, considera a entrevistada, que, ao fazer um balanço de seus dois discos lançados, aponta o vigor do que permanece. “Estou cada vez mais solta, segura e confiante para cantar a diferença, com letras consistentes. Consegui chegar a um discurso forte, potente e ácido, que provoca e informa ao mesmo tempo. Isso é mais do que necessário agora”.

 

Cantora lamenta onda reacionária

Karol Conka não é de titubear na hora de defender suas posições, ainda que elas causem polêmica. Ela já se declarou bissexual e admite fumar maconha. Numa de suas canções mais conhecidas, “Lalá”, a rapper dá literalmente uma aula de como deve ser feito o sexo oral nas mulheres. Com uma personalidade libertária, ela não deixa de estar preocupada diante da onda conservadora que tem tomado conta do país, representada pelo resultado das eleições de outubro. “Me senti angustiada; com as notícias que a gente recebe pela internet, a cabeça fica maluquinha, dá uma vontade de salvar o mundo, mas não podemos tanto”, lamenta.

Porém, ela não enverga quando confrontada com adversidades, algo que, aliás, marca toda a sua obra musical. Não é à toa que a inspiração de Karol parece nascer da luta contra as repressões diárias. “A palavra do momento é ‘resistência’, que já está virando um símbolo da nossa força. É importante lembrar (Nelson) Mandela, ficar tacando pedra não vai resolver nada, agora é hora de se unir com as boas cabeças e centrar nossas energias”, sustenta. Para renovar as esperanças, além do líder sul-africano, a artista se espelha em mulheres que idolatra. “Lauryn Hill, Oprah Winfrey, Dercy Gonçalves, minha mãe e minha avó”, enumera.

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